Estudo mostra eficácia do Tratamento Restaurador Atraumático (ART) em populações desfavorecidas
Publicado em: 29/01/2012 - 13:00 | Atualizado em: 16/05/2012 - 14:58
Apesar da redução da prevalência e severidade da cárie ser progressiva e significativa, sua maior ocorrência se manifesta ainda em camadas sociais e regiões menos favorecidas economicamente. Para reduzir determinados problemas dentários desse público que dificilmente teria acesso ao tratamento dentário convencional, tem sido empregado em algumas lesões da cárie o ART (Tratamento Restaurador Atraumático) – Atraumatic Restorative Treatment, em inglês.
O ART, de execução rápida e de baixo custo, consiste basicamente na remoção do tecido cariado amolecido, depositário de grande número de bactérias, com instrumentos manuais (curetas). As camadas mais profundas do tecido dentário, que se situam abaixo da parte amolecida – que seriam removidas na forma de raspas no tratamento convencional – são mantidas e cobertas com o material restaurador, o cimento de ionômero de vidro.
Estudos consagrados mostram que essa porção do dente, que daria origem às raspas, tem capacidade de remineralização quando coberta com materiais e manutenção adequados. Além de mínima intervenção operatória, o processo preserva a estrutura dentária sadia, reduzindo a probabilidade da necessidade de tratamento endodôntico (canais) e de futuras exodontias (extrações), além de não exigir emprego de anestesia local devido à ausência de sintomatologia dolorosa.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o ART para situações em que a ausência de consultórios odontológicos impede a utilização dos meios tradicionais. A técnica pode ser indicada para habitantes de áreas rurais ou suburbanas, grupos minoritários e comunidades carentes, além de pacientes em asilos, creches e orfanatos. Em suma, para pessoas que não possuem serviços básicos de atenção dentária e que não tenham acesso ao tratamento convencional.
Em pesquisa desenvolvida na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), Unicamp, orientada pela professora Maria da Luz Rosario de Sousa, a Cirurgiã-Dentista Cristina Gibilini avaliou o potencial desse tratamento com vistas à sua ampliação no atendimento à população infantil de escolas públicas. Os resultados do estudo mostram que o ART melhora a condição oral e atenua o risco de cárie dessas populações.
Em relação ao emprego do ART, constituíram objetivos principais da pesquisa avaliar a proporção de lesões de cáries passíveis a este tipo de tratamento, em escolares de 5 a 10 anos de idade; sua efetividade como medida de controle da cárie e sua importância na promoção de saúde pública, bem como a influência de variáveis clínicas independentes e de aspectos sócio-demográficos na longevidade das restaurações.
A avaliação prévia a que foram submetidas crianças com idades entre 5 a 10 anos, provenientes de 10 escolas públicas do município de Piracicaba (SP), mostrou que cerca de 37% delas apresentavam lesões de cárie não tratadas e que, aproximadamente, 40% destas crianças possuíam pelo menos um dente com indicação para o ART. Compuseram a amostra 173 escolares de ambos o sexos. As restaurações executadas foram avaliadas após 6, 12 e 18 meses, segundo protocolos da literatura. Em relação à possibilidade de incidência de cáries, aproximadamente 50% dos escolares tratados passaram da classificação de alto risco para risco moderado, em decorrência apenas da utilização da técnica. Na avaliação realizada após seis meses da restauração, a pesquisadora constatou sucesso em 82% dos procedimentos, assim consideradas as restaurações que se mantiveram e não apresentaram problemas.
O ART alcança resultados mais promissores quando associado a trabalhos educativos e preventivos, pois é necessário que existam programas de educação em saúde para que as crianças tenham acesso à informação, e até mesmo à escova e à pasta dental, para que possam melhorar a higienização. O ART constitui um importante suporte no controle da cárie. O acompanhamento deve ser permanente, a exemplo de qualquer pessoa que se submete aos tratamentos convencionais.
Fonte: Jornal da Unicamp







