Artigos
Os ODS e os novos modelos de desenvolvimento

O mundo dos negócios nunca foi tão inovador como atualmente. Vivenciamos modificações profundas sobre as formas de se locomover, de trabalhar, de gerar renda, de se comunicar e de interagir, vivendo o movimento de “uberização” nas empresas. Estamos no olho do furacão de tantas transformações importantes e significativas que os avanços na inovação e na tecnologia nos proporcionam cada vez mais. Mas não é só isso que está nos impulsionando adiante. Existem muito mais coisas que nos levam a estas transformações.

Uma delas é o fato de que cada vez mais as novas gerações têm se preocupado com o seu papel no mundo, buscando identificar qual é a sua contribuição para tornar o lugar que vivemos em um mundo melhor. Atualmente, os consumidores analisam os valores das empresas e marcas que consomem. Pesquisa recentes mostram que 87% dos consumidores realizam suas compras baseadas no propósito socioambiental da marca/empresa. E ainda, mais de três quartos dos consumidores entrevistados (76%) deixariam de comprar de uma marca/empresa com valores contrários aos seus. Ou seja, as pessoas não mais querem apoiar algo que não acreditam ou com a qual não se identificam. Isto significa que hoje somos motivados por coisas maiores, não apenas o que antes era considerado suficiente. É inspirador.

Outro – importantíssimo – fator foi o lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em 2015, propostos pela Organização das Nações Unidas (ONU), que nos apresentou inúmeras novas possibilidades de buscar um mundo melhor, com a proposta de “não deixar ninguém para trás” (como seu slogan define). Foram definidos 17 Objetivos e 169 metas para atingir o desenvolvimento sustentável em todo o mundo até 2030. Por isso, a chamada Agenda 2030, ou Agenda Global, é para todos os governos, organizações de todos os setores e sociedade civil. Desde a tentativa de acabar com a miséria (ODS 1) até a de buscar o consumo consciente (ODS 8), por exemplo, surgem uma ampla variedade de opções de novos modelos de negócios.

Como?

Repare bem nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e perceba que foi definido também a principal “fórmula” para se implementar os ODS e atingir as metas até 2030: o ODS 17, que preconiza as parcerias para a implementação dos ODS.

No mundo inteiro estão sendo desenvolvidos negócios em parceria: organizações públicas e privadas estão trabalhando juntas em prol das metas; organizações diversas do terceiro setor estão engajadas no atingimento das metas; e diversos outros modelos e combinações destas parcerias. São diversos cases de sucesso de implementação dos ODS, que estão fomentando a geração de emprego e renda, o desenvolvimento aliado ao crescimento, a igualdade, o respeito e a justiça em todo o mundo.

Esta agenda só será alcançada se contar com o envolvimento e o comprometimento verdadeiro de todos nós, em todas as nações, cada um fazendo a sua parte e todos fazendo um pouco juntos, em parceria por um mundo melhor. Vamos juntos?

*Mariana Schuchovski é Doutora em Engenharia Florestal, Professora de Sustentabilidade no ISAE Escola de Negócios e fundadora da Verde Floresta | Sustentabilidade, Meio Ambiente e Florestas
Limites e atuações nas relações diplomáticas entre estados

No mês de março deste ano, um brasileiro, ao desembarcar em território russo, foi surpreendido ao ser abordado pelas autoridades de migração sob a alegação de tráfico de entorpecentes. Para a sua surpresa, os medicamentos foram adquiridos regularmente no Brasil e com a devida receita médica. Muito embora tenha prestado todas as informações, a acusação persistiu e a justificativa é a de que as referidas substâncias são consideradas ilícitas naquele país.

Tais fatos nos remetem a outros casos: como a de brasileiros que foram presos na Indonésia e acusados de tráfico de drogas e condenados à pena de morte. De fato, em um mundo globalizado, há que se ter em mente como os Estados e as autoridades diplomáticas podem atuar com o objetivo de defender os seus nacionais?

No caso do brasileiro detido na Rússia, acusado de tráfico de entorpecentes (não obstante tenha aduzido e comprovado, através de receitas médicas que o transporte ocorreu para tratamento de saúde), a grande questão é a de que ao adentrar em território russo, o brasileiro cometeu um delito penal, sujeito às sanções das leis russas. Da mesma forma, os brasileiros detidos na Indonésia e julgados por tráfico de drogas sujeitaram-se às sanções legais da Indonésia, tendo sido condenados à pena de morte.

De acordo com o direito penal, aplica-se o princípio da territorialidade da lei penal em que o indivíduo, independentemente de sua nacionalidade, responde pelos seus atos de acordo com as leis do local em que o fato ocorreu.

Há que se indagar, todavia, no caso do brasileiro preso na Rússia, quais os limites de atuação da diplomacia brasileira para promover a defesa dos interesses de seu nacional? Em termos objetivos e concretos, há que se destacar que se trata de uma questão interna e, portanto, inerente à soberania russa. Sendo assim, a diplomacia brasileira não pode intervir diretamente.

Por outro lado, normalmente, as embaixadas e consulados possuem o dever de conceder toda a assistência aos seus nacionais (dentro dos limites legais permitidos e sem violar a soberania russa). Concretamente, na referida hipótese, a assistência consular brasileira é uma medida mais do que normal.

Conforme verifica-se, portanto, dentro do direito diplomático, existem limites de atuação por parte dos Estados e, não obstante os brasileiros que se encontrem em território estrangeiro tenham o direito de buscar a assistência consular, as representações diplomáticas e consulares brasileiras nunca poderão extrapolar os limites legais do direito internacional expostos na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961 e na Convenção de Viena sobre Relações Consulares de 1963.

Autor: Eduardo Biacchi Gomes, Doutor em Direito e Professor de Direito Internacional do Centro Universitário Internacional Uninter.
Excludentes de ilicitude e a atividade policial

Nos últimos meses uma importante discussão movimentou o cenário político, o chamado excludente de ilicitude. Mas o que é isso? Suponhamos que em uma ação policial o bandido confronte o profissional da lei com tiros e ao se defender, no chamado “estrito cumprimento do dever legal” o profissional atinja o meliante levando-o a óbito. Assassinar alguém é um crime, no entanto, em legítima defesa não, fazendo parte assim do chamado excludente de ilicitude.

O que está em pauta no momento é ampliação das excludentes de ilicitude que hoje correspondem as ações que sejam praticadas em estado de necessidade, legítima defesa, em estrito cumprimento do dever legal, ou no exercício regular de direito.  Essas premissas compõem uma temática já conhecida pela polícia brasileira de uma forma geral, pois está assentada em todo o processo de formação policial. Assim, as excludentes de ilicitude são amplamente debatidas e fazem parte da atuação cotidiana do policial no Brasil.

Dessa forma, para um policial brasileiro, falar em legítima defesa de si ou de outrem é reforçar algo que faz parte de sua atuação, principalmente quando do conflito armado. E, com base em sua formação, treinamento constante e preparo diário, não há que se falar em “medo”, “surpresa ou violenta emoção” que são as ampliações propostas pelo Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, pois se tem consumado, em nossa cultura, que o policial está devidamente preparado para atuar em defesa da sociedade.

Se isso não acontecer, como confiar na atuação policial? Não pode ser imaginável que um policial possa disparar sua arma de fogo por “medo” durante uma ocorrência policial. Se assim for, temos que repensar toda a formação policial no Brasil - o que creio que seja desnecessário, em função do conhecimento do trabalho realizado nas Academias Militares e nos Centros de Formação Policial espalhados no Brasil que prezam pela excelência na formação desses profissionais.

Há que se acreditar na Polícia e em sua competência profissional para a resolução de crimes, que atuando dentro da legalidade e competência, possam investigar, periciar e levar o que for necessário às instâncias do Ministério Público e Poder Judiciário primando pelo cumprimento da lei, pois em nosso regimento maior está assentado que “todos são iguais perante a lei”.

Assim, ao policial e à autoridade policial não é dada a possibilidade de erro, do medo, ou da violenta emoção, e sim da ação correta, profissional, planejada e finalizada com a competência legal que lhe cabe, dentro de sua esfera de atribuição.

Gerson Luiz Buczenko - Doutor em Educação, docente no Ensino Superior e coordenador do Curso Superior de Tecnologia em Segurança Pública – Centro Universitário Internacional Uninter.
Peru: extirpando o câncer da corrupção

A recente crise política no Peru, provocada pela dissolução do congresso, decidida legalmente pelo presidente Martin Viscarra, obedece a diversos fatores políticos e não políticos. Na área política, a decisão presidencial obedeceu a que o congresso aprovou um membro do Tribunal constitucional que estava seriamente questionado pelo governo, pelo fato de ser primo do presidente do Congresso, Pedro Olaechea, além de não ser transparente esta eleição, pois não permitiria avaliar pessoalmente o candidato, além de ter antecedentes controvertidos. O governo queria que se aprovasse um voto de confiança para desenvolver um processo de seleção mais transparente dos membros do tribunal constitucional.

No entanto, outros fatores não políticos foram decisórios para desencadear a crise. A empresa brasileira Odebrech desenvolveu um processo amplo de corrupção política no Peru, gerando a prisão de três ex-presidentes e o suicídio do quarto. Isso foi causado pela instalação da Lava jato peruana, realizada por procuradores de justiça, que provocou a prisão dos ex-presidentes e de outros políticos. A Odebrech usava o mesmo sistema imposto no Brasil, descoberto pela Lava Jato, usando codinomes para esconder os políticos que recebiam caixa 2.

A história promete ganhar novos capítulos nos próximos dias. O diretor da Odebrech no Peru, Sergio Barata, está depondo na Justiça Federal, em Curitiba (PR), e prometeu abrir os nomes dos codinomes utilizados pela empresa no Peru. Esse seria um dos fatos que o Congresso peruano queria esconder com a eleição dos membros do tribunal pelo sistema tradicional, ao qual o governo de Viscarra se opôs e gerou a dissolução.

É impressionante observar como o sistema de corrupção realizado pela Odebrech teve uma ação continental. São 11 países, onde a empresa atuava, realizando suas próprias operações contra corrupção, que estão levando dezenas de figuras públicas para a cadeia. Uma demonstração de que a corrupção realizada era um ‘’processo sistemático’’, que alcançava todos poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) na América Latina. Agora, “Lava Jatos” replicadas pelo continente buscam “extirpar esse câncer”.

Como sempre, o povo é o principal afetado pelos esquemas. A população que luta para viver se é afetada, principalmente, pela falta de emprego, pois uma crise política como no Peru gera um ambiente de volatibilidade econômica, impactando diretamente nas oportunidades de investimentos no país e, consequentemente, na geração de empregos.

*Rene Berardi é doutor em sociologia e atua como professor do ISAE Escola de Negócios (www.isaebrasil.com.br)
Professor, mestre a serviço da sociedade

Quantos de nós têm um professor para se espelhar? Aquela pessoa que, diariamente, validava o seu papel após levantar todas as manhãs, a fim de fazer a diferença na aprendizagem de alguém que, não raro, era um completo estranho.

Ao ler isso, você deve ter trazido à mente pelo menos um docente da sua formação, ou ao menos alguém que tenha lhe causado uma impressão positiva na sua trajetória. Para essa pessoa, em alguns países, é conferida uma alcunha digna da responsabilidade: mestre.

Hoje, podemos afirmar categoricamente que o professor adicionou ao símbolo de transmissor de conhecimento algo mais amplo: o papel de orientador. Isso tem um porquê que, paradoxalmente, não condiz com o tratamento que lhe é dado no Brasil, atualmente. Cada vez mais pais ou responsáveis atribuem ao educador o dever de ensinar não apenas matemática, português ou geografia, mas, também, noções de ética, cidadania e caráter. É muito para dar conta.

Mais ainda num contexto em que servidores – sejam eles públicos ou privados – lidam com uma escassez de recursos; contingenciamentos de verbas; desrespeito em sala de aula; ou salários que não fazem jus ao que é exigido, entre outras situações que colocam à prova a chamada “vocação”.

É seguro dizer que dar aula no Brasil é um desafio em escala mundial: segundo a pesquisa Global Teacher Status Index 2018 – realizada pela ONG Varkey Foundation em 35 países – o nosso país é o que menos valoriza o status dos professores na sociedade, atrás de nações como Gana, Indonésia e Argentina. No levantamento, foi constatado ainda que menos de 10% das pessoas acreditavam que os alunos respeitavam seus professores.

No Dia do Professor, comemorado em 15 de outubro, faz-se necessária a seguinte reflexão: qual a estrutura que, como sociedade, provemos aos detentores do conhecimento? Será que damos o mesmo valor a alguém assim que damos, por exemplo, a estrelas globais ou jogadores de futebol?

Quanto ao cenário atual em sala de aula, uma provocação: hoje é impossível ser professor sem querer aprender, também. Poucas vezes na história da humanidade se viu uma revolução no ensino como a que temos observado nas últimas décadas. Se bem analisadas, para melhor: avanços tecnológicos que potencializam a aquisição de conteúdo por parte dos alunos, diversificam a metodologia, mídias e formas de aprendizado para – ao mesmo tempo – colocar na mão do docente o gerenciamento desse processo, quase como uma espécie de “curador” do que é vital em determinado assunto.

Esther Cristina Pereira é presidente do Sinepe/PR
A alternativa da geração de energia elétrica pelas marés

A geração de energia elétrica limpa e renovável, especialmente no Brasil, vai muito além de alternativas conhecidas, como a eólica e a solar, além da hidrelétrica.   

Trata-se da possibilidade de utilização da força das marés, ainda mais em país que tem mais de nove mil quilômetros de litoral e suas principais cidades ou centros consumidores, estão em regiões próximas à costa marítima.

A tecnologia, sem dúvida alguma, usa fonte bastante diferente das alternativas conhecidas, mas em países como Inglaterra e Canadá, o método do aproveitamento da força do “vai e vem” das ondas do mar para a movimentação de turbinas e a geração de energia elétrica, já é antigo e comprovadamente viável.

Trata-se de processo semelhante ao dos parques eólicos, com a vantagem da força das marés ser mais intensa, pois a água do mar tem maior potência para movimentar as turbinas, produzindo mais energia.

A possibilidade de gerar energia renovável no oceano, aproveitando o movimento das ondas, do vento, variação de temperatura e também da salinidade do mar, na verdade, foi descoberta pelos primeiros navegadores, que utilizavam embarcações movidas por velas, para atravessar oceanos e visitar outros continentes.

Para avançar na proposta, grupo de cerca de 40 especialistas do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), estuda o tema desde 2013 com objetivo de elaborar projeto sobre o assunto, a partir do mapeamento da costa brasileira para identificar os melhores locais para a instalação das primeiras unidades geradoras de energia.

Conforme os pesquisadores, a definição dos melhores pontos para a instalação de turbinas é um dos principais desafios do estudo, considerando que a costa tem 9,2 mil quilômetros de extensão, levando em conta as saliências e reentrâncias do litoral.

O objetivo é identificar locais onde haja maior variação das ondas, como na costa Norte do País, onde vai de cinco a oito metros de altura entre a maré baixa e alta.

A elaboração do levantamento conta com o apoio de mapas de instituições como a Marinha do Brasil e Capitania dos Portos, embora suas informações muitas vezes necessitem de ajustes, já que o objetivo do estudo é levantar o potencial energético da costa e não determinar rotas de navegação.

Após a definição dos melhores locais serão avaliados outros fatores, como sedimentos na água, que tendem a diminuir a durabilidade dos equipamentos, elevando os custos de sua operação e manutenção. Há ainda a questão ambiental, pois as turbinas em movimento podem causar alterações no leito submarino e prejudicar a reprodução de peixes.

O mapeamento deverá ser iniciado na segunda metade do próximo ano e estar concluído no prazo máximo de cinco anos. Depois disso, segundo os pesquisadores, virão novas tarefas, pois a construção e instalação de grupos de turbinas dependerão de legislação específica e demanda de energia da região, mesmo considerando que não se trata de nenhuma nova tecnologia nova.

As turbinas existem há muito tempo em diversos países e o Brasil domina a tecnologia de instalações oceânicas, como demonstram as plataformas de extração de petróleo e gás, que são referências mundiais nessa área.

Restará saber se a modalidade é viável do posto de vista econômico, pois turbinas de energias renováveis normalmente tem custo inicial bastante superior em relação às usinas tradicionais.

*O autor é ex-deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado
E-mail: [email protected]
A política binária nas redes

A implantação do sistema binário foi sem dúvida um marco na evolução tecnológica mundial. Possibilitou uma verdadeira revolução da informática e colocou o mundo na palma de nossa mão. Os códigos binários que transitam hoje por nossos smartphones são a base de um canal de comunicação de poder imensurável. No entanto, seu uso é capaz, ao mesmo tempo, de promover enormes avanços, mas também retrocessos.

Na política essa evolução tem reflexos preocupantes, principalmente nas discussões travadas pelas redes sociais. Em muitas ocasiões, temos a impressão de que o sistema binário se incrustou no pensamento dos usuários dessa tecnologia. Em grande parte, seja qual for o tema, o resultado é 0 ou 1, certo ou errado, contra ou a favor, herói ou vilão.

O debate está sendo deixado de lado. Ódio e intolerância se alastram. E as diferenças, tão fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e saudável, se tornaram motivos para um confronto direto, desrespeitoso, e que vai além de qualquer parâmetro mínimo de civilidade. A política se tornou batalha campal nas redes, onde vale desde a desqualificação do adversário até a propagação de mentiras e promoção de campanhas de destruição de reputações. A meta é a desconstrução.

E a política é a arte de se construir consensos. É assim desde o início da história da humanidade. Pouco se aprende com os iguais. As diferenças, o que o outro sabe e eu não sei, o pensamento divergente são fundamentais para a evolução humana.

Como se tornou uma ferramenta poderosa, o comportamento das redes por vezes se transfere para as casas legislativas e para as discussões em diversos poderes. Quem xinga mais e acua o adversário parece obter uma vitória. Pura ilusão. Trate-se de uma postura que dificulta cada vez mais a solução de problemas e afasta campos políticos que poderiam interagir, amigos que não mais se abraçam e famílias que se distanciam.

O pensamento binário não é bom conselheiro. Existem outras inúmeras fórmulas de relacionamento mais eficazes para a evolução não apenas da política, mas de toda a relação humana.

A tecnologia é bem-vinda, mas ainda precisamos pensar.

*É deputado federal pelo Cidadania do Paraná
Rock in Rio: o efeito camaleão das redes e a experiência do público em megaeventos

Qualquer pessoa que tenha vivido antes dos anos 2000 vai lembrar que, naquela época, não tínhamos muitos shows internacionais por aqui. As performances eram de artistas brasileiros e a televisão não tinha a facilidade de transmitir estrangeiros frequentemente. É muito animador perceber que essa é uma realidade que vem mudando rapidamente. O Brasil está ganhando cada vez mais popularidade como palco de famosos eventos e festivais globais.

Somente neste ano, já recebemos o Lollapalooza e Game XP – isso só para mencionar dois grandes nomes. O Rock in Rio, nascido no Brasil, alçou fama para além das nossas fronteiras e ganhou sua cadeira cativa entre os festivais de música mais relevantes do mundo. Aqui no Brasil, a edição 2019 está batendo na porta com a projeção de ser a maior de todas já realizadas: 700 mil ingressos foram vendidos em apenas duas semanas.

Junto ao volume dos shows, a forma de viver esses festivais também acompanhou a mudança e sofreu grande impacto da famosa internet móvel. Grandes eventos não são mais apenas sobre viver o momento, mas também sobre como as pessoas podem se conectar e compartilhar suas experiências com amigos e famílias. E, para quem não consegue estar lá, dispositivos móveis também possibilitaram assistir aos artistas em tempo real pela televisão ou computador no sofá de casa, a partir do streaming.

É aí que entram as redes de telecomunicações: esses grandes eventos, como o Rock in Rio, são “ladrões” de tráfego de dados. Streaming e o grande volume de pessoas enviando mensagens ou postando vídeos e fotos nas redes sociais são responsáveis por uma incrível pressão na rede de telecomunicações. Com uma rede estática, essa avalanche de informações derrubaria a conexão e, nesse novo mundo hiperconectado, falhar não é uma opção: além de provocar uma chuva de reclamações, a falta da internet afetaria diretamente o sentimento do público em relação ao festival e sua organização, com potencial de esvaziamento de público nas edições seguintes.

Na última edição brasileira do Rock in Rio, em 2017, a operadora de rede responsável pelo tráfego de dados na Cidade do Rock declarou o recorde de 5.5 Terabytes de dados trafegados durante os dois finais de semana de evento, volume três vezes maior do que a edição anterior em 2015. Simultaneamente, a organização conectou cerca de 418 mil pessoal no espaço de Wi-Fi e disponibilizou links de 5Gbps na Cidade do Rock, incluindo small cells para conexão aberta e pública dentro e fora das arenas de shows.

Além de lidar com o aumento de pressão durante todos os dias do evento, os operadores também devem dimensionar suas redes para atender aos picos específicos de transporte de dados. Não por coincidência, o maior pico de dados no Wi-Fi da Cidade do Rock em 2017 foi durante os shows dos headliners – The Who e Guns N’ Roses –, com 384GB consumidos.

Esse tipo de demanda requer uma longa preparação. Além da experiência de uma conexão de confiança dos participantes do festival, ainda é necessário manter o restante da cidade com sua conexão ininterrupta, especialmente os serviços essenciais como polícia, corpo de bombeiros e hospitais. Para vencer o desafio, existem três elementos fundamentais de infraestrutura que os operadores devem integrar às redes: escalabilidade, para que possa ter gerenciamento ágil; programabilidade, para lidar com os picos inesperados; e inteligência, permitindo que esse operador preveja e evite falhas de conexão.

Provavelmente, muitas pessoas imaginam que é mais simples construir uma infraestrutura especial para esses eventos. Porém, do ponto de vista de negócios, construir uma infraestrutura enorme e permanente de rede para atender aos grandes eventos que só acontecem de tempos em tempos é caro demais. As redes atuais devem ser adaptáveis para lidar facilmente com os picos de tráfegos de dados vez ou outra, acabando com a necessidade de investimentos estratosféricos em infraestrutura para usos pontuais.

O futuro é adaptável e o novo perfil de tráfego já está desenhado. Uma infraestrutura programável, combinada com automação e análise de dados, são pilares chaves para a próxima geração de redes, prontas para atender a uma demanda em constante crescimento de uma sociedade sempre super conectada. O sucesso das redes, seja no Rock in Rio ou na implementação de novas tecnologias, está diretamente relacionado à combinação desses três elementos. Adaptar suas funcionalidades e os caminhos dos dados proativamente em tempo real para antecipar e endereçar potenciais falhas, ao mesmo tempo em que se tem o foco de fornecer a melhor experiência para o usuário final, são pontos fundamentais e que têm sido traduzidos cada vez mais em sucesso do negócio dos operadores de rede.

Atletismo nosso de cada dia

Amanheceu. Despertador tocou e lá se vão as pessoas para mais um dia repleto de suas atividades. Vó Clara vai para a academia fazendo sua caminhada matinal. Heitor, que não curte exercício físico, teve que dar uma corridinha para não perder seu ônibus, pois saiu atrasado de casa. Renata faz aula de jump e no final ainda corre na esteira, pois quer emagrecer. Luís é maratonista e pratica a atividade frequentemente, respeitando seu programa de treino. No caminho da escola, Valentina salta alguns buracos da calçada e desafia-se para dar um salto maior para alcançar o meio-fio — coisas que as crianças gostam de fazer. Tânia lembra que é seu dia de voluntariado e que o grupo vai fazer a triagem dos alimentos que foram arrecadados. Em uma grande fila, o grupo lança os alimentos um para o outro para encherem a picape que levará as doações para o asilo. Carla e Adriana brincam de amarelinha. Patrick e seus amigos da escola jogam handebol.

Com muita frequência ouvimos falar da prática do atletismo como uma atividade corporal importante na formação de crianças e jovens e que também serve de base para outras modalidades esportivas. Na maior parte das vezes percebemos o atletismo sendo trabalhado em ambiente escolar ou treinamento, pois o “esporte-base”, como é conhecido, é uma importante ferramenta para o desenvolvimento das habilidades naturais do ser humano: andar, correr, saltar, lançar e arremessar.

Porém, se tomarmos como base o relato das práticas das atividades realizadas pelo grupo de pessoas de todas as idades, mencionado anteriormente, pode-se afirmar que nos dias de hoje traz-se tais movimentos para o cotidiano, sem ter, porém, consciência de sua real importância e de sua origem. Assim, percebemos que é fundamental o domínio das potencialidades desenvolvidas durante a prática dessas atividades (programadas ou não), que vai além da prática motora, pois contribui para a formação do cidadão. Percebe-se também que a aprendizagem do atletismo de forma efetiva pode auxiliar o ser humano em seus afazeres diários.

Para concluir, o que gostaríamos de destacar nesse texto é que corridas, saltos, arremessos e lançamentos estão mais presentes no cotidiano das pessoas do que se dá conta e que cada um de nós possui uma rotina, seja ela de características ativas ou sedentárias e, em ambas, o que não podemos negar é a presença desses fundamentos do atletismo.

Autora: Ana Lucia Zattar Coelho é professora especialista nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Educação Física do Centro Universitário Internacional Uninter.
A podernite

Os governantes, regra geral, padecem de grave doença: a podernite. Que afeta, sobretudo, membros do Poder Executivo, a partir do presidente da República, governadores e prefeitos, podendo, ainda, pegar protagonistas de outros Poderes e os corpos da burocracia.

Como todas as ites, trata-se de uma inflamação, que, ao invés de atacar o corpo, invade a alma. Podemos designá-la como a “doença do poder’”. Se alguém quiser associá-la ao egotismo, a importância que uma pessoa atribui a si mesmo, está correto, pois os conceitos são próximos.

O presidente Bolsonaro, vez ou outra, avisa que o poder é dele. Inclusive, o poder da caneta BIC, substituída pela caneta Compactor, quando tomou conhecimento que a primeira é de origem francesa. (Bolsonaro, lembremos, azucrinou o presidente Emmanuel Macron por conta da questão amazônica). O STF, nos últimos tempos, tem pontuado: em última instância, o poder é nosso. A decisão de conceder aos delatados a condição de serem os últimos a falar nas investigações da Lava Jato é um exemplo do poder da última palavra.

O Legislativo, assustado com a invasão de suas competências e queixoso da debilidade do governo na frente da articulação política, assume papel de protagonista principal em matéria de reformas. Nesse ciclo de grandes interrogações, cada qual quer ter mais poder. Até porque no vácuo, um poder toma o lugar de outro.

O poder traz fruição, deleite, sentimento de onipotência. Governantes e até burocratas se acham donos do pedaço, tocados pela ideia de que são eles que conferem alegrias e tristezas, fecham e abrem horizontes, fazem justiça.

A podernite tem graus variados de metástase. Nos homens públicos qualificados, talhados pela razão, os tumores são de pequena monta. Nos Estados mais desenvolvidos, com culturas políticas mais evoluídas, a doença não se espalha muito porque as críticas da mídia e de grupos formadores de opinião funcionam como antivírus. Nos Estados menos aculturados, dominados por estruturas paternalistas e sistemas feudais, a doença geralmente chega a graus avançados.

O primeiro sintoma da doença é a insensibilidade.  Só ouve o que quer ouvir. O grito rouco das ruas é para eles uma sinfonia distante. Da insensibilidade, deriva a arrogância. Governantes transformam-se em soberanos, querendo que cidadãos vistam o manto de súditos e achando que os programas governamentais constituem um favor e não um dever. Nessa esteira, desenvolve-se o assistencialismo, com pequenos sacos de migalhas distribuídas a esmo.

A construção da identidade de um Governo transforma-se, assim, em culto à personalidade, sob os aplausos da plêiade de amigos e oportunistas. Alguns governantes descobriram as vantagens das redes sociais e capricham no envio de mensagens, vídeos e fotos sobre sua performance, desprezando a sábia lição de nossos avós: “elogio em boca própria é vitupério”.

O obreirismo inconsequente também passa ser eixo das administrações, no fito de fixar marcas. E é porque faltam recursos. Vivemos momentos de quebradeira geral. Mas o “balonismo pessoal” (fenômeno de enchimento do balão do ego) é impulsionado por levas de áulicos. Ocorre que o Produto Nacional Bruto da Felicidade – o PNBF – não sobe. Os bolsos continuam secando. E a indignação social se expande.

Por isso, as pessoas se afastam dos governantes. Só mesmo grandes sustos - como queda de popularidade - trazem-nos à realidade. Nesse momento, percebem que o poder é uma quimera. Volta-se contra eles mesmos.

Senhores, esta é a dura realidade: a glória mítica de palanques, os palácios, os ministérios e as instâncias da Justiça são coisas passageiras. Mudam como as nuvens. (A propósito, as caravanas que pediam Lula Livre hoje se mobilizam para pedir o Lula Preso. Porquê da sede da PF em Curitiba onde está, ele consegue fazer mais barulho do que em seu apartamento de São Bernardo do Campo). Eita, Brasil mutante, ou se quiserem, Brasil do chiste.

Só faltava essa: O procurador de Justiça de Minas Gerais, Leonardo Azeredo dos Santos, ganha R$ 24 mil mensais e garante que esta quantia é um “miserê”. O que dirão os milhões de brasileiros desempregados ou aqueles que põem no bolso o mísero salário mínimo?

Os pacientes de podernite agem como Vespasiano, o Imperador, que, na beira da morte, ficava gracejando numa cadeira: Ut Puto Deus Fio (Parece que Me Transformo num Deus).

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação [email protected]