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O Pai Nosso de Bolsonaro

Chove pressão sobre o Palácio do Planalto. Por essa razão, Jair Bolsonaro pede licença aos pastores evangélicos, corre à catedral de Brasília e apela aos céus com uma prece inspirada no Pai Nosso: “Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome”.

Proteja-me, meu Pai, por ver meu nome descendo do altar da santificação só seis meses depois de eleito. Confesso, Senhor, que continuo a animar os que me escolheram, uso frases e imagens que me enquadram na extrema direita, conservador nos costumes, liberal na economia. Sim, estou ansioso para ver aprovada a reforma da Previdência, portão das outras reformas.

Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no céu. Venham a mim, meu Pai, políticos de todos os partidos, principalmente do centrão, sob a esfera do Rodrigo Maia, pessoa que gosto de fustigar na esteira com “uma no cravo, outra na ferradura”. Confesso que não confio nesses deputados do PSL, meu partido, turma sem experiência e jogo de cintura. Afaste de mim petistas e psolistas, alvo dos meus tiros de capitão de artilharia.

Senhor, sou um militar sem muito apetite para as demandas da política, apesar dos meus quase 28 anos no Parlamento.

Convoquei um grupo de amigos militares para me ajudar nas borrascas, mas não temo desagradar a quem não faz a lição de casa. O general Santos Cruz saiu chateado, mas em seu lugar coloquei um general mais estrelado. Mais amigo.

Agrada-me o poder, ser o centro do debate e chamado de “mito”. Mas agora me preocupam as vaias da oposição. Vou rever essas idas a estádios de futebol.

Pelo meu Reino, perdão, por minha reeleição, serei capaz de mudar minha índole, fazer a vontade dos outros, embora o confessionário político não seja minha praia. Sem uma profunda reforma política, voltarei às ruas nos braços do povo.

Agradeço, Senhor, a oportunidade de sentar na cadeira presidencial. Graças a isso já entrei no círculo dos mais importantes do planeta, entre eles meu amigo Donald Trump, o chefão da China, Xi Jiping, a dura primeira ministra alemã, Ângela Merkel e o jovial presidente da França, Emmanoel Macron. Este vive me jogando na cara coisas que desconhece, como a Amazônia. Digo e repito: nosso país é uma virgem desejada por tarados.

- O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Ajude-me, Senhor, a manter o pãozinho e o frango de mais de 13 milhões de famílias do Bolsa Família. Não consegui ainda, meu Pai, aliviar o sofrimento de 13 milhões de desempregados e mais de 12 milhões de subempregados. Esse é o calcanhar de aquiles, o espinho atravessado na garganta. Mas tenho esperança no meu “posto Ipiranga”, Paulo Guedes: o desemprego começará a baixar em meados do próximo ano.

Estou com receio de que o senhor Luiz Inácio seja libertado para zoar com o meu governo. Ele e os seus amigos do PT, PSOL, PSB, PC do B e outros nanicos vão fazer de tudo para bagunçar o pleito de prefeitos em 2020 e antecipar a eleições de 2022.

As minhas galeras fiéis estarão preparadas para enfrentar a guerra entre os três terços que dividem o país: um meu lado; outro da oposição; e o terceiro sem rumo, olhando a direção do vento.

Ah, como é interessante, Senhor, ver o meu ministro Sérgio Moro, apesar de criticado pela mídia, continuar aplaudido nas ruas. Se continuar assim, meu Pai, terei de defenestrá-lo mais adiante, porque não o quero como concorrente 2022.

- Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

Tentarei perdoar meus opositores, mas jamais aceitarei a tese de que o cara que me deu a facada é desmiolado. Tudo armação.

Sei que falo demais, meu dia a dia é um palanque. Mas tenho saudades das ruas, Senhor.  Gosto das palavras simples, limitado que sou. Uso minha verve para agradar minha galera. Sou respeitado pela direita mundial. Quem chegou a ser tão amigo de um presidente da maior democracia ocidental, os EUA? Dizem que sou estrela brilhante da constelação da Direita mundial.

Ajude-me, Senhor, a chegar ao final do mandato com boa avaliação.

E perdoai-me, Senhor, se eu cometer o desatino de nomear meu filho Eduardo para embaixador nos EUA. Amém!”

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato
Cultivo de Lavanda

Falar sobre lavanda (Lavandula sp.) logo nos remete a região de Provence, França. Tradicional no cultivo, juntamente com outros países, explora de diversas formas esse arbusto de cor tão viva. No Brasil, em várias regiões, houve esse despertar e já é possível encontrar campos de lavandas em cidades do Estado de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.  
A planta é muito apreciada pelo seu odor intenso e propriedades calmantes. O que não é de conhecimento de todos é que existem inúmeras espécies, com origens, cores, aromas e exigências edafoclimáticas diferentes. Dependendo da espécie o óleo essencial obtido pode ser destinado a perfumaria, higiene e limpeza, cosméticos e até mesmo na culinária. O que faz a diferença no sucesso do seu cultivo é conhecer a espécie que se está trabalhando. Informações sobre o clima e solo do seu local de origem são fundamentais para perceber a capacidade da planta de se adaptar ou não em determinado espaço. 
Para o cultivo na região foram iniciados estudos, porém ainda não se tem resultados quando a adaptação da cultura.
Para o cultivo caseiro em vasos, é recomendado usar substrato na proporção 1:1:1, (areia, terra e matéria orgânica) e a irrigação deve ser feita uma vez ao dia. A lavanda não aceita solos encharcados, portanto, deve-se dosar a quantidade de água.

Luciana Sabini da Silva e Fernanda Jaqueline Menegusso são engenheiras agrônomas
Você é falsamente feliz?

As redes sociais digitais são cheias de mensagens positivas, fotos felizes, em lugares lindos, radiantes. Ostentação é uma palavra que é muito praticada diariamente. É foto com produtos, no espelho, nos restaurantes, bares, etc.. Grande parte dos coaches nos ajudam a ter maior autoestima e a traçar o nosso planejamento da carreira. E a beleza? Maquiagens para um lado, “corpo perfeito” para outro. Dicas, dicas e mais dicas. Como você deve fazer para isso e aquilo. No fim, é o que você deve fazer para não ser você e ser aquela imagem "photoshopada" da rede. Ainda tem aquele comediante que faz todos rirem.

Realmente, as redes sociais digitais tem muitas pessoas com vidas interessantíssimas. Se alienígenas nos observassem pelas redes sociais, com certeza eles concluiriam que a humanidade é muito feliz. Essa felicidade é falsa, na verdade. A única coisa que as redes sociais geram é inveja e infelicidade. Quanto mais alguém vê a vida falsamente perfeita de outros, mais esse ele questiona o porquê sua vida não é assim. Essa infelicidade leva para a ansiedade e depressão. Tudo isso é um grande teatro.

Parece que estamos com medo de mostrar que somos imperfeitos, que choramos, que somos mortais, que sofremos e, por vezes, a vida é um belo de um problema. À medida que escondemos nosso sofrimento, fingimos que eles não existem. O fato é que eles crescem e incomodam cada vez mais, até que você os perceba. Fingir que você não está sofrendo é sofrer duas vezes: sofre por fingir, e ainda sofre por não se permitir sofrer.

Sofrer faz parte da vida e não devemos negar tal emoção e sentimento. Vale, no entanto, parar de passar uma falsa felicidade quando não estamos bem. E, talvez, até nos recolher, para dentro, para as redes internas, para dar ouvidos à alma. 

*Leonardo Torres, 29 anos, pesquisador, professor, doutorando em Comunicação e Cultura e Pós-graduando em Psicologia Junguiana
O atendimento pessoal na era da tecnologia

Pesquisas da empresa norte americana Forum Corporation apontam que o bom relacionamento com o cliente é o capital de maior valor em uma empresa. É na loja (ou ponto de venda/PDV) que o trabalho de campo e a magia por trás de um negócio acontecem. Prova disso é que, daqueles que mudam de marca ou não voltam a comprar, 15% o fazem buscando um produto mais barato; 15% migram para um item melhor; 21% mudam por falta de contato e atenção pessoal e 49% porque a atenção era de baixa qualidade ou ruim. Ou seja, a maior parte dos lojistas perde consumidores (e clientes) por questões relacionadas ao atendimento.

Em outras palavras, o atendimento é essencial no mundo empresarial, seja com clientes, funcionários ou fornecedores – é o que diferencia e direciona o sucesso (ou não) do negócio. Pois pode-se ter o melhor produto ou serviço em uma localização estratégica, mas se o outro tiver uma experiência ruim no contato com sua marca, a probabilidade de ele não retomar um segundo contato é alta.

É comum se concentrar muito na captação e na abordagem de novos consumidores, entretanto, fazer isso sem pensar em como conquistá-los definitivamente é um problema. Em uma era em que a tecnologia ganhou espaço e o contato interpessoal diminuiu, a personalização no atendimento é a cereja do bolo de uma boa estratégia de vendas, marketing e fidelização. Se nos primeiros contatos a sua empresa for capaz de impressionar e de convencer o prospect de que fazer negócios com a sua marca é vantajoso, conseguirá garantir que ele retorne à loja e aumente seu tíquete médio.

Nesse caminho, o atendente pode (e deve) transmitir a emoção e a experiência de um consumo por meio da comunicação, da atenção e do cuidado com o próximo, independe da sua idade, classe social e sexo. Aqui, os pequenos gestos contam, tal como perguntar nome, ser educado, sorridente, empático e, acima de tudo, solícito. Por outro lado, a postura indiferente, invasiva, arrogante e sem empatia devem, terminantemente, ser evitados.

Otimizar o relacionamento com o cliente no PDV aumenta as chances de fidelização e os índices de recomendação. Portanto, pense na maneira como sua loja se comunica e transforme esse momento em algo único para o cliente – mesmo que ele vá ao local diversas vezes. O diálogo, no lugar do pitch de vendas, é uma estratégia promissora para esse contato mais personalizado, mas, ir além das expectativas vai trazer, automaticamente, uma memória positiva da loja e marca ao consumidor, podendo convencê-lo a retornar ou indicar à experiência a conhecidos.

O desafio é deixar a energia dos atendentes em alta, independente se o produto é bala ou urso de pelúcia. Escolher pessoas que se encaixem no perfil de negócio e que entendam seu propósito e o papel que vão desenvolver para chegar ao objetivo de encantar o cliente é essencial. Depois, para garantir a unidade no atendimento, um manual com principais passos do atendimento a serem seguidos à risca, dará um norte ao funcionário e ao empresário, que poderá exigi-lo de maneira mais clara e objetiva. Ah, e nunca se esqueça: a palavra de ordem para a excelência nesse quesito é treinamento, treinamento e treinamento. Afinal, aprimoramento sempre se começa, mas nunca se termina!

*Co-fundadora da Criamigos, Natiele Krassmann é graduada em administração pela PUC/RS. Ao longo de sua trajetória profissional, ocupou uma posição na Câmera de Dirigentes Lojistas de Uruguaiana (RS), participando de missões empresariais nos EUA, China, Argentina e Chile; atuando, paralelamente, como empresária no ramo da moda.
A lente de aumento que precisávamos: Porque a Lava Jato não pode parar

A relevância da Lava Jato vai além dos corruptos que prendeu. Gerou uma reflexão coletiva a respeito de questões essenciais sobre quem somos como povo, do que somos feitos. E sobre como a crise de democracia que estamos vivendo hoje tem relação com o fato de a corrupção no nosso país não ter sido até aqui um ponto fora da curva, mas praticamente a estrada por onde circulou uma parte significativa do poder e da riqueza.

Em toda a sua história, o Brasil olhava para o alto para ver a bandeira tremular com a frase “Ordem e Progresso” enquanto, aqui embaixo, adotava outro lema para levar a vida: criar dificuldades (políticas e legais) para ganhar facilidades (financeiras).

Claro, não foi a Lava Jato que fez nós nos enxergamos no espelho. Os brasileiros já sabiam de tudo isso antes de a operação iniciar. Mas talvez, foram essas investigações mais duras contra a corrupção que reaqueceram a discussão sobre o assunto, adormecida há tanto tempo, limitada talvez aos corredores de universidades ou salas de pensadores. Foram elas que movimentaram de novo as ruas, que geraram indignação coletiva e, assim, incomodaram a velha política, que atuava tranquila, sem enxergar no horizonte qualquer sinal de punição.

A Lava Jato não foi perfeita. Sabemos que o Brasil ainda engatinha na execução de suas leis e na prática da democracia. Porém, é inegável que a operação jogou luz em muitos cômodos escuros, em que até mesmo a Justiça parecia ter perdido a vontade de entrar.

A consequência de termos visto de tão perto o tamanho do câncer foi o desejo coletivo de entender nossa doença profundamente, em vez de fecharmos o ângulo da lente apenas nos sintomas. Desistimos de nos enganar, acreditando que apenas prender este ou aquele curaria o mal. Passamos a discutir reformas e a apostar em um sistema novo, sem os vícios antigos. A causar medo nos políticos que eram, na verdade, criminosos. E, principalmente, a nos envolver com a mudança.

Não é simples ajustar uma economia em um país que sempre a conectou com o que é político. Também não é fácil promover crescimento em um Brasil em que a obrigação de prometer favores e acomodar parentes e amigos sempre foi o corriqueiro. A resposta à pergunta “O que eu ganho com isso?” continuou sendo o cimento de boa parte do que construímos, mesmo depois de liquidado o Império e proclamada a República.

Mas a Lava Jato mostrou que podemos, sim, ter um país maduro e igualitário, em que o patrimonialismo para de despejar na rua, que é de todos, o sujo de suas mansões partidárias, cujos membros da família servem apenas a seus pais. E que, se queremos ter alicerces fortes para o desenvolvimento humano e econômico do Brasil, temos que começar a mexer na nossa lama para que ela pavimente de uma vez o nosso crescimento.

Marco Tadeu Barbosa, presidente da Faciap
Moro na Câmara e o mistério dos espelhos quebrados

No conflito entre a curiosidade que o acontecimento suscitava e o mal estar que as cenas provocavam, o corpo venceu a mente. Desliguei o televisor. Até hoje não consegui entender a “credibilidade” que possam ter minúsculas transcrições de conversas, sem gravidade alguma, trocadas ao longo dos anos, com assimétrica ocultação do inteiro conjunto do material que certamente serviria, mais robustamente, como prova da tese oposta.

Enfim, não deu para suportar aquela sequência de raciocínios rasos, grosserias e calúnias, postos em forma de perguntas, produzidas com o simples intuito de ofender o ministro.

O desrespeito e a clara intenção de usar o ato como instrumento de vingança, na tentativa de flagelar o ex-juiz com o azorrague da maledicência, me incomodavam tanto quanto saber que os incidentes transcorriam na “douta” Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Se os critérios morais de um questionamento são esses, o que restará para os atos legislativos e decisões de Estado? Que respeito terão, pelo interesse público, aqueles senhores e aquelas senhoras tão facilmente combustíveis à chama de sentimentos vis? Não surpreende o resultado de tantas deliberações.

Com o devido respeito às instituições republicanas, Sérgio Moro submeteu-se ao mais rigoroso teste de paciência, tolerância e força de caráter. Foi exemplar. Sofreu na carne durante sete horas aquilo que não suportei assistir. Aos que o agrediam, nenhum limite era exigido; nele, um simples sorriso era objeto de severas reprimendas! Por fim, havendo a agressividade do plenário alcançado o nível mais baixo, retirou-se da sala. E foi chamado de “fujão”! Ora, os fujões compunham boa parte do plenário. Fujões dos braços da justiça, agarrados ao privilégio de foro e, com as unhas, à porta que supõem estarem abrindo para promover o fim da aterradora Lava Jato. Essas mesmas vozes falaram praticamente sem contestação durante décadas, promoveram a destruição de valores, construíram duradoura hegemonia política e semearam antagonismos na sociedade. Alinharam, perfilaram e mobilizaram tropas de choque. No entanto, desde que perderam o poder, têm reclamado do que chamam “discurso de ódio”. Mistério dos espelhos que se perderam.

A audiência de Sérgio Moro expôs o tipo de cisão política que se torna inevitável em presença de partidos e parlamentares que, num dia aprovam projeto de lei que penaliza o abuso de poder e, no outro, usam do poder conferido pelo mandato parlamentar para praticar os abusos que todos pudemos assistir.

Desde a entrada em cena dos vazamentos que estão sendo distribuídos por Glenn Greenwald teve início uma tentativa de reconstruir a imagem do ex-presidente Lula. É como se uma mão lavasse a outra e um crime lavasse outro. Como se não houvesse outras condenações, outros processos criminais em outros foros e outras evidências, sempre associadas à mesma relação impura com poderosas empresas.

Os espelhos se espatifaram de vez.

* Percival Puggina (74), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.
Os males fome estão também na América Latina

A fome extrema que atinge milhões de pessoas não se deve apenas ao desemprego, pobreza e/ou custo e desperdício de alimentos, pois é gerada tanto por crises econômicas, políticas e sociais, como por catástrofes naturais e conflitos armados.

A informação consta de relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), elaborado em conjunto com a União Europeia (UE), e outras organizações internacionais e divulgado em abril deste ano.

Conforme o documento, a fome extrema atingiu mais de 113 milhões de pessoas de 53 países em 2018, entre os quais Iêmen, República Democrática do Congo e Afeganistão e mais da metade dos famintos do planeta vivem em 33 países africanos, como Etiópia, Sudão e Nigéria.

Em 2017, 124 milhões de pessoas de 51 países haviam sofrido fome severa, 11 milhões a mais do que no ano passado.

De acordo com o estudo, em 2018 os conflitos armados prosseguiram sendo a principal causa da insegurança alimentar no planeta, atingindo quase 74 milhões de pessoas ou dois terços da população que sofre com a fome no mundo, vivendo em 21 países ou territórios afetados por guerras ou embates internos.

O Iêmen, em guerra civil desde 2015, continuou sendo o país mais afetado pela fome extrema no planeta em 2018. No final do ano passado, vale registrar, a crise atingiu ponto crítico neste país, pois mais da metade ou 53% da população, apresentavam necessidade de ajuda alimentar urgente, interna e externa.

Apesar de números alarmantes, o documento destacou pequeno   avanço na questão da oferta ou disponibilidade de alimentos no mundo, na comparação com 2017, pois alguns países seguidamente atingidos por desastres climáticos, sofreram menos episódios como secas, inundações e aumentos da temperatura em 2018.

Na América Latina e Caribe no ano passado foram registradas mais de quatro milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar e com necessidade de ajuda urgente de instituições assistenciais, locais ou do exterior.

Somente no Haiti, os famintos somavam 2,3 milhões de pessoas, enquanto na América Central, incluindo El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, eram 1,6 milhão de habitantes. Na América do Sul a fome extrema atingia 400 mil pessoas, incluindo os refugiados venezuelanos na Colômbia, Equador e Peru.

A Venezuela, como se sabe, enfrenta grave crise política, econômica e social que provocou grande escassez de alimentos, agravada por hiperinflação que reduziu drasticamente o poder aquisitivo da população, mas não constou do relatório, por não apresentar números confiáveis.

Mesmo assim, segundo especialistas, com a continuidade e até agravamento da crise e conflitos internos, a Venezuela pode entrar no ranking de países que enfrentam grave crise alimentar já em 2019, pois está se consolidando como grande preocupação entre as nações latino-americanas.

Apesar da falta de dados mais precisos, segundo o relatório, a maioria dos venezuelanos que buscou refúgio em países vizinhos, como Colômbia, Equador e Peru, vinha enfrentando grandes dificuldades para garantir sua alimentação.

A crise alimentar aguda ou das fases dois e três da escala internacional de cinco níveis, indicava grandes dificuldades para a obtenção de alimentos por parte dos venezuelanos. Na Colômbia, seriam 1,1 milhão de migrantes sofrendo desnutrição, no Peru 500 mil e no Equador 221 mil pessoas.

*O autor é ex-deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado. E-mail: [email protected]
Direito 4.0: como reinventar a advocacia no Brasil?

O Brasil tem cerca de 1,1 milhão de advogados. A profissão, que já foi símbolo de status e autoridade, hoje é colocada à prova. A morosidade da Justiça e os inúmeros procedimentos burocráticos que envolvem a advocacia estão na iminência de viverem uma grande transformação advinda das tecnologias exponenciais.

Recentemente, cunhou-se o termo Lawtech, que define as startups focadas na criação de soluções que atendam ao universo do direito. Segundo a AB2L - Associação Brasileira de LawTechs e LegalTechs, que já reúne 388 associados, esse é um segmento em franca expansão, que reúne soluções para as mais variadas áreas do direito, como tributário, civil, trabalhista e previdenciário.

Muitos escritórios, no Brasil e no mundo, já estão adotando a inteligência artificial para aumentar a produtividade e eliminar o trabalho repetitivo. Esses robôs analisam processos, fazem petições e aceleram contratos com uma velocidade infinitamente superior à de um ser humano. Eles são capazes de fazer milhões de consultas em jurisprudências em questão de segundos.

Entre os destaques brasileiros estão a Dra. Laura, um robô que já leu mais de mil decisões judiciais e gerou novas peças para elas em apenas dois minutos. Outra iniciativa é o robô Tikal Tech, que interage com o advogado e, a partir das respostas, gera a petição inicial para ações trabalhistas, chegando a calcular até o valor a ser pedido na Justiça.

A plataforma cognitiva da IBM, conhecida como Watson, também já está sendo usada por escritórios de advocacia para resumir processos e agilizar o trabalho burocrático de inúmeros advogados. A inteligência artificial traz maior agilidade para os processos e desafoga os profissionais do trabalho repetitivo, permitindo mais tempo para tarefas que exigem maior criatividade e pensamento crítico.

E a adoção dessas tecnologias não deve ficar restrita apenas aos escritórios de advocacia. Na Estônia, o Ministério da Justiça anunciou a criação do primeiro “juiz robô”, uma inteligência artificial que poderá ser usada para mediar pequenas causas, com indenizações inferiores a 7 mil euros. A intenção é liberar os juízes do país para se dedicarem a casos mais complexos.

As análises preditivas, a capacidade cognitiva das máquinas e os algoritmos irão facilitar o trabalho e trazer agilidade para os processos, podendo até reduzir a morosidade do sistema jurídico brasileiro. No entanto, por mais positivo que tudo isso pareça, muitos advogados estão se sentindo ameaçados.

Boa parte desse comportamento repulsivo às inovações é decorrente da falta de preparo desses profissionais para lidar com a tecnologia. O Brasil tem 1.406 faculdades de direito, contra cerca de 1.200 no mundo todo. A estimativa é que até 2032, tenhamos mais de 2 milhões de profissionais formados.

Infelizmente, boa parte dessas universidades não estão se adaptando à velocidade com que esse mercado se transforma. São raras as que já incluem no currículo o desenvolvimento de capacidades numéricas e matemáticas, além das chamadas soft skills, que são as habilidades comportamentais voltadas à criatividade, comunicação e senso crítico.

Dessa forma, caberá aos próprios profissionais repensarem a profissão, buscando alternativas viáveis para a execução de um direito preciso, ágil e realmente eficiente. A busca por conhecimentos em áreas como Big Data e Machine Learning será fundamental para o advogado do futuro. Um novo capítulo começa a ser escrito na história do direito. Quem não se atentar às transformações, inevitavelmente ficará para trás.

Marília Cardoso é jornalista, professora e consultora de inovação
Trabalho infantil e a tolerância da sociedade

Falar de trabalho infantil em pleno século XXI (no qual os avanços da tecnologia, ciência, educação e saúde são inúmeros) deveria ser uma questão antiquada, superada. No entanto, historicamente a exploração do trabalho infantil tem se mantido, uma vez que um dos seus determinantes é a pobreza. Tornou-se, inclusive, uma alternativa que muitas famílias encontram para sobreviver e está atrelada à exploração do próprio trabalhador adulto, decorrente da competitividade do mercado.

Na contemporaneidade, as crianças passaram a ocupar um espaço central nas famílias e na sociedade. São alvo de estudos e pesquisas para a promoção integral do seu desenvolvimento biopsicossocial, amparadas pelas famílias e protegidas pelas leis e pelo Estado. Este contexto, contudo, não envolve todas as crianças.

A Política Nacional de Saúde para a Erradicação do Trabalho Infantil considera trabalho infantil todas as atividades realizadas por crianças ou adolescentes que contribuem para a produção de bens ou serviços, incluindo atividades remuneradas, trabalho familiar e tarefas domésticas exclusivas, realizadas no próprio domicílio (OIT, 2014, p. 17).

Esta questão social grave é tolerada muitas vezes pela sociedade pelo reforço ideológico à cultura de que crianças e adolescentes representariam uma ameaça por não fazerem nada. Também, de que o trabalho precoce é uma alternativa para “tirá-las” das ruas e mantê-las “longe” das drogas. Além de negar as necessidades de desenvolvimento, trata o descanso e o lazer como algo perverso e mal, que deve ser combatido com o trabalho. Trabalho este que passa a ser desenvolvido nas ruas ou em condições ilegais, perigosas, penosas e insalubres.

O dia 12 de junho foi instituído como o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Infantil para reforçar o direito da criança de ser amparada pela família. Se esta se torna incapaz de cumprir essa obrigação, cabe ao Estado apoiá-la, não às crianças. O custo de alçar uma criança ao papel de “arrimo de família” representa expô-la a danos físicos, intelectuais e emocionais. Paga-se um preço altíssimo, não só para as crianças como para o conjunto da sociedade, ao privá-las de uma infância. (OIT, 2001, p.16).

Denise Erthal de Almeida é assistente social, mestre em Responsabilidade e Prática Gerencial e coordenadora do Curso Tecnológico de Gestão de Organizações do Terceiro Setor do Centro Universitário Internacional Uninter.
Cultivo de framboeseira negra no Paraná

A fruticultura de clima temperado deixou de ser praticada somente em regiões mais frias do país. O melhoramento genético, a evolução das técnicas de manejo e condução do pomar possibilitam a adaptação e produção dessas espécies em diversos estados. A framboeseira negra representa uma ótima opção para a diversificação de pequenas propriedades, por ser rústica e de alta produção. Assim como outras espécies exóticas, apresenta alto valor comercial e a procura nos mercados é crescente pela população. Seus frutos podem ser consumidos in natura, sucos, geleias, doces e compotas. É uma planta arbustiva de porte semi ereto ou rasteiro, apresenta espinhos, os frutos têm sabor ácido a doce-ácido, tem sido bem aceita por sua boa produtividade onde é cultivada. Já existem pesquisas na região oeste do Paraná, que mostram que a época de produção acontece de julho até do fim de novembro, podendo chegar a aproximadamente 3800 frutos por planta. Além de ser uma planta produtiva, seus frutos possuem propriedades antioxidantes, alto teor de vitaminas e baixo teor calórico.

Luciana Sabini da Silva é engenheira agrônoma, mestranda em produção vegetal