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Internet: o inimigo está dentro de casa

Há muito sabemos que os pais não podem deixar seus filhos o dia inteiro navegando na internet. Há muito tempo também não sabemos o que é mandar os filhos voltarem para casa depois de um longo dia brincando nas ruas. “As ruas estão perigosas”, “nela há violência”, “há um incentivo às drogas nas ruas”, “há maldade”, etc., alguns dizem. Em partes, sem dúvida, não discordo destes argumentos. Os espaços sociais, como as praças, estão destruídos; e isso é um claro projeto de governo, que não quer que nos juntemos para sociabilizar.

É melhor deixar nossos filhos dentro de casa, sãos e salvos. O problema é que tanto os adultos quanto as crianças não perceberam que dentro de casa existe um vício tão poderoso quanto qualquer outro tipo de droga dentro das quatro paredes do lar. Nós não ingerimos esta droga com a boca, mas com os olhos. Ela não causa problemas somente físicos, mas mentais. E nela, há mais violência e maldade do que na rua da sua casa. E para tudo isso, basta um clique.

Passamos mais de 8 horas diárias em frente aos aparelhos eletrônicos. As pesquisas científicas mais recentes já tem aproximado o consumo de eletrônicos e de internet ao consumo de drogas. Os anestesiologistas apontam que 30 minutos de uso de um tablet equivale a uma dose de Midazolan, um anestésico. Não à toa, a estudiosa Malena Contrera tem chamado atenção para o fato que nós nos denominamos de “usuários” nas redes.

Recentemente, os likes do Instagram foram ocultados. Houve uma revolta por parte de alguns usuários, demonstrando a tendência viciosa e obsessiva de se conquistar as curtidas. Estudos da psicologia comportamental já haviam avisado que esta dinâmica de postar fotos e ser curtido é uma uma dinâmica de recompensa e de condicionamento que age na vontade de pertencimento grupal do ser humano: o ratinho aperta o botão e ganha a comidinha.

Com as praças destruídas, com a violência fora de casa, nós entramos de tal maneira internet a dentro que é comum escutar que uma família, dentro de casa, conversa mais por whatsapp do que se reunindo na sala de estar. A internet e os aparelhos eletrônicos prometeram nos unir, mas acabaram nos separando ainda mais.

E não para por aí. Como diria Étienne de La Boétie, existe aí uma “servidão voluntária”. Enquanto um usuário passa 8 horas do dia buscando e dando likes, as empresas por trás das redes sociais estão captando todos os dados emitidos pelo usuário. Sabe aquela foto íntima mandada? O texto que você escreveu mas não postou? As fotos que estão como sugestão de postagem? Ou aquela pesquisa no Google que acaba aparecendo no Facebook? Já aconteceu de você falar sobre algo e este algo aparecer como propaganda nas redes sociais? Tudo isso acontece porque, de alguma maneira, os nossos aparelhos eletrônicos nos vigiam 24 horas por dia. E nós estamos oferecendo voluntariamente toda nossa privacidade em troca de viciosos likes.

*Leonardo Torres, 29 anos, pesquisador, professor, doutorando em Comunicação e Cultura e pós-graduando em Psicologia Junguiana
Made in Toledo

Prosperar no Brasil demanda um conjunto de conhecimentos, habilidades e sobretudo atitudes dos tomadores de decisões das empresas e das instituições. E é nesse cenário que a exportação pode ser uma alternativa interessante para aumentar a competitividade, aumentar a produtividade, reduzir a dependência do mercado interno entre outras vantagens para tornar o empresário brasileiro mais próspero.
Para atuar em mercados globalizados é preciso investimento constante, não apenas financeiro, mas sobretudo investimento em qualificação e conhecimento. Estabelecer um plano contínuo e a longo prazo com um olhar para questões estratégicas e operacionais também é fundamental. Estratégico no sentido de definir: Quem são meus clientes? Quais mercados prospectar? De que forma? Quantidade? Preço? Produto? E operacional com definição de: Quais são os principais documentos? Qual classificação fiscal? Qual incoterm negociar? Qual modalidade de pagamento? Como efetuar o despacho aduaneiro? Como efetuar operações de câmbio?
Nesse sentido, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) atua para promover os produtos e serviços brasileiros no exterior e atrair investimentos estrangeiros para setores estratégicos da economia brasileira. Para alcançar os objetivos, a Apex-Brasil realiza ações diversificadas de promoção comercial que visam promover as exportações e valorizar os produtos e serviços brasileiros no exterior, como missões prospectivas e comerciais, rodadas de negócios, apoio à participação de empresas brasileiras em grandes feiras internacionais, visitas de compradores estrangeiros e formadores de opinião para conhecer a estrutura produtiva brasileira entre outras plataformas de negócios que também têm por objetivo fortalecer a marca Brasil. 
O Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX), oferecido pela Apex-Brasil em parceria com a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), faz parte do Plano Nacional de Cultura Exportadora (PNCE) que integra a Política de Comércio Exterior do Governo Federal. O objetivo do PEIEX é ampliar e diversificar as exportações brasileiras, e sua metodologia consiste na identificação do potencial exportador da empresa, elaboração do diagnóstico de gestão, definição do plano de trabalho orientado à exportação, implantação do plano do trabalho e conclusão do atendimento com a entrega do plano de exportação para a empresa. O PEIEX oferece ainda: diagnóstico de prontidão para a exportação, capacitações específicas relacionadas ao comércio exterior e recomendações técnicas e gerenciais.
O PEIEX é uma opção para empresas que desejam iniciar ou mesmo incrementar seu desempenho no comércio internacional. Os setores alvo do PEIEX são: Alimentos e bebidas; Moda (acessórios, cama mesa e banho, feminina, festa, fitness, infantil, íntima, masculina, praia, não-tecido, suprimentos, tecidos de decoração, têxtil); Casa e construção (fabricantes de artigos nos seguintes segmentos: iluminação, vidro, gesso, plástico/embalagem, rochas ornamentais, cerâmica e revestimento, móveis); Higiene pessoal, perfumaria e cosmético; Máquinas e equipamentos; e Economia criativa (música, franquias, filmes publicitários, TI, cinema, jogos digitais, arte).
O protagonista do programa é o empresário, ou seja, o tomador de decisões nas instituições. O PEIEX é um vetor para alavancar os resultados das empresas por meio da exportação, e o município de Toledo e região tem um potencial enorme para isso, pois além de empresários e empresárias interessados na qualificação, nossa posição geográfica no mundo é muito favorável para a comercialização dos produtos em mercados como o Paraguai, a Bolívia e a Argentina.
No Oeste e Sudoeste do Paraná, O PEIEX é executado pela Unioeste através de um convênio firmado com a Apex-Brasil. O objetivo é capacitar 200 empresas em um intervalo de 2 anos, a partir de junho de 2019. Com isso, espera-se que as habilidades de empresários e empresárias sejam desenvolvidas ou aperfeiçoadas. Para aderir ao PEIEX, o empresário não precisa pagar pelo atendimento, mas deve estar disposto a implementar os quesitos necessários à entrada em mercados externos. Para saber mais sobre o programa, acesse: www.unioeste.br/peiex. 

*Gabriela Daiana Christ (26) é bacharel em administração e atua como Técnica Extensionista no Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX) Núcleo Operacional Unioeste, [email protected].
A incômoda maioria que fala nas redes sociais

Usuários de redes sociais jamais deveriam esquecer as lições colhidas nos dias que se seguiram ao fechamento da mostra Queermuseu, no Santander Cultural de Porto Alegre, em setembro de 2017. A exibição, com indicação para escolares e financiamento público (quase um milhão de reais através da Lei Rouanet), tinha conteúdo sexual, homossexual e transexual associado à infância e a animais, e vilipêndio religioso com desrespeito a figuras e objetos sacros. Tudo tão ao gosto de quem se regala com esse tipo de coisa quanto inadequado para crianças. Só quem estava a serviço de alguma “causa”, na mídia, no Ministério Público e no mundo cultural poderia não ver ali conteúdo impróprio à infância.

Graças às redes sociais, imagens chocantes das peças exibidas – repito: expostas ao público infantil – chegaram ao conhecimento da sociedade provocando rápida reação de clientes que começaram a fechar contas no Banco, levando-o a cancelar a exibição. Agiam conforme manda o bom figurino da cidadania em casos assim. Sem violência, civilizadamente e aos bons modos do mercado, que escolhe com quem quer manter relações comerciais e decide quais jornais e revistas quer assinar e quais emissoras de rádio e TV deseja ouvir ou assistir.

Como lição para a eternidade, o mais importante veio depois. Com raríssimas exceções, os meios de comunicação, seus formadores de opinião e o “mundo cultural”, em estado de choque e indignação, colocaram-se contra a opinião pública e contra o que denominaram reação conservadora. Aquilo, diziam, era um desrespeito à arte, coisa de gente atrasada, preconceituosa, em conflito com a laicidade do Estado e “flertando” (eufemismo que a esquerda anda gastando de tanto usar) com a censura. Ou seja, lançaram-se contra a imensa maioria da sociedade.

O protesto contra o fechamento do Queermuseu, realizado ante as portas cerradas do Santander Cultural, reuniu apenas um punhado de militantes perfeitamente alinhados com o conteúdo exibido além delas. Nem mesmo uma performance erótica com mulheres nuas conseguiu atrair espectadores...

Todo episódio compôs um momento simbólico, espécie de “Alons enfants de la patrie” da cidadania, a simbolizar a queda de um poder. As redes sociais se impunham como instrumento para democratizar o direito de opinião, proclamando a independência dos indivíduos em relação aos fornecedores habituais. Estes, por seu turno, reagiram de modo indignado ante o declínio de poder. Era como se a cada linha escrita ou cada frase proferida estivessem a clamar: “Não nos ouvem mais? Não nos atendem mais?”. Ao que se poderia responder: “Há outras opiniões e pontos de vista a merecerem atenção”.

Nessa mesma época, ouvi de amigos cientistas políticos a advertência de que as redes sociais fechavam-se em círculos de afinidade e que poderiam, por isso, ser ilusórias como informação sobre o conjunto da opinião pública. Era bem verdadeiro o que diziam. No entanto, essa miríade de círculos uniu conservadores, liberais e adversários da esquerda que se tinha por hegemônica e contava com a intensa militância em círculos de influência que tradicionalmente empalmavam o monopólio do direito se fazer ouvir. O tempo veio mostrar que a maioria ganhou voz nas redes e que a hegemonia esquerdista era coisa distrófica, desproporcional. Por isso, os círculos em que se expressa odeiam as redes sociais e a elas reservam os piores adjetivos.

* Percival Puggina (74), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.
A dona do pedaço: arquitetura é uma questão de alma e não de padrão!

A novela “A dona do pedaço”, exibida no horário das 21h, na TV Globo, apresentou nos últimos episódios uma conturbada relação entre a arquiteta Stephanie, interpretada pela atriz Daniella Galli, e sua cliente, Maria da Paz, vivida por Juliana Paes.

Deixando de lado todas as questões éticas envolvendo a trama, na qual a filha da protagonista, Josiane, personagem de Agatha Moreira, convence a profissional a pagar comissão a fim de roubar a própria mãe, vemos um forte desalinhamento entre as expectativas da cliente e as propostas da profissional.

De origem humilde, Maria da Paz enriqueceu vendendo bolos e orgulha-se muito de sua história de trabalho e superação. Com um gosto exuberante, tende a valorizar um estilo de moda e decoração com muitos elementos, chegando a ser exagerados em algumas ocasiões.

Diante da cliente, a profissional teima em oferecer um projeto sofisticado, mas em que nada agrada Maria da Paz. Nenhum dos seus móveis ou objetos atuais foram aproveitados em sua nova residência. O argumento da arquiteta era o de que tudo era cafona e estava “fora do seu padrão”.

Mas, afinal, o que é o padrão? É óbvio que cada arquiteto tem o seu estilo, mas acima de tudo, ele tem o dever de entender as necessidades, desejos e anseios do cliente para propor soluções que transformem a sua casa, escritório ou ponto comercial em um ambiente aconhegante, onde ele se reconheça e se identifique.

Em um mundo cheio de regras e convenções sociais, “ser você mesmo” é um desafio. Ser autêntico e se sentir único é um desejo da grande maioria das pessoas. Um padrão ditado pela sociedade não cabe mais nos dias de hoje. Queremos bem-estar e conforto em ambientes que efetivamente nos preencham e nos satisfaçam.

Nesse sentido, a arquitetura sensorial vem ganhando muito destaque. Nela, os seis sentidos - visão, tato, olfato, paladar, audição e intuição - adentram os ambientes com o objetivo de despertar sensações e criar memórias que ficarão eternizadas para sempre, como o cheiro do café coado pela avó, a macarronada servida aos domingos com a família reunida e até o sossego de uma tarde de filme sozinho no sofá.

Através da composição de texturas, revestimentos, cores, formas, cheiros e luz, a arquitetura sensorial proporciona o ambiente que o cliente quiser, com foco em aguçar ou provocar emoções e sensações. Cada vez mais, percebemos que é o momento de ser e não de ter. Maria da Paz parece ter percebido isso há muito tempo.

Karla Manfredi Pimentel é arquiteta sensorial e designer da Arch&Soul, consultoria de arquitetura para o bem viver.
Reforma tributária: a aposta para a retomada do crescimento econômico

Com a aprovação da reforma previdenciária em primeiro turno pela Câmara, o Governo já se movimenta na articulação de outra reforma, a tributária. Liderada pelo ministro da economia, Paulo Guedes, a emenda concentrará, principalmente, na unificação dos tributos incidentes nas operações com bens e mercadorias e nas prestações de serviços.

É nítida que haverá barreiras na criação de um imposto a ser sugerido pelo governo, tendo em vista o pacto federativo e os benefícios fiscais. Uma das propostas da reforma, a PEC 45/2019, do deputado Baleia Rossi, pede a substituição de cinco tributos, sendo os federais (PIS, COFINS e IPI), o estadual (ICMS) e o municipal (ISS) pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), cuja receita seria compartilhada entre União, Estados e Municípios.

É preciso olhar com bons olhos essas medidas, uma vez que o objetivo é simplificar a tributação para as empresas e tornar o processo mais transparente e não aumentar a carga tributária. Atualmente é tanto tributo que o empresário não tem ideia de quanto ele efetivamente paga. Toda a somatória é aproximada e não exata, ou seja, não há clareza.

Tendo um único imposto, além de gerir mais fácil, o empreendedor brasileiro terá mais conhecimento e controle sobre os encargos tributários. Igualmente como simplificar os processos fiscais, a aprovação da reforma tributária também promoverá o crescimento econômico no País. As empresas terão menores esforços para cumprimento das obrigações fiscais e com a legislação enxuta haverá mais tempo e dinheiro para rever os investimentos e apostar na geração de empregos.

O processo tributário tornou-se tão complexo que hoje as empresas chegam a fazer reservas de budget para arcarem com possíveis autuações, dinheiro este que poderia ser revertido para a ampliação do negócio. Fora todo o cumprimento das obrigações, que somam aproximadamente de 2, 6 mil horas, o que significa mais de oito vezes do tempo dedicado nos Estados Unidos ou na União Europeia.

Não há como sustentar o crescimento das empresas em um País com medidas tributárias tão complexas. O respiro para a nação será a reforma. Cabe agora o empenho necessário para que a proposta saia do papel e torne real em nome do crescimento do Brasil.

*Giuliano K. Gioiaé especialista fiscal na Taxweb, pioneira em Digital Tax para o Compliance Fiscal das empresas.
A cultura individualista

São múltiplas as razões para a extensão das redes criminosas que agem à sombra do Estado. Uma das fontes desse poder oculto é a própria Constituição de 88. Parece uma sandice, pela antinomia expressa: a lei maior, no mais elevado pedestal da Pátria, ser responsável por mazelas. Há lógica?

Ao abrir o leque de direitos sociais e individuais, a Carta construiu as vigas institucionais com autonomia, liberdade e competência funcional. Sistemas e aparelhos se robusteceram para exercer com independência as funções constitucionais. O Estado liberal e o Estado social convergiram suas posições em direção ao Estado Democrático de Direito, sob o qual o Poder Judiciário assume posição de relevo, fato que explica seu papel preponderante na pavimentação da via democrática.

A judicialização da política, fenômeno bastante observado nos últimos tempos, leva em consideração a ausência de legislação infraconstitucional, o que tem permitido ao Judiciário entrar no vácuo legislativo e interpretar as normas de comando.

Instituições do Estado, voltadas para a defesa do regime democrático, da ordem jurídica e dos interesses sociais e individuais, ganharam impulso. O Ministério Público, por exemplo, alçado à condição de instituição essencial à função jurisdicional do Estado e acrescida bagagem normativa, passou a incorporar a missão de guardião maior da sociedade. Sua atuação, se, de um lado, ganhou o respeito dos cidadãos, passou a ser questionada por causa de ações consideradas exageradas.

A Polícia Federal reforçou a identidade como órgão encarregado de exercer a segurança pública para a preservação da ordem e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, passando a agir em parceria com instâncias do Judiciário. Sua extensa folha de serviços, alargada por um fluxo de maior profissionalismo, penetra nos espaços mais obscuros da vida criminosa e nos porões incrustados nas malhas da administração pública.

A par de sua contribuição para a consolidação dos pilares éticos e morais e a preservação das boas práticas políticas, ganhou uma legião de críticos e adversários, também por conta de operações espetaculosas, marcadas por nomes simbólicos. Como pano de fundo temos a Constituição de 88, que propiciou ao aparelho do Estado a competência para organizar estruturas e métodos capazes de garantir a sua segurança e alcançar o equilíbrio social.

Às ações do MP e da PF se somam tarefas de outros sistemas que também fazem apurações e controles, como o Gabinete de Segurança Institucional, o Tribunal de Contas da União, a Corregedoria-Geral da União, além dos aparatos do Parlamento, como as Comissões de Inquérito. O Estado possui máquina mais que suficiente para monitorar retas e curvas de pessoas físicas e jurídicas. Mas nessas trilhas a coisa começa a desandar. A pletora de instrumentos de controle abre imensos vácuos. A política é como a água corrente: preenche os vazios.

Tarefas assemelhadas se repartem entre alguns órgãos, espaços se bifurcam e dirigentes são atingidos pelo fogo das vaidades. Cada qual procura chamar para si a atenção. Afinal, as luzes do Estado-Espetáculo propiciam ampla visibilidade. Se as ferramentas a serviço do Estado fossem desprovidas de sentimentos, teríamos gigantesca estrutura de controles comprometida com o bem comum. Coisa difícil.

O bem da coletividade passa pela filtragem personalista. Somos um País que privilegia a marca pessoal. A ação da entidade é precedida pela louvação do dirigente. O ministro Sérgio Moro ganha estátua de xerife-mor. Mesmo sob tiroteio. Juízes e procuradores dão o tom da justiça e da política, imprimindo à orquestra o seu compasso. Alas e grupos se formam no interior de estruturas, matizes políticos dão o tom de operações e a algazarra do espetáculo acende altas fogueiras.

A querela se espalha, como estamos vendo hoje entre os três Poderes. O que fazer com a massa contenciosa que agita atores e instituições? O óbvio: cumprir o dever nos limites prescritos pela lei, despir-se de vaidades, usar o bom senso para evitar duplicação de tarefas e profissionalizar as estruturas, deixando-as imunes aos partidarismos. Cada Poder deveria se ocupar de suas funções. Sem mais nem menos. Se for criado um novo controlador para comandar o já existente, o País andará em círculos.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato
A difícil arte da magia na educação

Professores enfrentam muitos desafios diariamente e isso é de conhecimento de todos. Qualquer pessoa pode relacionar muitos deles em questão de segundos. Para exercer essa profissão há que se ter não apenas muito conhecimento e preparação, mas também coragem e criatividade. No entanto, fazer a mágica de ensinar o que não se sabe é quase impossível para qualquer um, inclusive os docentes. De acordo com novos estudos do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019, divulgado no final do mês passado, preparar adequadamente os professores, em especial áreas críticas com falta de professores, como faz a ONG Educando (cujo foco está na formação de docentes de escolas públicas em métodos práticos nas disciplinas de matemática, física, química e biologia), passa a ser uma necessidade primordial e de extrema urgência.

A razão é simples. Segundo a pesquisa, 33,5% dos educadores brasileiros dos ensinos acima mencionados não tinham, até o final de 2018, formação adequada para lecionar na área de atuação escolhida. Ao todo, 37,8% dos professores dos anos finais do ensino fundamental (entre o 6º e o 9º ano) e 29,2% dos docentes do ensino médio.

Os percentuais mostram profissionais sem qualquer licenciatura ou complementação pedagógica nas disciplinas pela qual eram responsáveis (os cinco primeiros anos do ensino fundamental não entraram na pesquisa em razão da nomenclatura diferenciada das matérias, que não são divididas como nos anos sequenciais).

O Anuário é elaborado com dados do Censo, da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua – ambos realizados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – e outras pesquisas do nicho e publicado em parceria entre o movimento Todos pela Educação e a editora Moderna.

Não à toa a Unesco, braço de educação e cultura da ONU (Organização das Nações Unidas), mostra o Brasil em 88º lugar – entre 127 países – no desempenho da educação, segundo o documento The Education for All (EFA) / Global Monitoring Report (GMR). No país da evasão escolar (o mais recente Censo Escolar elaborado pelo Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – aponta para mais de dois milhões de crianças e adolescentes fora das salas de aula), o “efeito dominó” do declínio da educação brasileira parte da falta de investimentos em infraestrutura, merenda e materiais. Mas continua em curso com falhas clamorosas no que tange aos professores: falta de incrementos salariais, planos de carreira e, como já citado, formação adequada.

Sobre salários e planos de carreira, o Anuário mostra que, em 2018, docentes da educação básica tinham rendimentos 30% menores em relação ao salário médio dos profissionais de curso superior. Ao comparar apenas com profissionais das áreas de exatas ou saúde, queda de 50%.

Sobre a formação, vislumbramos saídas? Além do árduo trabalho de instituições independentes do terceiro setor (como a ONG Educando), cujo intuito é auxiliar ao máximo em certas lacunas abertas na educação brasileira, a garantia da formação docente na educação básica é uma das 20 metas previstas pelo PNE (Plano Nacional da Educação), em vigência desde junho de 2014. O texto, dentre outros pontos, assegura a professores da educação básica formação, de nível superior, na específica área de atuação. E a base nacional docente foi além: apresentou ao MEC (Ministério da Educação), em dezembro do ano passado, proposta de uma avaliação anual para habilitação de educadores.

Falta-nos, apenas, portanto, direcionamento correto das políticas de investimentos na educação básica e, ainda, fazer uma “mágica” – em uso convergente da mesma verba – para transformar documentos oficiais das instâncias governamentais em objetos animados, que funcionem na prática. Em união, como um comboio, auxiliando professores, alunos e a educação em geral a caminhar para frente com segurança e assertividade.

Capacitar e valorizar professores ao fornecê-los suportes pedagógico, psicológico e planos de carreira justos é garantir um futuro com mais educação e estimulo ao constante aprendizado.

(*) Marcos Paim, professor e diretor do programa Stem Brasil da ONG Educando.
O desastre ambiental brasileiro: com a palavra, países compradores de commodities

Em entrevista recente, o diretor da ONG inglesa Global Witness, Patrick Alley, afirmou que a "proteção ambiental do Brasil está indo para o precipício". A declaração retrata como a imagem de nosso país está se deteriorando frente às perturbadoras investidas políticas encadeadas a partir da nova gestão federal.

O posicionamento de Alley demonstra de forma muito contundente o que a maioria dos brasileiros já sabe: não temos controle sobre o uso adequado do patrimônio natural para, ao mesmo tempo, garantir a sua proteção. Também é informação que não surpreende quem acompanha as incontáveis circunstâncias de aviltamento aos direitos humanos que se repetem sistematicamente, em especial na região Amazônica. Mas, o exacerbamento dessa falta de controle, motivado pela atual gestão, superou quaisquer limites.

Ao mesmo tempo em que diferentes atores estrangeiros rapidamente avançam para caracterizar o Brasil como um dos países mais relapsos em relação às questões voltadas ao meio ambiente, onde o desmatamento e a degradação ambiental são fatores preponderantes, uma discussão complexa se desenrola entre embaixadas da Noruega e da Alemanha com o atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Trata-se da tentativa de "salvar" o Fundo Amazônia. E que parece longe de alguma alternativa que atenda os interesses, explicitamente divergentes, das partes envolvidas. São recursos de grande monta, superiores a 1 bilhão de dólares, aportados a fundo perdido por países como Alemanha e Noruega para garantir maior controle do desmatamento ilegal na Amazônia e promover o desenvolvimento sustentável da região. Recursos que podem ser, simplesmente, dispensados pela atual gestão pública federal.

No complexo cenário vivido atualmente no Brasil, há bastante dificuldade em se buscar uma explanação confiável sobre as reais intenções do nosso governo nessas discussões sobre o Fundo Amazônia. Em primeiro lugar, pelo fato de que os pronunciamentos retrógrados sobre os temas globais mais relevantes na área ambiental, como o combate à mudança climática e a perda de biodiversidade, já exaustivamente externalizados pelos ministros das Relações Exteriores e do Meio Ambiente, deixam evidenciada uma lamentável e radical dissonância da administração pública com as principais agendas que preocupam seriamente outros países.

Mas também deve-se levar em conta que os recursos do Fundo Amazônia são aplicados justamente na coibição de irregularidades que, ao que tudo indica, não faz parte das intenções de nossos atuais gestores públicos. Ao contrário, há evidentes movimentos de libertinagem a partir do enfraquecimento proposital da condição, já extremamente depauperada, dos órgãos ambientais responsáveis pelo controle e fiscalização ambiental.

Soa lógica a intenção de desvio de finalidade desses recursos defendida pelo atual ministro Salles, o que coaduna perfeitamente com falas do presidente da República aos líderes do agronegócio, afirmando que a sua gestão "não causará constrangimento aos que quiserem trabalhar".

Talvez o jogo de forças para determinar o futuro desse inédito esforço voltado à proteção da natureza no Brasil já esteja tendendo a um encadeamento previsível. Se países que aportam recursos para sustentar forças de controle contra a destruição da natureza são uma linha de atuação que a gestão Bolsonaro faz questão de afirmar não apoiar, qual poderá ser uma solução a esse impasse que atenda os interesses que as partes, antagonicamente, defendem?

O sistemático ataque às organizações do terceiro setor em prática no Brasil complementa a busca pela maior flexibilização a ações ilegais na Amazônia e, também, no restante do território. São projetos executados em parceria por essas organizações que, em grande parte, amparam e dão melhores condições de trabalho aos órgãos públicos de meio ambiente, historicamente limitados em contingente, equipamentos, recursos e proteção contra pressões políticas. Além disso, mais de 60% dos recursos do Fundo Amazônia são destinados ao governo, em âmbito federal e estadual, e os outros 40% são divididos entre entidades do terceiro setor e universidades.

Exemplo muito relevante de uma situação ainda mais grave em termos econômicos diz respeito ao anunciado acordo entre Mercosul e União Europeia. Desde o anúncio, muitos países europeus já endureceram suas posições. Não existe um caminho do meio nesse tipo de discussão. Ou seja, caso seja verdadeira a determinação desses países em realizar uma pressão econômica para que busquemos por aqui uma condição mínima de respeito ao uso e proteção ao patrimônio natural, devem ser cobradas atitudes concretas de parte do Brasil. Uma vez que são eles que compram, em enormes proporções, as commodities brasileiras.

É preciso pensar em medidas que, no curto prazo, possam reverter o cenário de profunda desconfiança já comprovada pelas intenções singulares de representantes do poder público federal. Chegamos a uma situação de tamanha gravidade em relação aos desmandos na área ambiental, postulados praticamente todos os dias, que movimentos menos contundentes de parte de quem efetivamente tem condições de impor uma postura de compromisso com uma agenda coerente e responsável com o patrimônio natural nacional serão absolutamente ineficazes.

Ao que tudo indica, a administração federal apenas declinará de seus desatinos absurdos contra o meio ambiente a partir de imposições de ordem econômica internacional e em grande escala. Posições que revertam a conduta desviada dos maiores responsáveis por essas atitudes – os influentes setores da iniciativa privada que sustentam o desmanche da política ambiental do país.

*Clóvis Borges é diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), integrante do Observatório Justiça e Conservação e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN)
PUCPR: 60 anos fazendo a diferença no Paraná

Há 60 anos, nascia das águas de março a Universidade Católica do Paraná (UCP), promessa de um marco na educação do Paraná. Hoje, após seis décadas, um marco na educação do Brasil. Em 1959, portanto, era dado o primeiro passo de uma instituição, cuja perenidade e progresso eram promessas asseguradas por lideranças que, à época, fizeram dessa obra a missão da sua vida. Tenho certeza que, se conosco ainda estivessem, certamente diriam: “missão cumprida”.

Fruto da visão de dom Manuel da Silveira D’Elboux, então arcebispo metropolitano de Curitiba, homem que deixou importantes marcas da sua passagem por Curitiba (1950-1970), em especial na área da educação, a Pontíficia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) certamente foi sua grande obra que legou para a posteridade. Infelizmente, apesar da cooperação que se verificou na demanda do arcebispo, a natureza das instituições católicas já existentes em Curitiba não preenchia as condições legais para a constituição de uma universidade: Faculdade de Filosofia, condição obrigatória, com pelo menos 12 cursos, e duas no mínimo a serem definidas entre Direito, Medicina e Engenharia. Ao lado da Faculdade Católica de Filosofia, Ciências e Letras, que já existia desde 1950, fundada e dirigida pelos Irmãos Maristas, dom Manuel optou pela criação dos cursos de medicina e direito. O desafio não era fácil.

Em 22 de dezembro de 1973 a congregação marista assume a administração e direção da universidade como sua única mantenedora. Em 6 de agosto de 1985, na gestão do professor Oswaldo Arns, primeiro reitor da UCP na sua nova configuração, a universidade recebeu o título de Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

PASSADO E PRESENTE - Em 1998 assume a reitoria o professor doutor Clemente Ivo Juliatto, primeiro Irmão Marista a dirigir a universidade. Nos seus 16 anos de gestão, ele investe tanto na continuidade da infraestrutura física e acadêmica. A universidade passa de um percentual de menos de 4% de doutores  para 33%, o que coloca a PUCPR na trilha da pesquisa e da pós-graduação stricto sensu, além de a destacar em rankings nacionais e internacionais em termos de ensino, ciência e tecnologia.

Ao citarmos os reitores, é preciso reconhecer todos que nos antecederam nesses 60 anos de história – irmãos, professores, gestores e demais colaboradores - que souberam vencer com serenidade e competência os percalços que os desafiaram, que deixaram a sua marca neste período. É momento também de citar todos aqueles que hoje são o presente, que hoje levam adiante a caminhada aberta pelos que passaram, enfrentando os desafios dos tempos atuais.

FUTURO - Para colocarmos a universidade alinhada às exigências dos dias atuais e futuros, é fundamental reconhecer as grandes mudanças de caráter tecnológico. Vejamos a realidade a seguir: com a tecnologia em rápida evolução, tudo o que a pessoa quiser saber, conhecer ou aprender está disponível. Essa realidade nos obriga a ressignificar a função da universidade: em vez de somente transmitir conhecimento, caberá a ela ensinar a raciocinar, a dominar esse conhecimento, a sistematizá-lo e colocá-lo em uso na prática. Ou seja; a mera transmissão do conteúdo deixou de ter razão de ser. Eis o grande desafio da universidade. Não apenas no Brasil, mas em todo o mundo.

E a universidade, responsável pela formação dos profissionais para esse novo mundo, como fica? Exatamente esta foi a pergunta que a PUCPR se colocou há mais de 4 anos. Duas grandes mudanças foram então adotadas. Em primeiro lugar mudou-se a sistemática de aprendizagem, mediante a adoção das metodologias ativas  no processo de aprendizagem. A outra mudança ainda em implantação, mais disruptiva que a primeira, foi a formação por competências, que busca tornar os estudantes da PUCPR aptos a serem aprendizes autônomos por toda a vida, pela mobilização de saberes de forma integrada para poder resolver problemas que hoje ainda não são conhecidos.

Internacionalização, inovação, interdisciplinaridade, empreendedorismo, novos paradigmas de formação, onde o aluno vai construindo sua formação de maneira personalizada conforme a sua capacidade e vocação. Somente assim teremos condições de adequar a nossa caminhada às exigências atuais, com um processo de aprendizagem moderno, visando uma formação integral, onde a formação profissional caminha pari passu com uma formação cidadã, buscando alinhar a universidade às demandas e desafios do século 21, quebrando, se necessário, paradigmas superados. Eis os desafios para os próximos 60 anos.

*Waldemiro Gremski é reitor da Pontíficia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)
Nossa democracia participativa

O clima de polarização que se instalou no país, cuja origem está na construção da equação “nós e eles”, de autoria do PT, gera uma bateria de efeitos, nem todos negativos. Se é verdade que a dose de bílis tem escorrido com maior intensidade pelas veias sociais, é plausível a hipótese de que a conscientização política se expande entre os grupamentos organizados. Fenômeno positivo.

São palpáveis os sinais de que a política passou a fazer parte do menu cotidiano dos brasileiros. A par das duas grandes correntes que se manifestam intensamente, enaltecendo ou criticando as posições do governo Bolsonaro, subgrupos se multiplicam aqui e ali, falando de política, discorrendo sobre temáticas variadas em encontros e reuniões ou nas redes sociais. O fato é que o discurso político se faz presente na interlocução social, a denotar o interesse dos cidadãos na construção do pensamento nacional.

Essa massa expressiva tem escoado para espaços formados pelos movimentos sociais, alguns fortes, outros em estágio de crescimento, e todos eles ligados a setores sociais ou a categorias profissionais. São movimentos em defesa de gênero, minorias étnicas e raciais, contra ou a favor de determinadas temáticas (aborto, porte e posse de armas, escola sem partido), ou núcleos que desfraldam a bandeira de categorias organizadas, como servidores públicos, (forças armadas, policiais militares), professores, ruralistas etc.

O fato é que a movimentação dessas categorias passa a influir intensamente na elaboração e no ajuste de políticas públicas, como temos visto nesse ciclo de debates sobre a reforma da Previdência. Cada setor quer incluir suas demandas no projeto que vai ao segundo turno na Câmara, sem esquecer que Estados e municípios também criam sua frente de demandas.

Nunca se viu no país uma movimentação tão forte como a que se assiste no momento. A Constituição de 1988, claro, envolveu intensamente certos grupos, mas a pressão maior esteve todo tempo na esfera da representação política, com destaque para o centrão, que acabou imprimindo sua marca na Carta. Hoje, a organicidade social ganha fôlego, descendo aos andares mais baixos da pirâmide social e, de certa forma, constituindo novos polos de poder.

Essa é a boa novidade. O processo democrático passa a ganhar a voz das ruas, sendo balizado de forma centrípeta, ou seja, das margens para o centro. Significa que estamos andando, mesmo devagar, na rota de uma democracia participativa. A miríade de entidades criadas nos últimos anos começa a dar o tom na orquestração das demandas sociais.

Sob esse prisma, é lamentável ver a desconstrução de conselhos e associações que canalizavam a expressão de grupamentos, fazendo o devido encaminhamento aos órgãos do governo. Medida recente baixada pelo presidente Jair Bolsonaro acaba com um conjunto de entidades representativas da sociedade junto ao governo. Essa modelagem contribuía para consolidar nossa democracia participativa.

A propósito, convém lembrar que na Carta Magna temos três instrumentos voltados para firmar a democracia participativa, também designada de democracia direta: o plebiscito, o referendo e o projeto de lei de iniciativa popular, este que carece de assinatura de 1,5 milhão de eleitores. A larga estrutura dos conselhos formados para colaborar com o governo é, agora, esfacelada. O presidente prefere governar sem o apito social, o que mostra forte viés autoritário.

De qualquer maneira, a movimentação social, imune à decisão do presidente ou de outras autoridades, deverá continuar. Lembremos a gigantesca movimentação de junho de 2013. Por enquanto, os movimentos acompanham, atentos, os programas. Ainda estão vivendo o período de lua de mel. Mas poderão, a qualquer momento, encher as ruas. A divisão social em duas grandes bandas – nós e eles – (agora de maneira invertida), sugere que o país tende a ser um grande palanque, de onde emergirão pleitos em muitas frentes. Depois da Previdência, teremos a reforma tributária. E na mira, estará a reorganização do Estado.

Os programas de hoje e de amanhã passarão pelo crivo social. É bom saber que uma decisão unilateral, de cima para baixo, não vingará sem o cidadão aprová-la. A democracia participativa avança, mesmo sob objeção de governantes.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato