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O Brasil e a perda de investimentos em infraestrutura

Entre os muitos e grandes desafios do novo governo federal, está a retomada de investimentos em infraestrutura, compensando a redução de obras dos últimos anos e viabilizando a expansão de atividades produtivas do País.

Conforme o próprio Tesouro Nacional, os investimentos do governo no setor em 2018 foram os menores dos últimos 10 anos, prejudicando o escoamento da produção agroindustrial, a distribuição de riquezas e a livre movimentação da população.

De acordo com os dados revelados, o investimento público em infraestrutura correspondeu a apenas 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado, quando, segundo entidades da área de construção, seriam necessários no mínimo 3% somente para manter o sistema já existente.

Em 2018, conforme o levantamento, os investimentos públicos federais em infraestrutura, como construção, duplicação e manutenção de rodovias, ampliação de portos, melhoria de aeroportos, geração de energia e avanços nas telecomunicações, entre outros setores, somaram 27,875 bilhões de reais, o equivalente a  0,4% do PIB.

Entre as justificativas para a limitação dos investimentos nos últimos anos esteve o teto para gastos públicos, que limitou a expansão das despesas totais do poder público, com algumas exceções, como capitalização de estatais, à variação da inflação em 12 meses até junho do ano anterior.

A medida visou conter sucessivos déficits nas contas públicas, a partir de 2014, cujo rombo superou chegou a 100 bilhões de reais, no mesmo período.

Como gastos obrigatórios com aposentadorias e outros benefícios da Previdência Social e folha de pagamentos de servidores públicos estão crescendo acima da inflação, pela regra do teto sobram menos recursos para outras despesas, como são novos investimentos do governo federal.

Por essa razão, inclusive, se fala tanto em reforma da Previdência, entre outras medidas, visando reduzir o patamar de gastos obrigatórios e abrir espaços para outras despesas orçamentárias.

Para a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), para 2019 a estimativa de investimentos da União em infraestrutura é ainda menor, ficando abaixo de 20 bilhões de reais.

Segundo a entidade, se nada for feito para alterar essa situação, dentro de três ou quatro anos, os efeitos do teto de gastos públicos podem zerar os investimentos federais em infraestrutura.

Uma das saídas para essas dificuldades seria aumentar os investimentos em infraestrutura através de parcerias dos setores público e privado, mas há a questão da segurança jurídica que preocupa todas as partes envolvidas nesses empreendimentos.

Menos mal é que o setor de infraestrutura do governo admite que o País sofre historicamente com falta de investimentos nesta área e para tentar reverter a situação, tentará novas e maiores alianças com a iniciativa privada, destravando projetos de melhoria da logística , removendo entraves burocráticos, oferecendo segurança jurídica, reduzindo exigências do setor privado em novos empreendimentos e melhorando a qualidade dos serviços aos usuários.

Relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), do ano passado sobre investimentos públicos no Brasil no período entre 1995 e 2015, constatou que ficaram abaixo da metade do registrado em países emergentes, inclusive da América Latina, o que explica a perda de competitividade dos segmentos produtivos brasileiros.

*O autor é ex-deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado. E-mail: [email protected]
O comércio e a paz

O hábito de fazer perguntas é útil para aumentar o conhecimento e o desenvolvimento pessoal e profissional. Na história da humanidade, uma pergunta essencial é: por que houve tantas guerras no mundo? A quantidade de guerras e o número de pessoas mortas ou mutiladas formam um quadro assombroso de sangue e terror. Grosso modo, não é difícil dar duas ou três explicações, mas, em termos mais profundos, considerando os custos econômicos e as vidas exterminadas, chega a ser incompreensível que a humanidade tenha feito tantas guerras entre nações e produzido tantas mortes.

A mesma pergunta pode ser feita sobre duas outras tragédias humanas: uma, as guerras internas entre membros de um mesmo povo, uma mesma nação; outra, o número descomunal de mortes executadas pelos regimes comunistas. Se conseguirmos entender as principais causas desses eventos sanguinários, podemos melhorar o debate sobre ações e políticas capazes de combater a possibilidade de sua ocorrência.

Zbigniew Brzezinski (1928-2017), estrategista de política externa que foi Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos na gestão do presidente Jimmy Carter, entre 1977 e 1981, fez um relatório chamado As Megamortes e listou 243 conflitos militares no século 20, que teriam resultado em 187 milhões de mortos. Esse total foi contestado porque nele constavam 20 milhões de mortos pelo regime comunista chinês de Mao Tsé-Tung, de 1949 a 1976, quando relatórios posteriores dizem que foram 70 milhões de mortos. Assim, as megamortes seriam 237 milhões, sendo 50 milhões nas duas guerras mundiais e 100 milhões de mortos pelos regimes comunistas ao redor do mundo.

Entre as causas das guerras geralmente são citadas duas: (1) a conquista de territórios; (2) o desejo de poder e dominação. Para entender essas duas causas, é preciso recorrer à história. Um dia a humanidade foi nômade e movia-se de um lugar a outro em busca de pesca, caça e coleta. Quando escasseava a fonte de peixes, animais e frutas, as famílias se mudavam para outras terras em busca de alimentos, até que, há 10 mil anos, a agricultura foi descoberta e tornou possível a fixação dos povos em determinado lugar. Com o passar dos séculos, o crescimento da população e a exaustão da terra, a busca de novos territórios tornou-se causa de invasões de terras habitadas.

Muitas vidas humanas foram exterminadas em nome da conquista de territórios e a busca de meios de sobrevivência. Imaginemos dois países, um que tem petróleo mas não tem alimentos, e outro que produz alimentos mas não tem petróleo. Se ambos desejarem alimentos e petróleo, um pode invadir o outro, tomar seu território e se apossar de suas riquezas. Não são poucas as invasões e as guerras feitas com base nessa ideia. É nesse contexto que entra um tema econômico da maior relevância: o comércio entre as nações.

 

Diante da guerra, o próprio Karl Marx era influenciado pelas ideias liberais de Manchester, que em um congresso declarou que num mundo de livre comércio não há mais razão para as nações lutarem umas com as outras. Se existe o livre comércio e toda nação pode aproveitar os produtos de todas as outras, a causa mais importante para a guerra desaparece.

Neste início de 2019, um dos temas principais no Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, é o comércio internacional. Quanto mais as nações ampliarem o comércio multilateral não somente de mercadorias, mas também de serviços, tecnologias, investimentos e capitais, maiores serão as possibilidades de obter vantagens mútuas em favor do crescimento econômico e do desenvolvimento social.

Os países são dotados de recursos naturais diferentes, tornando útil a expansão das trocas comerciais entre as nações. Ocorre que o comércio internacional atual abarca um leque muito maior do que matérias-primas naturais e os produtos delas derivados, para incluir serviços, capitais, tecnologias e um turbilhão de inovações. Parte da pobreza brasileira resulta de o país ter retardado sua inserção no mercado internacional, criado monopólios e inventado reservas de mercado, como a da informática. Ainda hoje o grau de inserção externa do Brasil é pequeno, e ampliá-lo de maneira eficiente, com bons tratados, fará bem ao país.

*José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.
Aprender com arte amplia o aprendizado

Quem tem filhos ou convive com crianças sabe bem: o aprendizado não acontece somente por meio de livros e aulas, já que tudo pode ser fonte de informação e experiências ricas para os pequenos que estão descobrindo o mundo. E nada melhor que mostrar às crianças o universo da arte, repleto de cores, texturas e oportunidades para criar. O papel do mundo artístico tem crescido cada vez mais nas escolas e já é parte essencial do currículo escolar, já que explorar cores, formas e texturas estimula habilidades e desenvolvimento das crianças.

No Colégio Marista de Londrina, por exemplo, as aulas de artes exploram diferentes habilidades das crianças, estimulando o protagonismo e a critividade dos alunos. A linguagem artística é a via que interliga todas as outras linguagens que são abordadas na educação infantil. Ela é fundamental para o desenvolvimento humano, é a forma de nos comunicarmos com os outros e com o mundo e desenvolve habilidades que vão auxiliar todas as outras aprendizagens.

Por meio da arte, é possível ainda ampliar o repertório imagético, essencial para que o aluno consiga criar textos, desenvolver a habilidade motora fina para escrever, além de contribuir para a formação de alunos críticos.

Além disso, é possível listar várias outras vantagens, que beneficiam os mais variados perfis de alunos. As artes despertam a criatividade, pois é uma linguagem que ensina sobre cores, perspectivas e técnicas necessárias para contar uma história de diferentes maneiras. Desenvolve habilidades motoras, pois o simples ato de segurar um pincel, giz de cera ou uma tesoura proporciona o desenvolvimento das habilidades motoras. Os traços e rabiscos dos desenhos já são o início do estímulo à escrita. Os movimentos que a criança faz com as mãos auxiliam na alfabetização.

As expressões artísticas permitem o estímulo ao foco e concentração para terminar os desenhos, colagens e pinturas. O foco é um dos elementos importantes para o aprendizado ao longo da vida.

As experiências artísticas impulsionam o pensamento crítico, ensinando os alunos a serem mais cuidadosos e meticulosos na maneira como observam o mundo. Também desenvolve o aspecto cognitivo, favorecendo a aprendizagem formal durante a vida escolar.

Habilidades sociais também são estimuladas por meio as artes. Muitas atividades proporcionam o aprendizado do trabalho em equipe. As crianças entendem que sua participação é essencial para o sucesso daquela atividade e compreendem que são responsáveis por suas contribuições ao grupo. Se eles pararem ou se atrapalharem, perceberão que é importante assumir a responsabilidade pelo que fizeram.

Eliane Belo é professora da Educação Infantil do Colégio Marista Londrina
A importância do empreendedorismo na educação infantil

O estudo “Educação da Primeira Infância”, da Fundação Getúlio Vargas, divulgado em 2005, demonstrou que a falta de investimento em educação infantil prejudica a sociedade como um todo: aumenta a criminalidade e o Estado acaba destinando grande parte das verbas públicas em mais presídios, em programas de ressocialização e segurança. Por isso, dentre outros fatores sociais, o empreendedorismo privado focado em projetos para a pré-escola tem se tornado cada vez mais uma porta para um futuro melhor.

Investir em educação traz benefícios para o país, uma vez que a base de uma comunidade próspera é a educação de qualidade. A primeira infância (que vai do nascimento até os cinco anos de idade) é o período em que a criança passa por intenso processo de desenvolvimento e é, portanto, um momento bastante propício para o aprendizado. Assim, empreender na área da educação infantil é a realização do sonho de muitas pessoas que buscam atividades com as quais possuem afinidade e experiência.

Para empreendedores de qualquer outra área, os desafios são diários, as novidades são constantes e as mudanças, inevitáveis. O mais importante a ser considerado quando se quer iniciar um negócio é ter em mente que gostar do que faz e ter um propósito claro são fundamentais. Ensinar crianças nessa fase da vida é mais que motivador: é poder contribuir para a transformação na vida de um ser humano.

Outra questão de extrema importância é acompanhar as mudanças do meio educacional para empreender de acordo com as competências e habilidades que as novas gerações exigem. A Geração Alpha (crianças nascidas depois de 2010), por exemplo, é estimulada desde bem pequena ao contato tecnológico e à autonomia no processo de ensino-aprendizagem. Assim, contar com um time de profissionais que tenha dinamismo e vontade de aprender também é essencial para trilhar no ramo da educação infantil com sucesso.

Além desses aspectos, há mais um, não menos importante: o espírito de coletividade. É compreender que a educação é responsabilidade social também, ter ciência do poder que se tem em mãos nessa área e que uma criança bem-educada mudará o mundo num futuro em que todos viveremos, pois a globalização não tem limites e essa geração prova que os rumos da sociedade serão de cada vez mais inclusão, mais interação e mais humanidade.

Portanto, como a ineficiência do Estado com a educação ainda é uma triste realidade, cabe ao empreendedor, com todas as qualidades e competências adquiridas, fazer o papel revolucionário de trabalhar em prol da sociedade como um todo.

*Sylvia de Moraes Barros é CEO da The Kids Club, rede de franquias especializada no ensino de inglês para crianças a partir de 18 meses até os 12 anos. Além dos cursos de imersão no idioma, a rede também oferece certificação internacional e organiza um intercâmbio exclusivo para a Inglaterra
O sucesso e o fracasso

O novo governo nem chega a completar dois meses de vida e já dispara um conjunto de interrogações: qual o rumo em que caminhará o país? Terá vez por aqui um populismo de direita? O presidente Jair Bolsonaro conseguirá aprovar a agenda do Executivo no Congresso? Os militares assumirão que papel no cenário institucional, o de tutela do novo governo ou o de poder moderador? A polarização política, tão acesa ao correr da campanha, tende a continuar?

As dúvidas se multiplicam ante a perplexidade que tomou conta do país com o desenrolar do affaire envolvendo o presidente Jair, seu filho Carlos e o ex-ministro da Secretaria-Geral do governo. É um exagero dizer que o país vivenciou uma crise. Não. Faltou muito para o episódio assumir o porte de crise. Pior foi ouvir o presidente nos áudios trocados entre ele e Bebianno. Que realmente manteve comunicação com o presidente, não sendo assim o mentiroso conforme atestava o Bolsonaro filho. A decolagem, portanto, ocorre com turbulência.

Daí a perplexidade. O caso, que teve muito a ver com desavenças e ciumeira, poderia ser equacionado rapidamente pelo presidente não tivesse ele agido sob o escudo familiar. Mas o extravagante comportamento do capitão deu dimensão muito maior do que o imbróglio merecia. A rispidez com que tratou seu ex-ministro e a pecha de “inimigo” com que se referiu à Rede Globo conferem um tom menor à expressão do presidente.

A emoção, que se faz presente também em suas mensagens pela rede, diz muito sobre ele. Sugere que ainda está no palanque. Abre, assim, o flanco para a permanência da polarização entre a banda da direita, da qual é o ícone, e a banda da esquerda, onde estão PT, PSOL e núcleos sociais fortes, como o da Academia.

Os primeiros 50 dias do governo não permitem dizer onde vamos parar. O teste das reformas – pacotão da segurança do Moro e nova Previdência de Guedes – será a bússola. Passando, o país terá um norte definido. Mas as dificuldades crescem. A derrota do projeto de acesso à informação mostra que a base governista não está fechada com a agenda do Executivo.

O presidente terá de engrossar o caldo populista – bolsas, melhoria geral dos serviços públicos, a partir de saúde, educação e segurança – para agradar as massas. O conservadorismo na área dos costumes marcará sua identidade, mas dará volume à polêmica.

Após a lua de mel dos quatro a cinco meses, a real politik, que começa a dar as caras, apresentará a fatura de cargos. A esfera política pode retirar apoio ao governo caso não receba compensação. O PSL, partido do presidente, com a maior bancada na Câmara, corre o risco de ver seus integrantes trocando tiros. Se o governo não for bem avaliado, o partido abrirá uma rota de fuga.

Já os militares andarão sobre a corda bamba. Mesmo tendo chegado ao centro do poder pelo voto (Mourão teve a mesma votação de Bolsonaro), temem a pecha de guardiões de um governo militarista de direita. Ao invés de tutelarem o governo, querem ser reconhecidos como “poder moderador”, com foco na harmonia, pacificação das bandas, na tentativa de puxar o país para o centro do arco ideológico, evitando margens radicais. Ao mesmo tempo, tentarão puxar o presidente da redoma familiar, impondo-lhe o discurso da razão.

Terão condição para assumir esse papel? É possível, caso o Executivo apresente trunfos na economia e nas frentes dos serviços públicos. Porém, com 8 ministros militares o governo sempre será visto como um arquipélago fortemente guardado por gente que tem o poder armado. Não poderia ser diferente.

Organizações e movimentos sociais passarão o primeiro ciclo – 6 meses iniciais- no patamar da observação. Terão cuidado para não sair às ruas sob qualquer motivo. Estarão de olho no caminhar do governo. Depredação de patrimônios, invasão de propriedades estarão sob a lupa do aparato governamental. E as oposições aproveitarão brechas nos projetos do Executivo para expressar seu escopo: quebra de direitos de trabalhadores, prejuízos nos ganhos das classes médias, desprezo pelos direitos humanos etc.

Se o governo chegar ao fim de 2019 com a inflação sob controle, juros baixos, emprego aumentando, serviços básicos melhores, Bolsonaro terá passado no primeiro teste. Mas se a esfera familiar de Bolsonaro continuar a dar o tom, é melhor desfazer a ideia de que Deus é brasileiro.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato
Tragédia de Brumadinho, Minas Gerais: uma reflexão, um aprendizado

Há menos de três anos, a cidade de Mariana e o Distrito de Bento Rodrigues, ambos em Minas Gerais (MG), agonizavam na tragédia que seria uma das maiores que o Brasil teria vivenciado: o rompimento de uma barragem de rejeitos da Samarco. Muitas vidas ceifadas, muitas pessoas sem ter onde morar e o meio ambiente, mais uma vez, sofrendo com a inércia do poder público e os desmandos de gananciosos pelo lucro a qualquer preço.

E a tragédia logo se repete, com as vidas perdidas, os danos patrimoniais, ambientais e sociais com a tragédia de Brumadinho (MG). Tudo isso deixa mais distante do Brasil o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS, cujas metas buscam concretizar os direitos humanos de todos e equilibram as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a econômica, a social e a ambiental.

Desde que o ser humano surgiu no planeta, entre 350 a 500 mil anos atrás, a relação com o ambiente tem se transformado a partir do desenvolvimento das civilizações. A dependência da nossa espécie pelos recursos naturais estava inicialmente clara, pois os primeiros agrupamentos humanos migravam em busca de disponibilidade de alimentos, água e abrigo. O desenvolvimento da agricultura e de outras tecnologias permitiu que fixássemos residência, já que as nossas necessidades começaram a ser atendidas com a produção de alimentos e a oferta de bens de consumo e serviços.

Conforme caminhamos para condições mais confortáveis de vida, a nossa dependência pelos recursos naturais fica menos evidente, demandando a reflexão a respeito do quanto somos vulneráveis. Atraídos pelas tentações do consumo e de padrões de vida que exigem a substituição e o descarte de materiais, já não enxergamos o quanto estamos impactando o ambiente. Poucas pessoas compreendem, por exemplo, que os meios de transporte e os eletrodomésticos que utilizam diariamente são o resultado de processos produtivos como a mineração, que extraem os recursos naturais e geram resíduos perigosos.

Os processos produtivos ganharam dimensões inimagináveis, para atender um maior número de pessoas no planeta e o consequente aumento na demanda por bens e serviços. Além disso, a questão da lucratividade tem grande influência para o quadro atual de degradação. Em busca de maiores ganhos, algumas empresas inclusive colocam em risco a vida de muitos seres vivos ao “economizarem” com estruturas de segurança e por não investirem o suficiente em gestão de resíduos. Ressalta-se que o desenvolvimento sustentável somente será alcançado com os princípios da Agenda ODS para 2030, que prevê um plano de ação para as pessoas, para o planeta e para a prosperidade.

Todo esse cenário torna ainda mais graves as questões expostas com o rompimento da barragem de rejeitos na cidade de Brumadinho, que tirou a vida de centenas de pessoas e causou impactos ambientais incalculáveis. A busca pelo lucro a qualquer custo fica evidente quando nos encontramos em um contexto no qual há três anos a cidade de Mariana esteve inserida: quando foi atingida por rejeitos produzidos pela empresa pertencente ao mesmo grupo que contaminou Brumadinho. Por que não investir em um processo mais seguro para a destinação dos resíduos de mineração? A resposta é simples: investir em destinação de resíduos resulta em menor lucratividade. Entretanto, a tragédia nos mostra o quanto essa afirmação está equivocada.

Esse contexto só reforça o imperativo do comprometimento global com a conservação dos recursos naturais e do desenvolvimento sustentável. Iniciativas como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) contribuem para repensar o modelo de desenvolvimento vigente, que negligencia as questões ambientais e não reflete sobre a igualdade social, saúde e bem-estar da população. Acidentes como os observados em Mariana e Brumadinho seguramente não ocorreriam se as metas, estabelecidas nos ODS, estivessem de fato fazendo parte da agenda dos países signatários, como o Brasil, e houvesse um real comprometimento com essas causas. A nossa comodidade frente ao atual sistema produtivo é outro fator que dificulta ainda mais atingir as metas propostas nos ODS.

Fica cada vez mais evidente a necessidade de dialogar com a sociedade sobre a complexidade dessas questões, pois o modelo de consumo, de descarte e de lucro a qualquer custo já mostrou que não tem sustentabilidade. Temos a opção de repensar as nossas escolhas diárias ou sofrer as consequências pela falta de água segura, de solo fértil e do ar limpo para respirar. Os recursos naturais pertencem a toda humanidade, e a cada crime ambiental, a cada nova contaminação, a cada nova espécie extinta, a cada ser humano que morre para outro lucrar, toda a humanidade perde. Não se olvidem, se tantas outras, passarem por tragédias semelhantes, pois o dever de casa e o aprendizado se tornou algo secundário para esses empreendedores.

 

Augusto Lima da Silveira – coordenador do Curso Superior Tecnologia em Saneamento Ambiental na modalidade a distância do Centro Universitário Internacional Uninter. Atualmente é doutorando em Ecologia e Conservação.
Ivana Maria Saes Busato – coordenadora dos Cursos Superiores de Tecnologia em Gestão Hospitalar e Gestão de Saúde Pública do Centro Universitário Internacional Uninter, ambos na modalidade a distância. Tem atuado na área de Saúde Pública, Gestão Pública e possui doutorado em Odontologia.
Rodrigo Berté – diretor da Escola Superior de Saúde, Biociências, Meio Ambiente e Humanidades do Centro Universitário Internacional Uninter. Atua na área de Meio Ambiente e Sustentabilidade. É Pós-Doutor em Educação e Ciências Ambientais pela Universidade Nacional de Ensino à Distância – Madrid (Espanha).
As boas perspectivas das usinas de lixo urbano

Como no mundo atual pouco se cria e muito e copia, o Brasil deveria avaliar e adotar medidas e empreendimentos de outros países, quando adequados à realidade, potencialidades e necessidades nacionais.

Este é o caso da maior usina do mundo de transformação de lixo doméstico em energia elétrica, que deverá entrar em operação já em 2020, em Shenzhen, na China.

A grande e inovadora estrutura ainda será cercada por parque verde, segundo divulgado recentemente, ressaltando suas finalidades sustentáveis, pois além de destinar corretamente os resíduos gerados pela população urbana, gerará eletricidade mais barata e produzirá fertilizante orgânico, para a produção de alimentos mais saudáveis.

A elaboração do projeto coube a dois escritórios especializados e a usina ocupará espaço de 112,6 mil metros quadrados, com construção baseada em design simples, para o processamento de lixo de cidade que está entre as maiores produtoras de resíduos do mundo.

O prédio principal será circular, rompendo com o tradicional formato retangular de construções industriais, estimulando novos projetos do setor, pois a usina deverá processar um terço do lixo produzido pela cidade chinesa diariamente. 

Os resíduos gerados pela população local somam 15 mil toneladas por dia, pois a cidade possui 20 milhões de habitantes. Desse total, cinco mil toneladas serão incineradas todos os dias, gerando 550 milhões de kWh de energia.

O objetivo do empreendimento é tornar a cidade mais verde e retardar a expansão da produção de resíduos, que atinge cerca de 7% ao ano, com as vantagens da geração de energia e produção de fertilizante orgânico, com benefícios para a população urbana e rural.

Além disso, o novo projeto a geração de energia não se restringirá à queima do lixo, pois dos 66 mil metros quadrados de área do teto da indústria, 44 mil metros quadrados serão cobertos por painéis fotovoltaicos, gerando ainda mais energia limpa por meio da luz solar.

Cercada por matas e jardins, a planta industrial poderá ser acessada pelos moradores e visitantes da cidade, interessados em conhecer melhor o empreendimento. O projeto começou a ser elaborado em 2016 e a previsão de finalização da construção é em 2020.

Trata-se, portanto, de iniciativa que merece a atenção e o estudo aprofundado de governantes, legisladores, empresários, ambientalistas e cidadãos brasileiros, pois poderá solucionar alguns dos grandes e graves problemas ambientais das cidades do País.

A maioria dos grandes, médios e pequenos centros urbanos brasileiros,como se sabe, enfrenta uma série de deficiências na coleta e destinação do lixo domiciliar, cujo abandono nas vias públicas, além de poluir o meio ambiente e a paisagem urbana, resulta no entupimento de bocas-de-lobo e redes de esgotos e de coleta de águas pluviais.

Tais problemas, como se sabe, podem resultar em alagamentos de vias urbanas, residências e empresas, com grandes prejuízos econômicos e ambientais para a população, além de riscos de afogamentos, com perdas de vidas humanas e grande sofrimento de familiares das vítimas.

Não só pela destinação correta de resíduos poluentes, a adoção de fontes alternativas de geração de energia, como as usinas de lixo, trazem  muitos outros benefícios para a população, como é o caso da redução de custos de transmissão e distribuição de eletricidade, que elevam as contas mensais de luz de pessoas de baixa renda.

*O autor é ex-deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado. E-mail: [email protected]
Está sobrando aço no mundo: e agora?

O ano de 2019 começou com desafios ainda maiores para os exportadores brasileiros de aço. Isso porque, a exemplo do que fez o presidente Donald Trump, a União Europeia aprovou, no último dia 16, a imposição de barreiras à importação deste produto. A proposta precisa ser aprovada pela Comissão Europeia, mas parte dos países europeus já concordou para que entre em vigor a partir de fevereiro.

Entretanto, para entendermos esse novo capítulo da guerra comercial, precisamos retornar à decisão tomada por Donald Trump, em março do ano passado. Na ocasião, o presidente dos Estados Unidos anunciou a criação de novas taxas para a importação de aço e alumínio ao país, cobrando uma sobretaxa de 25% para o aço importado e de 10% para o alumínio. Apenas o aço importado do Canadá e do México não seriam sobretaxados; já com relação aos demais países, as importações seriam verificadas individualmente. Trump justificou a medida como forma de segurança nacional, uma vez que alegou a existência de práticas desleais de comércio que estariam devastando a indústria americana de aço e alumínio. Ainda, é importante lembrar que a sobretaxa, considerada por outros países como protecionista, foi uma de suas promessas de campanha eleitoral.

Com a diminuição do volume importado pelos Estados Unidos, os países exportadores de aço tiveram que procurar outros mercados para escoar a produção e, dentre estes mercados, encontra-se o europeu. O aumento das exportações para a União Europeia fez com que os países deste bloco aprovassem a imposição de barreiras contra a importação do aço, sob a justificativa de “blindar os produtores de aço da Europa” e de “preservar os fluxos de comércio tradicionais”. Assim, todas as importações deste produto ficarão sujeitas a uma cota até julho de 2021 e o volume que ultrapassar o teto fixado será taxado em 25%. Pela proposta, 26 produtos seriam taxados, dentre os quais encontram-se chapas, lâminas e certos tubos, que são produtos exportados pelo Brasil. No caso brasileiro, por exemplo, os importadores europeus que desejarem importar laminados e/ou folhas metálicas do Brasil, terão uma cota inicial de 168 mil toneladas e de 50 mil toneladas, respectivamente; o volume importado excedente será sobretaxado em 25%.

Mas quais os impactos que essa medida imposta pela União Europeia poderá causar no Brasil? Em 2018, cerca de 18% das exportações de aço do Brasil foram destinadas à Europa, o que representa a exportação de 2,1 milhões de toneladas, cerca de USD 1,4 bilhão. Com as cotas e a sobretaxa, o impacto imediato seria a redução do volume comercializado com os países europeus. Diante disso, o Brasil deverá buscar outros mercados para a comercialização de sua produção para que a indústria nacional, que teve sua capacidade instalada reduzida para 70%, não sofra mais retração. Caso contrário, a consequência, em médio prazo, seria o aumento da vulnerabilidade, a perda da competitividade da indústria e o agravamento da crise econômica interna.

Entretanto, a onda protecionista, muito em decorrência dos desdobramentos das medidas adotadas pelo presidente dos Estados Unidos, contribui para a restrição dos mercados disponíveis para a livre comercialização. Dessa forma, os países exportadores de aço concentrarão seus esforços para vender seu excedente produtivo para mercados que não possuem restrições, aumentando a concorrência. Há quem defenda que a América Latina seja o principal destino para a absorção do excedente da produção mundial do aço. Independentemente do destino, está sobrando aço no mundo. E quanto maior a quantidade de produto ofertado, mais o mercado força os preços para baixo, desvalorizando, assim, o produto.

Enquanto a medida não entra em vigor, o Brasil pretende recorrer a mecanismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), e negocia com a União Europeia uma possível flexibilização aos produtos brasileiros. Apesar dos esforços, o futuro ainda é incerto.

*Renata Fragoso Maria Sobrinho, doutora em Administração e professora dos cursos de Administração, Comércio Exterior e Engenharia da Produção da Universidade Positivo.
A correia dentada

Já era passado das oito da noite quando resolvi ir ao banco. Saí de chinelos, vestido surrado, sem jantar e só com o cartão do banco e celular. Nem carteira levei, tampouco os documentos. Na metade do caminho, o carro morreu. Sem preâmbulo, sem cerimônia.

Estacionei como deu e fui à farmácia próxima pedir ajuda. Encontrei um casal, que é proprietário do lugar, fechando o estabelecimento. Implorei por socorro. Ele, psicólogo, ela, farmacêutica, foram comigo até o carro.

- Será que é gasolina?

Fomos ao posto e compramos gasolina. Abastecemos e nada. Nem sinal de vida do bonitão. Quando virávamos a chave, ele fazia menção de pegar, só para tornar a frustração ainda mais sentida, e morria, como uma senhora engasgada com osso de frango.

- Será a bateria?

Empurramos por duas quadras. O psicólogo dirigindo, eu e a farmacêutica empurrando, e em seguida os rapazes da frutaria se uniram a nós na procissão do tranco. Estacionamos de novo o elemento empacado, que mais parecia uma mula enfezada.

- Vou ligar para o Emerson, é mecânico do bom.

Emerson estava a caminho do hospital para uma injeção de antialérgico.

- Eu conheço um – veio dizendo um rapaz da frutaria.

Nisso já passava das nove da noite, a cidade adormecia e a rua ficava cada vez mais escura e deserta. O psicólogo ligou para o mecânico que chegou depois de uns vinte longos e pesados minutos. Chegou e já foi pedindo para abrir o capô, naquele silêncio de clínico, de quem precisa de privacidade e concentração com o paciente.

- Dá a partida. Tá bom, pode parar.

Futricou numa mangueira.

- De novo.

Mexeu num cilindro metálico.

- Mais uma vez.

Silêncio.

- É, moça – ele avaliou a possibilidade de fazer uma brincadeira, mas meu ar solene enviuvado o deteve – sua correia dentada foi pro brejo e talvez as válvulas tenham entortado também.

- Quanto custa?

- Só a correia, R$350,00 mas se tiver que trocar as válvulas, R$1.350,00.

- Está certo. Pode rebocar.

O mecânico rebocou meu carro com uma corda, enquanto o psicólogo o dirigia. Na retaguarda do cortejo estávamos eu e a farmacêutica no carro do casal, que, no fim da homilia, me trouxe até em casa. Casa essa, cuja chave eu havia esquecido dentro do carro.

E como se Deus estivesse por me testar, no mesmo segundo em que desci do carro, a dona da pensão vinha atravessando a rua. Acabara de chegar de seu compromisso e me abriu as portas da casa. Como se fossem as portas do céu.

Amanda Salvador tem 24 anos, é toledana e estagiária da Embrapa Pecuária Sul, em Bagé.
Primeiros dias de aula: como desbravar as fronteiras da escola

A inserção na escola pode ser considerada a primeira experiência de vida social e cultural das crianças, longe da presença constante de seus pais ou responsáveis. O espaço escolar é um ambiente novo, com muitas coisas para conhecer e relações interpessoais a serem desenvolvidas. Para crianças tão pequenas, trata-se de conhecer um lugar muito diferente do que foi vivenciado até então.

Diante de tão grande desafio, a forma como cada criança irá reagir é uma caixinha de surpresas. Os primeiros dias de aula fazem com que elas comecem a utilizar o pouco conhecimento que já adquiriram sobre as relações sociais. Algumas choram, outras podem demonstrar atitudes agressivas, de isolamento. Outras gritam, mostram desespero. Porém, algumas tiram de letra, demonstrando tranquilidade e confiança. Com tamanha mudança, é compreensível que os pais também sofram. Cabe à escola, em parceria com os pais, buscar recursos para amenizar o sofrimento durante a fase de adaptação, tornando este período mais ameno, alegre e prazeroso. Isso é possível!

É importante lembrar que cada criança é única e a demanda deve ser atendida dentro de suas necessidades. O diálogo com os professores e demais educadores da escola é fundamental, pois garante a inserção no ambiente escolar dentro daquilo que ela é capaz de enfrentar. Uma conversa prévia, de preferência antes do primeiro dia de aula pode ser muito proveitosa. Neste momento, pais ou responsáveis podem contar um pouco sobre a história de seus filhos, ajudando os professores a se planejar para que saibam como agir com cada um de seus alunos. Ao mesmo tempo, essa atitude garante a tranquilidade que os pais precisam para agir conforme as orientações da escola.

Essa tranquilidade, por parte dos responsáveis pelos pequenos, facilitará a chegada no ambiente escolar. Visitar a escola antes do início das aulas, mostrando os espaços e principalmente, deixando claro que a escolha também é motivo de muita alegria para os pais, é um movimento interessante. A criança percebe facilmente quando seus pais estão mais tranquilos e quando a escola está pronta para recebê-la.

Levar a criança para que participe da compra dos materiais, experimente o uniforme, escolha a lancheira e a mochila são movimentos facilitadores para o inicio da formação de vínculos, tão fundamental para uma vida escolar de sucesso. Poucos dias antes do início das aulas, é importante conversar de uma forma simples e direta, contando que escolheram a escola com muito carinho e que ela vai se divertir, fazer novos amigos, conhecer novas brincadeiras e que os professores estarão sempre a ajudando. Mesmo as crianças muito pequenas precisam participar deste diálogo, para que se sintam acolhidas e seguras. Falem apenas o que o filho precisa saber, evitando causar-lhe ansiedade. Ressaltem que ao final do período voltarão para buscá-lo.

Mesmo diante de toda a preparação, quando o primeiro dia de aula chegar, as crianças que até o momento mostraram-se alegres, podem reagir com insegurança. Nesse momento, a determinação dos pais é de fundamental importância. Combinem com os professores qual será o tempo de permanência das crianças em sala de aula, sendo que não precisam ficar o período inteiro desde o primeiro dia.

É importante deixar um espaço de tempo, conforme a necessidade de cada criança, para que os professores se aproximem e comecem a criar vínculos. Quando os pais permanecem todo o tempo junto, com a criança no colo, os adultos da escola têm mais dificuldade para iniciar estas relações. E quando eles voltam para a sala de aula cada vez que os filhos choram, eles percebem que conseguem a atenção que desejam para ter os pais ao seu lado, o que torna este momento mais estendido. A frequência diária também é muito importante, evitando faltas ou atrasos, para que a criança comece a perceber a rotina da qual fará parte e, consequentemente, sinta-se segura como alguém que faz parte deste espaço.

Não existe um tempo padrão para o período de inserção/adaptação da criança na escola. Algumas ficam bem desde o primeiro dia, outras começam bem e passadas as novidades dos primeiros dias começam a chorar, algumas choram por uma ou duas semanas e outras levam um tempo maior para se tranquilizarem. Mais uma vez, o diálogo com os professores se faz importante para que combinem diariamente qual vai ser o próximo passo, levando em consideração a disposição e a necessidade de cada um. Por último, lembre-se que chorar não significa que a criança não goste da escola, mas sim que está se adaptando a um mundinho novo que lhe trará muitas aprendizagens e alegrias futuramente.

Ana Paula Detzel, coordenadora de segmento da Educação Infantil e do Primeiro Ano do Ensino Fundamental do Colégio Marista Santa Maria.