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A oportunidade do erro

Humilhação talvez seja a palavra que melhor define a sensação que sentimos quando temos que - forçosamente - admitir que estamos errados. Estudiosos do assunto afirmam que isso acontece porque, naturalmente, enxergamos o erro como sinônimo de incompetência e acreditamos que pessoas bem sucedidas nunca erram. De onde vem essa crença? Em que momento de nossas vidas passamos a enxergar as coisas dessa forma? Se voltarmos no tempo e recuperarmos a maneira como as gerações anteriores eram ensinadas, vamos notar que a raiz desse pensamento pode ter brotado dentro das escolas. Professores costumavam - e alguns ainda insistem nisso - ensinar que existia apenas uma resposta certa para cada questão apresentada. Quem não conseguisse chegar ao resultado apontado pelo mestre, falhava - e ponto final. Aquele que respondesse da forma esperada, ganhava pontos e a admiração de todos. 

Tal constatação nos leva a refletir que, desde cedo, somos programados a não permitir que o erro aconteça, quando, na verdade, o correto seria sinalizar para crianças e jovens que todos têm a permissão de errar - não para transformar o erro em hábito, mas como parte de um processo natural de aprendizado que começa na escola e se estende para a vida. Entre os desafios diários que líderes enfrentam à frente de uma equipe, organização ou país talvez um dos mais difíceis seja aprender a lidar com os próprios erros. Quantos gênios e prêmios Nobel erraram antes de acertar? Precisamos aceitar, sem resistências, que cometer erros faz parte da natureza humana. Aprender a enxergá-los de maneira positiva é o primeiro passo para errar cada vez menos.

Vamos agora voltar nossa reflexão para o contexto escolar e as crianças. O processo de desenvolvimento infantil envolve aprender e isso só se concretiza quando a criança tem a oportunidade de experimentar e descobrir. O que pais e educadores precisam ter em mente é que, de início, é normal e até esperado que ela não acerte e não consiga ter êxito em suas tentativas. E a forma como as primeiras falhas são encaradas é que será determinante para o sucesso futuro. Tomemos como exemplo a matemática. A resistência em relação à disciplina vem da crença de que é difícil demais e não é qualquer um que consegue ser bem sucedido na resolução das questões e conceitos matemáticos. E como, culturalmente, temos o receio de errar, a reação natural é resistir ou fugir da matéria.

Não por acaso, o Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes mostrou que em 2016 o Brasil ocupava a 66ª colocação no ranking que avalia o desempenho dos jovens em matemática - a colocação mais baixa alcançada pelo país nas últimas cinco edições do programa. Mas, e se os alunos perderem o medo de errar? Podemos, com certeza, melhorar essa realidade. O PED Brasil, um programa desenvolvido na Universidade de Stanford em parceria com o Centro Lemann, propõe novas abordagens para o ensino da disciplina, mostrando o quão produtivo pode ser o aprendizado quando o erro é tratado em sala de aula como algo positivo. Sim, positivo! Afinal, é possível aprender muito mais com o erro do que com o acerto. Quando erramos, ficamos alerta, tentamos descobrir onde foi que erramos e o que é necessário para acertar na próxima vez. Portanto, fica aqui um convite para pais e educadores: vamos ajudar nossas crianças e jovens a enxergarem no erro uma oportunidade para fazer sempre mais e melhor?

* Celso Hartmann é diretor-geral do Colégio Positivo.
Os vencedores dos muitos desafios da reforma agrária

Nem todo os assentamentos do programa de reforma agrária, implantados a partir dos anos 70 e 80, estão envolvidos em irregularidades, como venda e/ou arrendamento de lotes, entre outras, além da dependência de programas sociais do governo.

Os verdadeiros pequenos agricultores e/ou trabalhadores rurais, com tradição e vocação para a atividade agropecuária, souberam aproveitar muito bem a oportunidade de cultivar a sua propriedade, garantindo o sustento da família e a expansão e diversificação de suas ações produtivas.

No município de Lucas do Rio Verde, no Norte do Mato Grosso, por exemplo, estão muitos dos verdadeiros agricultores que participaram do primeiro grande movimento dos sem-terra no País, que em 1981 montaram acampamento nas margens de rodovia, na Encruzilhada Natalino, em Ronda Alta, no Norte do Rio Grande do Sul.

A mobilização resultou na criação do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). Durante negociações com o governo federal foi feita proposta de assentamento em região promissora no Centro-Oeste do País, em área ainda não desbravada no Norte de Mato Grosso.

Além de lotes com 200 hectares, o que era grande área para pequenos agricultores e trabalhadores rurais gaúchos, o governo lhes oferecia transporte das famílias em ônibus e da mudança em caminhões, assistência técnica no cultivo da terra e ajuda de salário mínimo durante 18 meses.

Das cerca de mil famílias acampadas, 205 produtores aceitaram a transferência para região desconhecida, mesmo sob o olhar de desconfiança de lideranças do movimento e a maioria deles venceu o desafio de construir uma nova vida no Centro-Oeste do País.

Entre os vencedores, estão hoje verdadeiros fazendeiros, com cerca de 70 anos de idade e propriedades de dois mil hectares ou mais, áreas 10 vezes maiores do que o lote original, além de residências confortáveis na sede do município de Lucas do Rio Verde, a 350 quilômetros de Cuiabá.

Muitos deles recordam que, como gente da roça no acampamento moravam em abrigo de lona, em barranco na beira de estrada, como se fosse uma favela, que foi deixada para trás na busca da construção de nova vida no Mato Grosso, onde mantém o sotaque do interior gaúcho e o hábito de tomar chimarrão diariamente e assar churrasco aos domingos.

Durante o deslocamento, foram vários dias transitando por estradas de chão, com os sem-terra acompanhados de esposas e filhos, dentro de um ônibus e com os poucos bens carregados em caminhão. No Mato Grosso foram todos recepcionados por mosquitos e militares de batalhão do Exército, designados para apoiá-los no início das atividades, especialmente na construção de moradia e plantio de alimentos.

Graças à capacidade, tradição e dedicação dos colonizadores, Lucas do Rio Verde se transformou em município muito produtivo, especialmente   nas culturas do milho e da soja, além de criação de bovinos, que crescem muito anualmente. Atualmente com 65 mil habitantes, a cidade dobrou a população nos últimos 10 anos.

Devido às dificuldades iniciais, muitas das famílias pioneiras voltaram ao Rio Grande do Sul nos primeiros dois anos, mas os que resistiram, mesmo morando durante vários meses debaixo de lona, construíram as primeiras casas de madeira, adquiriram tratores e outros implementos e consolidaram a sua condição de grandes produtores de grãos, especialmente milho e soja.

*O autor é ex-deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado. E-mail: [email protected]
Os mutilados da guerra cultural

A expressão guerra cultural suscita, em muitas pessoas, um sentimento de aversão por evocar perda das conexões entre grupos sociais, esfacelamento da ordem, fim da política, e, não raro, violência.

O leitor destas linhas talvez se surpreenda com o que vou dizer, mas guerra cultural tem, mesmo, tudo a ver com isso. Essa guerra começou a ser empreendida há muitos anos, desde que os marxistas ocidentais começaram a ler Gramsci e Luckács. Durante décadas, foi uma guerra travada unilateralmente entre a esquerda e a cultura do Ocidente cristão. O Brasil foi e continua sendo um dos cenários dessa guerra.

Aqui, nas últimas décadas, bem antes, mesmo, da redemocratização, ela se travou entre um polo ativo e um polo passivo. Um polo combatente e um polo combatido. Um lado que gradualmente conquistava “território” e outro que gradualmente o cedia sem resistência. O polo combatente agia com plena consciência de seus objetivos, dispunha de intensa produção e reprodução bibliográfica e tinha cartilha a seguir. Conhecia as “cabeças de praia” (para usar a linguagem militar) de onde deveria partir para a conquista do território.  E as tomou sem resistência, naquela que talvez tenha sido a mais assimétrica de todas as guerras. Assim, avançou sobre o sistema de ensino, notadamente nas graduações em humanidades, expandindo-se daí para os níveis médio e fundamental. Neste território, o resultado foi avassalador, tornando a universidade, e, em especial, a universidade pública, uma espécie de “cosa nostra”, impenetrável por qualquer possível divergência. Partindo de outras cabeças de praia, dominou os meios de comunicação, hegemonizou a área da produção cultural, invadiu os seminários e o clero católico, conseguindo controlar a CNBB, mediante uma teologia travestida de “libertadora” – a Teologia da Libertação, conhecida como TL.

A partir daí, o resto veio por natural acréscimo, naquela fatalidade que, com palavras de Marx, preside as transformações da natureza. Veio o controle dos sindicatos, a miríade de movimentos sociais e suas violências, as primeiras vitórias eleitorais nos fronts locais e, por fim, a hegemonia do poder político associado ao poder financeiro pelos mecanismos que se tornaram conhecidos de todos.

Quando o projeto vazou – e vazou com energia das forças da Natureza quando longamente contidas –, sobreveio a derrota política e o fim dessa hegemonia. Dessa hegemonia, repiso. Mas se a derrota abalou a força política, não reduziu o ímpeto da guerra cultural. A diferença no ambiente dessa guerra foi o surgimento das redes sociais para aglutinar e dar voz ao polo até então passivo, que despertou para a necessidade de se defender nos espaços em que ela era travada.

A guerra cultural, agora, tem dois lados em confronto. Vem daí a sensação de que a sociedade está dividida e muitos que a levavam de roldão, agora reclamam da resistência que passam a encontrar. Era impossível que ela não emergisse quando a sociedade começou a contabilizar suas vítimas civis. A guerra cultural fez vítimas em proporções demográficas. Deixou milhões de crianças mentalmente mutiladas. Crianças que se tornaram adultos tolhidos em suas potencialidades. Mutilados em sua fé. Professores ocupados com formar quadros e não indivíduos livres; preocupados com hegemonia e não com harmonia; dedicados a um projeto que prescinde do livre pensar e que nunca, em parte alguma, conviveu bem com o contraditório. Uma guerra que precisa produzir mutilados.

* Percival Puggina (74), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.
O Pai Nosso de Bolsonaro

Chove pressão sobre o Palácio do Planalto. Por essa razão, Jair Bolsonaro pede licença aos pastores evangélicos, corre à catedral de Brasília e apela aos céus com uma prece inspirada no Pai Nosso: “Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome”.

Proteja-me, meu Pai, por ver meu nome descendo do altar da santificação só seis meses depois de eleito. Confesso, Senhor, que continuo a animar os que me escolheram, uso frases e imagens que me enquadram na extrema direita, conservador nos costumes, liberal na economia. Sim, estou ansioso para ver aprovada a reforma da Previdência, portão das outras reformas.

Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no céu. Venham a mim, meu Pai, políticos de todos os partidos, principalmente do centrão, sob a esfera do Rodrigo Maia, pessoa que gosto de fustigar na esteira com “uma no cravo, outra na ferradura”. Confesso que não confio nesses deputados do PSL, meu partido, turma sem experiência e jogo de cintura. Afaste de mim petistas e psolistas, alvo dos meus tiros de capitão de artilharia.

Senhor, sou um militar sem muito apetite para as demandas da política, apesar dos meus quase 28 anos no Parlamento.

Convoquei um grupo de amigos militares para me ajudar nas borrascas, mas não temo desagradar a quem não faz a lição de casa. O general Santos Cruz saiu chateado, mas em seu lugar coloquei um general mais estrelado. Mais amigo.

Agrada-me o poder, ser o centro do debate e chamado de “mito”. Mas agora me preocupam as vaias da oposição. Vou rever essas idas a estádios de futebol.

Pelo meu Reino, perdão, por minha reeleição, serei capaz de mudar minha índole, fazer a vontade dos outros, embora o confessionário político não seja minha praia. Sem uma profunda reforma política, voltarei às ruas nos braços do povo.

Agradeço, Senhor, a oportunidade de sentar na cadeira presidencial. Graças a isso já entrei no círculo dos mais importantes do planeta, entre eles meu amigo Donald Trump, o chefão da China, Xi Jiping, a dura primeira ministra alemã, Ângela Merkel e o jovial presidente da França, Emmanoel Macron. Este vive me jogando na cara coisas que desconhece, como a Amazônia. Digo e repito: nosso país é uma virgem desejada por tarados.

- O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Ajude-me, Senhor, a manter o pãozinho e o frango de mais de 13 milhões de famílias do Bolsa Família. Não consegui ainda, meu Pai, aliviar o sofrimento de 13 milhões de desempregados e mais de 12 milhões de subempregados. Esse é o calcanhar de aquiles, o espinho atravessado na garganta. Mas tenho esperança no meu “posto Ipiranga”, Paulo Guedes: o desemprego começará a baixar em meados do próximo ano.

Estou com receio de que o senhor Luiz Inácio seja libertado para zoar com o meu governo. Ele e os seus amigos do PT, PSOL, PSB, PC do B e outros nanicos vão fazer de tudo para bagunçar o pleito de prefeitos em 2020 e antecipar a eleições de 2022.

As minhas galeras fiéis estarão preparadas para enfrentar a guerra entre os três terços que dividem o país: um meu lado; outro da oposição; e o terceiro sem rumo, olhando a direção do vento.

Ah, como é interessante, Senhor, ver o meu ministro Sérgio Moro, apesar de criticado pela mídia, continuar aplaudido nas ruas. Se continuar assim, meu Pai, terei de defenestrá-lo mais adiante, porque não o quero como concorrente 2022.

- Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

Tentarei perdoar meus opositores, mas jamais aceitarei a tese de que o cara que me deu a facada é desmiolado. Tudo armação.

Sei que falo demais, meu dia a dia é um palanque. Mas tenho saudades das ruas, Senhor.  Gosto das palavras simples, limitado que sou. Uso minha verve para agradar minha galera. Sou respeitado pela direita mundial. Quem chegou a ser tão amigo de um presidente da maior democracia ocidental, os EUA? Dizem que sou estrela brilhante da constelação da Direita mundial.

Ajude-me, Senhor, a chegar ao final do mandato com boa avaliação.

E perdoai-me, Senhor, se eu cometer o desatino de nomear meu filho Eduardo para embaixador nos EUA. Amém!”

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato
Cultivo de Lavanda

Falar sobre lavanda (Lavandula sp.) logo nos remete a região de Provence, França. Tradicional no cultivo, juntamente com outros países, explora de diversas formas esse arbusto de cor tão viva. No Brasil, em várias regiões, houve esse despertar e já é possível encontrar campos de lavandas em cidades do Estado de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.  
A planta é muito apreciada pelo seu odor intenso e propriedades calmantes. O que não é de conhecimento de todos é que existem inúmeras espécies, com origens, cores, aromas e exigências edafoclimáticas diferentes. Dependendo da espécie o óleo essencial obtido pode ser destinado a perfumaria, higiene e limpeza, cosméticos e até mesmo na culinária. O que faz a diferença no sucesso do seu cultivo é conhecer a espécie que se está trabalhando. Informações sobre o clima e solo do seu local de origem são fundamentais para perceber a capacidade da planta de se adaptar ou não em determinado espaço. 
Para o cultivo na região foram iniciados estudos, porém ainda não se tem resultados quando a adaptação da cultura.
Para o cultivo caseiro em vasos, é recomendado usar substrato na proporção 1:1:1, (areia, terra e matéria orgânica) e a irrigação deve ser feita uma vez ao dia. A lavanda não aceita solos encharcados, portanto, deve-se dosar a quantidade de água.

Luciana Sabini da Silva e Fernanda Jaqueline Menegusso são engenheiras agrônomas
Você é falsamente feliz?

As redes sociais digitais são cheias de mensagens positivas, fotos felizes, em lugares lindos, radiantes. Ostentação é uma palavra que é muito praticada diariamente. É foto com produtos, no espelho, nos restaurantes, bares, etc.. Grande parte dos coaches nos ajudam a ter maior autoestima e a traçar o nosso planejamento da carreira. E a beleza? Maquiagens para um lado, “corpo perfeito” para outro. Dicas, dicas e mais dicas. Como você deve fazer para isso e aquilo. No fim, é o que você deve fazer para não ser você e ser aquela imagem "photoshopada" da rede. Ainda tem aquele comediante que faz todos rirem.

Realmente, as redes sociais digitais tem muitas pessoas com vidas interessantíssimas. Se alienígenas nos observassem pelas redes sociais, com certeza eles concluiriam que a humanidade é muito feliz. Essa felicidade é falsa, na verdade. A única coisa que as redes sociais geram é inveja e infelicidade. Quanto mais alguém vê a vida falsamente perfeita de outros, mais esse ele questiona o porquê sua vida não é assim. Essa infelicidade leva para a ansiedade e depressão. Tudo isso é um grande teatro.

Parece que estamos com medo de mostrar que somos imperfeitos, que choramos, que somos mortais, que sofremos e, por vezes, a vida é um belo de um problema. À medida que escondemos nosso sofrimento, fingimos que eles não existem. O fato é que eles crescem e incomodam cada vez mais, até que você os perceba. Fingir que você não está sofrendo é sofrer duas vezes: sofre por fingir, e ainda sofre por não se permitir sofrer.

Sofrer faz parte da vida e não devemos negar tal emoção e sentimento. Vale, no entanto, parar de passar uma falsa felicidade quando não estamos bem. E, talvez, até nos recolher, para dentro, para as redes internas, para dar ouvidos à alma. 

*Leonardo Torres, 29 anos, pesquisador, professor, doutorando em Comunicação e Cultura e Pós-graduando em Psicologia Junguiana
O atendimento pessoal na era da tecnologia

Pesquisas da empresa norte americana Forum Corporation apontam que o bom relacionamento com o cliente é o capital de maior valor em uma empresa. É na loja (ou ponto de venda/PDV) que o trabalho de campo e a magia por trás de um negócio acontecem. Prova disso é que, daqueles que mudam de marca ou não voltam a comprar, 15% o fazem buscando um produto mais barato; 15% migram para um item melhor; 21% mudam por falta de contato e atenção pessoal e 49% porque a atenção era de baixa qualidade ou ruim. Ou seja, a maior parte dos lojistas perde consumidores (e clientes) por questões relacionadas ao atendimento.

Em outras palavras, o atendimento é essencial no mundo empresarial, seja com clientes, funcionários ou fornecedores – é o que diferencia e direciona o sucesso (ou não) do negócio. Pois pode-se ter o melhor produto ou serviço em uma localização estratégica, mas se o outro tiver uma experiência ruim no contato com sua marca, a probabilidade de ele não retomar um segundo contato é alta.

É comum se concentrar muito na captação e na abordagem de novos consumidores, entretanto, fazer isso sem pensar em como conquistá-los definitivamente é um problema. Em uma era em que a tecnologia ganhou espaço e o contato interpessoal diminuiu, a personalização no atendimento é a cereja do bolo de uma boa estratégia de vendas, marketing e fidelização. Se nos primeiros contatos a sua empresa for capaz de impressionar e de convencer o prospect de que fazer negócios com a sua marca é vantajoso, conseguirá garantir que ele retorne à loja e aumente seu tíquete médio.

Nesse caminho, o atendente pode (e deve) transmitir a emoção e a experiência de um consumo por meio da comunicação, da atenção e do cuidado com o próximo, independe da sua idade, classe social e sexo. Aqui, os pequenos gestos contam, tal como perguntar nome, ser educado, sorridente, empático e, acima de tudo, solícito. Por outro lado, a postura indiferente, invasiva, arrogante e sem empatia devem, terminantemente, ser evitados.

Otimizar o relacionamento com o cliente no PDV aumenta as chances de fidelização e os índices de recomendação. Portanto, pense na maneira como sua loja se comunica e transforme esse momento em algo único para o cliente – mesmo que ele vá ao local diversas vezes. O diálogo, no lugar do pitch de vendas, é uma estratégia promissora para esse contato mais personalizado, mas, ir além das expectativas vai trazer, automaticamente, uma memória positiva da loja e marca ao consumidor, podendo convencê-lo a retornar ou indicar à experiência a conhecidos.

O desafio é deixar a energia dos atendentes em alta, independente se o produto é bala ou urso de pelúcia. Escolher pessoas que se encaixem no perfil de negócio e que entendam seu propósito e o papel que vão desenvolver para chegar ao objetivo de encantar o cliente é essencial. Depois, para garantir a unidade no atendimento, um manual com principais passos do atendimento a serem seguidos à risca, dará um norte ao funcionário e ao empresário, que poderá exigi-lo de maneira mais clara e objetiva. Ah, e nunca se esqueça: a palavra de ordem para a excelência nesse quesito é treinamento, treinamento e treinamento. Afinal, aprimoramento sempre se começa, mas nunca se termina!

*Co-fundadora da Criamigos, Natiele Krassmann é graduada em administração pela PUC/RS. Ao longo de sua trajetória profissional, ocupou uma posição na Câmera de Dirigentes Lojistas de Uruguaiana (RS), participando de missões empresariais nos EUA, China, Argentina e Chile; atuando, paralelamente, como empresária no ramo da moda.
A lente de aumento que precisávamos: Porque a Lava Jato não pode parar

A relevância da Lava Jato vai além dos corruptos que prendeu. Gerou uma reflexão coletiva a respeito de questões essenciais sobre quem somos como povo, do que somos feitos. E sobre como a crise de democracia que estamos vivendo hoje tem relação com o fato de a corrupção no nosso país não ter sido até aqui um ponto fora da curva, mas praticamente a estrada por onde circulou uma parte significativa do poder e da riqueza.

Em toda a sua história, o Brasil olhava para o alto para ver a bandeira tremular com a frase “Ordem e Progresso” enquanto, aqui embaixo, adotava outro lema para levar a vida: criar dificuldades (políticas e legais) para ganhar facilidades (financeiras).

Claro, não foi a Lava Jato que fez nós nos enxergamos no espelho. Os brasileiros já sabiam de tudo isso antes de a operação iniciar. Mas talvez, foram essas investigações mais duras contra a corrupção que reaqueceram a discussão sobre o assunto, adormecida há tanto tempo, limitada talvez aos corredores de universidades ou salas de pensadores. Foram elas que movimentaram de novo as ruas, que geraram indignação coletiva e, assim, incomodaram a velha política, que atuava tranquila, sem enxergar no horizonte qualquer sinal de punição.

A Lava Jato não foi perfeita. Sabemos que o Brasil ainda engatinha na execução de suas leis e na prática da democracia. Porém, é inegável que a operação jogou luz em muitos cômodos escuros, em que até mesmo a Justiça parecia ter perdido a vontade de entrar.

A consequência de termos visto de tão perto o tamanho do câncer foi o desejo coletivo de entender nossa doença profundamente, em vez de fecharmos o ângulo da lente apenas nos sintomas. Desistimos de nos enganar, acreditando que apenas prender este ou aquele curaria o mal. Passamos a discutir reformas e a apostar em um sistema novo, sem os vícios antigos. A causar medo nos políticos que eram, na verdade, criminosos. E, principalmente, a nos envolver com a mudança.

Não é simples ajustar uma economia em um país que sempre a conectou com o que é político. Também não é fácil promover crescimento em um Brasil em que a obrigação de prometer favores e acomodar parentes e amigos sempre foi o corriqueiro. A resposta à pergunta “O que eu ganho com isso?” continuou sendo o cimento de boa parte do que construímos, mesmo depois de liquidado o Império e proclamada a República.

Mas a Lava Jato mostrou que podemos, sim, ter um país maduro e igualitário, em que o patrimonialismo para de despejar na rua, que é de todos, o sujo de suas mansões partidárias, cujos membros da família servem apenas a seus pais. E que, se queremos ter alicerces fortes para o desenvolvimento humano e econômico do Brasil, temos que começar a mexer na nossa lama para que ela pavimente de uma vez o nosso crescimento.

Marco Tadeu Barbosa, presidente da Faciap
Moro na Câmara e o mistério dos espelhos quebrados

No conflito entre a curiosidade que o acontecimento suscitava e o mal estar que as cenas provocavam, o corpo venceu a mente. Desliguei o televisor. Até hoje não consegui entender a “credibilidade” que possam ter minúsculas transcrições de conversas, sem gravidade alguma, trocadas ao longo dos anos, com assimétrica ocultação do inteiro conjunto do material que certamente serviria, mais robustamente, como prova da tese oposta.

Enfim, não deu para suportar aquela sequência de raciocínios rasos, grosserias e calúnias, postos em forma de perguntas, produzidas com o simples intuito de ofender o ministro.

O desrespeito e a clara intenção de usar o ato como instrumento de vingança, na tentativa de flagelar o ex-juiz com o azorrague da maledicência, me incomodavam tanto quanto saber que os incidentes transcorriam na “douta” Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Se os critérios morais de um questionamento são esses, o que restará para os atos legislativos e decisões de Estado? Que respeito terão, pelo interesse público, aqueles senhores e aquelas senhoras tão facilmente combustíveis à chama de sentimentos vis? Não surpreende o resultado de tantas deliberações.

Com o devido respeito às instituições republicanas, Sérgio Moro submeteu-se ao mais rigoroso teste de paciência, tolerância e força de caráter. Foi exemplar. Sofreu na carne durante sete horas aquilo que não suportei assistir. Aos que o agrediam, nenhum limite era exigido; nele, um simples sorriso era objeto de severas reprimendas! Por fim, havendo a agressividade do plenário alcançado o nível mais baixo, retirou-se da sala. E foi chamado de “fujão”! Ora, os fujões compunham boa parte do plenário. Fujões dos braços da justiça, agarrados ao privilégio de foro e, com as unhas, à porta que supõem estarem abrindo para promover o fim da aterradora Lava Jato. Essas mesmas vozes falaram praticamente sem contestação durante décadas, promoveram a destruição de valores, construíram duradoura hegemonia política e semearam antagonismos na sociedade. Alinharam, perfilaram e mobilizaram tropas de choque. No entanto, desde que perderam o poder, têm reclamado do que chamam “discurso de ódio”. Mistério dos espelhos que se perderam.

A audiência de Sérgio Moro expôs o tipo de cisão política que se torna inevitável em presença de partidos e parlamentares que, num dia aprovam projeto de lei que penaliza o abuso de poder e, no outro, usam do poder conferido pelo mandato parlamentar para praticar os abusos que todos pudemos assistir.

Desde a entrada em cena dos vazamentos que estão sendo distribuídos por Glenn Greenwald teve início uma tentativa de reconstruir a imagem do ex-presidente Lula. É como se uma mão lavasse a outra e um crime lavasse outro. Como se não houvesse outras condenações, outros processos criminais em outros foros e outras evidências, sempre associadas à mesma relação impura com poderosas empresas.

Os espelhos se espatifaram de vez.

* Percival Puggina (74), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.
Os males fome estão também na América Latina

A fome extrema que atinge milhões de pessoas não se deve apenas ao desemprego, pobreza e/ou custo e desperdício de alimentos, pois é gerada tanto por crises econômicas, políticas e sociais, como por catástrofes naturais e conflitos armados.

A informação consta de relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), elaborado em conjunto com a União Europeia (UE), e outras organizações internacionais e divulgado em abril deste ano.

Conforme o documento, a fome extrema atingiu mais de 113 milhões de pessoas de 53 países em 2018, entre os quais Iêmen, República Democrática do Congo e Afeganistão e mais da metade dos famintos do planeta vivem em 33 países africanos, como Etiópia, Sudão e Nigéria.

Em 2017, 124 milhões de pessoas de 51 países haviam sofrido fome severa, 11 milhões a mais do que no ano passado.

De acordo com o estudo, em 2018 os conflitos armados prosseguiram sendo a principal causa da insegurança alimentar no planeta, atingindo quase 74 milhões de pessoas ou dois terços da população que sofre com a fome no mundo, vivendo em 21 países ou territórios afetados por guerras ou embates internos.

O Iêmen, em guerra civil desde 2015, continuou sendo o país mais afetado pela fome extrema no planeta em 2018. No final do ano passado, vale registrar, a crise atingiu ponto crítico neste país, pois mais da metade ou 53% da população, apresentavam necessidade de ajuda alimentar urgente, interna e externa.

Apesar de números alarmantes, o documento destacou pequeno   avanço na questão da oferta ou disponibilidade de alimentos no mundo, na comparação com 2017, pois alguns países seguidamente atingidos por desastres climáticos, sofreram menos episódios como secas, inundações e aumentos da temperatura em 2018.

Na América Latina e Caribe no ano passado foram registradas mais de quatro milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar e com necessidade de ajuda urgente de instituições assistenciais, locais ou do exterior.

Somente no Haiti, os famintos somavam 2,3 milhões de pessoas, enquanto na América Central, incluindo El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, eram 1,6 milhão de habitantes. Na América do Sul a fome extrema atingia 400 mil pessoas, incluindo os refugiados venezuelanos na Colômbia, Equador e Peru.

A Venezuela, como se sabe, enfrenta grave crise política, econômica e social que provocou grande escassez de alimentos, agravada por hiperinflação que reduziu drasticamente o poder aquisitivo da população, mas não constou do relatório, por não apresentar números confiáveis.

Mesmo assim, segundo especialistas, com a continuidade e até agravamento da crise e conflitos internos, a Venezuela pode entrar no ranking de países que enfrentam grave crise alimentar já em 2019, pois está se consolidando como grande preocupação entre as nações latino-americanas.

Apesar da falta de dados mais precisos, segundo o relatório, a maioria dos venezuelanos que buscou refúgio em países vizinhos, como Colômbia, Equador e Peru, vinha enfrentando grandes dificuldades para garantir sua alimentação.

A crise alimentar aguda ou das fases dois e três da escala internacional de cinco níveis, indicava grandes dificuldades para a obtenção de alimentos por parte dos venezuelanos. Na Colômbia, seriam 1,1 milhão de migrantes sofrendo desnutrição, no Peru 500 mil e no Equador 221 mil pessoas.

*O autor é ex-deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado. E-mail: [email protected]