Artigos
O risca faca

Estive no Museu Dom Diogo de Souza, que leva o nome do fundador da cidade de Bagé. Fica em uma construção lindíssima pertencente à Sociedade Portuguesa de Beneficência – a quem pagam aluguel pelo espaço, diga-se. E dentre tantas coisas interessantes que encontrei por lá, constatei a importância e a quantidade de disputas ocorridas nessa região.

Um pesquisador da Embrapa já havia me advertido quanto a isso, dizendo que o subdesenvolvimento da porção sul do Estado deve-se, em parte, às inúmeras guerras ocorridas aqui, o que dificultava a colonização e estabelecimento da indústria e comércio na região.

Mas nenhuma dessas histórias foi tão elucidativa quanto aquelas contadas pelos meus colegas de estágio – onde aprendo bem mais do que o previsto, porque estagiar na Embrapa Pecuária Sul é uma verdadeira imersão cultural riquíssima.

Na última segunda-feira, por exemplo, o aprendizado se deu no entorno da expressão “risca faca”, que era por mim conhecida como expressão que designa um lugar mal frequentado, perigoso, um botecão daqueles em que acontecem verdadeiras batalhas entre ébrios com suas ferramentas – facas, copos, garrafas e, para os mais preparados, revólveres. Mas aqui no pampa, o buraco é mais embaixo, a expressão é mais literal.

Nesse dia, cheguei ao estágio e o assunto era a briga da última festa. As maiores controvérsias se concentravam no tamanho do talho que o vencedor da disputa havia aberto no pescoço do outro. Não havia dúvidas de que o golpe certeiro pretendia a morte do sujeito. Mas como vaso ruim não quebra, o homem sobreviveu e se tornou uma lenda na cidade, ostentando sua cicatriz de guerra, pela qual é reconhecido como se fosse uma celebridade.

No entanto, o que eu achei ser um fato isolado, na verdade é dos mais comuns. Aqui em Bagé os homens andam prevenidos. Segundo meus colegas do estágio, vão-se às festividades com facões na cinta, prontos para qualquer situação: desde cortar um pasto, até apunhalar alguém. É muita versatilidade.

Em seguida me mostraram vídeos de uma peleja em Dom Pedrito, cidade próxima de Bagé. No vídeo, um sujeito de camiseta laranja parecia um orangotango fazendo a dança do acasalamento, alternava o peso entre as duas pernas enquanto riscava o facão no chão.

Eu, no ápice da minha ignorância, achei que aquilo pudesse ser para afiar a lâmina de sua arma, mas não, trata-se de uma espécie de valsa da discórdia, onde o indivíduo que quer dar início ao enlace fatal intima o oponente através dessa movimentação tão ridícula quanto ameaçadora. Nesse vídeo, a pseudo-capoeira sem berimbau nem chega às vias de fato, porque alguns seguranças saem do ambiente para acalmar os nervos (e o facão) do rapaz.

Depois da história do facão, ainda me contaram de uma famosa briga entre duas mulheres ocorrida na madrugada, no canteiro central de uma das avenidas da cidade. Segundo meus informantes, o desentendimento foi amplamente registrado através de vídeos de todos os ângulos possíveis, em um trabalho de direção de fotografia nível Glauber Rocha.

Nessa ocasião a luta ocorreu sem armas, mas para o frenesi dos cinegrafistas e demais espectadores, as moças se pelaram na briga. Literalmente. Corre à boca pequena que uma ficou só de calcinha enquanto a outra flamulava a roupa da oponente cantando vitória. Eu ouvia a tudo estarrecida, boquiaberta. E o pior é que, por não ser uma cidade muito grande, as pessoas se conhecem, sabem quem foram as envolvidas, de onde vieram e como tudo aconteceu.

Aqui, cada segunda-feira de manhã é uma aventura diferente, com histórias novas, de pessoas que são verdadeiras crônicas prontas, dessa terra que mantém vivas as memórias da guerra e exercita no cotidiano a bravura de seus heróis.

Amanda Salvador tem 24 anos, é toledana e estagiária da Embrapa Pecuária Sul, em Bagé.
O pedágio que nunca perde

As mesmas concessionárias que estão envolvidas na Lava Jato, que levaram à prisão do ex-governador do Estado e no indiciamento de mais de 32 pessoas envolvidas em escândalos aqui no Paraná, serão agora agraciadas com um aumento que pode chegar a 58% pelo Governo Federal.

Incrível como essas concessionárias de pedágio sempre manipulam o sistema e dão a volta por cima! E a gente continua pagando o preço alto das catracas, a cada trecho de estrada, sem as obras prometidas nos contratos. Afinal, quem deveria fiscalizar também está do lado deles.

Entretanto, o modelo de pedágio federal, no que tange à manutenção de estradas, desde o início, manteve até hoje a tarifa o mais próxima possível do que poderíamos considerar justa. Preços baixos, compatíveis com a realidade dos brasileiros. Mas esta fórmula ideal de manutenção de estradas está com os dias contados e deve se aproximar do modelo paranaense, com a promessa de realização de grandes obras, mas sem o compromisso de realiza-las.

Ou seja, uma tática financeiramente vantajosa para as concessionárias e sem compromisso com a população. Afinal, elas poderão cobrar mais caro, reajustar todos os anos suas tarifas sem precisar cumprir completamente seus contratos.

O Ministro de Infraestrutura teve a petulância de dizer esta semana: “Nestas estradas há pedágio muito baixos, sem investimentos previstos, e queremos autorizar o aumento.” Isso mesmo, vão aumentar por aumentar!

A mesma fórmula dos pedágios caros que pagamos durante anos aqui no Estado. O mesmo modelo falido que não fez as obras aqui no Paraná e sangra diariamente o bolso dos motoristas que circulam pelas nossas rodovias. Afinal, o pedágio nunca perde... já a população pode pagar por obras que serão feitas ou não. Mas os aumentos são sagrados e pontuais, esses nunca podem atrasar!

As concessionárias no Paraná são investigadas por superfaturamento, estão envolvidas num mar de lamas de corrupção, e ainda recebem por obras que não fizeram e que não pretendem realizar. E como se não bastassem todos esses indícios de que o modelo do nosso pedágio é atrasado e corrompido, este será o modelo a ser instalado em todo o Brasil, se confirmada a afirmação do Ministro. 

É estranho perceber que, mesmo após serem desmascaradas no Paraná, as concessionárias darão o tom ao Governo Federal, com o mesmo tipo de contrato. Portanto, para você cidadão, o que interessa disso tudo, é a consequente alta do custo Brasil que, como avalanche, aumentará o preço de tudo, diminuirá seu poder de compra e impactará na sua qualidade de vida!

(*) Requião Filho é Deputado Estadual do MDB do Paraná.
Muito além de um contato, ‘clientes para vida’

Vivemos em um mundo onde as empresas brigam pela nossa atenção a todo momento. Somos impactados desde a hora que acordamos até a hora que desconectamos. Esses impactos atraem e despertam a nossa curiosidade. Porém, na maioria das vezes, a promessa entregue naquela mensagem não se cumpre e ficamos frustrados. E potenciais consumidores, quando frustrados, além de disseminar uma imagem negativa da sua empresa, possivelmente não voltarão a fazer negócios com você.

Mas, o que diferencia as empresas que conseguem levar essa experiência customizada aos consumidores? Um ponto importante é a atenção dada à pesquisa individual do cliente. O que ele gosta? Que tipo de produto costuma adquirir? Muito parecido com um primeiro encontro, as primeiras impressões contam, por isso se você não estiver atento ao que está transmitindo, os erros não poderão ser solucionados.

O futuro de uma relação bem-sucedida entre uma marca e um consumidor é a forma como essa empresa entende as necessidades desse cliente e como o trata nos pontos de contato com a empresa, seja tanto por meios online quanto offline. Funcionários que conhecem o produto/serviço estão focados em atendimentos ágeis, criativos e personalizados, especialmente no que diz respeito à solução de problemas, além da qualidade. Atrelar tudo isso à tecnologia de ponta é fundamental para empresas que querem conquistar o “cliente para vida”, aqueles que serão os porta-vozes da sua marca espontaneamente.

O fato é que, hoje, para sobreviver ao mercado, é vital se antecipar às tendências tecnológicas. Investir em assistentes virtuais para facilitar as interações cotidianas com os clientes, por exemplo, deixou de ser algo oferecido apenas pelas grandes marcas. Pelo contrário, eles estão por toda parte – das tarefas do dia a dia até as experiências emocionais com as marcas.

O conceito omnichannel está transformando as relações e as formas de consumo em diferentes pontos de contato. Softwares proporcionam uma evolução gradual em direção ao que é conhecido como gerenciamento de sucesso do cliente. Com isso, o papel tradicional de um CMO muda para uma posição de gerente de sucesso do cliente.

Na revolução da experiência do cliente, não basta inovar, mas também personalizar o atendimento, oferecer um serviço sob medida e, principalmente, entregar aquilo que prometemos como marca. O foco, mais do que nunca, é o relacionamento e a satisfação do consumidor. Ou seja, a fidelização do mesmo. A mensagem é clara desde o topo – queremos desenvolver mais que clientes, buscamos parceiros para a vida.

Sofia Baldessar – Marketing & Inside Sales Manager – FH.
O equilíbrio entre alarmismo e responsabilidade ambiental

Importante a afirmação do presidente Bolsonaro em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, quanto às suas metas de conciliar a produção agropecuária, o desenvolvimento e a preservação ambiental. A mensagem atenua eventuais preocupações quanto a um tema prioritário, cuja abordagem pelo novo governo ainda precisa ser melhor entendida: a posição do Brasil frente ao aquecimento da Terra/efeito estufa e as políticas públicas necessárias ao engajamento de nosso país, como protagonista, na luta do Planeta contra as mudanças climáticas.

No trato do assunto, parece haver alguns diagnósticos precipitados por parte de membros do novo gabinete. Isso ficou claro em artigo do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, no qual ele inclui o "alarmismo ambiental" entre os tópicos do pretenso "marxismo cultural a ser extirpado do Itamaraty, por determinação do presidente".

Sem entrar no mérito da política externa, que certamente será conduzida com base na defesa dos interesses brasileiros, cabe esclarecer que não há alarmismo nos pareceres de reconhecidos organismos internacionais quanto aos riscos das mudanças climáticas. Os níveis de dióxido de carbono na atmosfera estão aumentando em velocidade recorde, conforme demonstrou, cientificamente, a Organização Meteorológica Mundial (OMM). A questão, portanto, não é ideológica; é técnica e ecológica!

Daí a importância do Acordo de Paris, firmado em dezembro de 2015, na COP21 – Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que entrou em vigor em 4 de novembro de 2016. O Brasil é um dos 180 países que já o ratificaram, dentre os 197 signatários. Nosso compromisso básico perante o tratado é reduzir até 2030 as emissões de gases de efeito estufa em 43%, na comparação com 2005. Para isso, é fundamental aumentar exponencialmente a participação de fontes mais limpas e renováveis em nossa matriz energética.

Um dos grandes trunfos brasileiros é que nenhum outro país tem potencial como o nosso para fabricar etanol e biodiesel num elevado padrão de sustentabilidade econômica, ambiental e social. Trata-se de um diferencial competitivo que deverá gerar muitos investimentos, divisas e empregos. Estratégia relevante para que tenhamos êxito no âmbito desse desafio encontra-se na Política Nacional de Biocombustíveis – RenovaBio (Lei 13.567/2017). Esta começa a propiciar ganhos de produtividade e eficiência, contribuindo para que produzamos cada vez mais energia limpa e renovável e reduzamos paulatinamente a emissão de carbono e dos gases de efeito estufa.

Assim, é necessário identificar com clareza o que, de fato, define a responsabilidade ambiental do Brasil perante sua economia, sua população e o mundo e aquilo que poderia ser taxado como exagero alarmista com viés ideológico. Cumprir os compromissos relativos ao Acordo de Paris e ampliar a participação de fontes renováveis e limpas na matriz energética nada tem a ver com "marxismo cultural". Trata-se, sim, de um objetivo democrático, capitalista e ambientalmente correto. Seu êxito será imensa contribuição ao desenvolvimento, em sintonia com os propósitos do novo governo de recuperar a economia, criar empregos e promover o crescimento sustentado.

*João Guilherme Sabino Ometto, engenheiro (Escola de Engenharia de São Carlos - EESC/USP), é vice-presidente do Conselho de Administração da Usina São Martinho e membro da Academia Nacional de Agricultura (ANA).
Tecnologia e escola: o futuro de nossos alunos

Muito se fala sobre os perigos de se permitir que crianças comecem a utilizar smartphones, tablets e outros gadgets cada vez mais cedo. É inegável que essa introdução ao mundo digital deve ser feita com bom senso, moderação e acompanhamento rigoroso dos pais. Mas é igualmente importante que a tecnologia não seja colocada como antagonista no processo de criação dos filhos, principalmente porque o uso da tecnologia como ferramenta pedagógica é uma realidade cada vez mais presente na educação moderna. O mundo de hoje não é mais o mesmo de quando éramos alunos. Quem tem uma criança em casa sabe que ela parece já ter nascido sabendo como usar um dispositivo móvel conectado à internet.  Para eles, usar a tecnologia é quase uma evolução darwiniana. E é exatamente por isso, por terem consciência desde cedo que podem carregar um mundo de conhecimento na palma da mão, que esse novo aluno não vai encontrar sentido nenhum em decorar as razões trigonométricas ou os teoremas da vida.

Portanto, quando o assunto é educação, já não devemos mais perder tempo discutindo se crianças e jovens devem ou não usar celulares, tablets, softwares, games ou apps nos processos de aprendizagem. A questão principal é observar quais são as estratégias de ensino das escolas para que todos esses recursos sejam inseridos e potencializados com o objetivo de se adquirir conteúdo e conhecimento. Muitas escolas já evoluíram e aprimoraram sua maneira de ensinar para se adaptar ao novos tempos, atendendo à demanda da sociedade e da nova geração de alunos e professores. Mas é importante avaliar de que forma a tecnologia está de fato integrada à proposta pedagógica e a qualidade que a instituição de ensino busca para garantir o aprendizado e os benefícios efetivos. Há muito a se explorar para oferecer o melhor a esses nativos digitais. E para aqueles pais que ainda estranham ouvir os filhos falarem em uso de celular, tablet e games enquanto estão aprendendo, saibam que são essas ferramentas que permitem a eles compartilharem, comentarem, questionarem, criarem e não mais decorarem, fazendo com que estabeleçam uma nova relação com o conhecimento.

Tantos recursos acabaram empoderando essa geração, que possui uma nova modelagem cerebral. A escola que não oferece aos seus alunos a chance de aprender segundo essa nova realidade, certamente terá cada vez mais dificuldade de engajar e motivar o estudante. Antigamente, bastava o aluno saber o suficiente para tirar uma boa nota e passar para o próximo ano. Hoje, o estudante da era digital quer mais - e não é mais possível, e nem correto, frear esse ímpeto. Privá-lo de ter acesso às novas tecnologias enquanto aprende é inimaginável. As escolas têm o desafio urgente de romper com os modelos tradicionais de ensino e guiar os estudantes nesse caminho. As novas ferramentas devem permitir que o conhecimento esteja nas mãos do aluno onde quer que ele esteja. E que a interação entre estudante, conhecimento e o restante do mundo seja total. Daqui para frente, o mercado de trabalho será, cada vez mais, dominado pela inteligência artificial. Quando analisamos, com uma visão mais ampliada, o que a sociedade e o mercado esperam dos futuros profissionais, vemos que estamos apenas no começo de uma revolução que vai transformar a maneira como nossos filhos e netos vão aprender daqui para a frente. Temos a responsabilidade de ajudar nossas crianças e jovens a se prepararem para esse futuro. E precisamos estabelecer desde já que, para dar conta dessa missão, precisamos de uma nova escola.

*Celso Hartmann, diretor-geral do Colégio Positivo.
Quanto vale a vida?

No país que foi, até agora, o país da impunidade e da corrupção – esperamos que isso esteja em vias da mudar – mais um crime contra a vida de centenas de cidadãos brasileiros, que pereceram, inocentes, graças ao descaso e ao descumprimento de leis, de desvalorização da vida, foi cometido. Mais uma barragem de rejeitos de minas de minério estourou e devastou todo um vale repleto de vida. Isso, passados apenas três anos de outra tragédia criminosa idêntica, que já havia vitimado muitas vidas em Mariana: uma barragem de lama desceu sobre a cidade, da mesma empresa da outra que agora matou centenas de pessoas.

Nada foi aprendido com a primeira tragédia? A fiscalização, por que não foi feita, os parâmetros para se construir e manter as tais barragens existem apenas para dizer que existem? Por que as leis no Brasil não são cumpridas? Quem deve cobrar isso? Por que não está sendo cobrado?

A Vale, proprietária das minas e das barragens, está dando lucro, como sempre – isto está sendo mostrado pela mídia - mas existem vítimas da primeira tragédia, acontecida há três anos, que ainda não foram indenizadas. No que diz respeito às responsabilidades do que aconteceu em Mariana, ninguém foi penalizado, condenado, até hoje, depois de tanto tempo. Infelizmente, não temos ao menos justiça, neste país. Aquilo foi crime e os responsáveis deveriam ter sido condenados, para que a tragédia não se repetisse. E se repetiu. Pior ainda que a primeira, pois muito mais pessoas foram vitimadas.

O povo brasileiro espera que as coisas mudem, está mais do que na hora de mudar. Sabemos que o estado em que nosso país foi deixado é desastroso e não pode ser consertado de uma hora para outra, mas é preciso começar a se fazer alguma coisa.

Crimes devem ser apurados e providências precisam ser tomadas para que não voltem a acontecer. Será preciso que mais represas estourem para que se faça alguma coisa? Um número inimaginável de pessoas assassinadas, essa é que é a verdade, cada vez maior. Quando isso vai parar?

Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor, Cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras – Fundador e presidente do Grupo Literário A Ilha, com 38 anos de trajetória. http://lcamorim.blogspot.com.brhttp://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br
O fim do dinheiro vivo no bolso e nas compras da população

Comerciantes, prestadores de serviços, consumidores e demais cidadãos do mundo inteiro, devem se preparar para grande novidade numa das mais tradicionais e rotineiras atividades da sobrevivência.

Trata-se do porte, acúmulo, uso e troca de notas de papel ou moedas de metal, dos mais diferentes valores, em suas compras, vendas ou pagamentos de serviços prestados. O uso do dinheiro vivo já teria até data para sua abolição definitiva, em diversos países.

Metade de comerciantes e vendedores da Suécia, por exemplo, acreditam que depois de 2025 nenhum loja ou estabelecimento comercial do país continuará aceitando notas e moedas tradicionais em troca de seus produtos ou serviços.

Contando com apoio do comércio e indústria, até por questão de segurança, instituições bancárias suecas estariam liderando o movimento que pretende acabar com o dinheiro vivo em suas transações.

A iniciativa envolve diversos países europeus, mas a Suécia está na frente da mobilização para tornar a população em sociedade sem dinheiro vivo. Como ele está sendo colocado de lado rapidamente, o poder público local já está recalculando custos sociais de futuro sem essa tradição milenar.

A mudança do hábito, que já havia conquistado o apoio de muitas autoridades financeiras, será tão radical, que o poder público já está solicitando a bancos e lojas que mantenham operações com notas e moedas até que se descubra o que significará realmente a criação de sociedade sem dinheiro vivo para consumidores jovens e idosos.

O banco central do país, que admite que o dinheiro vivo irá   realmente desaparecer na Suécia, já estaria testando moeda digital, chamada e-krona ou coroa eletrônica, para manter o controle da oferta e circulação de dinheiro.

Os legisladores estudam o destino de pagamentos on-line e de contas bancárias, se a rede elétrica falhar ou servidores entrarem em pane por falhas na energia, até porque 20% da população de 10 milhões de habitantes, são pessoas que não usam mais caixas eletrônicos.

Mais de quatro mil suecos implantaram microchips nas mãos, que lhes permitem o pagamento de viagens de trem e compra de alimentos ou até mesmo a entrada em escritórios sem chaves. Restaurantes, ônibus, estacionamentos e até mesmo banheiros pagos dependem cada vez menos de dinheiro.

Muitas pessoas, no entanto, dizem que a mudança deixará em desvantagem os aposentados, em país onde um terço de todos os habitantes têm 55 anos de idade ou mais, assim como imigrantes e pessoas com deficiência, que não conseguem acessar facilmente meios eletrônicos e dependem de bancos e seus serviços aos clientes.

Mesmo assim, notas e moedas hoje representam apenas 1% da economia sueca, contra 10% na Europa e 8% nos Estados Unidos e somente um em cada 10 consumidores locais pagou por algo em dinheiro em 2018. A maioria dos comerciantes da Suécia ainda aceita notas e moedas, mas a categoria está sendo reduzida rapidamente.

Isso porque jovens suecos de 18 a 24 anos realizam mais de 95% de suas compras com cartões de débito ou aplicativos de smartphones. Com isso, metade das 1,4 mil agências bancárias já não aceita depósitos em dinheiro e os bancos desativaram centenas de caixas eletrônicos.

Para conciliar interesses, só os maiores bancos lidariam com dinheiro, mas as instituições alegam que isso representaria encargo desnecessário, pois a demanda por notas e moedas está diminuindo rapidamente no país.

*O autor é ex-deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do governo do Estado. E-mail: [email protected]
A cultura de não fiscalizar e a tragédia de Brumadinho

A tragédia de Brumadinho, além de toda a consternação nacional e da solidariedade de todos, merece uma reflexão importante sobre esse tipo de problema no Brasil: nesse caso da barragem da Vale, como acontece com numerosos outros empreendimentos e obras em nosso país, a legislação de entrada, alvarás, autorizações e licenças ambientais parecem em conformidade. No entanto, a fiscalização e o acompanhamento são capengas. Essa contradição é marcante na cultura brasileira.

Há no País mais de 30 órgãos com capacidade de fiscalização ambiental, muitos deles até mesmo com sobreposição de competências. Talvez seja este um dos problemas, pois algo que muitos cuidam acaba sendo relegado, com a diluição das responsabilidades. Uma questão que lembra a velha máxima de que "cachorro com muitos donos morre de fome". Ministério Público, Agência Nacional de Água, Agência Nacional de Mineração, Ibama, Tribunais de Contas.... Todos poderiam e deveriam fiscalizar, mas não fizeram. Tantos organismos onerosos para o Estado e nenhum cumpriu sua missão em Brumadinho.

O Brasil tem uma legislação forte para todo o processo de liberação de obras e empreendimentos, mas peca muito no acompanhamento, fiscalização e prevenção. Tivemos, há pouco tempo, o rompimento da barragem de Mariana, do mesmo grupo empresarial da Vale, que também foi um evento gravíssimo. À época, houve toda uma reverberação, alertas e discursos de autoridades e analistas. Porém, passado o impacto, o tema foi esquecido e se manteve a ausência de fiscalização e acompanhamento.

O Brasil tem, ainda, a Política Nacional de Segurança em Barragens, instituída pela Lei 12.334, de 20 de setembro de 2010, que estabelece procedimentos para a segurança de barragens destinadas à acumulação de água, à disposição final ou temporária de rejeitos e à acumulação de resíduos industriais. No entanto, a norma não foi implementada em termos práticos.

O acidente de Mariana, em 2015, deveria ter despertado toda a atenção para o tema. Porém, apesar de sua gravidade, a questão continuou relegada a segundo plano. O Ministério Público, por exemplo, poderia ter se aprofundado no conteúdo dessa lei específica e, com base nela, averiguar tudo o que estava acontecendo nas centenas de barragens existentes no Brasil. Mas, não fez isso. E agora, de maneira triste e dramática, estamos descobrindo que a Barragem de Brumadinho, não era segura e estável, como se classificava até ocorrer a tragédia.

Temos, portanto, um sério problema cultural de fiscalização. O Brasil gasta muito com legislação de entrada e punição. Demoniza as situações quando ocorrem, indeniza e aplica sanções legais, mas não investe e se empenha em fiscalizar e prevenir. Normalmente, os órgãos de controle glosam os recursos destinados à fiscalização, entendendo a prevenção como gasto e não investimento.

Observa-se esse problema até em questões mais simples, como a prevenção de passivo trabalhista nas prestadoras de serviço para órgãos públicos. Cortam-se essas despesas, sob alegação de que seria desnecessário um provimento para algo que não está ocorrendo. Porém, quando ocorre (e acontece!), é preciso punir e indenizar.

Se a Vale tivesse investido em prevenção os cerca de R$ 11 bilhões bloqueados judicialmente por conta do acidente de Brumadinho, o Brasil não estaria vivenciando essa situação tão amarga e a própria companhia não estaria enfrentando todas as consequências, como a perda recorde do valor de uma empresa na Bolsa de Valores, danos gravíssimos para sua imagem e processos criminais e indenizatórios que se seguirão.

O mesmo se aplica aos órgãos e autoridades competentes, que também poderiam ter evitado a tragédia se cumprissem de modo adequado seu dever legal de fiscalizar. Quando aprenderemos?

*Fernanda dos Reis é sócia-titular da Caodaglio & Reis Advogados Associados.
Wi-fi Ralph: mais uma bela lição de empreendedorismo da Disney

Há alguns dias, fui ao cinema com minha filha Mariana e assistimos ao filme Wi-fi Ralph: quebrando a internet, e ficamos encantados. Além de Ralph, o mais famoso vilão dos videogames, e Vanellope, sua companheira atrapalhada, o filme exibe vários parceiros da Disney nessa aventura.

A história mostra que os dois personagens principais (Ralph e Vanellope) precisam comprar uma peça física, um controle para que o jogo denominado “corrida doce” continue a ser jogado. Eles saem então em busca dessa peça imprescindível.

Mas, onde comprar? É aí que a parceria comercial pode ser percebida no filme, afinal, eles aparecem pesquisando no Google. O resultado sugere que eles comprem no site e-Bay. Os personagens participam e ganham o leilão de compra, mas, não possuem o dinheiro. Decidem então gravar vídeos para arrecadar fundos e resolvem postá-los no Instagram, Facebook e no Buzz Tube, que remunera de acordo com o número de visualizações e curtidas.

Ainda aparecem em destaque a Amazon, Pinterest e várias outras marcas fazem parte dessa trama tão especial! É um bom exemplo de que uma parceria bem construída pode agregar para ambos, sendo vantajosa para os dois lados, afinal, não é nada mal ter acesso à gama de clientes de uma outra marca. Eis aí mais uma bela opção para viabilizar projetos, tanto para um pequeno negócio, como também para empresas gigantescas como no filme.

A persistência é um ponto destacado, pois os protagonistas não conseguem facilmente a quantia que precisam para quitar a compra do controle e a resiliência se mostra como mais um fator de sucesso pessoal e profissional.

A necessidade de correr riscos calculados também pode ser observada, principalmente no momento em que os personagens principais entram num outro jogo para tentar ganhar um prêmio e, assim, vendê-lo para conseguir o montante desejado.

Outra característica empreendedora ilustrada na trama é a rede de contatos. E, nisso, a Disney caprichou. A Vanellope consegue o apoio das principais princesas (Cinderela, Bela, Ariel, Branca de Neve, Aurora, Elsa, Anna, Moana, Tiana, entre outras). Cada uma delas com sua principal competência, aparece para ajudá-la a conquistar seu objetivo.

Enfim, o filme é uma graça, envolvente, prende a atenção e deixa um gostinho de quero mais. Realmente um show de entretenimento e empreendedorismo da Disney e ainda pode gerar boas ideias para nossas organizações.

Se tiver alguns minutos sobrando na agenda, vale a pena investir para assistir esse lançamento cinematográfico, principalmente se você puder estar acompanhado de uma criança que ama a Disney e adora o assunto empreendedorismo.

* Erik Penna é palestrante de vendas e motivação, especialista em vendas com qualificação internacional, consultor e autor dos livros “A Divertida Arte de Vender”, “Motivação Nota 10”, “21 soluções para potencializar seu negócio”, “Atendimento Mágico - Como Encantar e Surpreender Clientes” e “O Dom de Motivar na Arte de Educar”. Saiba mais sobre motivação e vendas em: www.erikpenna.com.br
Artigo Gaudêncio Torquato l UMBRAIS DO AMANHÃ SOB A LAMA

Quando o olhar de esperanças começava a enxergar os umbrais do futuro, eis que a paisagem devastada por lama e rejeitos de ferro, em um território adornado por morros e montanhas, desvia a vista para uma horrenda fotografia do passado. Carlos Drummond de Andrade, em 1984, já descrevia a cena: “O Rio? É doce. A Vale? Amarga. Ai, antes fosse/Mais leve a carga. Entre estatais/E multinacionais/Quantos ais!”

O futuro ensaiava ser um misto de harmonia ambiental, desenvolvimento social, alegria de viver em segurança, com o homem tirando a riqueza da terra para formar seu pibizinho de felicidade. Era isso que se via pelas frestas do amanhã: um país retornando ao porto seguro, depois de anos de borrascas que sugavam as energias de seu povo, serviços públicos essenciais – saúde, educação, segurança, mobilidade – resgatando sua eficiência, um dinheirinho mais gordo no bolso.

Já o passado contém curvas, artimanhas, adereços e aquele jeitinho que nossa gente herdou desde remotos tempos: a mamata nas tetas do Estado, o nepotismo, a apropriação dos bens públicos por grupos encastelados nos vãos e desvãos da República, o amaciamento de leis, a devastação da natureza, as tragédias anunciadas com a visão de mortos enfileirados, o conluio político, a dinheirama jogada no balcão de recompensas, os Poderes constitucionais sob permanente tensão, entre outras mazelas.

Até chegamos a confiar no lema do comandante dessa que se apresentava como empresa-orgulho do Brasil, a Vale: “Mariana nunca mais”. Há 3 anos, o rompimento da barragem de Fundão, a 35 kms do centro de Mariana, conferiu ao Brasil a marca: o maior impacto ambiental da história brasileira e o maior do mundo. A barragem pertence à Samarco, empreendimento de propriedade da brasileira Vale e da anglo-australiana BHP Billiton. O desastre de Mariana se repetiu.

E o que se enxerga a essa altura? Desculpas esfarrapadas. Explicações que davam a barragem do córrego Feijão como segura. Bloqueios de bilhões da empresa. Como se sabe, não vingarão. O caminho longo do Judiciário fará retornar os recursos. Endurecimento da legislação sobre concessão ambiental? O então candidato Jair Bolsonaro e o então candidato Romeu Zema, governador de MG, prometeram em campanha o contrário: amaciar, flexibilizar, sob o argumento de desburocratizar. Portanto, o novo governo está numa encruzilhada.

Sob a égide privatista, dentro do imenso guarda-chuva do liberalismo que guiará a equipe econômica, o meio ambiente não deverá ser tão protegido. O agronegócio esticará seus braços sobre as paisagens verdejantes. Pode até se reaver o projeto arquivado no Senado com vistas ao endurecimento das leis ambientais. Receberá endosso das bancadas duras? Difícil.

Não há, então, fresta na janela do amanhã que possa fazer brotar as esperanças? Só se for a janela do ministro Sérgio Moro, da Justiça, de onde descortinaríamos melhor visão. Mas ele terá que aguentar o tranco e sustentar a força investigativa do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), este mesmo que está de olho nas contas do senador eleito Flávio Bolsonaro. Moro parece estar entre a cruz e a caldeirinha. Se o órgão for em frente, fará crescer a montanha de suspeitas sobre o filho do presidente e outros protagonistas, ameaçados de flagra fazendo o jogo da “rachadinha” (uma parte pra lá, outra prá cá).

O fato é que o futuro continua preso no cordão do passado. Por mais que se procure cortar os laços, nossa cultura política se banhará por muito tempo nas águas lamacentas de fontes contaminadas, com chances ainda de ficar soterrada na lama e em rejeitos que fluem por todo o território. A assepsia será um exercício de longuíssimo prazo.

Até lá, com paciência e persistência e, sobretudo, com fé, poderemos empurrar o balão da política na direção de novos ventos.