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O Brasil e o Índice de Desenvolvimento Humano de 2018

Com relação ao ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), relativo ao ano de 2018, o povo brasileiro não tem o que comemorar neste final de ano.

Conforme o relatório de setembro último, pelo 3º ano consecutivo o Brasil permaneceu na 79ª posição, no ranking que levantou e analisou dados de 189 países.

Não bastasse essa pouco honrosa colocação, a situação foi ainda pior no item exclusivo da desigualdade social, pois o País caiu 17 posições nesse importante indicador de desenvolvimento humano.

Analisado todos os anos pelo Pnud, o IDH vai de zero a um ponto em cada item, como saúde, educação e renda da população. Em 2018, o Brasil alcançou o IDH de 0,759, com pequena melhora em relação a 2017, de 0,001 ponto.

A melhora no IDH brasileiro, segundo especialistas, ocorreu em índices de saúde e renda, embora os números relativos à educação se mantivessem estáveis.

Enquanto isso, desde 2015, o País está estagnado no que se refere à expectativa de anos de escolaridade dos cidadãos, que em 2018 ficou em 15,4 pontos. A média de anos de estudo do brasileiro também se manteve a mesma de 2016, com 7,8 pontos.

A média de anos de estudo representa o tempo de escolaridade de pessoas com 25 anos ou mais, sendo indicador que mais sofre impacto de desempenho de gerações anteriores.

Já na expectativa de escolaridade é considerado o período de estudo que se planeja para a criança que ingressa no sistema de ensino. Com isso, a criança brasileira que foi matriculada neste ano numa escola deverá estudar, em média, 15,4 anos. Outro importante item analisado no levantamento do IDH é a esperança de vida da criança ao nascer.

A expectativa de vida de brasileiros passou de 75,5 anos, em 2016, para 75,7, em 2018. A renda nacional bruta, dimensionada na moeda norte-americana, apresentou elevação de 13.730 dólares para 13.755 dólares no período.

O número, porém, ficou abaixo do valor de 2015, quando a foi de 14.350 dólares. Na avaliação das desigualdades de 151 países, o IDH avaliou a perda do desenvolvimento humano, devido à variação da distribuição de renda.

Com relação a esse índice, o Brasil perdeu 17 posições no ranking mundial, caindo de 0,759 para 0,578 ponto, o que colocou o País na categoria de “médio” desenvolvimento.

A redução representou queda de 23,9% do IDH, deixando o Brasil em 3º lugar entre os países que mais perderam percentualmente nesse índice na América do Sul, atrás do Paraguai, com 25,5%, e da Bolívia com 25,8%.

No levantamento, o Pnud estabeleceu três dimensões de desigualdade entre os países analisados. No caso do Brasil, o pior índice ficou na distribuição de renda, com 0,471 ponto, seguida da educação, com 0,535 ponto e na expectativa de vida, com 0,765.

Menos mal que o Brasil apresentou o 5º melhor IDH entre países da América do Sul, perdendo para o Chile, com 0,843 ponto, Argentina com 0,825 ponto, Uruguai com 0,804 ponto e Venezuela com 0,761.

Mas quando comparado aos países que fazem parte do Mercosul, o Brasil só ficou na frente do Paraguai, com 0,702 ponto, ocupando a 110º posição do ranking mundial.

Na comparação com países do Brics, o Brasil apresentou o IDH menor que o da Rússia, com 0,816 ponto, mas superou a China, com 0,502 ponto, seguida pela África do Sul, com 0,618 ponto e, por fim, a Índia com 0,427 ponto. Esperamos agora melhor resultado em 2019.

*O autor é deputado federal pelo Paraná licenciado e chefe da Casa Civil do Governo do Estado. E-mail: [email protected]
O que a China pode ensinar ao mundo sobre inovação?

Todo mundo sabe que a China é a economia que mais cresce no mundo. Atualmente, o país representa 40% de todas as transações de comércio eletrônico no planeta, e quase um terço do consumo de luxo mundial. É a nação com o maior número de “unicórnios” (startups com valorização de mercado superior a US$ 1 bilhão), cerca de 164, enquanto o Brasil tem apenas três. A verdade é que, além de rica, a China preza pelo desenvolvimento, pela tecnologia e, acima disso, pela inovação. Um dos projetos atuais do país é se tornar líder em aplicações de inteligência artificial até 2030, se tornando o principal polo mundial do gênero.

Porém, como isso é possível? Um país que até a década de 1980 era basicamente rural, hoje é líder em tecnologia e inovação, e tem dinheiro para continuar injetando em sua economia de forma quase milagrosa. A verdade é que sua grande virada veio com um investimento feito nessa época. Um investimento feito em gestão.

Todos sabem que o governo chinês tem mão ativa na economia. É o modelo de produção que o país adotou. Porém, independente disso, ações de incentivo podem ser tomadas por qualquer governo que busque crescimento. São elas que se destacam, abrindo espaço para o crescimento de um mindset inovador. Em 20 anos, a nação chinesa quintuplicou seu PIB, focando na gestão e melhoria de qualidade. Agora, o país se prepara para um novo salto, mirando as estratégias voltadas à inovação.

Um exemplo de incentivo interessante é o da cidade portuária de Hangzhou, onde fica o grupo Alibaba, uma das maiores redes varejistas do mundo. O local tinha inúmeros depósitos desativados que o governo local transformou em uma área de startups. Hoje, o local é chamado de Dream Town, tendo mais de 1.600 startups sediadas - sendo que mais de 4 mil já passaram por lá desde 2015. O espaço inutilizado anteriormente, hoje conta com isenção para ocupação, além de acesso gratuito à nuvem de dados por três anos para qualquer empresa iniciante. Isso sem contar o fundo anjo de US$ 70 milhões, que atende ao país todo.

O governo incentiva as iniciativas e prepara um solo fértil, possibilitando a proliferação de empresas inovadoras. Os governantes enxergaram o potencial de médio e longo prazo e começam a atuar com planos agressivos de gestão. É bem diferente de países onde abrir uma empresa e sobreviver é um desafio tão grande, que chega a parecer que a gestão pública está lutando contra o empresário.

Além disso, há outros fatores que são próprios do modo chinês de pensar e trabalhar que garantem esse crescimento. Antigamente, um produto “Made in China” era sinônimo de uma cópia mal feita. Isso porque culturalmente falando, copiar nunca foi um tabu para eles. Aqui, onde a luta pelo direito autoral vigora, vemos isso como um desrespeito e um crime. Lá, eles enxergam como uma valorização, um reconhecimento do valor de quem criou.

Além de copiar, o modelo chinês visa o aperfeiçoamento. Hoje, o país oferta uma cópia mais barata e com pior qualidade de qualquer produto, mas também oferece cópias idênticas e até versões melhoradas do produto copiado. Tem qualidade e preço para qualquer demanda. Foi assim que empresas de telefonia, por exemplo, surgiram. Os chineses pegaram algo que já estava em um nível elevado de tecnologia, e se preocuparam em ir além.

Essas ações e criações movimentam o próprio mercado interno do país. Embora tenham largado muito atrás dos países desenvolvidos, cerca de 25% das indústrias chinesas já estão preparadas para a chamada Indústria 4.0. No Brasil, são apenas cerca de 2%.

Outro fator interessante é a desigualdade entre salários. Ser um trabalhador de chão de fábrica, o famoso “peão”, não é visto como algo ruim. Há um desejo por crescimento, mas não há o sentimento negativo de “não ser o chefe”. Isso se mostra nos salários, que diferente da maioria dos países, é ridiculamente maior entre um cargo inicial e o de um gerente ou supervisor. Isso permite que as pessoas vivam de forma consideravelmente boa, mantendo uma mão de obra acessível em todos os níveis da empresa.

Outro ponto importante é o da obsessão com dados. A coleta e análise deles, o verdadeiro Big Data, realmente funciona na China. Há um interesse por interpretar o que os dados têm a dizer sobre o mercado, a economia, os produtos, os consumidores. Essas informações geram poder e fomentam a inovação.

Em suma, fica evidente que o que está levando a China a novos patamares de evolução é o seu mindset voltado à gestão da inovação. O modo de pensar, de enxergar e incentivar ideias em médio e longo prazo foi o que transformou e continuará transformando o país em uma grande potência.

No fundo, o que a China pode ensinar ao Brasil e a muitos outros países em desenvolvimento é a necessidade de criar uma nova mentalidade para os negócios. Andar para frente olhando apenas o retrovisor, certamente, não levará ninguém muito longe, além de ser um grande risco. Vale a pena repensar toda a estratégia e caminhar com os olhos no futuro.

Alexandre Pierro é engenheiro mecânico, bacharel em física aplicada pela USP e fundador da PALAS, consultoria em gestão da qualidade e inovação.
A defesa do interesse público, um princípio a ser resgatado

Até que ponto cabe considerar legítimo o jogo de influência sobre o poder público que interfere em decisões estratégicas do governo, altera a legislação e interfere em decisões judiciais? Se as práticas que proporcionam favores excessivos aos mais diversos grupos setoriais trazem como consequência um duro ônus ao resto da sociedade, é necessário evidenciar que tais práticas precisam ser reprimidas de maneira mais contundente.

No Paraná, dois exemplos recentes representam tentativas explícitas de imposição, a qualquer custo, da vontade de minorias influentes. O projeto de lei para a redução da Área de Proteção Ambiental da Escarpa Devoniana e a tentativa de execução da Faixa de Infraestrutura em Pontal do Paraná são casos que mostram a fragilidade do poder público frente a pressões de ordem econômica e política, vindas de grupos setoriais.

A reação pública frente a essas tentativas permitiu que milhões de paranaenses oferecessem um contraponto em relação aos representantes do poder público envolvidos nesses processos. Uma reação potencializada pelo fato de não haver razão plausível para uma aceitação dessas medidas que pretendem impor.

Vivemos um momento em que o posicionamento de cada cidadão tem enorme importância. Como nunca, devemos estar presentes na defesa de fundamentos consistentes que atendam ao interesse público em vez de buscas seletivas e indevidas, que alimentam os sistemas de corrupção.

Apesar de enormes dificuldades e do reconhecimento de que soluções de maior amplitude não ocorrem de um dia para o outro, está mais do que na hora de todos os brasileiros fazerem um maior esforço em defesa do exercício da cidadania. Precisamos despertar para o valor de causas comuns que atendam verdadeiramente a toda a sociedade, como a proteção do nosso patrimônio natural.

Todos temos o direito de buscar nossas próprias condições de crescimento e de sobrevivência, cumprindo a Lei e lutando de maneira honesta por um futuro melhor. Mas, sem um olhar dedicado ao amparo do que interessa e diz respeito a todos nós, as buscas individualizadas encontrarão enormes obstáculos para avançar como pretendemos.

As mudanças necessárias e prementes que nos tornem cidadãos mais solidários não representam nenhuma utopia. Apenas demandam consciência e senso de responsabilidade sobre o real significado do interesse público.

*Clóvis Borges é diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.
Os negócios de impacto e a agenda do meio ambiente

Na primeira semana pós-eleições, o presidente eleito Jair Bolsonaro anunciou que uniria sob um único ministério as pastas do Meio Ambiente e da Agricultura. A proposta foi recebida com críticas por especialistas e manifestações contrárias das organizações de defesa do meio ambiente. O governo eleito, aparentemente, recuou. 

Enquanto paira dúvida sobre o formato da administração executiva federal nessa frente, a discussão é oportuna e merece também uma análise jurídico-econômica sob a ótica dos negócios de impacto. A Constituição Federal foi pioneira ao estabelecer no capítulo dedicado ao Meio Ambiente o direito do cidadão ao ecossistema ecologicamente equilibrado, impondo ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

A lógica desenvolvida até hoje em normas, doutrina e jurisprudência se deu sob o ângulo do dano ambiental (potencial ou realizado) decorrente da atividade produtiva ou extrativista, e a partir disso, meios de avaliar, mitigar, prevenir o risco e indenizar o prejuízo sofrido, além de punir os responsáveis. E esses investimentos para a solução de problemas sociais e ambientais foram, historicamente, conferidos à administração pública ou à filantropia, com pouco ou nenhum envolvimento da iniciativa privada.

Na última década, no entanto, surgiu um segmento da nova economia no qual os negócios agregam a seus produtos e serviços soluções para os mais diversos desafios socioambientais. A empresa passa a utilizar as ferramentas que possui não apenas para evitar o dano ambiental potencial, mas também para promover um benefício real àqueles envolvidos em sua cadeia de valor, os recursos naturais empregados e o ambiente à sua volta.

Os negócios de impacto, via de regra, desenvolvem um mercado a partir de uma necessidade existente. As políticas ambientais são catalisadoras do surgimento e da escala desses empreendimentos, inclusive nos campos da agricultura - pelas agritechs, por exemplo - e da economia regenerativa.

Vê-se um crescimento em todo o mundo, e também no Brasil, de empresas que integram o propósito de gerar um impacto socioambiental positivo por meio de suas atividades lucrativas, utilizando métodos verificáveis para mensurar o impacto das suas atividades e dando transparência a esses dados aos seus clientes e investidores. É uma mudança significativa de perspectiva, com o sucesso sendo medido não apenas pelo êxito econômico, mas também pelo impacto positivo gerado na atividade – agregando este novo valor à companhia.

A adoção do impacto positivo ao modelo de negócio atende ao chamado constitucional de preservação coletiva do equilíbrio do ecossistema do planeta e aumenta a chance de alcance do benefício para as futuras gerações, pois repercute na perenidade do próprio negócio.

É fato que a pauta do Meio Ambiente é mais ampla que a da Agricultura e a intersecção existente entre elas não seria suficiente para justificar a fusão proposta. As políticas do governo federal para o meio ambiente muitas vezes servem de suporte para a realização efetiva dos impactos positivos buscados pelos negócios, e misturá-las aos legítimos interesses do estímulo à agropecuária nacional, bem como à regulação do setor, pode afetar negativamente todo um novo e promissor segmento econômico.

* Rachel Avellar Sotomaior Karam é advogada, sócia do escritório TESK Advogados e coordenadora do Grupo Jurídico B, do Sistema B.
Abastecimento é prioridade nacional

Embora não tenha se destacado como tema na campanha eleitoral, uma das prioridades do presidente eleito, Jair Bolsonaro, é a melhoria do sistema de abastecimento, fundamental para que a população tenha acesso a mercadorias de qualidade, com oferta sempre capaz de atender à demanda, custo operacional baixo e menos desperdício. Um dos gargalos nessa importante área que deverão merecer atenção do governo diz respeito ao Entreposto Terminal de São Paulo, da Ceagesp, companhia vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A questão também deverá merecer atenção do governador eleito, João Dória, considerando ser relevante a parceria e apoio da administração paulista na busca das soluções.

Além de a Ceagesp ser ligada ao Governo Federal, é preciso considerar algo crucial: o comércio atacadista de hortifrutigranjeiros da capital paulista não atende apenas a cidade, mas todo o Brasil, dada a relevância do mercado da Grande São Paulo e do Interior paulista, bem como da produção e volumes comercializados. Qualquer problema de quebra na produção de frutas, verduras ou legumes que aconteça em outros estados pode ser suprido pelo entreposto paulistano. Este funciona como um regulador do mercado nacional.

Também é preciso considerar que alguns produtos estrangeiros somente são acessíveis no mercado nacional em decorrência de sua compra em larga escala por importadores que os distribuem a partir do entreposto de São Paulo. Os mercados regionais de outros pontos do Brasil não têm volume para comprar essas mercadorias, a preços competitivos, diretamente dos fornecedores de outros países.

A despeito de sua importância para a população paulista e paulistana e o abastecimento nacional, o Entreposto Terminal de São Paulo está obsoleto e não tem as mínimas condições de atender à demanda. Localizado em uma região urbana com alto índice populacional, tem sérios problemas de trânsito/mobilidade, segurança, infraestrutura e condições de trabalho para seus permissionários, ou seja, produtores e comerciantes atacadistas de distintos portes. Também é desconfortável e inadequado para os feirantes, sacolões, restaurantes, pequenos e médios varejistas e todos os que dependem dele na cadeia de abastecimento.

Sem investimentos durante anos em sua modernização, também dificultada pela falta de espaço e crescimento da cidade em seu entorno, não é mais capaz de atender de modo adequado ao volume médio de comercialização de 283 mil toneladas por mês ou 3,4 milhões anuais, bem como receber produtos de 1.500 municípios, 22 estados brasileiros e 19 países. No velho entreposto de Vila Leopoldina, circulam 50 mil pessoas e 12 mil veículos por dia. Infelizmente, todo esse contingente enfrenta as agruras de suas precárias condições de infraestrutura interna, trânsito e logística.

Portanto, é urgente a adoção de medidas de contingência que garantam um mínimo de operacionalidade para a Ceagesp na Vila Leopoldida, mas sem perder de vista que São Paulo precisa mesmo é de um novo e moderno entreposto de hortifrutigranjeiros. É imprescindível para o bem e o futuro do abastecimento que o Governo Bolsonaro solucione esse grave gargalo, contando com o trabalho excepcional da futura ministra da Agricultura, deputada federal Tereza Cristina, pessoa séria, com excelente e adequada formação.

*Claudio Furquim é presidente do Sindicato dos Permissionários em Centrais de Abastecimento do Estado de São Paulo (Sincaesp). **Onivaldo Comim é presidente da Associação dos Permissionários do Entreposto de São Paulo (APESP).
Omelete sem quebrar ovos

É, no mínimo, muito interessante o que estamos assistindo hoje, quando se olha para a realidade política brasileira. Depois de anos de governos que fizeram todos os tipos de conchavos nacionais e internacionais, financiados pelo BNDES, que levaram o Brasil à maior recessão econômica de sua história, que produziram o maior escândalo de corrupção de que se tem notícia, que lotearam a máquina pública entre seus membros e seus "aliados" e que deixaram o país com mais de 25 milhões de desalentados (eufemismo para desempregados e desocupados), qualquer medida anunciada pelo novo governo eleito, vem sempre noticiada com alguma desconfiança. As críticas a qualquer medida ou indicação são sempre baseadas em: "analistas dizem que tal medida é problemática", "ex-ministros da educação não concordam com o discurso do indicado para o cargo", "a nova política externa brasileira é criticada por ativistas europeus", "o presidente eleito não tem articulação com o Congresso" pois está nomeando para o seu ministério pessoas técnicas e identificadas com o seu pensamento político conservador. Vejo aqui uma crítica intensa à coerência até aqui demonstrada, por aqueles que venceram, democraticamente, as últimas eleições. Parecem-me argumentos de maus perdedores. Não se pode fazer omelete sem quebrar os ovos.

Jair Bolsonaro foi eleito, justamente, por combater a velha política e seus costumes, que nos levou a este estado caótico e pré-falimentar em que o país se encontra. É uma ilusão alimentar a esperança de que, a partir de 1º de janeiro de 2019, tudo será diferente. Que surgirá, como num passe de mágica, um país próspero, seguro e que seremos felizes para sempre. Definitivamente não! O trabalho que o novo governo terá será hercúleo, apenas para não piorar a situação atual. As reformas, que todos nós já sabemos que são necessárias, não passarão pelo Congresso impunemente, pois, apesar da inédita renovação, ainda temos muitos políticos cuja única motivação é legislar em causa própria (exemplo: aumento para os juízes do STF).

Sei que é utópico, mas a hora agora é de união de todos os brasileiros independentemente se gostam ou não do novo governo. A única opção que temos é dar um voto de confiança aos novos dirigentes. Sem dúvida, não significa dar um cheque em branco, devemos estar sempre vigilantes, mas a oposição por oposição não é contributiva, ao contrário, é como jogar na destruição, no quanto pior, melhor. No mínimo é extremamente medíocre pensar e agir dessa maneira. O país enfrenta uma guerra e, para o bem de todos, devemos deixar nossas ideologias de lado e lutar, como nunca foi feito, pelo bem do Brasil.

*Celso Luiz Tracco é economista e autor do livro Às Margens do Ipiranga - a esperança em sobreviver numa sociedade desigual
Alteração de Nome e Gênero no Registro Civil

A possibilidade de alteração de nome não é novidade. A Lei dos Registros Públicos de 1973 já trazia a previsão de, nos casos em que o nome fizesse a pessoa passar por situações vexatórias, se poder requerer a alteração, expondo suas razões em um processo judicial e, após audiência com o Ministério Publico, o Juiz poderia ordenar a alteração por sentença.

No entanto, não havia previsão para pessoas transexuais ou travestis que desejassem a alteração para um nome do sexo oposto, de modo que mesmo com a previsão da Lei dos Registros Públicos para possibilidade de alteração de nomes que causassem constrangimento, muitos viam seus pedidos negados pelos juízes.

Porém, na ultima década a jurisprudência passou por grandes transformações e evoluiu muito nesse sentido. No início, muitos juízes entendiam que para conceder a alteração de nome, era necessário que a pessoa tivesse passado pela cirurgia de transgenitalização. Mas esse entendimento foi perdendo força e em 2014, durante a I Jornada de Direito da Saúde, o Conselho Nacional de Justiça publicou os enunciados 42 e 43, dispondo que ficando comprovado o desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto, era dispensável a realização de cirurgia.

Em 2016, o Decreto nº 8.727/2016 positivou o direito de pessoas travestis e transexuais a incluírem o nome social, ou seja, o nome pela qual a pessoa é reconhecida socialmente, em documentos oficiais, mas ainda com algumas ressalvas, como o acompanhamento do nome civil em atendimento do interesse público e à salvaguarda de direitos de terceiros.

No ano seguinte, em 09 de maio de 2017, o Superior Tribunal de Justiça julgou o Recurso Especial nº 1626739/RS, demonstrando um grande avanço do entendimento jurisprudencial sobre o tema, dando mais importância para o interesse individual, afirmando que o registro civil deve retratar a identidade de gênero psicossocial da pessoa e não a realidade biológica, de modo que não se poderia exigir a realização da cirurgia de transgenitalização para que sejam alterados tanto o nome quando o gênero.

O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, julgou em março deste ano de 2018 a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4275, e foi ainda mais adiante, além de reconhecer o direito da alteração do nome e sexo independente de cirurgia, afirmou que para tanto bastava a solicitação diretamente no Cartório de Registro Civil, sem necessidade de ação judicial.

Assim, em junho deste mesmo ano, o Conselho Nacional de Justiça publicou o Provimento nº 73, regulamentando a forma administrativa da alteração de nome e gênero no Registro Civil, especificando que a pessoa maior de 18 anos, de posse dos documentos elencados no art. 4º do provimento, poderá requerer diretamente no cartório, independente de autorização judicial, de realização de cirurgia ou mesmo de apresentação de laudo psicológico, a alteração do gênero e do nome, não podendo, no entanto, alterar o sobrenome.

O provimento do CNJ avançou ainda mais, prevendo que o ato de alteração deve ser sigiloso, de modo que, com exceção dos documentos que ficarão arquivados no cartório, nos demais documentos como Certidão de Nascimento, RG, CPF ou CNH, não constarão qualquer informação a respeito da alteração ou do gênero ou nome anterior, mas apenas o novo nome e gênero escolhidos.

Este mesmo entendimento foi confirmado pelo Supremo Tribunal Federal em agosto de 2018, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 670422, no qual o Tribunal concluiu que, não apenas é possível o pedido administrativo da alteração de nome e gênero sem qualquer exigência além da manifestação de vontade do indivíduo, mas que, ainda, não poderá constar nas certidões do registro ou dos documentos públicos qualquer observação sobre a origem do ato.

Brunno José Zenni é advogado do escritório Fonsatti Advogados Associados
O vazio no mundo

Por que estamos vazios? Por que, se nós interagimos o tempo inteiro nas redes sociais com familiares, amigos e colegas? Hoje, não estamos mais sós, mas estamos inteiramente vazios. Parece que nunca houve no mundo um momento tão conectado e, ao mesmo tempo, tão sem sentido.

Nos últimos 40 anos, a internet que conhecemos nasceu, cresceu e hoje é praticamente uma necessidade básica. Nesse mesmo tempo, o índice de suicídios no mundo aumentou cerca de 60%, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). James Hillman, estudioso da psicologia arquetípica, aponta que o vazio, o “estar sem sentido”, é um dos fatores que influenciam no suicídio.

Esse vazio amedronta o mundo. Alguns cientistas já afirmam que assim como a Idade Média foi marcada pelas doenças biológicas, a atualidade será marcada pelas doenças psicológicas, principalmente a depressão.

Dietmar Kamper, estudioso da comunicação, sempre nos falou sobre como o mundo está em um processo de “Ocidentação”, ao invés de “Orientação”. Ao nos orientar, seguimos a luz do sol (o oriente é a terra do sol nascente). Ao nos ocidentar, estamos correndo atrás de um sol que já se pôs. Estamos na escuridão. Precisamos e buscamos as luzes dos aparelhos, porém, sem sentido, sem direção alguma, já que eles apontam para diversas direções.

Curiosamente, o “vazio” do mundo oriental é muito diferente do “vazio” ocidental. No oriente, o kanji para “vazio” é a mistura dos kanjis “sol” e “porta”. Deixar a porta aberta para o sol entrar. Deixar o seu “eu” aberto para a luz de dentro brilhar. Permitir-se. É buscar o sol dentro de si. Isso é orientação. Por isso, o mundo ocidental tem uma dificuldade imensa de entender o "vazio" da meditação oriental. Daí caímos no pensamento “deixe sua mente vazia, não pense em nada, você está pensando” e acabamos por pensar em tudo e concluir que a meditação não está funcionando.

Se estamos na “Ocidentação”, estamos procurando as luzes fora de nós, nos aparelhos eletrônicos. Nesse processo, parece que a verdade não está mais dentro, mas fora, na mídia. Interagimos nas redes sociais para tapar buracos sociais; consumimos produtos para tapar buracos emocionais; buscamos o tempo inteiro tapar os buracos de dentro da alma com algo de fora dela. No fim, obviamente, nada funciona. Esquecer o que está dentro de nós é cair na imensidão do vazio ocidental.

*Leonardo Torres, 28 anos, Palestrante, Professor e Doutorando em Comunicação e Cultura Midiática.
O nosso habitat ideológico

A ascensão de um grupo de direita ao centro do poder no Brasil, depois de longo ciclo comandado por quadros com habitat nos espaços do centro e da esquerda do arco ideológico, abre um campo de dúvidas: esse novo grupamento terá vida longa? A tendência de fazer o país rumar à direita conta com base sólida no seio social ou é fruto de circunstâncias, na esteira de uma polarização que envolve partidos, líderes, setores, e que, por anos a fio, procurou estabelecer uma muralha entre ricos e pobres, “nós e eles”?

A resposta implica juntar um conjunto de variáveis, a partir da análise de traços do ethos nacional. Somos uma gente de índole pacífica, cordata, acolhedora, criativa. Claro, observam-se traços de exagero em nossa índole: somos o país do melhor futebol do mundo; temos o pior desempenho em matéria de ética e moral; não temos muito compromisso com a verdade (em Petrolândia, nunca se tirou um pingo de petróleo; a mesma coisa em Petrolina; a Bahia de Todos os Santos? Ah, também é a Bahia de Todos os Pecados, como atestava Jorge Amado). Somos a terra do “mais ou menos”. “Você trabalha quantas horas por semana”? “Mais ou menos 40 horas”. Ou o país das coisas relativas. “O senhor é católico”? “Sou, mas não costumo ir à igreja.”. Não é isso mesmo, mestre Roberto da Matta?

Concorde-se, então, com a ideia de que o brasileiro, ante a dualidade “sim” e “não”, característica do anglo-saxão, prefere “talvez”, “depende”, “vamos ver”. No arco ideológico, essa posição estaria mais próxima ao centro do que às  margens direita e esquerda. Esses traços superficiais, claro, não respondem às grandes questões que se fazem sobre o posicionamento político-ideológico do brasileiro. Mas ajudam a compreender o “modus brasiliensis” de ser.

Assim, é razoável se pensar que o povo brasileiro, fruto da miscigenação do índio, do negro e do português, sinaliza uma tendência para a moderação, para a integração de propósitos, a busca da paz. Sentimento reforçado pela coleção de gentes de outras terras que escolheram o Brasil como Pátria.

O aspecto educacional surge como outro fator para análise dos nossos costumes. O alto índice de incultura, o subdesenvolvimento econômico, social, cultural e político marcam fortemente a frágil cidadania. Entramos na classificação de Bobbio, onde uma “cidadania passiva” prevalece sobre a “cidadania ativa”, servindo aos interesses das elites, que manipulam os eleitores. Por décadas a fio, cultivamos o “voto de cabresto”, como descreveu Vitor Nunes Leal, em Coronelismo, Enxada e Voto. Só mais recentemente – mais precisamente após a CF de 88 – os cidadãos passaram a escalar o patamar mais alto da cidadania.

O fator econômico é outra bússola para verificação dos rumos da ventania ideológica. Dinheiro no bolso, capaz de suprir as carências familiares, alimento, segurança, enfim, o conforto oferecido pelo Produto Nacional Bruto da Felicidade (PNBF) agem como motores da política. Se o sistema político proporcionar aumento da felicidade coletiva, ganhará o apoio e os votos de eleitores, a partir das margens carentes. É quando a opção política se dá pela via do pragmatismo.

Por último, lembre-se que o PT construiu a muralha da divisão de classes, o “nós e eles”. Por mais de três décadas, a cantilena bateu na mente nacional. Até que se deu o estouro da boiada, os escândalos em série que vieram à tona com o mensalão. A máscara do PT caiu. Seus líderes foram presos. O carismático Lula, na prisão em Curitiba, atravessa a pior fase de sua vida. O Partido dos Trabalhadores procura um caminho.

Dito isto, voltemos às perguntas iniciais. A resposta abriga o conjunto de fatores acima descritos. Mas o pragmatismo deverá orientar as vontades. Se a direita de Bolsonaro acertar e garantir o PNBF, ganhará força para continuar como habitat da maioria. A recíproca é verdadeira. O fato é que direita, esquerda e centro perdem importância. Servem melhor na  sinalização do trânsito. O bolso passa a ser o termômetro do corpo nacional. De qualquer forma, a tese pode ser esta: para manter apoio, a direita deve evitar posicionamentos radicais, evitando contribuir para o apartheid social. E observar que a vontade nacional, por maioria, vê o centro como o espaço de harmonia e integração.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação. Twitter @gaudtorquato
Meio Ambiente x Desenvolvimento Econômico e Social

Equacionar esta questão é o grande desafio do século XXI para os nossos governantes. Este confronto de ideia e posições entre os diversos tipos de interpretações, desde os xiitas ambientais e aqueles que têm uma visão mais equilibrada entre o desenvolvimento e a preservação é um conflito que acompanho desde meus tempos de faculdade de Engenharia Agronômica na Universidade Federal do Paraná. Sempre fui um preservacionista, mas entendo que a geração de empregos e a fonte de rendas das famílias não pode ser prejudicada por radicalismos.

Hoje o Brasil tem uma legislação ambiental excelente. Esta mesma legislação obriga aos produtores arcar com a preservação das águas sem receber nenhuma contrapartida da sociedade. A maioria absoluta dos moradores urbanos não tem conhecimento que às vezes mais de 20 por cento das propriedades rurais ficam sem nenhuma exploração agropecuária a título de preservação das águas. Eu não questiono isso! Água é vida. Contudo acho que é chegado o momento de haver bom senso, mantermos as conquistas já obtidas na preservação do meio ambiente e pararmos com a burocracia estatal de muitas vezes criar dificuldades para vender facilidades. O funcionamento do estado tem de ser destravado, tem de ser agilizado.

Obras de interesse da população não podem ficar a mercê de burocratas em seus escritórios refrigerados travando implantação de indústrias que vão gerar milhares de empregos diretos e indiretos, simplesmente por uma questão ideológica. Liberações ambientais não podem travar obras de rodovias, pontes, que trarão segurança e preservando a vida de dezenas de pessoas ao ano que circulam em nossas estradas. Estamos em um momento de nosso desenvolvimento como nação onde temos de manter o que já conquistamos na área ambiental, mas temos de destravar as amarras que impedem o desenvolvimento econômico.

Agora em nosso Paraná mais especificamente temos de nos preocupar com o futuro do homem. Agora que já temos a legislação que nos permite preservar as matas, as águas temos de cobrar de nossos governantes a agilidade e o entendimento de que na comparação das outras nações desenvolvidas e em desenvolvimento no planeta temos de simplificar procedimentos. Temos de facilitar a geração de riquezas. Temos de estimular aqueles que sabem como gerar empregos, gerar riquezas e mesmo impostos para que o Estado reverta em ações que possam fazer o nosso povo crescer como cidadãos. Estamos em um momento que nossos governantes tem de efetivamente diminuir o tamanho do Estado. Diminuir as amarras. Precisamos de liberalismo, eficiência e pessoas que façam as coisas acontecerem com bom senso e pensando no homem como objeto final.

Convém lembrarmos de algumas passagens muito tristes na história do Paraná onde agricultores foram presos por atos discriminatórios, exagerados e radicais da famosa Força Verde no governo Requião. Injustiças cometidas contra agricultores por delitos menores. Temos de coibir com muita força crimes como pesca predatória, caça, derrubadas em áreas de preservação permanente. Estes crimes tem de virar parte do passado. Contudo em questões menores onde é possível a reparação a fiscalização tem de ser firme. Mas eu me pergunto - Quem fiscaliza a fiscalização? Quais os instrumentos de acompanhamento, ouvidoria e corregedoria que teremos para promover os bons funcionários públicos daqueles que possuem segundas intenções. Fica a reflexão.

Neste momento em particular aguardo com muita expectativa a divulgação do nome daquele que irá cuidar da pasta do Meio Ambiente no governo 2019/2022. Que venha um nome que olhe para o meio-ambiente, mas que olhe também para o Paraná e sua gente com igual importância.

Nery José Thomé é engenheiro agrônomo e vice-presidente do Sindicato Rural de Campo Mourão