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Dinheiro, um mito em extinção

Todos nós, ao longo da vida, ouvimos as mais incríveis histórias (verdadeiras ou fantasiosas) sobre o dinheiro. Ter muito dinheiro, foi o sonho mais acalentado pelas crianças desde o dia em que tomaram conhecimento de que com aquelas cédulas ou moedas se adquire os doces, brinquedos e praticamente todos os produtos que facilitam a vida. Além de Tio Patinhas, o personagem infantil que possui uma fortuna dentro de uma caixa forte e “nada” no dinheiro, tivemos acesso a casos mais próximos de indivíduos de baixa cultura que, em vez de aplicar ou depositar no banco, guardaram o dinheiro dentro ou debaixo do colchão e perderam tudo porque a inflação corroeu o poder de compra.

O avanço da tecnologia e das comunicações, no entanto, está expulsando o dinheiro de nosso dia a dia. Embora o mercado ateste que 52% das vendas no comércio ainda sejam pagos com dinheiro vivo, estima-se que 70% dos pagamentos gerais se processem por transferências eletrônicas em diferentes formatos e a tendência é que isso se estenda, cada dia mais, às transações de menor valor. Até nas feiras-livres encontramos boa parte dos vendedores recebendo por cartão de débito ou crédito. Ninguém é capaz de prever, com segurança, quando o dinheiro deixará de circular, mas muitos estimam que isso poderá ocorrer em 20 anos, quando praticamente toda a população estiver integrada aos meios eletrônicos e similares.

Diz a história que o dinheiro surgiu no território onde atualmente é a Turquia, no século 7 aC, onde foram cunhadas moedas rudimentares que receberam valor na troca por mercadorias. Com o passar do tempo foi tomando formas e aperfeiçoamento até chegar ao estágio atual de cédulas e moedas garantidas pelos governos e reguladas pelo mercado. Ao mesmo tempo que exerce verdadeira mística sobre as pessoas, esse material traz como inconvenientes o custo de manutenção, possibilidade de contaminação e transmissão de doenças, a necessidade de transporte e, principalmente, a insegurança. Os assaltos, hoje conhecidos como saidinha de banco, são testemunhas disso. Também servem à corrupção, como demonstram as malas de dinheiro ilícito e os maços de notas apreendidos na cueca e em outros lugares improváveis de transporte e guarda.

A disseminação dos processos computadorizados, além de servir à circulação dos valores sem a movimentação física de dinheiro, também se prestam à fiscalização da licitude dos pagamentos e recebimentos. Quanto mais se aperfeiçoa a tecnologia, torna-se mais difícil esconder dinheiro. Essa talvez seja uma das fortes razões para que, num tempo não muito distante, cédulas e moedas se tornem peças de museu destinadas apenas a contar a história das relações comerciais entre governos, empresas e indivíduos que, a partir de então, farão suas transações pelos cartões, hoje conhecidos como “dinheiro de plástico” ou mediante simples ordens de transferência da conta de quem paga para a do recebedor. No lugar do dinheiro físico restará o virtual, cercado de grande esquema de segurança contra ladrões, corruptos e outros malfeitores...

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves - dirigente da Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo
Como mediar conflitos nas escolas

Mediar um conflito de forma positiva, restaurando os sentimentos e as emoções usando modelos não punitivos responsabilizando os envolvidos. Esses são alguns dos objetivos das Práticas Restaurativas que se consolidam como um conjunto de valores, atitudes e comportamentos que rejeitam a violência e previnem os conflitos para resolver os problemas por meio de diálogo e da negociação entre as pessoas, grupos, instituições ou nações.

As Práticas Restaurativas têm sua origem na Justiça Restaurativa, que desde a década de 1970 vem se expandindo por diversas países, como Canadá, Nova Zelândia, África, Reino Unido, Estados Unidos e, desde de 2005, no Brasil. Essas práticas promovem a conexão em sala de aula e podem ser utilizadas para lidar com situações de conflitos, violência física e verbal, bullying e diversas situações indesejadas no ambiente escolar.

Os processos atuais não respondem as necessidades de diminuição do problema da violência, seja ela ocorrida no âmbito escolar, familiar, no ambiente de trabalho e em espaços públicos e privados. O Atlas da Violência 2018 revela dados surpreendentes: “Segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde (SIM/MS), em 2016 houve 62.517 homicídios no Brasil. Isso implica dizer que, pela primeira vez na história, o País superou o patamar de trinta mortes por 100 mil habitantes (taxa igual a 30,3). Esse número de casos consolida uma mudança de patamar nesse indicador (na ordem de 60 mil a 65 mil casos por ano) e se distancia das 50 mil a 58 mil mortes, ocorridas entre 2008 e 2013”, o que revela um crescente significativo no problema da violência no País.

O ambiente escolar, por exemplo, sendo um lugar onde diferentes pessoas e culturas se encontram, mas nem sempre se conectam, enfrenta desafios. Desta forma, o diálogo entre alunos e professores pode promover e consolidar uma cultura da paz nesse local. Em sala de aula as metodologias restaurativas podem ser realizadas por meio de círculos de diálogos, de negociação e de estudos, pela mediação por pares e outras estratégias restaurativas que envolvem dinâmicas de grupos, e atividades desenvolvidas tendo como elemento central as necessidades dos alunos, professores, pais e colaboradores.

Os esforços devem ser feitos para uma formação continuada dos professores nas escolas de modo que esta, se tornem um ponto não apenas de transmissão e aquisição de conhecimentos, mas de vivências e disseminação de uma cultura capaz de responder os problemas emergentes da violência na sociedade contemporânea.

Nesse sentido, as Escolas Sociais do Grupo Marista, que atendem gratuitamente mais de 7,5 mil crianças e adolescentes em áreas de vulnerabilidade social nos Estados do Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul, trabalham não apenas a técnica, mas uma nova cultura e paradigma no campo da formação docente e de um currículo escolar humanizado e disseminador da cultura da paz. Muitas tecnologias também fazem parte da estratégia, sendo elementos importantes nos espaços vulneráveis. Os resultados são um bom relacionamento e um clima escolar que interferem diretamente na aprendizagem dos conteúdos escolares e na vivência dos valores humanos.

O objetivo é que no futuro tenhamos comunidades educativas capazes de mediar conflitos e tensões, reparar danos, construir relacionamentos menos violentos e ainda mais seguros dentro do ambiente escolar de maneira autônoma e responsáveis.

*Diego Oliveira de Lima é coordenador educacional de segmento das Escolas Sociais do Grupo Marista. Pedagogo, filósofo, especialista em Filosofia antiga e mestrando em Direitos Humanos e Políticas Públicas pela PUCPR.
Até onde vai a pressão popular

O ex-presidente Michel Temer foi preso duas vezes e colocado em liberdade o mesmo número de vezes. Sabemos todos, pelo noticiário da imprensa, as razões que o levaram à prisão. E da mesma forma e pelo mesmo canal, as motivações para a sua soltura. Agora o ex-presidente está em casa, vivendo a sua “liberdade” com algumas restrições impostas pela Justiça. Ainda assim, muitos brasileiros foram às redes sociais mostrar o seu descontentamento com a “nova” soltura do ex-presidente.

Não cabe neste artigo entrar no mérito das circunstâncias daqueles que o mandaram para a prisão e, em igual forma, das razões daqueles que o soltaram. O que quero, pois entendo que é tema relevante, é tratar da reação da Justiça às pressões das manifestações populares, que de uns tempos para cá, mais precisamente depois do aparecimento das Redes Sociais na Internet, ganham volume e força toda vez que a pauta do Tribunal apresenta caso rumoroso da esfera política. Como no caso em tela, o do ex-presidente Temer.

É fato que o ex-presidente nunca foi um político carismático e que contra ele pesam acusações graves. Entretanto, nunca é demais recordar, o ex-presidente Temer é apenas acusado e nada além. Se ele é culpado ou inocente quem vai decidir é a Justiça, após argumentações da acusação e defesa. Não as ruas e nem as redes sociais. Na prática, convém não esquecer, o ex-presidente não foi julgado ainda em nenhuma instância, ou seja, não foi condenado a nada. Gostem dele ou não, fato é que existe um rito processual, igual para todos os cidadãos, que precisa ser seguido. 

O povo tem o direito e é salutar que se manifeste pacífica e livremente, sobretudo porque vivemos num País democrático. No entanto, é importante que o cidadão, manifestante ou não, saiba que a pressão das ruas e/ou das redes sociais não pode e nem deve mudar um veredito, que precisa se ater apenas ao que consta nos autos do processo. Não dá e nem pode ser diferente.

Juiz não é super-herói e muito menos carrasco. Existe uma tábua de leis, o famoso Código Penal, que lhe impõe limites e, em tese, obstrui qualquer possível prática de arbitrariedade. Não dá para atender a vontade das ruas e das redes sociais se esta contraria os autos do processo e não encontra amparo no Código Penal. Juiz tem que ter ouvidos moucos!

Não raro, quando o tema veredito x vontade popular vem à tona, tem sempre um leigo que invoca o antigo ditado popular que diz “que a voz do povo é a voz de Deus”. Pode até ser, mas fora do âmbito da Justiça. Até porque, não se pode esquecer que foi o povo quem condenou Jesus, o filho de Deus, e libertou Barrabás, bandido confesso. Em tempos de fake news movidas a whatsapp, todo o cuidado é pouco. E a Justiça sabe disso.

*Roberto Parentoni é advogado criminalista
Uma breve reflexão sobre as instituições democráticas

Muito se fala, atualmente, sobre as instituições públicas brasileiras. Que elas estão em pleno funcionamento, que asseguram o Estado Democrático de Direito, que estão sólidas e consolidadas. Em primeiro lugar, devemos deixar claro que as instituições públicas (Congresso, Judiciário, Presidência da República, entre outras) são regidas pela Constituição Federal de 1988 e, portanto, cabe a todos nós obedecer nossa lei maior. Assim se faz em uma democracia!

Aquilo que os nossos nobres deputados e senadores ganham de salários e outros privilégios está dentro da lei. É bem verdade que eles mesmos votaram essas leis em seu favor, mas agiram de acordo com a Constituição, portanto, dentro das regras do jogo democrático. Quanto tempo demora a tramitação de uma emenda constitucional? Ninguém sabe, e depende de muitos fatores: o que o Presidente da Câmara pensa a respeito; qual é quantidade de votos que a situação (favorável a essa proposta) tem; a fidelidade partidária dos deputados; a velocidade da tramitação nas diversas Comissões legislativas; etc. Caso uma emenda constitucional, ou um projeto de lei, seja de iniciativa do Executivo, a situação ficará ainda mais nebulosa. Por quê? Porque o Chefe do Executivo, o nosso Presidente da República, tem o poder de um monarca, conferido pela Constituição. Ele pode nomear milhares de assessores, ministros, diretores de Estatais, etc. Ele tem um poder constitucional imenso, mas não tem todo esse poder político, pois a eleição majoritária do Executivo nada tem a ver com a eleição proporcional dos parlamentares. O que acontece? O que vemos todos os dias desde a eleição direta de 1990: as chamadas crises institucionais, independentemente de quem seja o governante.

A necessária negociação do Executivo com o Congresso traz em seu bojo incontáveis interesses pessoais e partidários que podem levar a um aumento de gasto público, a favores aos partidos, a setores da sociedade, a leis específicas para beneficiar este ou aquele e, finalmente, favorecem a corrupção. E onde fica o interesse do povo, da sociedade, do bem comum, do crescimento da economia, dos empregos, da melhor qualidade de vida para todos? Creio que os índices de IDH, do PISA, de Segurança Pública, respondem essa pergunta.

O que devemos fazer? Fechar o Congresso? Obviamente não! Regimes autoritários sempre fracassaram no médio ou no longo prazo. Todos os países que deram certo, que alcançaram uma menor desigualdade social, um maior crescimento e distribuição de renda, uma estabilidade política, foram aqueles que empregaram e empregam uma liberdade econômica em um regime democrático. O que devemos fazer é nos manifestar através do voto! É elegermos parlamentares que efetivamente se identifiquem com a mudança do sistema político brasileiro! É um caminho árduo, difícil, custoso? Sem dúvida! Mas, se chegarmos a esse objetivo, estaremos assegurando uma nação estável, próspera, ordeira e solidária, para as futuras gerações.

* Celso Tracco é escritor, palestrante e consultor - www.celsotracco.com
Os custos humanos e financeiros dos acidentes de trânsito

A segurança no trânsito está se tornando um dos mais graves e trágicos dilemas enfrentadas por governantes, legisladores, agentes de fiscalização, motoristas e cidadãos brasileiros.

Conforme dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), apresentados em evento nacional em Brasília no final de maio, o trânsito urbano e rodoviário mata cinco pessoas e manda outras 20 para tratamento hospitalar por hora no País, ao custo de três bilhões de reais em 10 anos para o Sistema Único de Saúde (SUS). 

Conforme o estudo, a imprudência é a principal razão dos desastres, mas o mau estado de rodovias e vias urbanas, as deficiências na sinalização, os problemas na manutenção de veículos e a falta de maior rigor na fiscalização, também contribuem para essa tragédia lamentável, que muitas vezes vitima pessoas inocentes e responsáveis, como motoristas, motociclistas, passageiros, ciclistas e pedestres.  

De acordo com o levantamento, os acidentes de trânsito no Brasil atingem principalmente homens, que representam 80% das vítimas, a maioria formada por jovens. Em 60% dos casos fatais, as vítimas têm    entre 15 e 39 anos, enquanto 8,2% até 14 anos e 8,4% são maiores de 60 anos.

Segundo o estudo da CFM, nas Regiões Sul e Sudeste os óbitos caíram, respectivamente, 15% e 18% entre 2007 e 2016. Na Região Norte, a mortalidade por acidentes subiu 30%, enquanto no Nordeste o crescimento foi de 28%. Na Região Centro-Oeste, a alta foi de 7%.

Um número impressionante de tragédias foi registrado no Estado do Piauí, onde as mortes em acidentes de trânsito saltaram de 670 para 1.047 entre 2007 e 2016, com aumento de 56%. A razão para essa calamidade estaria na utilização de motocicletas, pois nesses veículos os para-choques são as pernas dos condutores.

Especialistas esclarecem que o aumento de acidentes no Norte e Nordeste se deve ao crescimento significativo do uso de motos nos últimos anos, substituindo cavalos e asnos, até agora tradicionais na movimentação de pessoas e pequenas cargas nessas regiões.

Ocorre que as motocicletas são meio de transporte barato e fácil de ser conduzido, embora também mais vulneráveis aos acidentes de trânsito, já que motociclistas são menos visíveis no trânsito, disputam espaço com veículos maiores e, com pouca proteção, acabam sofrendo lesões graves, que exigem internações hospitalares e muitas vezes deixam sequelas graves.

Como consequência dessa realidade, entre 2009 e 2018, as internações hospitalares por acidentes de trânsito cresceram 33% no País. No Estado de Tocantins, as 60 internações de 2009 saltaram para 1.348 em 2018, com aumento de 2.147%.

Em segundo lugar nessa trágica estatística ficou o Estado de Pernambuco, com elevação de 725% nas internações na última década. Apenas Maranhão, com redução de 40%, Rio Grande do Sul de 22%, Paraíba de 20%, Distrito Federal de 16% e Rio de Janeiro com diminuição de 2%, registraram queda no índice.

Para agravar ainda mais essa tragédia, as internações decorrentes de acidentes com motociclistas são ainda mais onerosas, pois exigem cirurgias complexas, como neurológicas, vasculares e ortopédicas, além de maior tempo de internação.

Dessa forma, as 20 internações por hora de vítimas de acidentes de trânsito custaram cerca de 290 milhões de reais por ano ou três bilhões de reais em 10 anos, ao SUS e serviços de saúde estaduais e municipais.

* Dilceu Sperafico é ex-deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado. E-mail: [email protected]
Aplicação adequada da demissão por justa causa

A demissão por justa causa é a maior punição possível para um empregado, pois o mesmo perde o direito a receber várias verbas rescisórias, e sai da empresa “com uma mão na frente e outra atrás”. Portanto, a medida deve ser aplicada com cautela, observados os ditames legais.

As hipóteses que ensejam essa modalidade de demissão estão todas previstas no artigo 482 da CLT, que é um rol taxativo, ou seja, não cabem interpretações ampliativas das hipóteses legalmente previstas, que são: a) ato de improbidade; b) incontinência de conduta ou mau procedimento; c) negociação habitual por conta própria, ou sem permissão do empregador constituindo concorrência contra a empresa, ou for prejudicial ao serviço; d) condenação criminal transitada em julgado, com pena privativa de liberdade; e) desídia; f) embriaguez em serviço; g) violação de segredo da empresa; h) ato de indisciplina ou subordinação; i) abandono de emprego; j) ato lesivo contra honra ou boa fama praticado no serviço contra qualquer pessoa ou superior hierárquico; k) prática constante de jogos de azar; l) perda da habilitação ou dos requisitos estabelecidos em lei para o exercício da profissão, em decorrência de conduta dolosa do empregado; m) prática de atos atentatórios à segurança nacional.

Não são raros os casos onde o ex-funcionário propõe ação judicial buscando a reversão da medida, e em virtude da falta de provas no processo ocorre a reversão judicial.

Para assegurar a validade da demissão por justa causa o ideal é que sejam produzidas provas documentais relativas à falta cometida.

Além disso, se faz necessário observar alguns requisitos, tais como: a) imediatidade: a justa causa deve ser aplicada logo que o empregador toma conhecimento da prática do ato faltoso, ressalvados os casos onde é necessária investigação prévia, quando a empresa deve aplicar a justa causa após a conclusão da investigação; b)proporcionalidade: deve ser analisada a gravidade da falta cometida, o passado funcional do trabalhador, bem como seu grau de instrução; c)non bis in idem: o empregador não punir o empregado duas vezes pela mesma falta, assim se o funcionário é advertido por determinado ato, não pode ser demitido por justa causa pelo ato que ensejou a advertência.

Sabine Stumm é advogada do Fonsatti Advogados Associados
Redução da maioridade penal: um populismo que custa caro

De forma recorrente, o tema da maioridade penal ressurge nos debates públicos, seja com o renascimento de proposições de redução da idade mínima para a imputabilidade penal ou acompanhadas de promessas de redução das estatísticas de infrações praticadas por jovens. A mais nova proposição é a do senador Flávio Bolsonaro, que pretende reduzir a maioridade penal para 16 anos como regra geral e para 14 anos em casos de crimes hediondos, tráfico de drogas, associação criminosa, entre outros (alguns sequer especificados).

Todavia, o próprio discurso apresentado pelo senador como justificativa para a proposta já revela os equívocos de suas premissas. De acordo com o senador, os “avanços sociais e tecnológicos das últimas décadas” teriam propiciado “o desenvolvimento precoce de crianças e adolescentes”, o que tornaria obsoleto o marco de 18 anos de idade. Porém, esse argumento, além de carecer de embasamento científico, entra em contraste com sérias pesquisas científicas recentes, que sugerem justamente o oposto. Nesse sentido, e por exemplo, o interessante estudo realizado pelas pesquisadoras J.M. Twenge e H. Park, intitulado “The Decline in Adult Activities Among U.S. Adolescents, 1976-2016", que demonstra que os jovens estão demorando cada vez mais para amadurecer.

Flávio Bolsonaro também motiva sua proposta no argumento de que adolescentes teriam discernimento sobre seus atos, em especial os praticados com extrema violência e crueldade. Ocorre que o critério de delimitação de idade para a maioridade penal passa longe de ser o mero discernimento. Leva-se em conta, além da capacidade do jovem de compreensão de toda a extensão do significado do ato em sua própria vida e na de terceiros, as consequências sociais de sua inserção no sistema prisional.

O parlamentar alega que a redução da maioridade é tendência a ser adotada em países desenvolvidos. Trata-se de um argumento de mera conveniência (por exemplo, a grande maioria dos países centrais já descriminalizou o aborto consentido, porém, nesse ponto, o senador não parece querer imitá-los), mas incorreto: conforme demonstrou estudo realizado por G. S. A. Hathaway, consultora legislativa da Câmara dos Deputados, intitulado “O Brasil no regime internacional dos direitos humanos de crianças, adolescentes e jovens: comparação de parâmetros de Justiça juvenil”, a tendência global é o aumento do limite de idade para a maioridade penal.

Sugere o senador, por último, que a redução da maioridade penal “certamente iria gerar uma diminuição da quantidade de crimes” cometidos pelos jovens. O argumento, além de não conter qualquer embasamento científico, é largamente contrariado por diversas pesquisas empíricas, que indicam justamente o oposto: quanto mais cedo um jovem é inserido em um sistema prisional, maiores são as chances de que se consolide uma carreira criminosa. Sobre esse tema, recomendo a leitura de Irracionalismo e redução da maioridade penal - pequeno texto publicado por M.S. Dieter e L.A. Souza no Boletim nº 271 do Ibccrim.

Em suma, essa proposição de redução da maioridade penal se mostra essencialmente populista, equivocada em suas premissas e inapta a alcançar os fins prometidos. Ela pode até gerar ao senador um ganho político perante seu eleitorado. Porém, se aprovada, essa medida promoveria um agravamento da desigualdade social e um encarceramento em massa de jovens das periferias. Estes, como sempre, os mais diretamente afetados por esse tipo de política punitivista irracional.

*André Szesz, advogado e mestre em Ciências Jurídico-Criminais pela Universidade de Coimbra. É professor da Escola de Direito e Ciências Sociais e coordenador da Pós-Graduação em Direito Penal e Processual Penal da Universidade Positivo.
A insaciável máquina do desperdício de dinheiro

Já é consenso geral que a máquina pública brasileira é insustentável em relação ao que o país arrecada. Os gastos com salários, aposentadorias, pensões, verbas de gabinete, contratação de assessores, privilégios, mordomias, festas etc. é um escandaloso e abjeto desperdício de dinheiro do contribuinte que, em contrapartida, não tem segurança, escola, hospitais, creches, estradas decentes, infraestrutura. Não tem direito a uma vida digna e nem esperança de um futuro melhor. Por máquina pública entendemos os três poderes: legislativo, executivo e judiciário e os três níveis de governo: federal, estadual e municipal. Perto de 80% da arrecadação de impostos vai para alimentar essa monstruosidade que, aliás, só cresce. Um escândalo sem tamanho, um peso insuportável que a população carrega e que só será eliminado com uma mudança do s istema político brasileiro.

Vejamos alguns dados novos sobre os municípios brasileiros, onde a vida dos contribuintes acontece. O Brasil possui 5.570 municípios e, destes, cerca de 1.400 têm até 5.000 habitantes; 1.300 têm de 5.001 até 10.000 habitantes, e cerca de 1.400 de 10.001 até 20.000 habitantes. Por lei, esses 4.100 municípios precisam ter, no mínimo 9 vereadores.

Pergunta: o que um vereador pode fazer, politicamente, em uma cidade de 10.000 habitantes? Agora vamos imaginar porque se precisa de 9 vereadores! Isto significa que temos um vereador para, praticamente, cada 1.000 habitantes! Será que essa proporção é a mesma para médicos, dentistas, polícia militar, escolas, e outros serviços essenciais? Será que essa é a proporção de professores qualificados nessas pequenas cidades? Além do óbvio custo para a população, certamente esses vereadores vão criar leis, para justificar seu salário, leis que provavelmente não trarão nenhum benefício para a população. Mas não creio que devemos pedir para extinguir a câmara de vereadores. Acredito que devemos lutar para que esses nobres políticos, sejam realmente servidores públicos, ou seja, que cidades até 20.000 habitantes não remunerem seus vereadores. Que seja um se rviço voluntário, pois certamente eles não precisam doar todo o seu tempo para a cidade. Seria uma espécie de conselho de cidadãos e cidadãs que se reuniriam uma vez por semana durante, talvez, 3 horas. Creio que o farmacêutico, o padre, o delegado de polícia, o dono do posto de gasolina, devem conhecer a maioria dos munícipes e suas necessidades. Não precisam deixar suas atividades normais para exercer um serviço público! Além disso, a enorme maioria dessas cidades não gera receita para pagar seu funcionalismo, vivendo de repasses (favores) dos governos estadual e federal.

Aumentando a discussão, podemos questionar por que eles existem como municípios, se não geram renda para se manterem? A máquina de desperdício de dinheiro em causas inúteis gera ignorância, desnutrição e morte, pois deixa a população necessitada desassistida. O atual sistema político brasileiro é, na essência, um inimigo da nação.

*Celso Tracco é escritor, palestrante e consultor - www.celsotracco.com
Pitaia, uma alternativa para diversificar a produção agrícola

A pitaieira é uma cactácea, rústica, de fácil adaptação em diferentes regiões. Até pouco tempo essa frutífera era desconhecida e atualmente representa um crescente nicho no mercado de frutas exóticas, sendo uma forma de incrementar a renda de pequenos produtores rurais devido ao seu alto valor agregado.

A conscientização da população, que busca um estilo de vida saudável com alimentos de alto valor nutricional e baixo teor calórico, tem impulsionado esse importante ramo do agronegócio. As vantagens do consumo dessa fruta são inúmeras, conta com a presença de vitaminas A e C, é rica em fibras, nutrientes e minerais essenciais para o nosso organismo.

A propagação dessa frutífera é comumente realizada através da estaquia. As plantas devem ser conduzidas com tutores de aproximadamente 1,80 m de altura, na parte superior do tutor recomenda-se colocar outro tipo de suporte para sustentação das brotações produtivas.

É necessário o preparo do solo antes do plantio e a adubação é recomendada de acordo com a análise de solo. As plantas iniciam o seu florescimento um ou dois anos após o plantio e maturação completa do fruto ocorre de 30 a 40 dias após a abertura da flor.

A produtividade média dessa frutífera varia de 10 a 30 t ha-1, dependendo das condições edafoclimáticas, das técnicas de cultivo empregadas e da idade do pomar. Já estão sendo feitos estudos sobre a adaptação e exigências da cultura na região oeste e produtores rurais já iniciaram o cultivo de pitaia no Paraná.

O fruto tem sabor suave e refrescante, de acordo com a espécie pode apresentar poupa de cor branca ou vermelha, seu consumo é in natura ou na forma de sorvetes, saladas, sucos, geleias, etc.

Luciana Sabini da Silva - Engenheira Agrônoma, mestranda em Produção Vegetal
Se eu falo inglês? Ah, me viro

Você também já teve dúvidas ao responder se seu nível de conhecimento da língua inglesa é “básico”, “intermediário” ou “avançado”? Para não errar, acaba respondendo: “ah, me viro”. De acordo com o British Council, 95% dos brasileiros não falam inglês. Dos 5% que falam inglês, apenas 1% demonstra algum nível de fluência (assunto para outro artigo).

Aprender outro idioma se torna um pesadelo para muitos que aprenderam “nada” durante os anos de língua inglesa na escola. A impressão que se tem ao relembrar esse tempo é que se estudou apenas o verbo “to be”, “do” e “does” todos os anos. E por que isso acontece? O cenário que temos no Brasil é: profissionais pouco qualificados e não falantes fluentes de inglês, poucas horas de aula de Inglês na escola, recursos escassos etc.

No Brasil o ensino do idioma é baseado na leitura, em regras e na decoreba de tempos verbais, quando deveria também considerar as habilidades de escuta, escrita e fala. Tudo isso de uma forma prática e dinâmica, com base nos interesses e necessidades dos alunos.

Frases deveriam ter significado, e não apenas serem “traduzidas”. As músicas deveriam ser apreciadas por sua letra e conteúdo, e não somente pela melodia. A compreensão de diálogos em filmes e séries deveria aumentar proporcionalmente ao avançar das linhas.

O Brasil é “em português”. A televisão, livros e jornais... todas as disciplinas são estudadas em português. Os professores, familiares e amigos falam português. Normalmente acontecem cinco ou seis aulas de português por semana. E ainda assim, menos de 2% dos estudantes brasileiros da 3ª série do Ensino Médio têm conhecimento adequado nessa disciplina e mais de 80% dos alunos enquadram-se no nível insuficiente, segundo dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) em 2017.

Atualmente, ocorrem duas aulas semanais de língua inglesa na rede estadual de ensino, nas quais os alunos estudam inglês “em português”. Com livros que ensinam a gramática de um idioma que os alunos conhecem, mas não compreendem. Como falar inglês assim? Se virando!

*Jamile Dabul é professora do Marista Idiomas do Colégio Marista Santa Maria, em Curitiba (PR).