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Em busca do sofrimento perdido

A busca pelo sofrimento é uma constante. Seja para o indivíduo coletivo, seja para cada sujeito em particular. Existem os que conseguiram se desvencilhar disso – pelo menos aparentemente – mas a grande maioria ainda é apegada à essa exaustiva jornada.

Enquanto coletividade, valorizamos características físicas inalcançáveis, ideais de felicidade que beiram a insanidade e, o mais curioso, desprezamos com vigor o saber coletivo, a cultura, a experiência. O que vale é o método, o dinheiro e a liquidez dele. O que tem de menos humano na humanidade, é o que vale mais.

Na universidade eu sinto isso muito nitidamente e a verdade é que essa conversa de valorizar o que cada um tem de melhor, sem pressionar todo mundo contra uma máquina de padronização do conhecimento, da prática e da conduta, soa como justificativa de fracassado – que é aquilo que os que não tiveram sucesso na empreita de se mostrar altamente produtivos são.

Quando as pessoas comentam que eu deveria trabalhar com literatura é essa a mensagem que o mundo, de fato, me transmite. A de que isso não é importante na ordem do dia e de que, no fim das contas, eu seria mais uma dessas escritoras que ninguém lê. Longe de mim me comparar a Dostoiévski, mas, vocês sabiam que uma das maiores editoras do Brasil só não fechou no vermelho em 2015 porque publicou o livro da youtuber Kéfera e que os livros de Fiódor Dostoiévski nunca são exibidos nas vitrines das livrarias?

Dostoiévski escancarou a humanidade do sujeito em suas obras, escreveu a primeira obra existencialista do mundo, tem um nome que a maioria de nós já ouviu falar, mas ninguém leu. A gente se esforça para ignorar o que há de humano na vida e focar na produtividade, nos salários, nas dietas low carb e o resto é conversa fiada.

É fato sacramentado que ninguém nesse mundo é orientado a viver daquilo que promove a sua felicidade – muitos nem sabem o que é que traz felicidade e realização pessoal. Alguns por sorte nascem com aptidões e desejos voltados para aquilo que tem valor e então são satisfeitos cotidianamente pelo seu trabalho; outros são mestres em suprimir o emocional, focando em seu ganha pão e terminam extremamente bem sucedidos no assunto; e a grande maioria abandona seus saberes individuais para abraçar uma causa que não é sua, mas de uma sociedade que se organizou de tal forma a oferecer sofrimento democratizado e em abundância. Depois começam a frequentar os psiquiatras, psicólogos e terapeutas holísticos em busca de resolução dos conflitos internos calcados na baixa valorização do que é o bom da vida.

Criamos um padrão insustentável para chafurdar em problemas existenciais e depressão, nisso fomos gloriosos, e hoje acordei pensando nessas coisas, em como emocionalmente somos verdadeiras antas, em como nada disso vai mudar e tende a piorar e, especialmente, em como tudo isso não passa de conversa para boi dormir.

Amanda Salvador tem 23 anos e estuda Medicina Veterinária na UFPR.