Editorial
Desgaste orquestrado

Pode ser apenas uma (infeliz) coincidência, porém, quando há novo pedido para suspensão de votação dentro da Câmara de Toledo é preciso abrir os dois olhos e não apenas um ‘zóio’ para tentar compreender aonde se pretende chegar. E o objetivo é muito claro: a eleição municipal de 2020. A retomada da discussão em torno do pedido de impeachment do prefeito Lucio de Marchi, que teria cometido irregularidades na inauguração da Central de Especialidades deveria ter sido arquivado. Não porque assim entende este jornal, mas porque a votação aconteceu na última sessão ordinária e por esmagadora maioria – inclusive com votos da oposição – o pedido seria arquivado.

Seria porque na sessão ordinária da próxima segunda-feira (18), o assunto retornará ao debate. Um desgaste muito bem orquestrado, porque é impensável algo tão grave acontecer outra vez dentro do Legislativo após a abertura de uma sindicância interna para apurar a responsabilidade dos fatos. O atual presidente sabia muito bem que não se poderia colocar em votação algo previamente não publicado no órgão oficial do município, portanto o fez de maneira deliberada ou intempestiva.

De uma ou de outra agiu de maneira contrária aos interesses não deste ou daquele grupo, mas contra os preceitos legais mais elementares dentro do Legislativo. Como ocupante do cargo máximo dentro da Câmara, o atual presidente Antonio de Freitas deveria saber disso ou ao menos se cercar de pessoas capacitadas para tanto. Não ouviu os servidores da Casa e o resultado aí está: outra anulação de votações importantes e que, sim, trazem desdobramentos imediatos na eleição que se avizinha.

O pedido (de impeachment) em si é um direito de qualquer cidadão e, caso haja indícios suficientes para embasá-lo, é um dever dos vereadores votarem. Entretanto, também é um dever do presidente da Câmara tomar decisões pautadas na racionalidade e não na base do ‘eu acho que’. É preciso responsabilidade à frente de tão importante cargo, pois a consequência hoje é apenas a anulação de uma votação, porém, poderiam ser muito mais graves se o assunto fosse diferente. Para abrir os olhos...

Filhos, ah esses filhos...

A mais nova crise do governo do presidente Jair Bolsonaro atende pelo nome do ministro-chefe da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno, que tenta desesperadamente se reunir com o chefe a fim de explicar uma suposta mentira sobre conversas com Bolsonaro pai, isso porque Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), vereador em terras cariocas e um dos filhos do presidente, escreveu na quarta que o ministro mentiu ao dizer que havia conversado por três vezes com seu pai no dia anterior. A publicação foi feita quando Bolsonaro estava em trânsito para Brasília.

A presença constante de Carlos ao lado de Bolsonaro também gera apreensões de que outros auxiliares possam ser futuramente alvo de retaliações. Há uma ala da bancada do PSL bastante descontente com a ação de Carlos que estaria desgastando ainda mais a imagem do governo do pai, ainda mais porque ele não é simplesmente um vereador, mas o filho do presidente da República e, portanto, qualquer fala sua repercute muito mais que a de um simples mortal.

O imbróglio acontece depois de reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo do último domingo (10), que revelou que o grupo do atual presidente do PSL, Luciano Bivar (PE), recém-eleito segundo vice-presidente da Câmara dos Deputados, criou uma candidata laranja em Pernambuco que recebeu do partido R$ 400 mil de dinheiro público na eleição de 2018. O dinheiro teria sido liberado por Bebianno. O ministro nega irregularidades e diz que cuidou apenas da eleição presidencial.

A candidatura laranja virou alvo da Polícia Federal, da Procuradoria e da Polícia Civil do estado. Um problema a mais para este novo governo lidar, assim como também ainda precisa explicar o silêncio em torno de outro caso grave: do ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz. Grave porque Flávio foi eleito senador, portanto, com peso muito maior nas decisões do Palácio do Planalto, até agora funcionando mais na base do extintor na mão do que a pistola prometida na época da campanha.

Bom senso e alerta

A votação sobre o pedido de impeachment do prefeito Lucio de Marchi (PP), ocorrida na sessão ordinária de segunda-feira na Câmara de Toledo, mostrou ao menos ainda existir bom senso dentro do Legislativo, até porque não foi uma vitória do prefeito em si, mas do papel dos vereadores, até porque o placar de 12 x 6 pelo não acolhimento da proposta somente aconteceu pelos votos de vereadores da oposição à atual administração. Tivesse havido um pouco mais de cautela na análise quem sabe o placar teria sido até mais elástico.

Prevaleceu o bom senso porque o pedido realmente era descabido diante dos benefícios advindos da inauguração da Central de Especialidades ao lado do Mini-hospital na Grande Pioneiro. Somente quem conheceu as duas estruturas funcionando para perceber a diferença gritante entre a antiga (localizada no prédio da Secretaria de Saúde) e a atual. Mais cômodo, entretanto, é trilhar na seara da politicagem.

De qualquer forma, mesmo aqueles que se posicionaram contra este pedido foram muito felizes quando reiteraram que, caso haja algum tipo de condenação futura ou novos elementos que justifiquem uma mudança, sem dúvida o pedido poderia ser reavaliado e um eventual impeachment votado. O que não é o caso neste momento, onde parece haver muito mais uma tentativa de desestabilizar um governo que, embora ainda cambaleante, parece dar sinais de estar se recuperando diante de algumas mudanças promovidas pelo prefeito. Será preciso ainda muito mais!

O bom senso veio junto com o alerta dado pelos vereadores que merecem, dessa vez, o aplauso. Até mesmo aqueles que votaram pelo acolhimento do pedido, pois em sua maioria foram fiéis às suas convicções e coerentes em seus discursos, como deveria ser sempre no parlamento. Infelizmente não é assim na maior parte do tempo. Uma ou outra exceção, claro, destoou do conjunto da obra. Uma pena, pois poderia ser uma semana para se pensar no resgate da credibilidade também dos vereadores, entretanto, como já dito: será preciso ainda muito mais!

Tragédia é tragédia

Em pouco mais de uma semana o Brasil observou duas tragédias tratadas pela sociedade em geral de maneira distinta. Embora haja muitas semelhanças, a barragem da Vale em Brumadinho (MG) e o alojamento do Flamengo no Rio de Janeiro pareciam duas peças de ficção: uma um filme de terror e outra um drama. No fundo, no fundo, ambas são tragédias fruto da irresponsabilidade das respectivas organizações mantenedoras. Mas assim parece não enxergar. Enquanto a empresa privada vem sendo bombardeada desde que a barragem de Brumadinho cedeu, a ‘Nação’ recebe toda solidariedade do mundo, como fosse possível não enxergar as irregularidades no dormitório onde jovens morreram, sonhando com um futuro melhor que o futebol profissional finge oferecer.

Tragédia é tragédia! Simples assim.

Não é possível querer tratar os dois casos de maneira tão distinta como parece fazer crer a grande mídia e as milhões de postagens mundo afora, taxando o clube carioca como vítima. Vítimas foram os jovens e trabalhadores queimados vivos. Vítimas são as famílias de quem depositava numa ilusão a salvação de todos os problemas. Vítimas são os torcedores fanáticos que fecham os olhos à podridão de um submundo onde negociações acontecem de maneira tão baixa que é preciso craques galácticos aceitarem acordos com a Justiça a fim de escapar da prisão.

Ah sim, o futebol profissional e suas paixões tresloucadas. Paixões que levam seres humanos a promoverem batalhas em centros urbanos, um retorno aos tempos medievais onde tudo se resolvia na base da força; paixões que fazem um país inteiro esquecer o que está por trás de um incêndio tão nefasto quanto o que ceifou a vida de outra centena de jovens numa boate do Rio Grande do Sul em 2015. O Flamengo é a boate Kiss de hoje, mas como é uma ‘Nação’, não precisa enfrentar processos e a ira da sociedade, de quem recebeu a benevolência. A mesma benevolência que tiveram os governos do Rio de Janeiro e federal ao destinar cerca de R$ 10 milhões em renúncias fiscais ao ‘clube do povo’.

Tragédia é tragédia, aconteça ela numa boate, numa barragem de mineração ou num clube de futebol.

Luto no jornalismo

Num tempo em que o jornalismo vem sendo tratado com desdém, onde as Fake News dominam o cenário e o papel do profissional de imprensa cada dia mais questionado, poucas vozes eram tão respeitadas quanto a de Ricardo Boechat, que nesta segunda-feira (11) morreu após acidente de helicóptero em São Paulo. Uma perda irreparável para o bom jornalismo brasileiro, afinal, com seu jeito muito particular, Boechat não poupava ninguém. Era impiedoso com tudo e todos quando algo equivocado acontecia, pois seu compromisso era com a opinião do público e não com a opinião pública.

Como todo bom jornalista, Boechat não era uma unanimidade. Odiado por uns e amados por outros, sua posição firme jamais pôde, entretanto, ser questionada, pois ela era comprometida com seus valores, com princípios arraigados em sua alma e em seu coração sensível às causas mais diversas, desde o mais simples cidadão ao mais abastado, como aliás deveria ser o exercício profissional de qualquer jornalista.

Na bancada de vários telejornais na Bandeirantes, era uma das últimas vozes de um jornalismo cada vez menos presente no país: sério, descompromissado com os modismos. Um jornalismo raiz, daqueles sem frescura, sem meias palavras.

Boechat não mandava recado. Dizia o que precisava ser dito, em especial nas suas participações especiais no rádio. Dizia de maneira simples, direta, dura e sem retórica. Falava aquilo que pensava e aquilo que condizia demais com a realidade nem sempre compreendida no momento em que acontece. Sua voz firme era um baluarte do jornalismo opinativo sem paixões partidárias, sem ideologias disfarçadas. Um jornalismo como se sonha quando se ingressa na faculdade e se tem a mente recheada de ideais.

Não, Ricardo Boechat não era um super-herói e sua morte prematura apenas reforça isso. Mas deveria sê-lo, pois a esta altura não se estaria lamentando sua partida de forma tão dramática, tão chocante. Morreu um dos mais brilhantes jornalistas dos últimos anos, um jornalista na essência de uma profissão nobre que perdeu um verdadeiro cavaleiro dos tempos modernos. Hoje o jornalismo nacional acordou não apenas mais triste. Ao menos o bom jornalismo que ainda merece respeito.

Pesadelo que ficou no passado

Para quem não é de Toledo ou não conheça bem sua história, talvez a inauguração do posto da Primato Cooperativa Agroindustrial nesta sexta-feira (8) represente nada ou muito pouco. Uma manhã normal, num fevereiro normal de qualquer cidade onde empreendimentos são abertos e fechados quase que toda semana. Mas o primeiro posto de uma rede que pretende ser ampliada até o fim deste ano não poderia ser encarado de uma forma simplória porque não o é, ainda mais quando a cidade ainda convive com fantasmas do passado nada glorioso que envolve o fechamento da Coopagro, talvez a única das grandes cooperativas paranaenses à época que faliu.

Abordar os motivos desta decisão não vem ao caso neste momento, onde é preciso celebrar um dia histórico na vida da Primato, a qual também atravessou momentos turbulentos em seu início – ainda quando se chamava Cooperlac – e venceu a desconfiança de quem não mais acreditava num sistema que funciona tão bem no Paraná, mas que em Toledo parecia amaldiçoado desde o fechamento da cooperativa que sempre será lembrada na história por emprestar seu nome e um dos mais populosos bairros.

Se o fantasma da falência da Coopagro ainda assombrava muita gente, talvez este 8 de fevereiro não represente o exorcismo completo de qualquer desconfiança em torno de uma cooperativa que se expande de maneira muito sólida em várias frentes. Para alguns pode até ser exagerado o gigantismo que se está chegando, com supermercados, farmácias, restaurantes e agora postos de combustíveis, sem mencionar as agropecuárias e fábricas, as principais marcas de uma cooperativa sólida e muito consciente de onde pretende chegar.

A Primato, nesta sexta-feira normal de fevereiro, provou ser capaz não apenas de ocupar o espaço deixado pela Coopagro, mas de ampliá-lo muito além do horizonte local ou regional, até porque hoje a cooperativa está presente em outras regiões do Paraná e até do Brasil. A inauguração do primeiro posto foi apenas mais um passo na concretização de um sonho que começou a ser desenhado a alguns anos, mas dado apenas agora, quando o caminho está melhor pavimentado na direção do sucesso.

A situação do Teatro

A interdição – ainda que parcial – do Teatro Municipal de Toledo deveria fazer corar de vergonha quem ocupou a pasta da Secretaria da Cultura e não se preocupou em promover a manutenção preventiva interna do espaço. Se houve essa intenção, então seria dos responsáveis virem a público esclarecer por quais razões se esperou chegar ao ponto da climatização pifar de vez e uma parte do piso ceder de maneira perigosa. Além disso, ao longo do ano o que se observou foi a degradação lenta – mas constante – de um dos principais cartões-postais da cidade e um dos principais palcos de apresentações das mais variadas do interior do Paraná.

A situação hoje é crítica e preocupante. Menos mal que o atual secretário da Cultura, Odemilson dos Santos, teve a coragem – para não escrever a decência – em vir a público e, numa entrevista exclusiva ao JORNAL DO OESTE, comentar sobre essa situação vergonhosa. Não para esta gestão, mas para aquelas que passaram sem a devida ação, reforce-se, preventiva. Nem mesmo uma pintura externa foi feita ao longo destes 19 anos de história do Teatro Municipal.

Ao longo deste período o JORNAL DO OESTE vem alertando sobre alguns dos problemas encontrados no espaço. A pichação, a sujeira, vidros quebrados, escadas internas com defeito, enfim, uma série de precariedades que em nada combina com a beleza do local. Uma beleza cuja maquiagem não foi sendo feita e hoje não passa de um borrão feio, sujo, gasto pela ação implacável do tempo.

É preciso ser justo: algumas correções internas foram feitas na gestão passada, atendendo a um pedido do Corpo de Bombeiros para tornar o local mais seguro. Mais foi só. Muito pouco para um espaço que abriga tantos eventos, eventos que deverão ser remanejados ou cancelados diante da necessidade de obras emergenciais, até porque sem climatização num ambiente onde as temperaturas nesta época do ano são altíssimas é impossível suportar.

Oxalá ao menos esse cavalo não seja usado numa batalha demagógica eleitoreira, até porque ninguém pode falar de ninguém diante dos anos de abandono e, por que não, de irresponsabilidade em relação ao espaço.

Inteligência para combater a burrice

“A Inteligência é o segredo de tudo. A partir dela conseguimos produzir conhecimento efetivo para planejar e fazer operações cirúrgicas. A Inteligência procura sempre se antecipar em relação às ações, principalmente do crime organizado. A ideia é caminhar sempre a frente para que a polícia tenha uma atuação proativa”. A frase é do diretor da Agência de Inteligência da Polícia Civil do Paraná Silvio Rockembach, que esteve em Toledo, onde se reuniu com o delegado da 20ª Subdivisão Policial (SDP) Donizete Botelho e a delegada da Mulher Fernanda Lima Moretzsohn, é importante porque demonstra a preocupação em não apenas manter o sistema que tão bons resultados tem apresentado em Toledo, mas de unir forças e, dessa forma, combater de maneira mais organizada o crime.

A visita, claro em caráter formal, também é importante porque serviu para os delegados apontarem os problemas enfrentados no cotidiano, entre eles a falta de efetivo. Hoje o déficit chega a quase 50% na Polícia Civil do Paraná. O número é gigantesco, entretanto, pegando a realidade da 20ª SDP, é preciso enaltecer que apesar do efetivo reduzido, ainda assim os números são extremamente positivos, graças ao empenho de quem ali trabalha. Situação semelhante ocorre na Polícia Militar e no Corpo de Bombeiros.

A estratégia de unificar o trabalho de inteligência seja, talvez, a melhor notícia deste novo momento vivido em termos de segurança pública no Brasil, afinal, é uma estratégia inteligente de combater a burrice gerada por anos de descaso para com as forças policiais e a burocracia que impera e não permite que forças complementares complementem seus serviços. Mais que investir em inteligência é preciso antes gerenciar os egos de quem muitas vezes ocupa cargos para os quais não estão preparados.

Em Toledo esse exemplo de união entre as forças tem apresentado resultados muito satisfatórios. E não apenas no campo da segurança pública, pois há algum tempo os agentes públicos perceberam ser possível estender a inteligência para outras áreas, onde muitas vezes se pode combater a criminalidade com palestras, diálogo e troca de informações.

O número de vereadores

Antes mesmo do aumento de 11 para 19 vagas na Câmara Municipal de Toledo, ser referendado, o JORNAL DO OESTE posicionou-se contrário à proposta por entender ser um exagero este número de vereadores por vários aspectos, entre eles a questão econômica que este aumento trouxe aos cofres públicos. Embora o Legislativo local utilize em geral a metade do previsto na legislação pertinente, ainda assim oito cadeiras a mais pesam no cofre. Soluções paliativas foram sendo tomadas, como a redução de dois para um assessor parlamentar, em parte prejudicando o trabalho do próprio vereador enquanto agente político e público.

Esta semana uma nova proposta de redução foi apresentada na Câmara e dos 19, apenas sete vereadores assinaram a proposta até a segunda-feira (4), quando a proposta começou um longo trâmite interno. Talvez a esta altura mais alguns tenham se juntado à empreitada. Uns por conveniência, outros por pressão. O mais importante é que os vereadores precisam ter a consciência de haver hoje um novo momento no país, um movimento pela redução do tamanho da máquina pública. Não apenas isso, mas também um clamor na direção da eficiência, em oferecer à sociedade as respostas esperadas e não apenas um empurra-empurra burocrático que atrasa a vida de todos.

A proposta defendida por este jornal é de uma Câmara com 15 vereadores no máximo e, dentro das necessidades futuras, ir ajustando este número de acordo com o crescimento da cidade. Hoje, comparando a realidade de Toledo com outras cidades do Paraná, chega a ser um absurdo uma Câmara com 19 vereadores. Evidente que não existe um número ideal, até porque essa é uma discussão complexa e permeada de interesses nem sempre republicanos.

De qualquer forma é um alento observar existirem ainda políticos dispostos a discutir temas contrários ao próprio universo do qual fazem parte. O corporativismo político precisa ser reduzido ao máximo no Brasil porque a sociedade não suporta mais observar mudanças no setor geralmente criando novos privilégios ou então alterando regras convenientes para manter um sistema notadamente falido.

O pacotão de Moro

Aos poucos o agora ministro Sérgio Moro vai mostrando que não abdicou da toga para passear em Brasília. O pacotão a fim de endurecer a legislação contra a corrupção e a criminalidade violenta e organizada foi apresentado nesta segunda-feira (4) e, claro, provocou amplo debate no meio jurídico. Procuradores, delegados de polícia, advogados criminalistas e constitucionalistas defendem e criticam o texto do ex-juiz federal da Lava Jato. Mas, independente de posição pendendo para um lado ou outro, importante observar que Moro segue firme em seu propósito, assim como o novo governo, pois essa decisão não seria possível sem a anuência do presidente Jair Bolsonaro.

Um alento num país que desde seu início convive com a cultura da impunidade, com o jeitinho e as brechas intermináveis num sistema jurídico que, sim privilegia os mais abastados em detrimento de uma esmagadora maior que sofre por não ter acesso ao máximo benefício da lei. Muitas das propostas apresentadas não chegam a ser novidade. Eram defendidas por Moro quando ainda era juiz federal.

Um dos pontos mais polêmicos é a possibilidade de redução ou isenção de pena de policiais que causarem morte durante sua atividade, iniciativa duramente criticada por advogados criminalistas, mas um dos pilares da campanha de Bolsonaro à Presidência da República.

As medidas buscam modernizar o processo penal, aumentar sua eficácia no combate a crimes graves e evitar a impunidade decorrente da protelação indevida do processo, o que reforça entre a sociedade a descrença no sistema como um todo. O novo pacote – que ainda precisa ser aprovado – tem mesmo o objetivo de endurecer o jogo contra a impunidade e isso não pode ser questionado, ainda mais quando se observou um desmonte institucional de valores tão intenso nos últimos anos num país onde os conceitos se inverteram por completo, assim como os direitos de quem sequer deveria tê-los ao optar por um caminho que não segue o legalmente previsto.

Que o pacotão de Morto seja apenas o primeiro passo rumo à mudança cultural tão necessária num país onde a cultura do pode tudo sempre foi a tônica. Espera-se que no futuro possa ser o contrário.