Editorial
Defender o indefensável

Não precisa ser um expert em direito para saber que havia algo de errado com os contratos de concessão do pedágio nas estradas paranaenses. A desculpa – de sempre – era que o modelo paranaense era o primeiro a ser implantado no país, daí as tarifas caríssimas cobradas do usuário; a falta de obras previstas no contrato, mas deixadas de lado por acordos; aditivos intermináveis; a famosa frase ‘ou o pedágio baixa ou acaba’. Entre a verborragia e a prática prevaleceu o interesse de muita gente, em detrimento da maioria esmagadora da população que utiliza e paga por isso: um serviço ‘meia boca’ em estradas classificadas da mesma forma.

Pois bem, a semana começa com a ponta do iceberg começando a ser desvendada neste verdadeiro Titanic que provocou o naufrágio da sociedade paranaense. A força-tarefa da Lava Jato do Ministério Público Federal no Paraná (MPF/PR) denunciou o ex-governador Beto Richa (PSDB); seu irmão, o ex-secretário de Estado da Infraestrutura e Logística, José 'Pepe' Richa (PSDB) e mais oito pessoas por organização criminosa e corrupção passiva e participação em um esquema que teria recebido pelo menos R$ 35 milhões em propina de concessionárias do pedágio.

De acordo com a denúncia, o esquema teria desviado R$ 8,4 bilhões, através do cancelamento de obras em rodovias e aumento de tarifas no Anel de Integração. E isso apenas da última gestão no comando do Governo do Estado, mas o problema vem desde o início, há mais de 20, passando pelas gestões dos ex-governadores Jaime Lerner e Roberto Requião. Ao todo foram denunciadas 33 pessoas, entre políticos, autoridades, empresários e agentes públicos.

Segundo os procuradores, graças a esse sistema, caso uma das concessionárias obrigada a duplicar 100 quilômetros de rodovias ao custo de R$ 300 milhões, sustentasse - com base em suas próprias planilhas de custos superfaturados – que com os R$ 300 milhões só foi possível duplicar 50 quilômetros. Havia um simples pedido para as obras serem suprimidas e assim o era.

Simples, entretanto, é fechar essa conta que fácil, fácil ultrapassa os R$ 8,4 bilhões, pois quantas vidas foram ceifadas sem as devidas obras? Quanto custou às empresas paranaenses rodar com tarifas tão elevadas e em estradas sucateadas? Quanto custou a você, leitor, viajar para vários cantos do estado? O valor apurado pelo MPF/PR é apenas um indicativo, um parâmetro, pois seria – e será – impossível determinar o quanto essas ações espúrias provocaram aos milhões de paranaenses lesados há décadas. E ainda tem quem defenda a manutenção deste modelo que aí está...