Facetas! Múltiplas faces
Do que você faz parte?

A semana acadêmica estava programada para acontecer durante quatro dias com um palestrante por noite. Eram nomes das respectivas áreas de conhecimento que podiam efetivamente contribuir com a formação dos acadêmicos. Porém, os organizadores pensaram em oferecer algo a mais. Para cada dia de evento, antes de começar os trabalhos acadêmicos, eles convidaram artistas locais para fazer apresentações culturais. Na primeira noite, apresentou-se uma dupla de cantores que interpretaram maravilhosamente um repertório de músicas internacionais, passando por Frank Sinatra, Elvis Presley e outros cantores que marcaram época. Na segunda noite, a semana acadêmica foi brindada com as apresentações artísticas de um Centro de Tradições Gaúchas que contou com o encanto de dançarinos infantis e adultos. Na terceira noite, a última em que estive presente, foi a vez de uma banda de Rock Nacional que fez um show resgatando os grandes sucessos da década de 1980. Até aí tudo normal. O que há de diferente em tudo isso? A particularidade dos artistas. Tocaram e se apresentaram como profissionais, mas eles eram amadores. Todos eles mantinham a sua rotina de trabalho numa empresa que incentiva os colaboradores a desenvolverem novas habilidades e a descobrirem novos talentos. Entende-se que a participação em algo mais do que somente a empresa deixa-os mais felizes porque fazem parte de algo maior. Por isso a pergunta: do que você faz parte?

Penso que trabalhar faz parte das nossas vidas, assim como a participação na comunidade, em associações, em clubes, em grupos de amigos e nas nossas famílias. É essa sensação de pertencimento que contribui para a realização individual, uma vez que a vida do indivíduo somente tem sentido na participação do coletivo. São raras as pessoas autossuficientes que conseguem se realizar sozinhas. Um ou outro ermitão alcançou tal feito. Chamou-me a atenção ao conversar com um dos integrantes da banda de rock, porque ele estava em horário de trabalho. Ele conseguiu permissão do chefe para sair da empresa, deslocar-se até a universidade, participar da apresentação e, posteriormente, retornar ao trabalho. A empresa incentiva a que as pessoas participem de atividades extra laborais para estimular a construção de laços entre as pessoas que ultrapassem o ambiente de trabalho. É um discurso e uma prática que busca fomentar e promover a qualidade de vida dos colaboradores em todas esferas de suas vidas, porque eles entendem que nós somos seres sociais feitos para viver com as pessoas, para as pessoas e pelas pessoas. Entretanto, aqueles que querem participar escolhem pagar o preço. Ensaiam em horários pós laborais. Comprometem-se consigo mesmos e com os demais participantes de cada projeto. Fazem uma escolha que exige esforço, dedicação e disciplina. Qual é o retorno? A satisfação com a vida!

A pergunta do título do texto, do que você faz parte?, é uma provocação para demonstrar que todos nós somente temos sentido com o outro. Por isso, é importante que participemos e que contribuamos nas organizações às quais pertencemos. Por fim, acrescento mais algumas perguntas: a tua equipe é melhor porque você está nela? Qual é o ganho da tua organização por você estar nela? E a tua família, a tua comunidade, o teu país e o mundo são melhores porque você está nele? Se ainda não são melhores, é bom começar a fazer parte de algo e contribuir positivamente, caso contrário, seja um ermitão...

Moacir Rauber
Qual é o seu negócio?

O cliente estava em negociação com o vendedor da farmácia para o atendimento de uma ´prescrição médica que envolvia um grande número de medicamentos e um valor considerável. O cliente pediu um desconto e o vendedor disse:

- Bem, pode pesquisar na concorrência e para o preço que você encontrar mais baixo nós faremos uma oferta melhor.

É frequente ouvirmos esse tipo de proposta por parte de empresas de diferentes ramos, assim como é comum nós pensarmos que estamos diante de uma organização que faz o melhor pelo seu cliente. Porém, caso paremos e pensemos um pouco mais sobre a oferta pode-se questionar: se as empresas sabem que podem fazer melhor por que não o fazem logo? Acredito que seja porque elas ainda não sabem qual é o negócio delas e mantém o foco nas metas financeiras. Normalmente, elas lutam para alcançar o faturamento estabelecido para que cada colaborador embolse seu bônus e a organização, aparentemente, seja lucrativa. Na oferta de melhor preço fica claro que o foco dessas organizações é o lucro imediato e não a resolução de um problema do cliente que atenderia o propósito do negócio. Porém, acredito que as organizações focadas no lucro a qualquer custo tendem a perder espaço no mercado num futuro bastante curto, porque estão surgindo organizações em que o foco se volta ao seu negócio: resolver o problema do cliente, uma abordagem que tem a lucratividade financeira como consequência e não como prioridade. Qual é o negócio da tua organização? Ela está resolvendo o problema do cliente que a sustenta?

Responder as questões anteriores é importante para que as pessoas entendam qual é o negócio da organização. Recentemente, identifiquei uma situação em que a empresa mudou o foco do dinheiro para o negócio. Uma amiga minha tinha uma farmácia bastante convencional em que a preocupação com a concretização das vendas era importante para que as metas fossem alcançadas. Por isso, sempre que alguém entrava na farmácia os vendedores eram orientados a encontrar oportunidades para vender outros produtos nas entrelinhas da fala do comprador. A principal preocupação não estava em resolver o problema do cliente, mas em alcançar a meta financeira. A fala inicial do texto era constantemente usada na empresa para fechar uma venda e a farmácia sempre batia as metas. Porém, a proprietária não estava feliz com o seu propósito de vida e com a missão da empresa. Ela tinha expressado no nome da farmácia a preocupação com a saúde integral dos seus clientes, mas a realidade era determinada pelo faturamento. Ela não estava fazendo o melhor que podia fazer. Foi isso que a levou a ajustar a sua atuação para o real foco do seu negócio que era o de resolver os problemas do seu cliente. A farmácia continuou a vender os remédios prescritos e necessários para tratar os seus clientes? Sim, mas olhou para as necessidades do cliente. A minha amiga desenvolveu uma série gratuita de cursos que tratam de temas como: a orientação para uma alimentação saudável; a importância da prática de exercícios físicos; o cuidado com a mente; e o resgate da espiritualidade. São todos temas que podem contribuir de uma forma sustentável para que as pessoas resolvam os seus problemas. Ela está contra o próprio negócio? Não. Ela está no foco do negócio que é o de resolver os problemas dos seus clientes. A farmácia passou a também trabalhar com “remédios para a alma” dos clientes. O preço dos remédios? Já não era o foco. O faturamento? Depois do primeiro ano, superou as metas. A satisfação dos clientes? Aumentou a satisfação dos clientes externos com o atendimento ampliado e dos clientes internos que passaram a perceber o sentido daquilo que fazem. E a minha amiga? Tem a certeza de que está fazendo o seu melhor (Fabiane Dier – Farmacêutica, Coach e Thetahealer).

Por isso a pergunta: qual é o seu negócio? Você está fazendo o melhor para o seu cliente? O que você está resolvendo para ele?

Moacir Rauber
Ninguém pode nascer por nós...

Ontem foi dia de finados, um dia para homenagear aqueles que já partiram. Meus pais e muitas outras pessoas que me eram queridas não estão mais por aqui. Acredito que a melhor homenagem que se pode fazer a eles é viver a vida na sua plenitude. Porém, ao observar muitas pessoas percebo que elas têm aberto mão da prerrogativa de apropriar-se da própria vida, quase que terceirizando a beleza presente na autonomia das escolhas que permitem que cada um evolua na direção pretendida. Vive-se um mundo de oportunidades para explorar cada minuto da vida. O conhecimento e a possibilidade de aprendizagem nunca estiveram tão disponíveis, porém as pessoas optam por nada fazer. Numa linguagem mais religiosa, as pessoas não exercem o livre arbítrio preferindo deixar o conhecimento e a aprendizagem com os outros que passam a determinar o que é melhor para si mesmo.

Outro dia acompanhei o diálogo de duas pessoas:

- Não, eu não tenho tempo para ler um livro. É muito demorado...

E a resposta recebida em concordância dizia:

- Ahh, eu também não. Leio no máximo as frases curtas que me mandam. Não dá. É perda de tempo.

Não é perda de tempo, é o reflexo de um tempo. A leitura cansa. Cada vez menos se encontram pessoas que leem um livro, uma revista ou um texto mais longo, refletindo a pobreza de espírito de nosso tempo. Estudar cansa. Cada vez menos os alunos, sejam eles crianças, jovens ou adultos, dedicam-se a estudar com afinco, porque se distraem com as tecnologias presentes nas escolas, nas faculdades e nos lares. Praticar esporte cansa. Cada vez menos as pessoas têm praticado esportes individuais ou coletivos, porque estão entretidas com os celulares ou jogos virtuais. Trabalhar cansa. Cada vez menos se encontram pessoas dispostas a fazer trabalhos que exijam esforço físico, porque as atividades podem ser automatizadas. Participar da comunidade cansa. Cada vez menos as pessoas participam da comunidade onde vivem, preferindo ficar no conforto das suas pequenas fortalezas. As atividades rotineiras cansam. Cada vez menos as pessoas realizam as atividades rotineiras com cuidado e zelo, preferindo a improvisação da desorganização. A disciplina cansa. Cada vez menos as pessoas são capazes de manter a disciplina das escolhas conscientes, deixando-se levar pelas consequências de não fazer nada. É a inércia frente a vida que reflete a não ação com resultados. As pessoas preferem a não escolha, que tem como resultados a realidade que não querem, porque elas não entendem que a disciplina de dominar a mente é o exercício pleno da liberdade que permite que cada um seja protagonista da própria vida.  Para muitos, até parece que a vida cansa.

Por isso, entendo que muitas pessoas estão terceirizando a capacidade de estudar, de aprender e de se desenvolver e, com isso, delegam a vida. Não querem se comprometer nem se envolver demais. Preferem a inconstância do descompromisso e terminam por transferir para os outros as próprias escolhas. Por fim, estão tão ocupadas com o descompromisso e com as distrações que não encontram tempo para viver. Ou talvez seja por não se comprometerem e somente se distraírem que não vivem…

No dia de finados é um bom momento para se pensar na vida e assumir as rédeas das próprias escolhas. Penso ser um momento de refletir como não se eximir do privilégio de assumir o protagonismo da própria vida, porque ninguém pode nascer por nós; ninguém pode viver por nós; e ninguém pode morrer por nós. Aquele que podia morrer por nós já o fez.

Moacir Rauber
Amigo socialista, você pratica o socialismo?

Tenho muitos amigos que se autoproclamam socialistas, mostrando toda a sua indignação com a injusta distribuição de renda. Concordo plenamente. Também eu fico indignado com tanta injustiça presente na sociedade, como a violência, o preconceito e os maus serviços públicos. Entretanto, o que mais me causa estranheza é parte da hipocrisia daqueles que dizem ser socialistas, que defendem o ideário socialista e que votam em candidatos socialistas, mas que vivem o capitalismo selvagem na pior de suas variantes. Beneficiam-se de todos os prazeres que só o grande capital proporciona e são socialistas com o dinheiro alheio. Como assim? Um dos pressupostos do socialismo como sistema é a distribuição igualitária da renda. Porém, pergunto: alguém que é socialista precisa esperar a implantação de um sistema socialista para ser um socialista de fato? Não precisa. Vive-se num sistema de capitalismo conservador liberal, bastante imperfeito, porém com liberdade o suficiente que permite a que cada cidadão seja aquilo que quiser ser, inclusive a que cada um seja um socialista de fato. Agora pergunto: você é socialista de fato? Se sim, faço outra pergunta: você quer viver o socialismo professado? Respondo: você pode... É só fazer as contas e doar tudo aquilo que você ganha a mais do que a média da renda per Capita do país. Simples, não é? Vamos fazer as contas?

A maior renda domiciliar per capita mensal no Brasil em 2017, segundo dados do IBGE, foi de R$ 2.548,00 no Distrito Federal. Por outro lado, a menor renda domiciliar per capita mensal foi de R$ 597,00 no Maranhão. Enfim, a média brasileira da renda per capita em 2017 foi R$ 1.268,00. Sendo assim, se você realmente é socialista faça o seguinte cálculo: some a renda de todos os integrantes do seu grupo familiar (pai, mãe e filhos) e divida pelo número de integrantes deste grupo. O valor excedente da média de renda deverá ser distribuído para outros grupos de pessoas que ficaram com a renda per capita abaixo da média. Muito simples, não é?

Veja um exemplo:

Resumindo: cada integrante do grupo familiar socialista acima se apropriou, indevidamente, de R$ 2.982,00 de outras pessoas do sistema, totalizando R$ 11.928,00 de valor produzido pelo trabalho alheio. Assim, os integrantes do grupo familiar socialista acima deveriam reunir famílias com renda per capita abaixo da média e complementarem o seu valor até que eles também ficassem na média nacional mensal. Isso é o socialismo na prática! Você precisa esperar até se instalar no Brasil um sistema socialista? Não! Você conhece alguém que se diz socialista que faça isso como no exemplo? Eu não. Desse modo, num país em que o capitalismo conservador liberal é o regime vigente você pode ser socialista, entretanto, num país socialista você não pode ser nada além daquilo que o sistema exige que você seja. Particularmente, conheço dois tipos de socialistas: (1) aqueles que se acham incompetentes demais para administrar as próprias vidas e, por isso, esperam a tutela do estado; e (2) aqueles que acreditam que são tão competentes que deveriam administrar a vida dos incompetentes, por isso eles querem ser o estado. Por fim, não acredito que essas pessoas sejam realmente socialistas, porque elas apenas querem que os outros façam aquilo que elas não fazem.

Enfim, para o socialismo a única diferença entre quem ganha acima da média da renda per capita e o homem mais rico do mundo está no valor apropriado indevidamente de outros trabalhadores. O crime é o mesmo. E volto a dizer que a liberdade da qual usufruímos no imperfeito sistema em que vivemos nos permite ser socialistas, podendo cada um viver de acordo com as suas convicções.

Por isso, amigo socialista, pergunto: você pratica o socialismo? O restante é discurso dissociado da prática.

Moacir Rauber
Professores ou Aprendizes: qual é o desafio?

Nos últimos meses, fiz uma sequência de palestras para alunos universitários e de ensino técnico. Algo que tem sido recorrente, e estranho, é que ao final da palestra os professores se aproximam, parabenizam-me pela abordagem e dizem:

- A palestra foi muito boa. Os alunos não saíram antes do final…

Não é estranho parabenizar porque os alunos permaneceram até o final? Não seria isso o mínimo que se poderia esperar de alunos que vão para uma palestra promovida pela universidade ou pela instituição de ensino técnico? Entenda-se aluno como aquela pessoa que é um estudante ou um aprendiz que está em processo de formação para aprender um ofício, uma profissão ou algo de seu interesse. Por isso, se alguém está numa universidade fazendo uma graduação ou se está matriculado num curso técnico, acredita-se que a pessoa deve estar buscando desenvolver as competências que lhe permitam exercer a profissão. Então por que o espanto dos professores quando os alunos permanecem até o final? Não sei a resposta, mas tenho algumas reflexões e questionamentos. De um lado, estão os professores que têm o papel de mestres dos alunos, além de serem cobrados para que sejam aprendizes. Concordo que para se ensinar deve-se estar disposto a aprender e acredito que os professores entendem o seu papel no sistema educacional e sabem sobre aquilo que se propõem a ensinar. Do outro lado, estão os alunos frequentando a universidade ou fazendo um curso técnico. Aqui, parece-me, que está parte do complexo problema da educação. Penso que grande parte dos alunos não entende o seu papel de aprendizes por falta de educação e de respeito. No mínimo, os alunos deveriam respeitar os professores, os horários e as normas estabelecidas para o bom convívio pensados para o desenvolvimento das competências que eles ali vieram buscar. Portanto, acredito que se deveria estimular os pais, os professores e toda a comunidade escolar para um esforço no questionamento da nova realidade do ambiente escolar: quem são os aprendizes? Quem são os professores? Qual o papel de cada um no ambiente escolar?

Sabe-se que a dinâmica do ambiente escolar é diferente e merece um novo olhar. Sempre se entendeu que o professor é aquele que ensina e aluno é aquele que aprende. Porém, hoje há que se considerar que essas fronteiras, muitas vezes, estão diluídas pelo acesso irrestrito ao conhecimento que permite que um aluno seja mestre em áreas em que o professor é iniciante. Em algum momento os professores serão os aprendizes e os alunos serão os professores. Não estou dizendo que seja abolida a autoridade do professor. Muito pelo contrário. Estou destacando que o papel do professor deve ser preservado, estimulado e valorizado pelo compartilhamento da responsabilidade dos alunos no processo. Os professores sabem o seu papel, porém a pergunta: quem é capaz de mostrar aos alunos o seu papel no processo? Eles devem ser questionadores? Sim. É importante que se mantenham curiosos? É importante. E respeitadores? É indispensável que sejam respeitadores. Para isso, é fundamental que os alunos saibam e respeitem o seu papel, ancorados na família, na comunidade escolar e no poder público. Portanto, responsabilizar os alunos com o seu processo de aprendizagem é uma forma de valorizar o professor como um facilitador que ensina e que aprende.

Enfim, entendo que a verdadeira opção não está no ensino, mas na aprendizagem. Por isso, estimular a que professores e alunos sejam sempre aprendizes é o grande desafio, podendo fazer a diferença no ambiente escolar.

Parabéns aos professores que ensinam porque são eternos aprendizes!

Moacir Rauber
Cidadão útil ou inútil?

Toda terceira quarta-feira do mês eu não ia ao trabalho, porque era o dia em que eu participava das atividades do grupo de idosos da comunidade. O local era lindo e situava-se à beira de um pacato arroio. Nele viam-se muitos idosos desfrutando do sol e das caminhadas. Muitos estavam sentados juntos às suas mesas jogando baralho, dominó ou outro jogo de tabuleiro qualquer. Outros circulavam de um lado a outro, serelepes e faceiros. Alguns andavam devagarinho e com todo cuidado. Entre eles, estavam os voluntários que ajudavam, serviam e organizavam. Enfim, era uma festa da experiência, da alegria e, porque não, da teimosia e das birras, porque nem só de maturidade se vive na terceira idade. Tudo misturado naquele grupo de pessoas em que ter setenta anos significava estar entre os mais jovens. E lá estava eu com meus trinta anos participando do encontro. Gostava daquilo. Observava-os divertindo-se como crianças. Muitas risadas, gargalhadas e abraços. Aquele ambiente dava-me a impressão de que realmente não envelhecemos. Para cada idade há uma atividade.

Naquele dia não fui ao trabalho, mas ele veio até mim. Por ser um homem “útil” no meu escritório, marquei para que um cliente fosse até o recanto onde eu ajudava como voluntário. Logo que vi o homem de terno entrar no ambiente deu para perceber que ele estava deslocado. Não pela vestimenta, porque muitos idosos também faziam questão de estarem bem trajados, mas pela expressão do rosto. O executivo deveria ter uns quarenta anos e eu conhecia há algum tempo. A sua postura sempre indicava força e vigor, parecendo que tudo estava ao alcance da sua vontade. Ali pareceu-me constrangido, inseguro até. Talvez viesse do fato de ele ter se deparado com o futuro de todos aqueles que nele chegam, a idade avançada. Assim que ele chegou até mim, cumprimentou-me. A nossa negociação seria rápida, mas antes de entrarmos nos assuntos profissionais o meu cliente disse:

– Não sei por que você vem sempre aqui. Olha, não é por falar, mas só de olhar esses velhotes fico meio triste. Imagina você a gente chegar nessa idade e não servir mais pra nada? Deve ser triste demais não ser útil…

Fiquei em silêncio. Não havia nada que eu pudesse falar que faria ele mudar a sua visão de mundo, esperava que o tempo se encarregaria de fazê-lo. Em seguida tratamos dos nossos negócios e ele foi embora.

Voltei a olhar para as pessoas e para o ambiente. Fiquei pensando comigo mesmo, “Ah, como eu gostaria de ter noventa anos. Poder ficar aqui, jogar meu baralhinho e mais nada…”. Alguém poderia me perguntar, “Como assim? Por que você gostaria de ter noventa anos?”. Sim, realmente gostaria. Talvez o motivo principal não seja o de desfrutar o prazer de não fazer nada, mas a certeza de ter chegado até os noventa anos. Quem me garante que eu chegarei até eles?

Escrevo este texto vinte anos depois da cena com o executivo. Na última semana conversei com alguém sobre o tema do envelhecimento e isso fez me lembrar daquele meu cliente que não gostaria de viver sem ser “útil”. Realmente não foi preciso, porque no auge da sua utilidade, cerca de dez anos depois daquele nosso encontro, ele morreu de infarto.

Muitas vezes reflito sobre a questão de sermos úteis ou não. Realmente gosto de fazer coisas, de trabalhar e de me sentir parte de algo, “útil”. Aí me pergunto: será isso o mais importante? Talvez essa ideia utilitarista das pessoas deva ser repensada, porque não é só disso que a vida é feita. Podemos não ser “úteis” quando nascemos ou quando nos aproximamos da morte, mas somos cidadãos em ambas as situações. Creio que devemos lembrar que, muitas vezes, o inútil existe até para que o útil possa ser útil.

Portanto, inútil o inútil não é!

Qual é a prática da sua teoria?

O curso começa e o ambiente fica na penumbra. O apresentador surge em meio a efeitos especiais de luzes, som e imagens. O mistério continua, porque ainda não se consegue ver a pessoa que fala com uma voz profunda e maviosa. Cria-se uma expectativa que leva a plateia a ficar completamente extasiada. Finalmente, o oráculo da fartura e da fortuna aparece e revela como o sucesso virá para cada um já nos próximos dias, semanas, meses e anos. Ele reforça que o evento marca o início de uma nova vida para os mais de 10 mil expectadores. São histórias e frases que se sucedem: “As palavras têm poder”, “Os pensamentos desenham a tua realidade”, “As doenças são resultado de uma realidade criada por cada um” ou ainda, “Os recursos são abundantes e estão disponíveis para todos” e “A pobreza é uma escolha”. São frases que impactam ainda mais pelos efeitos do show que se arma em torno da presença daquela estrela que ensina a todos como ser e criar a realidade desejada. Todos têm a certeza que sairão dali e irão mudar o mundo! Eles são os ungidos que receberam a chave do sucesso. O evento termina. Cada um daqueles participantes pega o seu carrinho, a sua bicicleta ou o seu coletivo e vai para casa. Passam-se os dias e a realidade da grande maioria continua a mesma. Por outro lado, a estrela que ensina como viver em abundância pega os seus milhares de dólares, o seu jatinho e vai para casa viver a abundância que ele tanto ensina. Por fim, ele pensa, “É tão simples!”.

Penso que se vivem dias interessantes. São muitas as pessoas dispostas a ensinar aquilo que não aprenderam. Penso que aprender não é somente saber, porque para dizer que se aprendeu algo é preciso exibir competência sobre aquilo que se diz saber. Por isso, para ser competente é preciso saber, saber fazer, querer fazer, poder fazer e saber ser / estar. Somente depois disso é que se poderia ensinar sobre o objeto daquilo que se diz ser competente. Porém, o que se encontra hoje em dia é muita gente disposta a ensinar sem entender que a opção está no aprender. Questiono o oráculo da abundância descrito: “Se você não fosse pago para ensinar sobre abundância, o que você faria?”, ele poderia dizer, “É, mas é isso que eu faço”. Porém, quero destacar que não é possível que todos vendam conselhos sobre aquilo que não fazem como se fizessem. Conheço a peça. Fala-se de meditação, porém a única meditação que fazem é na apresentação. Fala-se de foco, mas o único foco que se mantém são os eventos. Fala-se de inteligência emocional, porém coitado daquele colaborador que cometer um erro nos efeitos do seu show. E essa realidade se repete em outras áreas. Podemos ver terapeutas que não cumprem com aquilo que pregam em sua terapia. Nutricionistas malnutridos. Videntes que não veem nada além do próprio umbigo.

Particularmente, acredito que existem recursos abundantes para todos. Não acredito que para alguém ter mais é necessário que o outro tenha menos. Porém, fico um pouco constrangido com pessoas que ensinam aquilo que não vivem. Gosto e participo de inúmeras palestras, eventos e cursos que levam os participantes à reflexão sobre como cada um pode ser o protagonista da própria vida. Concordo com isso. Porém, é importante que aquele que se propõe a ensinar também viva aquilo que ensina, ainda que não seja pago para isso. 

O oráculo descrito no início viveria aquilo que ensina sendo um cidadão comum? Perfeito! O terapeuta pratica a sua terapia? Ótimo. O nutricionista se alimenta conforme as suas indicações? Sou cliente! Por isso a pergunta inicial: qual é a prática da sua teoria? Ela existe? Parabéns, sou seu fã!

Moacir Rauber

Hoje eu sentei e chorei... O que o faz levantar?

Há trinta e dois anos uso uma cadeira de rodas, depois de uma capotagem de carro. Tinha então 19 anos e ontem tudo mudou. Recebi visitas aqui em Florianópolis e fizemos um passeio turístico pela ilha usando um ônibus com vista panorâmica. Foi sensacional. Voltamos às 18h e desembarcamos do ônibus a uns 300 metros de casa. Havia uma pequena elevação no caminho. Os meus amigos perguntaram se eu precisava de ajuda, porém eu neguei, sempre orgulhoso da minha autonomia, ainda que em cadeira de rodas. Na brincadeira, eles saíram correndo e eu fiquei para trás. Movi-me o mais rápido que pude, porém via-os lá na frente. A elevação da rua exigiu mais esforço, mas não pude alcançá-los. Nesse momento, ocorreu-me algo que nunca mais vou esquecer. Senti uma estranha contração nas pernas. Pude perceber meus músculos se moverem. As coxas se retesaram e uma vontade tremenda de levantar da cadeira de rodas que já me carregava por tantos anos se manifestou em mim. “E por que você não se levanta?” disse-me uma voz. Fiz um esforço e com um salto consegui sair da cadeira de rodas. Foi sensacional! Levantei-me e comecei a empurrar a cadeira e logo havia alcançado os meus amigos. Eles me olharam de maneira muito estranha. Acredito que não me reconheciam. Depois exclamaram, Meu Deus, você está caminhando!!! Nesse momento eu também me dei conta de tudo o que estava acontecendo. Parei. Apalpei as minhas pernas. Eu finalmente sentia as minhas mãos nas pernas e não somente as pernas nas mãos. Que alegria caminhar depois de tanto tempo. Uma sensação indescritível! Abracei os meus amigos. As lágrimas de alegria escorriam pelo meu rosto. Foi maravilhoso. Dei um salto e saí correndo para desfrutar da sensação que há tanto tempo não sentia. Todos nós corremos e saltamos feito malucos. Aproximamo-nos da entrada do meu prédio na maior alegria. Estava quase escuro e eu, na minha alegria, não vi um pequeno degrau. Tropecei nele e caí sentado. Foi quando acordei.  Mais uma vez, sentado, chorei num misto de frustração e de alegria. Havia sido um sonho. Frustração e alegria? Como assim?

A frustração pode-se entender, mas a alegria? Sim, a frustração veio por ter constatado que voltar a caminhar não aconteceu e, provavelmente, não acontecerá como num passe de mágica. Eu sabia que estar numa cadeira de rodas era resultado de uma escolha equivocada. E as escolhas que fazemos nos afetam e afetam outras pessoas, muitas vezes, de forma contundente. Por isso, a responsabilidade de pensar nas consequências das escolhas que fazemos. E a alegria? Ela veio pelo prazer do sonho. Foi muito bom ter tido a sensação real de ter caminhado e corrido mais uma vez. Para mim foi muito mais do que um sonho. Foi real. Foi maravilhoso. E mais, deu-me a certeza de que posso continuar vivendo bem com as possibilidades que tenho.

Ainda sinto vontade de voltar a caminhar e a correr como fiz um dia? Claro que sim, porém não fiquei e não ficarei preso a esse sonho. Trata-se de um desejo que não está mais sob meu controle, por isso o foco se mantém nas minhas possibilidades. Quais são as minhas possibilidades com as capacidades que tenho? Quais são as possibilidades que tenho com as capacidades que ainda posso desenvolver? O que está no meu controle escolher e fazer? Sentar e chorar faz parte da nossa humanidade, mas são as possibilidades daquilo que está ao meu alcance que me fazem enxugar as lágrimas e levantar sempre que caio. Foi assim que, com uma cadeira de rodas, pude rodar o mundo. É assim que ainda tenho muitas possibilidades pelas quais levantei hoje e vou levantar todos os dias que me forem permitidos.

E você, o que o faz levantar todos os dias?

Moacir Rauber
O fim dos predadores organizacionais

O ambiente estava alegre e descontraído. As pessoas trabalhavam e se divertiam ao mesmo tempo, mantendo uma boa produtividade. Seria uma semana muito especial, porque o chefe estava viajando. A semana se foi, o sábado também e o domingo chegou. No dia seguinte o chefe estaria de volta e a ansiedade passava a tomar conta daquelas mesmas pessoas que haviam trabalhado e produzido alegremente na semana anterior. Isso era resultado da postura de um chefe que fazia questão de mostrar quem mandava naquele setor, mantendo uma relação autoritária com os seus subordinados, propositadamente. Entre os seus pares ele ressaltava o sucesso da sua postura:

- Olha, o cavanhaque, a cabeça raspada e uma cara fechada é um santo remédio para manter a ordem. Ninguém nem pia quando estou por perto...

O chefe se orgulhava da postura linha dura e revelava como as estratégias de intimidação funcionavam, considerando-as uma vantagem competitiva para com os demais chefes de departamentos. Ele gostava de destacar que sob as suas ordens não havia reclamação ou desmando. Bastava alguém esboçar algum comportamento que pudesse parecer inadequado para que ele fizesse o sujeito saber qual era o seu lugar. Não havia segunda chance, o caminho seria a rua. Ele eliminava qualquer empecilho do caminho. Afinal, a manutenção da autoridade se dava por meio de uma aparência, de uma postura e de um comportamento agressivos que inibiam qualquer iniciativa fora dos padrões de seus comandados. O chefe poderia ser classificado como um predador organizacional. Pergunto: ainda há lugar para pessoas assim nas organizações?

Entenda-se predador como aquele que caça e que destrói outros organismos completamente com o intuito de se alimentar, segundo o dicionário Aurélio. Porém, a definição tem origem no mundo animal e faz parte de um ciclo de sobrevivência das espécies predadoras, porque elas caçam para permanecerem vivas. Fazendo um paralelo com o mundo organizacional, o chefe descrito também é um predador, porque ele destrói as pessoas que poderiam representar uma ameaça ao seu poder. Os predadores organizacionais transformam o ambiente de trabalho num lugar quase que inabitável, porque as pessoas sempre estão inseguras. O predador organizacional aniquila a iniciativa, a criatividade e a capacidade de inovação dos seus subordinados, destruindo quase que completamente as características individuais que levaram a que aquela pessoa fosse contratada. Desse modo, não deveria haver mais lugar nas organizações para chefes, supervisores, coordenadores, CEOs ou proprietários com características predadoras como forma de manter a autoridade, porém é uma realidade mais corriqueira do que se poderia admitir. Quantas não são as pessoas que ficam ansiosas no final do domingo porque no dia seguinte terão que trabalhar? É a ansiedade provocada pela insegurança e pelo medo presente no ambiente de trabalho. E, entendo que é responsabilidade do chefe ou do líder de cada setor, departamento, seção ou empresa a criação do ambiente de trabalho, seja ele positivo ou negativo.

Enfim, acredito que cada profissional que exerça um cargo de comando ou de liderança, também é responsável por fazer com que as pessoas entreguem e queiram entregar as suas melhores competências. E isso não acontece num ambiente de intimidação criado por um predador que destrói o outro por insegurança própria. É tempo de comandantes e comandados, líderes e liderados cooperarem e colaborarem num ambiente positivo e propositivo sendo bem mais produtivos. Um comandante pode ser comandado, assim como um líder pode ser liderado sem perder a autoridade. Basta ter a confiança nas próprias competências.

Você precisa ser um predador para se manter no ambiente organizacional? Se sim, o caçado pode ser você.

Moacir Rauber
Quem o impede de fazer desta a sua melhor vida?

É muito comum ouvir as reclamações das pessoas que não estão felizes com as suas vidas nas diferentes esferas. Basta entrar numa universidade para se escutar os alunos reclamando de que a universidade, o curso, os professores ou os colegas não são nada daquilo que esperavam que fossem. Também é comum percorrer os corredores de uma empresa e escutar as lamúrias de pessoas que se sentem infelizes naquilo que fazem. Culpam, por isso, a organização que não oferece as condições que elas mereceriam. Da mesma forma se ouvem as pessoas fazendo fofoca dos amigos, criticando as experiências relacionais que tiveram ou, por fim, queixando-se da vida. Acredito que é aqui que cabe a pergunta: quem é o responsável por tudo isso?

Concordo que quando entramos numa universidade, depois da batalha para conseguir a vaga, as nossas expectativas estão lá em cima. Queremos que tudo seja o melhor para que possamos sair dali os melhores profissionais do mundo. No primeiro dia, na primeira semana e no primeiro mês é tudo maravilhoso. Depois começa o choque de realidade. O professor já não parece ser tão brilhante quanto na primeira aula. Percebe-se que ele é humano. Os colegas não são tão maravilhosos como nos primeiros dias. Eles, às vezes, são chatos e meio bobos. E as instalações da universidade deixam muito a desejar, parecendo o colégio do Ensino Médio. Acredito que algo semelhante ocorra quando conseguimos aquele emprego que buscávamos. O primeiro dia, a primeira semana e o primeiro mês são incríveis, porque somos movidos pela curiosidade e pela vontade de contribuir. Ainda que esse período passa acompanhado daquele frio na barriga gerado pela insegurança de entrar num ambiente novo, queremos fazer tudo logo para mostrar que valeu a pena sermos contratados. Porém, a vida na organização já tem o seu ritmo e devagarzinho a gente acaba se formatando. Os sonhos vão minguando e nos conformamos. E com os amigos? Existem aqueles intocáveis que trazemos na nossa alma, mas a grande maioria está sujeita as críticas, as fofocas e a falta de lealdade. E nas relações amorosas? São nelas que acredito que o encanto e o desencanto mais atingem os extremos. A paixão avassaladora, as juras de amor eterno e o desejo de passar a velhice unidos como no dia do primeiro beijo se escoam entre os dedos numa rapidez impensável. E nesse ponto, pode-se voltar a pergunta inicial: quem é o responsável por tudo isso? Expectativa e realidade na faculdade? Vontade e desinteresse no trabalho? Amor e desafeto nas relações? A resposta é simples, não é? Lá no fundo todos nós sabemos que cada um é o responsável por cada escolha feita.

Por isso, essa é uma das perguntas que me faço nas conversas e nos textos: quem é o responsável por fazer desta a sua melhor vida? Sim, a vida é composta pelos estudos, pelo trabalho e pelas relações de amizade e de amor que podem nos trazer aquilo que nós escolhermos. Por isso, o único responsável por fazer dos meus estudos a melhor oportunidade de aprendizagem sou eu. Hoje já não se tem mais as desculpas para criticar os professores, os colegas ou as instituições, porque as informações estão disponíveis para todos aqueles que as quiserem. Basta procurar. Da mesma forma, cada um também é responsável por fazer da sua empresa o melhor lugar para se trabalhar. Caso contrário, cabe a cada um buscar um novo lugar. E com os amores e os amigos? Também cabe a cada um de nós lutar, preservar e estimular os nossos amores e as nossas amizades por meio da confiança e da lealdade. E se eles não merecerem? Isso é problema deles! Por fim, é problema nosso fazer desta a nossa melhor vida, porque, por enquanto, é a única que temos.

Moacir Rauber