Facetas! Múltiplas faces
Qual é a sua luta? Luto a favor!

Depois de quatro anos indo todos os dias para a universidade, finalmente chegou o dia da formatura. Tinha sido um grande orgulho para mim, como usuário de cadeira de rodas, ter conseguido frequentar autonomamente a universidade. Agora a comissão de formatura estava escolhendo o local onde seria realizada a entrega dos diplomas. Optaram pelo local mais bonito e mais tradicional da cidade. Porém, tinha uma questão: o local não era acessível. A comissão se reuniu e me convidou. Obviamente, coloquei-me contra a escolha e sugeri a mudança de local. Não fazia sentido frequentar a universidade autonomamente durante todo o curso e no dia da entrega do diploma escolher um local não acessível. Teria que ser carregado por outras pessoas para retirar o meu diploma. Seria um retrocesso. Três representantes da comissão concordaram que era importante mudar de local para marcar um posicionamento de acessibilidade e de inclusão. Entretanto, teve uma pessoa que queria permanecer com o local tradicionalmente usado, argumentando que não seria justo que por causa de uma pessoa o brilho da sua formatura e das demais pessoas fosse diminuído. Foi um choque para mim. Que tipo de brilho seria esse se para que ele acontecesse alguém deveria apagado, discriminado? E mais, a pessoa que se posicionou contra a mudança de local era de um curso que trabalharia com questões sociais, sendo uma de suas pautas a luta contra a discriminação social. Naquele dia decidi que não lutaria contra a discriminação, o preconceito, a corrupção ou qualquer outra injustiça. A minha lutar seria a favor!

Explico. Trata-se de um ponto de vista. Particularmente acredito que a nossa luta como pessoas deveria dar mais ênfase naquilo que se quer, o que automaticamente elimina aquilo que não se quer. Quando se fala tanto em diminuir a discriminação, o foco deveria ser o de incentivar a inclusão/integração. Quando se aponta tanto a necessidade de lutar contra o preconceito, a direção apontada deveria ser o aumento da tolerância. Quando se dá tanto destaque ao combate à corrupção, o foco talvez devesse ser o estímulo à honestidade. Acredito que muita energia tem sido despendida no combate da eliminação daquilo que não se quer, porém defendo que se deveria direcionar a luta para aquilo que se quer. Por isso, a luta a favor me parece muito mais lógica e produtiva. No exemplo citado, a pessoa que depois de formada teria como missão o combate à discriminação e ao preconceito não percebeu a oportunidade diante de seus olhos. Ao concordar em mudar de um local glamouroso para um local acessível ela estaria lutando a favor daquilo que ela prometia defender pelo curso que ela estava concluindo. A escolha pela mudança de local seria a prática da integração/inclusão e da tolerância o que seria um ato de honestidade entre a teoria e a prática do compromisso com a defesa de um mundo mais justo.

Entendo perfeitamente que ações de mitigação da discriminação, do preconceito e da corrupção sejam necessárias. Porém, acredito que o maior combate aos fatores negativos se dá pelo estímulo aos comportamentos positivos. Desse modo, no dia em que me coloquei contra a escolha de um local não acessível para realizar uma formatura pública eu lutei a favor. Sim, eu lutei a favor da integração/inclusão, da tolerância e da honestidade entre a teoria e a prática para que tenhamos um mundo mais justo. Defendo que todos possam brilhar e que ninguém precise ser apagado por isso.

Qual é a sua luta?

O Mundo tem jeito?

Era sábado pela manhã, 8h, e começava o evento de empreendedorismo. Estavam presentes mais ou menos 120 jovens entre 15 e 18 anos que poderiam estar em qualquer lugar, mas eles escolheram participar de um evento que começaria com duas palestras e prosseguiria com uma feira. Na feira eles venderiam os produtos resultado do desenvolvimento das suas ideias empreendedoras. A teoria das boas ideias seria testada na prática. Eles estavam dando a cara a tapa em que saíam das salas de aula e dos laboratórios para o contato com a realidade dos consumidores. Os produtos pensados, desenvolvidos e produzidos por eles seriam viáveis? Os produtos despertariam o interesse do público? As respostas para essas perguntas viriam durante o dia, mas antes eles teriam contato com as palestras. Na minha abordagem, explorei um pouco a importância de se indagar quem cada um é e qual é o seu sonho de vida. Pode parecer básico, mas boa parte das pessoas termina os seus dias sem terem sabido quem foram na vida e sem saber o porquê da sua passagem por aqui. Vivem como num sonho, sem conseguir dar um sentido àquilo que fazem ou que fizeram. Não realizam sonhos. Qual é o seu sonho?

Logo após as reflexões sobre os temas, uma menina fez a seguinte pergunta:

- Professor, acredito que muitas pessoas têm os seus sonhos, mas elas ficam inseguras. Às vezes parece utopia. Daí não sabem se podem alcançá-los ou não. Como podemos saber se somos bons o suficiente para realizar os nossos sonhos?

Era uma menina que tinha uns quinze anos. Eu fiquei pasmo com a qualidade do vocabulário utilizado e pela profundidade da pergunta. Na verdade, eu estava encantado por estar com aqueles jovens que me davam a impressão de que o mundo tem jeito. Fiz alguns comentários, mas deixei uma pergunta como resposta para a menina:

- Se você tem um sonho é porque você imagina que pode realizá-lo. Então pergunto: o que a impede de alcançar o teu sonho?

A pergunta deixada foi feita de forma suave e amorosa. Não havia crítica, mas uma leve provocação para que ela corresse atrás do seu sonho, porque era dela que ela falava. Também aproveitei as palavras do diretor da ONG que promovia o evento que havia comentado sobre a importância de compartilhar os sonhos para que seja possível aglutinar forças e realizá-los.

As palestras terminaram e fomos para a feira. Os jovens estavam ocupados com os seus estandes. Nós, os mais velhos, nos sentamos num banco ao lado da feira onde ficamos conversando. De repente, veio até nós aquela menina que havia feito a pergunta. Ela queria agradecer. Eu tomei a liberdade e perguntei qual era o sonho dela. Entre um sorriso meio tímido e o incentivo da amiga ela respondeu que ela havia escrito um livro, mas não sabia como fazer para chegar a um editor. Agora eu sabia a origem do seu rico vocabulário. Ela era uma leitora antes de ser escritora. O diretor da ONG, que estava ao meu lado, disse:

- Envia o material para mim que eu posso encaminhá-lo para um amigo que é editor. Talvez nós possamos publicá-lo como parte do projeto de empreendedorismo... e deu mais algumas indicações.

A menina não cabia em si de alegria. Há algumas horas ela tinha um sonho secreto. Na palestra ela teve a coragem de fazer uma pergunta. Aqui ela teve a coragem de compartilhar o seu sonho que no mesmo instante estava sendo realizado. O empreendedorismo tem disso, premia aquele que se atreve a sonhar e a expor o sonho.

Qual é o seu sonho? Se os adultos ajudarem os jovens a compartilharem e a realizarem os seus sonhos eu acredito que o mundo tem jeito!!!

Moacir Rauber
Falar de empatia

Antes de finalizar o curso de dois dias sobre empatia, o facilitador saiu da sala para buscar as apostilas que prometera nos entregar. Deixou a porta entreaberta e ouvimos a sua conversa como a secretária:

- Onde estão as apostilas?

- Elas não ficaram prontas. Só vão chegar amanhã... Respondeu a secretária de forma tímida e receosa.

- O que? Como assim? Mas que &$%@*. Como você faz uma %&*$#@ comigo?

Mais alguns impropérios e o facilitador retornou para a sala. Respirou fundo e acalmou-se. Retomou a aula e pediu desculpas por não poder entregar as apostilas como havia prometido. Nós estávamos boquiabertos. As suas desculpas deveriam ir muito além das apostilas, considerando que o curso que fazíamos era sobre empatia. Entenda-se empatia como sendo a competência para sentir o que o outro sentiria caso se estivesse vivendo a mesma situação, envolvendo aspectos sentimentais e emocionais. Considero fundamental adotar tal perspectiva, porque nós, como indivíduos, somente nos realizamos com a presença do outro. Por isso, é importante procurar entender o mundo a partir de uma visão interna do outro. É possível? Não sei, mas sei que tem muitas pessoas ensinando sobre empatia, que talvez seja apenas uma das palavras da moda. Como descrito, o esforço de quem ensinava não passou no teste da prática de se colocar no lugar do outro.

Após a bronca dada pelo facilitador na secretária, nós nos questionávamos como ele se dedicava a ensinar sobre empatia se não conseguia usar o conceito? Apontaríamos a questão ou exercitaríamos a empatia com a situação do facilitador? E como ser empático com ele se ele não o fora com a secretária? Logo, o facilitador se apercebeu que nós ouvíramos a sua conversa com a secretária e o ambiente ficou pesado, fazendo com que o evento terminasse de forma lúgubre. Porém, o aprendizado ficou com aquilo que o facilitador nos ensinou nas aulas e, principalmente com o seu comportamento com a secretária: falar de um conceito não é o mesmo que viver um conceito. E isso se estende a outras áreas comportamentais, porque acredito nunca ter visto tantas pessoas ensinando sobre empatia, amor, gratidão, paz e autenticidade como nos dias de hoje. Entretanto, faz-me falta ver os seus reflexos no cotidiano. Fala-se dos conceitos e exemplifica-se a prática na sala de aula, porém não se aplica na rua. Ensina-se sobre os conceitos, porém não se vive o conceito no comportamento do dia a dia.

Naqueles dois dias aprendi que: falar de Amor não é o mesmo do que viver amorosamente; falar de Gratidão não é o mesmo do que viver gratamente; falar de Paz não é o mesmo do que viver pacificamente; falar de Autenticidade não é o mesmo do que viver autenticamente; e que falar de Empatia não é o mesmo do que viver empaticamente. É possível exercitar a empatia no dia a dia? Ainda não sei, porque entendo que para ser genuinamente empático eu deveria ter tido a vida que o outro teve e isso não creio ser possível. Entretanto, o exercício da empatia poderá nos levar a respeitar o outro como um verdadeiro outro, fazendo com que se tenham relações mais amorosas, autênticas, pacíficas e sendo gratos por isso. Por fim, aprendi que viver o conceito é a escolha que trará reflexos no dia a dia e isso depende de cada um! Também percebi que o caminho do aprendizado ainda é longo... É uma luta diária!

Eu sei pelo que você está passando... É mentira!

Uma equipe de basquete em cadeira de rodas, normalmente, é uma atração por onde passa. Naquele dia, duas vans estacionaram nas vagas para pessoas com deficiência do centro comercial. Em seguida, começou a movimentação. Desce uma pessoa com muletas. Desce outra. Os transeuntes diminuem a passada para poderem observar. Depois o elevador da van baixa os usuários de cadeira de rodas. Alguns já haviam cruzado a faixa de pedestres e outros ainda não. Eu estava de um lado e conversava com alguém do outro lado da rua. Nisso, uma senhora muito elegante para e dá uma olhada geral para o grupo de atletas. Ela aponta para a minha cadeira para em seguida dizer:

- Eu sei como é usar uma cadeira de rodas. Usei uma por quase três meses...

Disse-o com certa dose de orgulho para talvez se identificar com a dor e a tragédia alheia. Sei que muitas vezes as pessoas fazem esse tipo de comentário para estabelecer contato em condições de igualdade. É uma atitude que até pode revelar a busca pela empatia ao querer se colocar no lugar do outro. Entretanto, falar que sabe como o outro se sente com relação ao uso de uma cadeira de rodas por lesão medular é de uma ignorância sem fim, porque isso só quem está na situação sabe. O mesmo se aplica a qualquer outro tipo de problema que uma pessoa enfrenta no seu dia a dia. Por isso, seria muita arrogância dizer que sabe como se sente alguém que perdeu um ente querido, porque somente quem o perdeu sabe o que aquele que partiu significava para ele. Seria muita prepotência querer dizer que sabe como o jogador que perdeu um pênalti na final do campeonato se sente, porque somente quem o perdeu sabe a dor que sente. Seria um atrevimento de qualquer um afirmar que sabe como um professor da rede pública se sente ao entrar em sala de aula para enfrentar a falta de educação dos alunos, a pouca participação dos pais e as condições oferecidas pelo estado para dar aula, porque somente sabe quem vai para a sala de aula. E cada um sente de uma maneira diferente. Desse modo, cada um sabe o que cada situação representa para si mesmo, mas ninguém sabe o que isso representa para o outro, mesmo que a situação pareça similar. Ainda que se exercite a empatia, a interpretação dos problemas depende da condição psicológica, emocional e social de cada um. E essa condição é única.

Voltando para a situação inicial em que aquela senhora queria dizer que sabia como eu me sentia numa cadeira de rodas, olhei-a e respondi:

- Pois é, eu também sei. Já uso uma cadeira de rodas há 360 meses...

Ela deu um sorriso meio amarelo e foi-se embora. Para mim, há tempos que o uso da cadeira de rodas já havia deixado de ser uma tragédia, porém ninguém, jamais, poderá dizer como eu me sinto com relação a essa situação. Para que alguém pudesse dizer como o outro se sente com relação a algo teria que ter vivido o que o outro viveu. Teria que ter tido os pais, os parentes e os amigos que o outro teve. E isso não é possível. Entretanto, tentar imaginar a situação que o outro enfrenta para oferecer apoio é um exercício de empatia que nos melhora como pessoas, porém sem a arrogância de querer afirmar saber como o outro se sente. Por isso, sempre que alguém lhe dizer disser que sabe como você se sente com relação a um problema que é seu, provavelmente, é mentira.

Política: a arte de fazer cortesia com o chapéu alheio

Ao terminar a mudança havia sobrado algumas coisas no apartamento. Conversei com uma amiga para dar um destino aos utensílios domésticos que ficariam para trás. Eram coisas. O mais importante levava comigo, a experiência de ter vivido naquele país e com aquelas pessoas. Porém, a coisas precisavam de um destino. Assim, a minha amiga ficou com a chave da casa e da garagem. Encostou o seu carro na vaga do apartamento e carregou o que era possível. Quando desceu pela segunda vez, observou que ao lado da vaga estava largada uma cadeira de rodas. Indagou-se, Hum, será que ele esqueceu de mencionar a cadeira? Eu sei que ele tinha duas... referindo-se a mim, usuário de cadeira de rodas. Resolveu levá-la para uma instituição que fazia trabalhos humanitários. Ela doou a cadeira de rodas, sentindo-se muito bem com a oportunidade de ajudar outras pessoas. Agora somente faltavam mais algumas pequenas coisas que ela pegaria na sua última viagem até o apartamento. Lá chegando ela percebeu que havia um senhor com um ar desolado em frente ao apartamento. Ela perguntou:

- Posso ajudá-lo?

- Não sei o que aconteceu. Alguém levou a cadeira de rodas da minha esposa que estava na garagem. Isso nunca aconteceu antes. Sem a cadeira ela não vai poder entrar em casa... Respondeu o senhor sem saber o que fazer.

A minha amiga ruborizou-se. Gaguejou. Não sabia o que dizer. Deu uma desculpa e saiu atrás da cadeira de rodas para poder devolvê-la. Deixou-a no lugar de onde a havia retirado justamente a tempo de que a verdadeira dona da cadeira de rodas pudesse usá-la. Ao contar-me a história a minha amiga e eu rimos muito. Ela foi do céu ao inferno em pouco tempo. Sentiu-se maravilhosamente bem ao fazer a boa ação de doar a cadeira de rodas. Porém, na sequência sentiu-se muito mal ao descobrir que a cadeira de rodas que ela havia doado não era aquela que ela havia imaginado. Ela havia feito uma cortesia com o chapéu alheio. Entretanto, ao tomar consciência, pode se redimir a tempo. E se fizermos um paralelo com o sistema político brasileiro? No meu ponto de vista, ele está permeado de políticos que fazem cortesia com o chapéu alheio de forma consciente, porém inescrupulosa. Como assim?

Os políticos administram bens, propriedades e recursos que não lhes pertencem, porém basta escutar os discursos de qualquer um ou ver as placas comemorativas encontradas nos prédios públicos, nas pontes, nas rodovias ou em qualquer outro patrimônio público para constatar essa triste verdade. Nos discursos eles afirmam, Eu fiz essa obra para vocês..., dando-nos a impressão de que tiraram dinheiro do próprio bolso para executá-la. Nas placas colocadas nas obras inauguradas na gestão de qualquer político a auto-exaltação chega a ser vergonhosa. Os políticos fazem cortesia com o chapéu alheio com a consciência inescrupulosa de quem não se constrange em ser aclamado sem merecimento.

É importante constatar algumas diferenças fundamentais entre a gafe da minha amiga e a ação dos políticos. A minha amiga doou a cadeira de rodas sem a consciência de que não era sua, enquanto os políticos fazem parecer que é deles aquilo que é dos outros. A minha amiga quis fazer uma verdadeira boa ação, enquanto os políticos, quando o fazem, fazem apenas a sua obrigação. A minha amiga quis ajudar alguém sem esperar nada em troca, enquanto os políticos somente fazem para serem aclamados. Enfim, fazer uma cortesia parte do pressuposto de que se tem a real intenção de se fazer algo bom com aquilo que é de sua propriedade ou que está sob a sua guarda. Exatamente como a minha amiga fez. Com relação aos políticos? Espero que um dia tenhamos políticos que façam a gestão dos recursos públicos sem que isso nos pareça uma cortesia.

Quais são as suas crenças?

As suas crenças são limitantes ou impulsionantes?

É importante saber que as nossas diferentes experiências estão carregadas de elementos emocionais vividos com pessoas que nos são ou foram importantes e que formam o nosso sistema de crenças, limitantes ou impulsionantes. E é esse sistema de crenças que orienta os nossos pensamentos e, consequentemente, a nossas ações e reações frente aos dilemas da vida. A tomada de consciência de forma aprofundada do nosso sistema de crenças vai permitir avaliar em que momento se pode estar distorcendo a realidade, generalizando problemas e/ou transformando opiniões em fatos. Isso porque são as nossas crenças as responsáveis por influenciar cada aspecto da vida, porque são elas que determinam quem cada um é.

Por um lado, as crenças limitantes surgem a partir de nossas percepções desenvolvidas por um conjunto de experiências ocorridas desde a infância e que foram internalizadas como verdades. Provavelmente, cada um tem na sua memória profunda registros de orientações, de marcas e de rótulos recebidos que continuam a gerar efeitos nas decisões do presente. Muitos trazem dentro de si crenças de que “isso não é pra mim”, “não sou merecedor disso” ou mesmo um rótulo dado por algum adulto inadvertido que o taxou como não inteligente, pouco arrojado, medroso, entre tantos outros adjetivos que diminuem a pessoa. São todas crenças limitantes que muitos de nós trazem consigo, transformando-se em elementos de autossabotagem frente as decisões no ambiente pessoal e profissional.

Por outro lado, cada um de nós também carrega consigo muitas orientações, marcas e rótulos positivos e nas quais também acredita. Assim, muitos trazem consigo o carinho e a força de um apoio recebido de um amigo mais velho, de um professor ou dos pais, por meio de expressões como “Vai lá, você pode”, “Você sempre faz bem as coisas que faz” ou outras frases de incentivo ouvidas que ressaltam a capacidade, a inteligência, a dedicação, entre outros adjetivos positivos e que o impulsionam ainda hoje. São todas crenças impulsionantes que servem de elementos catalizadores para nos impulsionar na direção escolhida.

As crenças limitantes e as crenças impulsionantes coexistem. Por isso, cabe a cada um de nós analisá-las de forma profunda, sincera e autêntica para escolher aquelas que se ajustam com o caminho que se pretende seguir. A tomada de consciência do universo que cada um traz consigo e que vive dentro de si mesmo permitirá que se trace e se trilhe o caminho escolhido.

Portanto, torna-se importante saber quais são as suas crenças limitantes e impulsionantes. Ter essa clareza permitirá saber como elas afetam as suas emoções, sentimentos e estados de ânimo, contribuindo para que se diferencie o real do imaginário e liberando-o para caminhar na direção escolhida. A questão que se coloca aqui é: quais as crenças que o conduzem atualmente? A tomada de consciência das próprias crenças permitirá minimizar as limitantes e potencializar as impulsionantes na busca pela plenitude da vida. Não sei você, mas eu acredito! Eis o desafio.

Um pouco de humildade nas pretensões da ciência...

Fiquei feliz ao ler o título da matéria “Ciência perto de comprovar que pessoas absorvem energia de outras”, porque indica que aqui os cientistas descobriram a diferença entre descoberta e constatação ou comprovação científica. Como já escrevi no artigo “As descobertas da Psicologia Positiva e da Neurociência?” tenho ressalvas sobre aquilo que é anunciado como descoberta científica na área comportamental. Falar que a meditação para melhorar a qualidade de vida das pessoas é uma descoberta da neurociência é um disparate. Anunciar a descoberta da inteligência espiritual é no mínimo falta de bom senso perante uma história humana construída em bases espirituais. Certamente que muitas práticas espirituais desencadearam processos de estreitamento da espiritualidade, mas isso não quer dizer que as pessoas comuns deixaram de entender a espiritualidade como uma realidade. Nunca se precisou da ciência para saber que a meditação é um processo que melhora a qualidade de vida ou que a espiritualidade é algo real para as pessoas. Quem se afastou da espiritualidade foram os cientistas! E as manchetes sobre as descobertas da neurociência também se transformam em técnicas que pelos títulos seriam algo novo. A matéria “4 técnicas da neurociência para acelerar o seu aprendizado”, publicada no dia 22-02-18, atesta a tendência da neurociência de assumir para si e anunciar como descobertas práticas milenares. A primeira técnica apresentada é a necessidade de se atrelar emoções positivas ao fato de estudar. Isso é novo? Logicamente não. Em culturas ancestrais, muito mais do que emoções, as pessoas só faziam atividades que tinham sentido. A segunda técnica alerta para que as pessoas não exercitem apenas o cérebro, mas também o corpo. Onde está a novidade? As atividades física e mental sempre foram complementares na grande maioria das civilizações e essa dissociação ocorreu no nosso tempo em que automatizamos quase tudo que exige esforço físico. A terceira técnica versa sobre a importância de que cada um descubra o seu estilo de aprender. Mais uma vez, qual é a descoberta se nos povos em outros tempos as pessoas aprendiam ao fazer aquilo que fazia sentido? Por fim, a quarta técnica destaca que é preciso eliminar os ralos de atenção, sugerindo a aprendizagem da atenção plena para obter melhores resultados. Novidade? De maneira nenhuma. Ao se olhar para trás na história, as pessoas tinham como respeito aos tutores, mentores e seu semelhante o fato de estar com a mente onde se está com o corpo. Por isso, as pretensas descobertas estão muito mais para uma redescoberta ou um reencontro com caminhos que já havíamos percorrido em outros momentos da trajetória humana no planeta.

No meu ponto de vista, a ciência e, principalmente, a neurociência tem descoberto ferramentas, muitas de cunho tecnológico, para comprovar fenômenos há tempos aceitos pelo ser humano comum. Entendo, também,  que em muitas áreas a ciência tem exercido o papel de validadora do conhecimento humano com um trabalho não menos importante, muitas vezes, separando o charlatanismo de práticas verdadeiras. No início do texto destaco que se apresenta a possibilidade de comprovação de que as pessoas absorvam energia umas das outras, sendo um desses casos em que a ciência poderá exercer o seu papel de validadora de um conhecimento já existente e aceito por um enorme contingente de pessoas. Porém, medir o fenômeno não muda o fenômeno. A realidade daqueles que nunca duvidaram ou que sempre viveram de maneira a considerar o fenômeno continuará da mesma forma. Trata-se apenas da comprovação de maneira visual de um fenômeno até então não perceptível pelos cinco sentidos humanos para atender aos céticos vindos da ciência.

Enfim, para mim a ciência ou a neurociência pode servir para invalidar certas crenças ou para atestar a ignorância de muitas pessoas comuns. Entretanto, defendo que a ciência e a neurociência deveriam ter a capacidade de investigar com humildade para reconhecer todo o conhecimento humano acumulado na sua trajetória no planeta, sem a pretensão de ser a dona da verdade.

Deus não mata, mas castiga...

Hoje foi um daqueles dias estranhos. Saí pela manhã para deixar o carro para lavar e aproveitei para ir ao correio. Na rua encontrei um amigo que estava acompanhado de um amigo dele. Logo fui apresentado ao amigo do meu amigo:

– Olha, este é o Fulano, somos amigos desde a infância. Fizemos muitas festas juntos!

O amigo do meu amigo, vestindo um terno preto e uma pasta executiva nas mãos, estendeu-me a mão e disse:

– É, mas é passado… Aquele homem não existe mais. Foi parte do caminho para chegar até o Senhor Deus…

O meu amigo o interrompeu dizendo:

– Sim, hoje ele faz parte da igreja TAL (citou o nome de uma igreja que eu nunca ouvira falar).

Após ouvir o nome da sua igreja o amigo do meu amigo se sentiu à vontade para fazer o seu trabalho de evangelização. Embora a questão de permissão não seja nenhum empecilho para muitos dos novos convertidos, porque a grande maioria não está nenhum um pouco preocupada em ter licença ou anuência para falar. Muitos querem salvar o mundo obrigando os outros a aceitarem a sua verdade sem deixar espaço para as diferenças.

Ele continuava a sua pregação. A situação ficou um pouco embaraçosa e o meu amigo puxou outro assunto. Mas não foi o suficiente, porque em seguida o amigo do meu amigo interrompeu a conversa:

– Você usa cadeira… Qual é o seu problema?

A forma como fez a pergunta era quase uma acusação, pois parecia que me dizia que eu estava na cadeira por merecimento. Olhei-o nos olhos, antes de dizer, calmamente, que eu não tinha nenhum problema e que o uso da cadeira de rodas se deu em função de um acidente de trânsito. Foi então que veio a expressão mais assustadora que já ouvi:

– É, Deus não mata, mas castiga!

Fiquei paralisado. Não me refiro a paralisia física, mas sim ao que se passou na minha mente. O espanto e a incredulidade pela estupidez da fala foram tamanhas que não soube o que fazer. O nada absoluto tomou conta de mim. Talvez eu tenha pensado algo como, “Não, eu não estou ouvindo isso…”. Como cadeirante há mais de trinta anos já ouvi muitos comentários infelizes, porém nunca, nunca mesmo alguém me havia dito que o fato de estar numa cadeira de rodas fora um castigo divino. Quando retomei a consciência apenas me despedi e fui embora.

Fiquei confuso e atordoado por horas. Fui rodando com a minha cadeira de rodas pelas calçadas malconservadas da cidade. Desviava de um buraco e de outro num zigue zague maluco a que os cadeirantes estão obrigados quando querem circular pela maioria das cidades brasileiras. Cadeirantes não, segundo aquele sujeito, os amaldiçoados! Nada, absolutamente nada contra as pessoas terem a sua religião e as suas convicções, assim como o fato de ser uma religião mais antiga ou mais nova não faz a mínima diferença. Entendo que nem sempre o antigo nos garante que seja verdadeiro, assim como o novo não nos assegura que seja uma evolução. Espanta-me o fato de que apesar de toda a sua professada fé muitas pessoas não conseguem entender o verdadeiro milagre presente na benção da vida, ainda que se tenha limitações físicas ou intelectuais. O milagre da vida não se revela pelo fato de caminhar, de correr ou de falar bem. O milagre da vida se manifesta em saber viver bem com aquilo que se tem e com a satisfação das próprias conquistas.

Também fico assustado como o totalitarismo pode se expressar por meio de pensamentos tão tacanhos revestidos de mensagens divinas. Pensamentos em que não se reconhece a liberdade de que outros pensem e ajam de forma diferente. No mundo ideal do amigo do meu amigo todos deveriam seguir a sua lei, pois somente no dia em que todos pensarem de forma exatamente igual e seguirem a sua cartilha é que o mundo estará a salvo. Pergunto-me: a salvo de quem? Da diversidade? Das diferenças?

É bom ser adulto!

Os anos passam rápido, até parece que voam. Porém, cada vez mais me convenço que é muito bom ser adulto. Lembro-me que quando era adolescente havia tantas questões pequenas que me incomodavam muito: uma espinha no rosto, o cabelo que não se ajeitava, uma mancha na calça ou um tênis que não era exatamente o que eu queria eram motivo de sofrimento. A falta de autonomia era um tormento, fazendo com que eu quisesse parecer o que não era: um adulto. Todas essas situações rapidamente se transformavam num drama. Hoje não. Uma espinha não me incomoda pela aparência, apenas pela dor. O cabelo despenteado não é problema, é apenas uma saudade. A calça manchada é irrelevante, pois pode ser sinal de trabalho ou de diversão. A marca do tênis pouco importa, porque sou eu que o pago. Isso tudo é resultado da autonomia que um adulto tem. Por tudo isso, é bom ser adulto! A pergunta é por que tem tantos adultos querendo parecer adolescentes?

Quando vejo adolescentes fazendo de tudo para parecer diferentes na sua busca pela identidade ou criando problemas onde não há, às vezes, fico irritado. Em seguida, dou de ombros, porque recordo dos meus grandes dilemas da adolescência e sei que vão passar. Ou melhor, eu sabia que os dilemas iriam passar, porque cada vez mais vejo pessoas que já deveriam ter a autonomia que a idade lhes faculta se comportando como adolescentes numa dependência doentia de parecer o que não são. Muitos deles pararam na adolescência e não conseguem levar sua vida adiante. Pessoas na idade adulta que continuam a sofrer pelas espinhas, pelas calças, pelos tênis e pela falta de identidade comum nos adolescentes. Muitos deles já estão na terceira idade, mas continuam adolescentes no comportamento e nas responsabilidades. Inclusive tentam manter a aparência de adolescentes. Esses sim me deixam boquiabertos. Um jovem querendo parecer adulto é natural, é a sequência da vida. Entretanto, idosos ou adultos querendo parecer adolescentes é constrangedor, porque ainda não entenderam que muito mais do que parecer ser, é importante ser aquilo que se é. Essas pessoas ainda não entenderam que ser adulto é muito bom.

Não quer dizer que ser adulto lhe tire o direito de sorrir, de ser espontâneo ou de ter um espírito jovem. Não quer dizer que você como adulto não possa transgredir, ir além, sonhar e fazer. Claro que pode. Ser adulto é exatamente isso, ser aquilo que se quer ser com a responsabilidade daquilo que se é. Quando você é adulto você tem autonomia, a responsabilidade e a propriedade para fazer aquilo que quer, quando e com quem quiser. Por isso, é muito bom ser adulto, porque posso ser exatamente aquilo que sou.

Ser adulto me permite ter um espírito jovem, sem ser bobalhão.

Ser adulto me permite assumir responsabilidades, sem sofrer com isso.

Ser adulto me permite ter identidade própria, sem me preocupar em parecer aquilo que não sou.

Ser adulto me permite desfrutar da plenitude mental, fonte de saberes e prazeres que somente os anos nos trazem.

Por isso, cada vez mais me convenço que é muito bom ser adulto, assim como foi bom ser adolescente e tenho a certeza de que será bom chegar à terceira idade. Enfim, é bom ser aquilo que se é!

Você tem certeza?

A história se repetia. Toda vez que a palavra chegava ao chefe ele tinha a certeza da decisão a ser tomada. As reuniões não passavam de formalidades para ratificar uma posição já formada por ele. Nos programas de treinamento que se faziam ao ar livre também o chefe sempre tinha a certeza do caminho a ser tomado ou da atividade a ser realizada. Foi assim que a equipe se perdeu na trilha que faziam numa dessas atividades. Foi assim que a empresa fechou as portas, porque as decisões e as ações contavam com a certeza do chefe. Naquele ambiente, a certeza de uma pessoa se sobrepôs a qualquer dúvida que pudesse gerar algum questionamento sobre o caminho escolhido. Com o exemplo do chefe, que sempre tinha a certeza sobre tudo o que pensava, confirma-se o ditado, “nas reuniões com dez pessoas que sempre terminem em unanimidade, há nove pessoas sobrando”. Você quer dizer que ter certeza é ruim e que ter dúvidas é bom? Sim e não.

Por um lado, muitas pessoas ficam paralisadas frente as dúvidas, as incertezas ou as interrogações. Nesse caso a dúvida não é boa. Porém, estar em dúvida deveria deixar as pessoas felizes, porque somente as dúvidas podem oferecer alternativas. São as dúvidas que levam o indivíduo para um processo de evolução constante resultado da possibilidade de escolha presente nas dúvidas. Surgindo uma dúvida ela pode trazer consigo o benefício de que talvez seja uma oportunidade. Cada vez que se coloca uma questão face a uma situação a complexidade presente nas hipóteses, comuns aos seres humanos, revelam uma magnitude somente presente naqueles que duvidam. Desse modo, pesquisa, estudo e conhecimento podem minimizar as dúvidas, as incertezas e as interrogações, dando hipóteses inacessíveis para aqueles que somente têm certezas. Considere-se a busca pelo conhecimento como uma luta para a diminuição das incertezas sem a pretensão de garantir certezas, mas sim novas dúvidas que representam novas oportunidades. Por outro lado, as certezas, sim, podem geram convicções e verdades, que resultam na crença da infalibilidade somente presente nos ignorantes que se comprazem na estupidez da própria certeza. Ignoram a própria ignorância, transformando-se em arrogantes presos as suas verdades. Estes já não veem mais possibilidades ou oportunidades, ficando literalmente paralisados na sua ignorância. Foi o caso do chefe que já não considerava mais a possibilidade da dúvida. Por isso, usar o conhecimento para dirimir dúvidas e diminuir a incerteza por meio da segurança é um caminho que permite o aproveitamento de oportunidades. Porém, dirimir dúvidas não quer dizer gerar certezas. Quer dizer se sentir seguro de forma a abandonar a paralisia gerada pelas dúvidas. Nesse caso, a segurança é boa. Enfim, qual é o melhor caminho?

Por isso, não deixe que a dúvida o paralise e não permita que a certeza o deixe cego. Por fim, acredito que no equilíbrio entre as dúvidas e as certezas está o caminho para se seguir em frente de forma segura.

Você tem certeza? Esteja apenas seguro de que você está em movimento.