Facetas! Múltiplas faces
Como respeitar quem não te respeita?

O evento era sobre segurança no trânsito com um grupo de trabalhadores do transporte coletivo, entre eles motoristas e cobradores. Porém, a questão a ser respondida se voltava para a relação de respeito entre os usuários e os trabalhadores. Um deles, depois de relatar um caso de flagrante desrespeito por parte de um usuário para com um cobrador, perguntou:

- Como respeitar quem não te respeita?

Acredito ser um grande desafio, porque, para mim, o respeito é um dos valores fundamentais das relações humanas. Entendo que cada ser humano é o centro do seu próprio universo, sendo esse reconhecimento a premissa para que cada um reconheça o outro como o centro do seu universo. Não se trata de uma visão egoísta em que cada um se preocupa somente consigo mesmo. É justamente o inverso. Ao ter a exata noção de que eu sou a pessoa mais importante para mim tenho as condições de reconhecer que o outro é a pessoa mais importante para ele. Com isso em mente, posso me dar o direito de ter a minha opinião reconhecendo que o outro terá a sua. Podem ser opiniões diferentes? Sim, justamente porque ele é um outro, provavelmente, terá uma visão diferente de mundo com uma opinião que tende a ser divergente da minha. Da mesma forma, ao ocupar-me de mim em primeiro lugar não se trata de um ato egoísta, mas simplesmente natural e humano. Preocupar-me comigo para poder ocupar-me do outro. É esse entendimento ampliado da unicidade do indivíduo que vai me levar as relações de respeito para com o outro. Entretanto, isso não é sinônimo de desrespeito ou de falta de educação nas relações com o outro, independentemente de quem seja o outro. Exatamente como no caso relatado pelo trabalhador que citou as inúmeras vezes em que eles são desrespeitados por usuários que usam a irritação com a própria condição como justificativa para serem mal-educados. Por isso, a pergunta do trabalhador dos transportes coletivos faz todo o sentido: como respeitar quem não te respeita?

Acredito que cada um de nós deve respeitar o seu próximo, embora eu saiba que isso nem sempre se reflita na realidade. Entretanto, entendo que não se deve cair na tentação de revidar a altura quando alguém é desrespeitoso ou mal-educado. Caso o desrespeito ou a falta de educação ultrapassem o nível da razoabilidade o caminho é outro: faça um boletim de ocorrência ou recorra a legalidade da nossa sociedade que existe para solucionar tais problemas. Porém, a reflexão aqui é como se relacionar com quem não te respeita mantendo o respeito? Entendo ser simples, não digo fácil. Se eu trato o outro com o devido respeito e a recíproca não ocorre, quem está com a razão? Aquele que respeitou ou aquele que desrespeitou? Quando eu trato o meu interlocutor educadamente e a resposta é mal-educada, quem está correto? O educado ou o mal-educado? Exatamente. Não é quem respeita o outro ou aquele que trata o outro com educação que está agindo equivocadamente, mas sim aquele que desrespeita e que é mal-educado. Desse modo, o problema é de quem não respeita e de quem é mal-educado. Não é o fato de que eu me encontre com alguém que é desrespeitoso e mal-educado que deve fazer-me ser desrespeitoso e mal-educado. Caso eu seja vencido pela tentação de retrucar da mesma forma como o meu interlocutor faz, eu estarei me nivelando a ele. Por isso que digo ser simples o raciocínio, embora eu saiba que nem sempre seja fácil a execução.

Ao final do evento, todos concordaram que talvez esse seja o melhor raciocínio. Sempre e quando alguém se deparar com alguém desrespeitoso ou mal-educado o melhor caminho é o de manter o respeito e a educação. Porque, certamente, o mal-educado e o desrespeitoso é ele e não eu.

Como tratar alguém que não te respeita? Respeitando-o.

Moacir Rauber
Qual será o seu ritmo para 2019?

Em outubro conversei com um amigo que estava muito atarefado. Dizia-me ele:

- Não vejo a hora de que chegue o final de ano para tirar umas férias. O ano está sendo muito, muito movimentado. Só espero aguentar até lá sem sofrer um infarto... e deu uma risada para disfarçar a real preocupação.

Não aguentou. Ele infartou antes. Para o bem do meu amigo ele teve mais uma chance. O infarto foi grave, porém não deixou sequelas visíveis. Certamente ele passará por todo um programa de reeducação alimentar, física e readequação de períodos de trabalho.

A situação me chamou a atenção porque ele tanto queria chegar bem até o final de ano para curtir as férias que esqueceu de fazer as pausas necessárias para se manter em movimento. Por isso, agora ele está de férias forçadas, porque não encontrou o equilíbrio entre pausa e movimento. O movimento é importante, porém é a pausa que lhe dá sentido. Como assim? Muito simples. Aqueles que nunca param sequer percebem que estão em movimento, porque é a pausa que nos dá a sua percepção. A agitação dos dias atuais nos produz a sensação de que parar é impossível. Um compromisso se sucede ao outro, porém, sem pausa não há assimilação. Um curso terminado é sinal que de que outro será iniciado, da mesma forma, sem pausa não há consolidação do que foi estudado. Uma informação recebida é tão fugaz que sequer é internalizada que outra já está sendo enviada, entretanto, sem pausa não há transformação da informação em conhecimento.  Uma nova tecnologia recém foi introduzida para em seguida ser substituída e assim os dias seguem numa velocidade que sequer se consegue perceber que o recém iniciado novo ano novamente está chegando ao final. Como parar num movimento tão intenso? O que fazer em meio a um ritmo tão alucinante para dar uma pausa? Não há uma resposta, mas se pode fazer uma analogia com algumas atividades humanas. Há que se encontrar um ritmo.

O ritmo é um processo que permite que se tenha bom desempenho nas mais diferentes áreas, como nos esportes, na música e na vida. O atleta de alto rendimento sabe que para iniciar e terminar a sua prova ele terá que encontrar um ritmo adequado que permita que ele cumpra o percurso da prova dentro dos limites físicos, psicológicos e técnicos de que ele dispõe. Caso o atleta tenha uma prova de mil metros para percorrer ele não pode gastar toda a sua energia nos cem primeiros metros, porque ele não chegará ao final. O ritmo vai dar a ele a possibilidade de distribuir a energia em todo o percurso. Na música o ritmo á ainda mais fundamental. Basta qualquer um dos componentes sair do ritmo para atravessar o samba. E na vida o ritmo é essencial. Nós temos a informação de quando nascemos, mas não sabemos até quando vamos viver. Entretanto, aquelas pessoas que não conseguem encontrar um ritmo adequado têm grandes possibilidades de antecipar a partida. Por isso, a importância de se encontrar um ritmo que nos permita viver bem, marcado por pausa e movimento. Pergunta-se: é importante se mover nas competições, na música e na vida? Sim, é claro que sim, mas a pausa é fundamental para que o ritmo seja encontrado para que o atleta termine a prova, para que o músico execute bem a música e para que cada um de nós estenda a sua vida até o limite.

Para muitos, o final de ano é sinal de uma pausa, porém é importante determinar o ritmo que vai permitir que se chegue e que se perceba o final do próximo ano. Por isso a pergunta: qual será o seu ritmo para 2019?

Moacir Rauber
O ano de 2019 será de inovação. Mas o que é inovação?

- A tecnologia de que dispomos hoje é Inovação?

A pergunta foi dirigida ao público de um fórum de inovação e recebeu um sonoro “sim” como resposta da plateia. Na sequência foi conduzida uma atividade em grupo que reproduziu o barulho de uma chuva. Com movimentos coordenados os participantes fizeram sons que iniciaram suavemente os sons da chuva e, em ordem crescente, pode-se ouvir o ruído de uma chuva torrencial. Depois de alcançar o pico do som da chuva, o som voltou suavemente em ordem decrescente até desaparecer por completo. As pessoas que participavam da atividade tinham a nítida impressão de que a chuva acontecera. A reflexão da atividade era a de que as pessoas deveriam fazer chover em termos de inovação em seus ambientes organizacionais. Com relação a pergunta inicial, particularmente, eu discordo com a resposta da plateia que acredita que a tecnologia de que dispomos hoje seja inovação, assim como a chuva não é uma inovação. Entendo que a tecnologia atual seja apenas o resultado da inovação e não a inovação em si, assim como a chuva imaginária é o reflexo de uma ação deliberada e não é a chuva. O que se vê, se ouve e se usa é apenas a expressão externa de uma inovação que já aconteceu dentro de alguém. Mas então o que é inovação?

O conceito de inovação refere-se ao ato de inovar por meio da alteração de costumes, a renovação de processos, a modificação da legislação, a criação de novos equipamentos ou a adoção de um novo viés para algo antigo. No âmbito empresarial e organizacional a inovação está muito atrelada a ideia de lançar novos produtos e serviços em oposição a produtos e serviços antigos. Destaque dado para tudo aquilo que envolve o digital e o virtual em oposição ao analógico e ao físico. Tem um pouco de verdade nisso tudo, porém antes de que a inovação tecnológica seja uma realidade visível, passível de ser sentida e experienciada, ela precisa ser criada e gerada num local invisível: dentro de quem a propôs. O exemplo da chuva no auditório ilustra isso. A chuva não existiu, mas ela foi real dentro de cada um que participou do movimento. Da mesma forma, tudo aquilo que consideramos inovador hoje em dia, como o modelo Uber de negócios ou o exemplo Bla Bla Car de caronas, já existia dentro de alguém antes de ser exibido. Teve alguém ou várias pessoas que pensaram, criaram, planejaram, expuseram, conectaram e, por fim, a inovação apareceu. Portanto, inovar é muito mais do que simplesmente criar apetrechos tecnológicos. Inovar tem a ver com uma forma de ver o mundo, com a postura e o comportamento em que são aproveitadas as potencialidades individuais para resolver problemas coletivos. Para isso é preciso criar e conectar para que a inovação seja uma realidade. Enfim, 2019 será um ano excelente para inovar com as pessoas, porque em tempos em que tudo é descartável resgatar, restaurar e preservar relações é uma inovação.

Todas as inovações precisam ser criadas, porém é fundamental que existam relações que as tornem relevantes. São as relações que criam conexões entre as pessoas que fazem com que a inovação apareça. Por isso, se ainda não podemos fazer chover na natureza quando nós queremos, vamos fazer chover nas nossas relações no Ano Novo. Vamos inovar!

O que você vai inovar em 2019?

Moacir Rauber
Natal, período de nascer e de renascer. Natal, tempo de resgatar, de restaurar e de preservar. Use um fio de OURO!

O vaso era um presente valioso que o senhor feudal japonês havia recebido de seu mentor. Um jovem pajem era o responsável pela limpeza do vaso. Um dia, ele o deixou cair, quebrando-o. As demais pessoas da corte ficaram preocupadas e cochichavam entre si:

- Coitado do pajem. O Senhor irá castigá-lo muito...

Todos sabiam o quanto o vaso representava para o seu dono e sabiam como ele ficava furioso quando se sentia contrariado. No dia em que o senhor viu o vaso quebrado, ele ficou estático. Aproveitando-se do silêncio que reinava no ambiente, um dos presentes fez um trocadilho humorístico envolvendo o vaso e um poema muito querido por todos. Novo silêncio. A tensão estava no ar. O rico senhor escutou, observou e, finalmente, sorriu pela presença de espírito e senso de humor presente no verso. Logo depois, ele pediu para que recuperassem o vaso e que o fizessem com todo capricho, inserindo nos remendos fios de ouro. Desse modo, o vaso foi recuperado e passou a ser usado até o fim dos dias daquele rico senhor.

Por isso, séculos depois o vaso ainda pode ser apreciado pelas pessoas que passaram a valorizar a importância de se resgatar, de se restaurar e de se preservar objetos. Além disso, depois de restaurado, o vaso passou a impressionar ainda mais pela beleza presente nos novos detalhes, traduzindo-se em resiliência e em vitalidade de continuar a contribuir com a finalidade para a qual fora criado. Muitas pessoas acreditam que a verdadeira vida do vaso começou depois de ter sido quebrado e de ter sido restaurado, porque antes ele servia apenas para a decoração. Depois disso é que passou a ser usado para a sua verdadeira finalidade.

Cada cultura com suas particularidades que transcendem a si mesmas. A cultura japonesa é riquíssima. E o exemplo da valorização do resgate e da restauração das peças de cerâmica, particularmente entendo que está entre os mais belos exemplos. Os japoneses sabem apreciar a beleza da perfeição de uma obra de arte que nunca sofreu nenhum tipo de dano. A obra original traz os traços perfeitos, assim como imaginado pelo seu criador. Entretanto, não é a apreciação da beleza da perfeição presente na obra intacta que faz com que eles deixem de apreciar a beleza da imperfeição presente na restauração de uma obra que se partiu. Ao fazer a restauração da cerâmica com fios de ouro, valoriza-se ainda mais a importância de resgatar e de preservar algo importante.

A preocupação cultural nipônica vai muito além dos objetos. A analogia sugerida se estende às relações de amor e de amizade. Em tempos em que objetos, pessoas e relações são descartáveis uma reflexão sobre resgate, restauração e preservação faz todo o sentido. Entende-se que se alguma vez já existiu amor e amizade entre duas pessoas é porque elas viram a beleza da obra no seu estado original. Certamente que um vaso restaurado sempre apresentará as marcas dos remendos. Essa mesma lógica se aplica a uma amizade que, por algum motivo, tenha se rompido. Entretanto, cada marca pode representar a valorização da importância do conjunto, porque as partes, isoladamente, nada significam. Elas somente podem cumprir com a sua função se permanecerem unidas. Enfim, o vaso nasceu belo e perfeito e era usado para a decoração. Depois, o vaso renasceu ainda mais belo pelos detalhes das imperfeições e passou a ser usado para cumprir com o seu papel.

Por isso, nesse Natal: o que se poderia resgatar nas relações que talvez um dia se tenham quebrado? O que se pode fazer para restaurá-las? Não mereceriam elas um fio de ouro para preservá-las?

Moacir Rauber
Qual é a sua natureza?

Assistir a vídeos em que um gato ajuda um peixe a voltar para a água; em que um urso impede que um pássaro se afogue; ou em que um cachorro esparge água sobre um peixe que está na margem, revela-nos um pouco sobre a natureza animal. No fundo todos nós podemos ser bons, colaborativos, altruístas e mostrar compaixão para com os outros, ainda que ele seja de uma espécie diferente ou que pertença a qualquer outra classificação criada pelos humanos. Porém, seria temeroso acreditar que isso seria possível nas condições naturais de luta pela sobrevivência daquelas mesmas espécies. Por isso, acredito que os gestos de ajuda flagradas em vídeo entre espécies que estão na cadeia alimentar um do outro somente são possíveis porque todos eles estão com as suas necessidades básicas de alimentação e de segurança atendidas. Como será que seria a reação de um gato que estivesse morrendo de fome ao se deparar com um peixe fora da água? Qual seria o comportamento de um urso em busca de alimentos para os filhotes ao encontrar um pássaro fragilizado? O que faria um cão faminto frente a um peixe na margem do rio?

Creio que seria fácil responder o que faria um gato esfomeado, um urso em busca de comida para os filhotes ou um cachorro faminto ao se deparar com um animal indefeso e que fosse parte de sua cadeia alimentar. Eles simplesmente os comeriam, não é? É parte de sua natureza e não há julgamento nisso. Acrescente-se a isso que assim como se veem os exemplos belos entre os animais, também são encontrados exemplos contrários. Quantas vezes os animais são vistos, entre eles gatos e cachorros, brincando de matar? Sim, muitas vezes gatos e cachorros se deparam com um animal que serviria de alimento, caso eles estivessem com fome, e passam a fazê-los de joguetes até os matarem. Da mesma forma, muitos animais não se envolvem com nada além da sua preocupação com a sobrevivência individual e da sua espécie. Mais do que natural e não se pode julgar um animal que não tem consciência de suas ações, porque eles simplesmente seguem a sua natureza. Porém, considero os vídeos que demonstram a compaixão animal bonitos e me enchem de esperança de que podemos melhorar como humanos, porque nós temos consciência dos nossos atos. Entretanto, o que particularmente me assusta é a conduta de seres humanos que têm as suas necessidades básicas atendidas agirem como os animais predadores famintos. Existem pessoas que brincam de matar simplesmente porque tem o poder para fazê-lo.  Existem pessoas que não se envolvem com nada mais do que a busca pela satisfação dos próprios desejos sem se importar como isso afeta a vida de outras pessoas. E o pior disso tudo é que tais pessoas tem a consciência que as demais espécies animais não tem.

Por isso a pergunta: qual é a sua natureza? Temos o nosso instinto, mas temos a razão. O primeiro está relacionado com as emoções e o segundo com as ações. Entre as emoções e a razão está a capacidade de reflexão, que deveria permitir o discernimento de transformar as nossas emoções, boas ou não, em ações, boas. São as reflexões que nos permitem fazer as escolhas conscientes dos reflexos de nossas ações nas nossas vidas e nas vidas dos demais. Penso que cada ser humano tenha o seu lado bom, assim como o seu lado não tão bom. Por isso, acredito que somos nós que escolhemos ser bons ou não. Desse modo, cabe a cada indivíduo decidir e escolher o tipo de comportamento que vai exibir no convívio com os demais membros da sua convivência.

Qual é a sua natureza? Qual é a sua escolha? Vai brincar de matar e de agredir ou vai escolher amar e ser compassivo?

Moacir Rauber
Fora da Caixa pode ser a Nova Caixa?

O facilitador começa o curso dizendo:

- Para ser criativo e empreendedor é fundamental pensar “Fora da Caixa”. Aprender a olhar uma situação por ângulos até então não explorados...

Ele resgatou o surgimento da terminologia “Pensar Fora da Caixa” e apresentou parte do conceito da ideia. Dizem que a expressão surgiu em um treinamento dentro do Grupo Disney em que o facilitador propôs o exercício de conectar os nove pontos marcados em um papel branco que sugerem ser um quadrado sem tirar a caneta do papel. Na realidade o quadrado não existe, a nossa mente o cria a partir da sugestão feita pelo facilitador e baseada no pensamento estruturado ao qual estamos sujeitos pela nossa formação. Para conseguir realizar o exercício é necessário ultrapassar os limites imaginários do quadrado. Não há unanimidade quanto ao surgimento da expressão, porém “Pensar Fora da Caixa” leva-nos a encarar uma determinada situação de forma criativa, livrando-se das amarras do pensamento estruturado do observador comum. Assim, a terminologia “Pensar Fora da Caixa” se disseminou de tal maneira que ela pode ser a “Nova Caixa”. De tanto olhar para fora da caixa já não se vê a caixa que continua sendo uma oportunidade para criativos e empreendedores. Você apenas pensa fora da caixa? E o que você vai fazer com caixa? Ela ainda está lá.

A constatação de que o pensamento estruturado nos faz enxergar a caixa, levou-nos a procurar “Pensar Fora da Caixa”. Porém, ao nos forçar a sempre “Pensar Fora da Caixa” terminamos por não ver a caixa. O estímulo a que sempre se busque o diferente e o inovador faz com que se percam as oportunidades presentes no óbvio e no convencional. Por isso, o “Pensar Fora da Caixa” pode ser uma “Nova Caixa”. As tendências presentes no acelerado processo de inovação têm levado as pessoas a buscarem as oportunidades naquilo que é digital, virtual, novo e ativo. Elas também dão ênfase nas redes de contato das pessoas, no poder aquisitivo do consumidor e na busca pelo culto e pelo belo. Entretanto, um empreendedor deve saber ler para além das tendências e perceber que cada mercado encontrado em ângulos nunca vistos carrega em si um mercado já visto que, muitas vezes, ao se “Pensar Fora da Caixa” pode ser deixado de lado. Deve-se lembrar que do outro lado do mercado digital está o analógico: não é porque há uma tendência de que os produtos e serviços sejam digitais que o mercado analógico tenha desaparecido. Cabe salientar que em oposição ou em complementaridade ao mercado virtual existe o mercado físico: ainda que o virtual tenha crescido mais aceleradamente do que o mercado físico um não elimina o outro. Também é importante pensar que antes do novo existe o antigo: enquanto um trata das novidades o outro é fonte de nostalgia. Da mesma forma, ee por um lado se valoriza o ativo também existe o preguiçoso: enquanto um faz exercício o outro descansa. E com relação ao preguiçoso, destaque-se que ele é fonte de inspiração para os empreendedores, porque um preguiçoso sempre procura uma forma mais rápida, mais curta e mais fácil de fazer algo que já se faz. Enfim, se existem as nossas redes de contatos também existem aqueles que não estão em rede nenhuma; se tem pessoas com poder aquisitivo alto também tem aqueles de baixo poder aquisitivo que representam um mercado; a constatação de que há uma busca pelo mercado culto traz em si a existência de um mercado inculto; e a valorização do belo e do bom gosto revela o mercado do não tão belo e de não tão bom gosto. Desse modo, ao somente “Pensar Fora da Caixa” pode-se excluir um grande mercado da nossa análise, porque esquecemos de olhar a “Caixa”.

Enfim, o empreendedor criativo deve sim olhar e “Pensar Fora da Caixa”, porém deve se lembrar que também existe a “Caixa”. Ela ainda está lá e é uma oportunidade.

Moacir Rauber
Qual é a diferença entre falar e viver um conceito?

Aquela seria mais uma das tantas reuniões virtuais que a empresa organizava com os colaboradores distribuídos nos cinco continentes. A diferença é que ela seria estratégia para o sucesso dos negócios da empresa, abordando um projeto que a manteria pelos próximos anos. Por isso, mais do que nunca, a comunicação deveria ser perfeita. Cada colaborador no seu computador, assim como o diretor geral que coordenaria a reunião. Todos foram orientados para que desligassem o seu microfone para que não houvesse nenhuma interferência de ruídos. As reuniões virtuais são interessantes. Todos conseguem se ver e ouvir, mas é possível escolher quem querem ver e ouvir. Neste caso, todos se veriam, mas ouviriam apenas o diretor. A reunião começou. O diretor saudou os participantes e logo entrou no tema da pauta. Ele estava empolgado e destacou que, muito além dos resultados financeiros que o novo projeto traria, deveria existir respeito entre os membros da equipe e que todos pudessem aprender com os erros cometidos ao longo da jornada com a humildade de quem tem a mente aberta. A expressão dos rostos de alguns colaboradores demonstrava irritação. O diretor não entendia o porquê. A questão é que havia um ruído de fundo que dificultava o entendimento daquilo que era falado. O pessoal de TI (Tecnologia da Informação), por meio de mensagens escritas, pedia para que as pessoas desligassem os seus microfones para evitar a cacofonia e recebiam como resposta que os microfones estavam desligados. Porém, o ruído continuava. O diretor, que não percebera o problema técnico, continuava focado no tema da reunião com toda a energia que o momento exigia. O pessoal de TI desesperado. Finalmente, comunicaram o problema ao diretor, que prontamente pediu desculpas a todos e falou que interromperia a reunião. Entretanto, um microfone na sala do diretor continuou aberto e todos continuaram a ouvi-lo. Ele esbravejava:

- Que m... que está acontecendo? Não falei que tudo deveria estar perfeito, seus idiotas... e seguiu ofendendo o pessoal de TI.

A fala do diretor para com o pessoal de TI foi muito diferente do respeito, da aprendizagem com os erros e da humildade que ele recém havia recomendado para todos. Os membros da TI, audivelmente, constrangidos tentavam se justificar. Finalmente, identificaram o problema. Perceberam um segundo computador na mesa do diretor com o microfone, origem da cacofonia.

Trinta minutos depois, a reunião recomeçou:

- Estamos de volta. Obrigado ao pessoal de TI. Eu amo vocês! E continuou a pauta sem relatar a origem do problema ou se desculpar pelo próprio erro.

O que se pode aprender da situação? Mais uma vez que falar de um conceito não é o mesmo do que viver um conceito. O diretor falou de respeito, de aprendizagem e de humildade e teve a oportunidade de viver os conceitos num único evento. Ao receber a informação de que algo estava errado, interromper a reunião foi o correto. Destaca-se, porém, que o tratamento dispensado aos colaboradores de TI não teve nada de respeitoso, não foi um processo de aprendizagem e revelou alguém pouco humilde. Entendo que o diretor aprendeu pouco com o evento, mas com certeza ensinou muito. Respeito? Ele falou de respeito, mas não o viveu. Aprendizagem? Ele a considerou, mas não a exerceu. Humildade? Ele não a expressou e não a praticou. Na retomada da reunião ele poderia ter reconhecido o erro e deveria ter pedido desculpas ao pessoal de TI. Assim, ele teria demonstrado o respeito sobre o qual falara e teria praticado a aprendizagem com os erros que indicara por meio do exercício da humildade. Ao final, ele ensinou que falar de um conceito é muito diferente do que viver o conceito que se defende.

Moacir Rauber
Do que você faz parte?

A semana acadêmica estava programada para acontecer durante quatro dias com um palestrante por noite. Eram nomes das respectivas áreas de conhecimento que podiam efetivamente contribuir com a formação dos acadêmicos. Porém, os organizadores pensaram em oferecer algo a mais. Para cada dia de evento, antes de começar os trabalhos acadêmicos, eles convidaram artistas locais para fazer apresentações culturais. Na primeira noite, apresentou-se uma dupla de cantores que interpretaram maravilhosamente um repertório de músicas internacionais, passando por Frank Sinatra, Elvis Presley e outros cantores que marcaram época. Na segunda noite, a semana acadêmica foi brindada com as apresentações artísticas de um Centro de Tradições Gaúchas que contou com o encanto de dançarinos infantis e adultos. Na terceira noite, a última em que estive presente, foi a vez de uma banda de Rock Nacional que fez um show resgatando os grandes sucessos da década de 1980. Até aí tudo normal. O que há de diferente em tudo isso? A particularidade dos artistas. Tocaram e se apresentaram como profissionais, mas eles eram amadores. Todos eles mantinham a sua rotina de trabalho numa empresa que incentiva os colaboradores a desenvolverem novas habilidades e a descobrirem novos talentos. Entende-se que a participação em algo mais do que somente a empresa deixa-os mais felizes porque fazem parte de algo maior. Por isso a pergunta: do que você faz parte?

Penso que trabalhar faz parte das nossas vidas, assim como a participação na comunidade, em associações, em clubes, em grupos de amigos e nas nossas famílias. É essa sensação de pertencimento que contribui para a realização individual, uma vez que a vida do indivíduo somente tem sentido na participação do coletivo. São raras as pessoas autossuficientes que conseguem se realizar sozinhas. Um ou outro ermitão alcançou tal feito. Chamou-me a atenção ao conversar com um dos integrantes da banda de rock, porque ele estava em horário de trabalho. Ele conseguiu permissão do chefe para sair da empresa, deslocar-se até a universidade, participar da apresentação e, posteriormente, retornar ao trabalho. A empresa incentiva a que as pessoas participem de atividades extra laborais para estimular a construção de laços entre as pessoas que ultrapassem o ambiente de trabalho. É um discurso e uma prática que busca fomentar e promover a qualidade de vida dos colaboradores em todas esferas de suas vidas, porque eles entendem que nós somos seres sociais feitos para viver com as pessoas, para as pessoas e pelas pessoas. Entretanto, aqueles que querem participar escolhem pagar o preço. Ensaiam em horários pós laborais. Comprometem-se consigo mesmos e com os demais participantes de cada projeto. Fazem uma escolha que exige esforço, dedicação e disciplina. Qual é o retorno? A satisfação com a vida!

A pergunta do título do texto, do que você faz parte?, é uma provocação para demonstrar que todos nós somente temos sentido com o outro. Por isso, é importante que participemos e que contribuamos nas organizações às quais pertencemos. Por fim, acrescento mais algumas perguntas: a tua equipe é melhor porque você está nela? Qual é o ganho da tua organização por você estar nela? E a tua família, a tua comunidade, o teu país e o mundo são melhores porque você está nele? Se ainda não são melhores, é bom começar a fazer parte de algo e contribuir positivamente, caso contrário, seja um ermitão...

Moacir Rauber
Qual é o seu negócio?

O cliente estava em negociação com o vendedor da farmácia para o atendimento de uma ´prescrição médica que envolvia um grande número de medicamentos e um valor considerável. O cliente pediu um desconto e o vendedor disse:

- Bem, pode pesquisar na concorrência e para o preço que você encontrar mais baixo nós faremos uma oferta melhor.

É frequente ouvirmos esse tipo de proposta por parte de empresas de diferentes ramos, assim como é comum nós pensarmos que estamos diante de uma organização que faz o melhor pelo seu cliente. Porém, caso paremos e pensemos um pouco mais sobre a oferta pode-se questionar: se as empresas sabem que podem fazer melhor por que não o fazem logo? Acredito que seja porque elas ainda não sabem qual é o negócio delas e mantém o foco nas metas financeiras. Normalmente, elas lutam para alcançar o faturamento estabelecido para que cada colaborador embolse seu bônus e a organização, aparentemente, seja lucrativa. Na oferta de melhor preço fica claro que o foco dessas organizações é o lucro imediato e não a resolução de um problema do cliente que atenderia o propósito do negócio. Porém, acredito que as organizações focadas no lucro a qualquer custo tendem a perder espaço no mercado num futuro bastante curto, porque estão surgindo organizações em que o foco se volta ao seu negócio: resolver o problema do cliente, uma abordagem que tem a lucratividade financeira como consequência e não como prioridade. Qual é o negócio da tua organização? Ela está resolvendo o problema do cliente que a sustenta?

Responder as questões anteriores é importante para que as pessoas entendam qual é o negócio da organização. Recentemente, identifiquei uma situação em que a empresa mudou o foco do dinheiro para o negócio. Uma amiga minha tinha uma farmácia bastante convencional em que a preocupação com a concretização das vendas era importante para que as metas fossem alcançadas. Por isso, sempre que alguém entrava na farmácia os vendedores eram orientados a encontrar oportunidades para vender outros produtos nas entrelinhas da fala do comprador. A principal preocupação não estava em resolver o problema do cliente, mas em alcançar a meta financeira. A fala inicial do texto era constantemente usada na empresa para fechar uma venda e a farmácia sempre batia as metas. Porém, a proprietária não estava feliz com o seu propósito de vida e com a missão da empresa. Ela tinha expressado no nome da farmácia a preocupação com a saúde integral dos seus clientes, mas a realidade era determinada pelo faturamento. Ela não estava fazendo o melhor que podia fazer. Foi isso que a levou a ajustar a sua atuação para o real foco do seu negócio que era o de resolver os problemas do seu cliente. A farmácia continuou a vender os remédios prescritos e necessários para tratar os seus clientes? Sim, mas olhou para as necessidades do cliente. A minha amiga desenvolveu uma série gratuita de cursos que tratam de temas como: a orientação para uma alimentação saudável; a importância da prática de exercícios físicos; o cuidado com a mente; e o resgate da espiritualidade. São todos temas que podem contribuir de uma forma sustentável para que as pessoas resolvam os seus problemas. Ela está contra o próprio negócio? Não. Ela está no foco do negócio que é o de resolver os problemas dos seus clientes. A farmácia passou a também trabalhar com “remédios para a alma” dos clientes. O preço dos remédios? Já não era o foco. O faturamento? Depois do primeiro ano, superou as metas. A satisfação dos clientes? Aumentou a satisfação dos clientes externos com o atendimento ampliado e dos clientes internos que passaram a perceber o sentido daquilo que fazem. E a minha amiga? Tem a certeza de que está fazendo o seu melhor (Fabiane Dier – Farmacêutica, Coach e Thetahealer).

Por isso a pergunta: qual é o seu negócio? Você está fazendo o melhor para o seu cliente? O que você está resolvendo para ele?

Moacir Rauber
Ninguém pode nascer por nós...

Ontem foi dia de finados, um dia para homenagear aqueles que já partiram. Meus pais e muitas outras pessoas que me eram queridas não estão mais por aqui. Acredito que a melhor homenagem que se pode fazer a eles é viver a vida na sua plenitude. Porém, ao observar muitas pessoas percebo que elas têm aberto mão da prerrogativa de apropriar-se da própria vida, quase que terceirizando a beleza presente na autonomia das escolhas que permitem que cada um evolua na direção pretendida. Vive-se um mundo de oportunidades para explorar cada minuto da vida. O conhecimento e a possibilidade de aprendizagem nunca estiveram tão disponíveis, porém as pessoas optam por nada fazer. Numa linguagem mais religiosa, as pessoas não exercem o livre arbítrio preferindo deixar o conhecimento e a aprendizagem com os outros que passam a determinar o que é melhor para si mesmo.

Outro dia acompanhei o diálogo de duas pessoas:

- Não, eu não tenho tempo para ler um livro. É muito demorado...

E a resposta recebida em concordância dizia:

- Ahh, eu também não. Leio no máximo as frases curtas que me mandam. Não dá. É perda de tempo.

Não é perda de tempo, é o reflexo de um tempo. A leitura cansa. Cada vez menos se encontram pessoas que leem um livro, uma revista ou um texto mais longo, refletindo a pobreza de espírito de nosso tempo. Estudar cansa. Cada vez menos os alunos, sejam eles crianças, jovens ou adultos, dedicam-se a estudar com afinco, porque se distraem com as tecnologias presentes nas escolas, nas faculdades e nos lares. Praticar esporte cansa. Cada vez menos as pessoas têm praticado esportes individuais ou coletivos, porque estão entretidas com os celulares ou jogos virtuais. Trabalhar cansa. Cada vez menos se encontram pessoas dispostas a fazer trabalhos que exijam esforço físico, porque as atividades podem ser automatizadas. Participar da comunidade cansa. Cada vez menos as pessoas participam da comunidade onde vivem, preferindo ficar no conforto das suas pequenas fortalezas. As atividades rotineiras cansam. Cada vez menos as pessoas realizam as atividades rotineiras com cuidado e zelo, preferindo a improvisação da desorganização. A disciplina cansa. Cada vez menos as pessoas são capazes de manter a disciplina das escolhas conscientes, deixando-se levar pelas consequências de não fazer nada. É a inércia frente a vida que reflete a não ação com resultados. As pessoas preferem a não escolha, que tem como resultados a realidade que não querem, porque elas não entendem que a disciplina de dominar a mente é o exercício pleno da liberdade que permite que cada um seja protagonista da própria vida.  Para muitos, até parece que a vida cansa.

Por isso, entendo que muitas pessoas estão terceirizando a capacidade de estudar, de aprender e de se desenvolver e, com isso, delegam a vida. Não querem se comprometer nem se envolver demais. Preferem a inconstância do descompromisso e terminam por transferir para os outros as próprias escolhas. Por fim, estão tão ocupadas com o descompromisso e com as distrações que não encontram tempo para viver. Ou talvez seja por não se comprometerem e somente se distraírem que não vivem…

No dia de finados é um bom momento para se pensar na vida e assumir as rédeas das próprias escolhas. Penso ser um momento de refletir como não se eximir do privilégio de assumir o protagonismo da própria vida, porque ninguém pode nascer por nós; ninguém pode viver por nós; e ninguém pode morrer por nós. Aquele que podia morrer por nós já o fez.

Moacir Rauber