Facetas! Múltiplas faces
O fim dos predadores organizacionais

O ambiente estava alegre e descontraído. As pessoas trabalhavam e se divertiam ao mesmo tempo, mantendo uma boa produtividade. Seria uma semana muito especial, porque o chefe estava viajando. A semana se foi, o sábado também e o domingo chegou. No dia seguinte o chefe estaria de volta e a ansiedade passava a tomar conta daquelas mesmas pessoas que haviam trabalhado e produzido alegremente na semana anterior. Isso era resultado da postura de um chefe que fazia questão de mostrar quem mandava naquele setor, mantendo uma relação autoritária com os seus subordinados, propositadamente. Entre os seus pares ele ressaltava o sucesso da sua postura:

- Olha, o cavanhaque, a cabeça raspada e uma cara fechada é um santo remédio para manter a ordem. Ninguém nem pia quando estou por perto...

O chefe se orgulhava da postura linha dura e revelava como as estratégias de intimidação funcionavam, considerando-as uma vantagem competitiva para com os demais chefes de departamentos. Ele gostava de destacar que sob as suas ordens não havia reclamação ou desmando. Bastava alguém esboçar algum comportamento que pudesse parecer inadequado para que ele fizesse o sujeito saber qual era o seu lugar. Não havia segunda chance, o caminho seria a rua. Ele eliminava qualquer empecilho do caminho. Afinal, a manutenção da autoridade se dava por meio de uma aparência, de uma postura e de um comportamento agressivos que inibiam qualquer iniciativa fora dos padrões de seus comandados. O chefe poderia ser classificado como um predador organizacional. Pergunto: ainda há lugar para pessoas assim nas organizações?

Entenda-se predador como aquele que caça e que destrói outros organismos completamente com o intuito de se alimentar, segundo o dicionário Aurélio. Porém, a definição tem origem no mundo animal e faz parte de um ciclo de sobrevivência das espécies predadoras, porque elas caçam para permanecerem vivas. Fazendo um paralelo com o mundo organizacional, o chefe descrito também é um predador, porque ele destrói as pessoas que poderiam representar uma ameaça ao seu poder. Os predadores organizacionais transformam o ambiente de trabalho num lugar quase que inabitável, porque as pessoas sempre estão inseguras. O predador organizacional aniquila a iniciativa, a criatividade e a capacidade de inovação dos seus subordinados, destruindo quase que completamente as características individuais que levaram a que aquela pessoa fosse contratada. Desse modo, não deveria haver mais lugar nas organizações para chefes, supervisores, coordenadores, CEOs ou proprietários com características predadoras como forma de manter a autoridade, porém é uma realidade mais corriqueira do que se poderia admitir. Quantas não são as pessoas que ficam ansiosas no final do domingo porque no dia seguinte terão que trabalhar? É a ansiedade provocada pela insegurança e pelo medo presente no ambiente de trabalho. E, entendo que é responsabilidade do chefe ou do líder de cada setor, departamento, seção ou empresa a criação do ambiente de trabalho, seja ele positivo ou negativo.

Enfim, acredito que cada profissional que exerça um cargo de comando ou de liderança, também é responsável por fazer com que as pessoas entreguem e queiram entregar as suas melhores competências. E isso não acontece num ambiente de intimidação criado por um predador que destrói o outro por insegurança própria. É tempo de comandantes e comandados, líderes e liderados cooperarem e colaborarem num ambiente positivo e propositivo sendo bem mais produtivos. Um comandante pode ser comandado, assim como um líder pode ser liderado sem perder a autoridade. Basta ter a confiança nas próprias competências.

Você precisa ser um predador para se manter no ambiente organizacional? Se sim, o caçado pode ser você.

Moacir Rauber
Quem o impede de fazer desta a sua melhor vida?

É muito comum ouvir as reclamações das pessoas que não estão felizes com as suas vidas nas diferentes esferas. Basta entrar numa universidade para se escutar os alunos reclamando de que a universidade, o curso, os professores ou os colegas não são nada daquilo que esperavam que fossem. Também é comum percorrer os corredores de uma empresa e escutar as lamúrias de pessoas que se sentem infelizes naquilo que fazem. Culpam, por isso, a organização que não oferece as condições que elas mereceriam. Da mesma forma se ouvem as pessoas fazendo fofoca dos amigos, criticando as experiências relacionais que tiveram ou, por fim, queixando-se da vida. Acredito que é aqui que cabe a pergunta: quem é o responsável por tudo isso?

Concordo que quando entramos numa universidade, depois da batalha para conseguir a vaga, as nossas expectativas estão lá em cima. Queremos que tudo seja o melhor para que possamos sair dali os melhores profissionais do mundo. No primeiro dia, na primeira semana e no primeiro mês é tudo maravilhoso. Depois começa o choque de realidade. O professor já não parece ser tão brilhante quanto na primeira aula. Percebe-se que ele é humano. Os colegas não são tão maravilhosos como nos primeiros dias. Eles, às vezes, são chatos e meio bobos. E as instalações da universidade deixam muito a desejar, parecendo o colégio do Ensino Médio. Acredito que algo semelhante ocorra quando conseguimos aquele emprego que buscávamos. O primeiro dia, a primeira semana e o primeiro mês são incríveis, porque somos movidos pela curiosidade e pela vontade de contribuir. Ainda que esse período passa acompanhado daquele frio na barriga gerado pela insegurança de entrar num ambiente novo, queremos fazer tudo logo para mostrar que valeu a pena sermos contratados. Porém, a vida na organização já tem o seu ritmo e devagarzinho a gente acaba se formatando. Os sonhos vão minguando e nos conformamos. E com os amigos? Existem aqueles intocáveis que trazemos na nossa alma, mas a grande maioria está sujeita as críticas, as fofocas e a falta de lealdade. E nas relações amorosas? São nelas que acredito que o encanto e o desencanto mais atingem os extremos. A paixão avassaladora, as juras de amor eterno e o desejo de passar a velhice unidos como no dia do primeiro beijo se escoam entre os dedos numa rapidez impensável. E nesse ponto, pode-se voltar a pergunta inicial: quem é o responsável por tudo isso? Expectativa e realidade na faculdade? Vontade e desinteresse no trabalho? Amor e desafeto nas relações? A resposta é simples, não é? Lá no fundo todos nós sabemos que cada um é o responsável por cada escolha feita.

Por isso, essa é uma das perguntas que me faço nas conversas e nos textos: quem é o responsável por fazer desta a sua melhor vida? Sim, a vida é composta pelos estudos, pelo trabalho e pelas relações de amizade e de amor que podem nos trazer aquilo que nós escolhermos. Por isso, o único responsável por fazer dos meus estudos a melhor oportunidade de aprendizagem sou eu. Hoje já não se tem mais as desculpas para criticar os professores, os colegas ou as instituições, porque as informações estão disponíveis para todos aqueles que as quiserem. Basta procurar. Da mesma forma, cada um também é responsável por fazer da sua empresa o melhor lugar para se trabalhar. Caso contrário, cabe a cada um buscar um novo lugar. E com os amores e os amigos? Também cabe a cada um de nós lutar, preservar e estimular os nossos amores e as nossas amizades por meio da confiança e da lealdade. E se eles não merecerem? Isso é problema deles! Por fim, é problema nosso fazer desta a nossa melhor vida, porque, por enquanto, é a única que temos.

Moacir Rauber
É bom estar com você?

Muitas vezes, ao terminar uma das conversas que tenho conduzido em empresas, universidades ou escolas em que abordo a importância de olhar para dentro de si mesmo para identificar e prender os próprios ladrões, peço para que as pessoas se deem as mãos. Digo para que elas se cumprimentem, dando um bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme o período do dia. As pessoas, entusiasmadas pelo conteúdo abordado anteriormente, dão efusivos apertos de mãos e abraços. Depois eu digo o seguinte:

- Mantenham o cumprimento. Fiquem de mãos apertadas e olhem-se nos olhos. Agora, levantem os seus polegares de forma a que o polegar de cada um se oponha ao polegar do outro. Force um pouco o polegar do outro. Testem a força um do outro...

As pessoas fazem o que é pedido. Algumas ficam constrangidas ao perceber que a pessoa a sua frente tem mais força no polegar do que ela. Outras ficam constrangidas justamente porque sabem que tem mais força do que o outro. Aparecem os sorrisos amarelos. Também aparecem os sorrisos espontâneos daqueles que pouco se importam se tem mais ou menos força do que aquele que está a sua frente. Eles se divertem pelo fato de estarem com o outro.

Na sequência eu chamo a atenção de todos para dizer o seguinte:

- Eu vou contar até três e cada um terá que fazer com que o outro abaixe o polegar o mais rápido possível. Combinado?

A tensão aumenta. Muitos presentes sentem a proximidade da competição e apertam mais fortemente as mãos. Eu começo a contagem:

- Um, dois, três. Valendo!

A competição começa. As pessoas fazem força para abaixar o polegar do outro. Cada um empurra para o outro lado. Os derrotados sorriem. Os vencedores inflam o peito. Entretanto, todos sabem que é uma brincadeira e terminam em abraços de confraternização. É um alvoroço. Logo que os ânimos se acalmam eu indago sobre quem venceu e quem perdeu. As manifestações são as mais variadas. Por fim, eu peço para a pessoa para quem eu havia dado a mão para explicar aos demais o que eu havia lhe dito após o comando valendo:

- Ele falou, “olha, eu vou abaixar o meu dedo polegar, assim você poderá abaixar o seu. Com isso, ambos alcançamos os nossos objetivos.”

Depois da explicação todos exclamam, Ahh bom, percebendo que muitas vezes nós não entendemos o espírito das relações. A vida pode ser competitiva, mas nós não estamos em competição. As competições, normalmente, não são justas porque são contra os outros. A competitividade normalmente é sadia porque ocorre a partir de mim em que demonstro a capacidade de fazer o meu melhor. E nesse exemplo, em nenhum momento eu havia falado para que as pessoas derrubassem o dedo do outro à força. Para fazer o meu melhor e alcançar o objetivo de que o outro abaixasse o seu dedo, bastava eu abaixar o meu. Porém, essa postura e esse novo olhar exige que nós, além do dedo, abaixemos as nossas guardas e passemos a confiar em nós mesmos e nos outros. Que deixemos de competir e passemos a cooperar e colaborar. Com isso, nós, indivíduos sociais, passaremos a entender que nós estamos com os outros e não contra os outros. Enfim, é fundamental que entendamos que a nossa vida somente tem sentido com os outros e que a nossa alegria de viver somente ocorre na presença dos outros. Assim, ao alcançar os nossos objetivos devemos proporcionar a que outras pessoas possam alcançar os seus.

Por fim, viver em sociedade deve se basear em relações em que nós estamos com os outros e não contra os outros. Para isso, deve ser bom estar com os outros e deve ser bom estar com você. É bom estar com você?

Moacir Rauber
Negócios, amizade, fidelidade e lealdade: é possível?

Trabalhar com pessoas permite acompanhar histórias. Testemunhei uma trajetória de negócios e de amizade que, às vezes, parece não ser possível que caminhem juntas. Porém, quando se toma consciência de que o mundo é igual para todos e que a real diferença está em como cada um o vê, percebe-se que a amizade, os negócios e os pontos de vista diferentes são possíveis. Nesse ponto entra a importância de que se tenham valores convergentes, ainda que a vivência deles seja diferente, dependendo do momento de cada um. Vamos a história dos meus dois amigos.

Um sujeito ofereceu ajuda para outro no início de sua vida profissional. Não foi uma ajuda gratuita, mas sim uma ajuda interessada no retorno que aquele a quem ela foi oferecida poderia dar. Foi iniciado o negócio e estabeleceu-se uma parceria que perdurou por vários anos. O negócio se desfez e permaneceu a amizade. O tempo passou. Outros projetos e convites foram feitos entre os amigos. Tratavam-se de ofertas como resultado da relação estabelecida, revelando também a presença de valores como a fidelidade e a lealdade, defendidos pelos dois. Passados alguns anos dessa relação, aquele que inicialmente oferecera a ajuda, precisava de ajuda. Sabendo que o seu amigo estaria para iniciar um projeto na área em que ele atuava, dirigiu-se a ele e pediu ajuda, afinal ele era seu amigo. Porém, o amigo disse que não poderia fazê-lo, porque a parceria seria com outro. O que aconteceu? Onde estariam a lealdade e a fidelidade defendida por ambos?

Entendo que quando se estabelecem determinadas relações, alguns valores são intrínsecos a elas e acredito que a fidelidade e a lealdade estejam na base do casamento, da amizade e das ligações profissionais. Pressuponho, também, que há uma distinção entre como cada um vê e vive o conceito dessas palavras, dependendo do momento em que se encontra. Nos dicionários, a fidelidade pode ter entre os seus sinônimos a lealdade, a honradez, a constância e a obediência, sendo entendida como a qualidade daquele que é fiel ao demonstrar zelo com os compromissos assumidos. A fidelidade não depende de algo escrito, embora possa ser. Como um valor, a defesa da fidelidade estava presente no discurso de ambos. Por outro lado, a lealdade também tem entre os seus sinônimos a fidelidade, além de representar a sinceridade, a integridade e a dignidade, sendo entendida como o cumprimento dos compromissos assumidos. E a lealdade é um valor que dificilmente se escreve, porque ela apenas existe ou não. Da mesma forma, a lealdade estava presente no discurso da relação de amizade dos dois. Particularmente, entendo que a lealdade é o valor com maior amplitude, abarcando e envolvendo a fidelidade. Alguém pode ser infiel, permanecendo leal, porém, uma vez sendo desleal você certamente é infiel. Entretanto, pode existir uma diferença no momento da vida em que cada um se encontra para viver tais valores. E o amigo que foi pedir ajuda do outro amigo sentiu na pele essa diferença.

O amigo teve a ajuda recusada no formato como ele a pedira. Por isso, inicialmente, sentiu-se traído. Acusou, mentalmente, o outro de não ter respeitado os valores defendidos por ambos. Onde estava a fidelidade defendida? Como ficava a lealdade na recusa de ajuda? Ele calou-se. Passado o impacto inicial, conversaram sobre o tema. O amigo que agora recusava a ajuda estava em outra relação, porém os valores permaneciam importantes para ele. Por isso, nesse projeto, especificamente, ele estava sendo fiel e leal para com quem ele já havia se comprometido, porque a vida segue. Ao final, retomaram uma parceria em outro projeto. A lealdade e a fidelidade continuavam importantes para ambos. Os negócios e a amizade prevaleceram.

Moacir Rauber
Como prender o ladrão de si mesmo? Quatro passos para eliminar o inimigo...

Acredito que todos nós temos os nossos ladrões interiores e eles nos acompanham todos os dias nos mais variados momentos das nossas vidas. Identificá-los e prendê-los é um desafio diário e para toda a vida. Se nós não os identificarmos eles alteram o sentido da realidade e nós nos roubamos. Às vezes, um momento que poderia ser de alegria, o ladrão interior o substitui pela tristeza. É um roubo. Outras vezes, o ladrão interior converte um período de progresso em retrocesso. Outro roubo. Da mesma forma, o ladrão de si mesmo modifica momentos de conquistas em derrotas; transforma as oportunidades em lamúrias; perturba as amizades criando inimizades; acaba com os amores originando ódios; corrompe a produtividade por meio da preguiça; enfim, o ladrão interior é um autossabotador que transforma sonhos em pesadelos. São roubos. Assim, além de identificar é preciso prender o ladrão de si mesmo. Por isso a pergunta: o que fazer para prender o ladrão de si mesmo?

Em primeiro lugar é necessário (1) identificar o ladrão e os roubos. Olhe para dentro de si mesmo e encontre os momentos de sua vida que poderiam ter sido felizes e não foram. Esse reconhecimento é essencial, porque sem a tomada de consciência de que nos roubamos não há roubo. E, talvez, o maior roubo seja o não reconhecimento do roubo, momento em que transferimos para os outros a responsabilidade pela nossa infelicidade. Em seguida, deve-se (2) encontrar um padrão de comportamento nos roubos, as autossabotagens. Um ladrão atua da mesma forma, porque ele segue uma receita de sucesso. O ladrão de si mesmo sabe exatamente o que fazer para derrubar você. E esse “LADRÃO” também é VOCÊ!  Avalie e analise: o que há em comum nas situações em que você se autossabota? O que se repete no momento em que você se impede de alcançar um objetivo? Qual é o momento em que um sonho se transforma em pesadelo? Olhe para cada uma das situações e você vai encontrar um padrão. Na sequência procure (3) entender a razão do padrão dos roubos. Esse é o momento que cabe a cada um analisar o que o levou a se autossabotar. Muitas vezes são as nossas crenças que nos limitam. Lá no fundo tem uma voz que diz, “Eu não mereço...” ou “Isso não é para mim...”. São crenças limitantes que nos impedem de prender os nossos ladrões (link: quais são as suas crenças?). Para além dessas crenças, pergunte-se: o que eu quero de verdade? Uma vez tomada a consciência, reconhecidos os roubos e entendidas as razões, cabe a você (4) modificar o padrão das decisões. Para esse fim, as decisões devem ser tomadas a partir da pergunta: o que você realmente quer? Frente a situações de estresse, pressão, conquista, alegria, medo, insegurança ou outra qualquer, é importante que você pare, respire e reflita sobre o que é real ou não. Pense sobre aquilo que você quer para depois agir em conformidade com o seu desejo, modificando o padrão de comportamento impedindo os roubos e as autossabotagens. Difícil? Sim. Possível? Também. Precisa-se de disciplina para exercer a liberdade da escolha consciente daquilo que se quer. Modifique as suas crenças. Lembre-se que se você quer, você pode, você consegue (link: quais são as suas crenças?).

Enfim, o ser humano tem as emoções básicas, como a alegria, a tristeza, a surpresa, o nojo, a raiva e o medo que se manifesta nas diferentes situações dependendo da percepção individual. A diferença está em como cada um vai refletir e agir depois dessa percepção inicial, que pode ser real ou não. Por isso, a importância de tomar consciência do que se quer, avaliar o que está acontecendo para saber se é o momento de fugir, de lutar, de cuidar, de zelar ou mesmo de paralisar. Só assim para prendermos os nossos ladrões interiores evitando as autossabotagens no caminho de sermos e fazermos tudo aquilo que podemos ser e fazer.

Onde está o inimigo? Ele não está lá fora, ele está dentro de cada um.

Moacir Rauber
“Não quero morar fora do Brasil. Quero morar em outro Brasil (Israel Nunes)!”

Ano de eleições sempre é um período de dor de cabeça para os brasileiros. E isso ocorre a cada dois anos. Há de se lembrar que, além de se preocupar com a vida política, também é preciso se ocupar da rotina normal da vida, ou seja, mais uma dor de cabeça. Isso quer dizer que no Brasil se tem dor de cabeça um ano sim e no outro também. A questão que merece destaque é que a política existe para que se tenha uma dor de cabeça a menos e não uma a mais. Segundo Aristóteles, a política tem por objetivo prover a felicidade daqueles a quem eles servem por meio da organização, direção e administração daquilo que é público na sociedade. Por isso, quando nos organizamos em sociedade escolhemos pessoas para organizarem, dirigirem e administrarem aquilo que é comum a essa mesma sociedade. Portanto, os escolhidos não deveriam ser objeto de problemas para nós, mas de solução. E a classe política do país, assim como os funcionários públicos das diferentes esferas e dos diferentes poderes, são os escolhidos para servir a sociedade e promover a sua felicidade, não o contrário. Por que então a escolha e a existência de políticos geram tamanha dor de cabeça para nós, brasileiros? Não há uma única resposta, assim como existem outras perguntas a serem feitas, porém esta semana me encontrei com um jovem que, na contramão da maioria dos jovens, não pretende se mudar do país para ter um mundo melhor. O seu maior desejo é morar em outro Brasil, usando a política como instrumento para mudar o país. Ainda há esperança...

Durante muitos anos tratamos a política como algo asqueroso e desprezível.  Essa ideia tem a sua razão de ser e ela está expressa numa constatação feita por Martin Luther King, quando ele disse, “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”. Não sei exatamente quando, ou se foi desde sempre, mas a política se afastou da sua origem de gerar felicidade para ser uma fonte de problemas. Isso ocorre justamente quando os bons se eximem da responsabilidade de gerar felicidade para os demais ao não se candidatarem para organizar, dirigir e administrar aquilo que é público na sociedade que integram. Os bons se calam. E assim, temos uma horda de políticos que lá estão apenas para se locupletarem. Os maus assumem. Por isso, para mim, foi uma grata satisfação conversar com alguns jovens, entre eles Israel Nunes, 22 anos, que pretende mudar essa realidade. Eles tratam a política como a ciência de gerar bem-estar ao outro com a pretensão de assumir a responsabilidade sobre a construção de um país melhor e não simplesmente se eximir da responsabilidade ao mudar para um país melhor.

Enfim, construir um país melhor requer assumir responsabilidades para gerar bem-estar e felicidade para a coletividade. O que fazer? Mudar o Brasil. Para isso é preciso participar efetivamente da política! “Mas eu não quero ser político...”, pode ser a resposta de muitos. Então, que cada um escolha políticos que tenham o real interesse em mudar o Brasil fazendo com que o Estado sirva a sociedade e não contrário. Para isso, é necessário que, ao final de um dia, de um mês, de um ano e de um mandato de trabalho cada político, assim como os demais servidores públicos, possa dizer para si mesmos, “O meu trabalho ajudou mais do que custou para o bem-estar dos brasileiros”. Qual político pode dizer isso? É nosso papel escolher pessoas que pensem assim e fiscalizá-los para que eles ajam assim. Isso porque a política não deveria ser uma dor de cabeça a mais para os brasileiros, mas deveria ser exercida de forma a que tivéssemos uma dor de cabeça a menos.

Vamos mudar o Brasil para morarmos em outro Brasil?

Quem está no comando da sua vida?

O homem seguia com seu cavalo por uma estrada e ao passar por outro homem que estava sentado à beira, este lhe perguntou:

- Para onde o senhor está indo?

- Pergunte ao cavalo... Respondeu o primeiro.

É uma história antiga sobre como as pessoas não assumem o protagonismo da própria vida. Existem muitos cavalos em nossas vidas que podem nos levar para lugares que não queremos ir, entre eles as emoções. E são muitas as pessoas que deixam o cavalo das emoções dar o rumo da sua vida. As pessoas que se orgulham de falar, de expressar e de demonstrar tudo o que sentem no momento que sentem entregaram o comando da vida ao cavalo das emoções. Quando estão com raiva gritam, esperneiam e agridem, acreditando que são autênticas. Não são. Elas estão deixando o cavalo dar a direção da sua vida, porque reagem sem a racionalidade de um ser humano. Quando estão com medo atacam, fogem ou paralisam. Outra vez é o cavalo dando o rumo ao não controlar uma emoção natural. Quando estão alegres cantam, pulam e abraçam. Não se importam com os outros, porque o cavalo continua no comando. Quando estão tristes se lamentam, acusam e choram. Mais uma emoção natural, mas se quisermos fazer de nossa vida algo melhor não podemos deixar que o cavalo a comande.

Não tem nada de errado com nenhuma das emoções, como a raiva, o medo, a alegria ou tristeza. Elas são básicas do ser humano e acontecem com aqueles que nascem na Índia, no Japão, na Austrália, no Canadá ou no Brasil. Essas emoções existem em qualquer ser humano. A diferença está com aquilo que cada um faz com as emoções que o acometem. Ao enfrentarmos uma situação de injustiça que nos produz a raiva é natural que façamos algo. Porém, ao reagirmos imediatamente gritando, esperneando e agredindo, não temos tempo para agirmos em conformidade com a racionalidade de que dispomos. O mundo pode não ser justo, mas nós podemos ser justos ao dominarmos o nosso cavalo da raiva. Ao vivenciarmos uma situação que nos provoque medo, o momento em que paramos e respiramos fundo permitirá que assumamos o controle do cavalo para avaliarmos qual é a melhor ação a ser tomada. Muitas vezes, o medo sequer é real, ele é apenas resultado de um cavalo assustado. Ao experimentarmos momentos de alegria a reação resultante também pode demonstrar quem está no comando do cavalo da sua vida. Extravasar cantando, pulando e abraçando é muito bom, porém é importante saber se os cascos do cavalo não machucam aqueles que de repente não estão no mesmo momento que você está. Enfim, ao passar por um quadro de tristeza é natural se lamentar, chorar e até acusar, porém como e quando se vai fazer é que mostrará quem dá a direção da sua vida: você ou o cavalo da tristeza.

Desse modo, entendo que o protagonismo da vida depende de como cada um doma o cavalo das próprias emoções. Sentir raiva, medo, alegria e tristeza é natural para cada pessoa, porém, deixar-se levar ou domar o cavalo das emoções é uma escolha. Como nós agimos com as emoções quando nos deparamos com situações que as desencadeiam é que dará a dimensão de quanto nós dirigimos o nosso cavalo ou é ele que nos leva. Portanto, é o controle das reações e o domínio das ações que vai determinar se é você ou é o cavalo quem está no comando da sua vida.

Quem está no comando da sua vida?

Moacir Rauber
De onde vem a felicidade?

Era o aniversário de um amigo. Os presentes estavam na casa dos 40 e 50 anos. Todos já tinham passado por algum casamento frustrado, por algumas experiências dolorosas e lembravam de muitos dos equívocos cometidos. Assim como é normal na vida de qualquer um que tinha se arriscado a viver e buscar a felicidade. Porém, na vida o erro faz parte. As divagações e as histórias se sucediam. Foi nesse momento que um dos presentes comentou que havia cometido um erro quando tinha quinze anos.

Ela disse:

- Casei-me com quinze anos, depois que fiquei grávida... e contou a sua história.

Certamente o fato de ela ter se casado e ter tido uma filha aos quinze anos de idade pode ter sido considerado um erro por muitos e, talvez, por ela mesma. Eu não queria ter ouvido tudo o que ela ouviu dos outros, como os comentários e julgamentos, tendo sempre um dedo apontado na sua direção. Não queria ter tido todos os diálogos internos que ela teve consigo mesma. Entretanto, ela também falou do orgulho e do prazer de ter uma filha com mais de trinta anos de idade antes mesmo dos seus cinquenta anos. Uma filha que foi criada com carinho, com dedicação e com amor que valeu e vale cada momento difícil vivido por ela. Uma filha insubstituível! Para aquela mãe, assim como para a maioria das mães e dos pais, não há nada no mundo que possa substituir o que um filho representa.

Foi então que um amigo fez o comentário:

- É verdade. “Um erro também traz felicidade! (by Gica)”

Ficamos em silêncio. Um comentário aparentemente simples, mas que trazia em si uma profundidade tocante. O comentário se referia ao exemplo da nossa amiga, mas certamente o Gica falava a partir de si mesmo, assim como cada um sempre fala da própria perspectiva. Na memória, devem ter lhe ocorrido algumas escolhas que poderiam representar erros no passado, mas que hoje são fontes de dádivas, de bênçãos e de alegrias. Por isso, escolhas, aparentemente, equivocadas podem trazer felicidade. E essa percepção esteve na alma de todos os presentes, pelo silêncio que indicava o momento de reflexão. Acredito que cada um olhou para dentro de si, para trás e para o presente e pode identificar escolhas, decisões e juízos sobre eventos difíceis do passado que hoje são fontes de felicidade. Também eu naquele momento voltei para o meu passado e lembrei de inúmeras escolhas que fiz e que foram dolorosas, mas sem as quais eu não seria eu nos dias de hoje. Foram erros no passado e que hoje são fonte de inspiração, de motivação e de felicidade que formam a minha identidade.

Desse modo, acreditar que uma escolha ou uma opção feita, ainda que de maneira equivocada, também pode nos trazer felicidade, retira-nos um peso das costas. Afinal, as decisões que tomamos no momento em que as tomamos usam os dados e as informações que temos para que sejam feitas as melhores escolhas. Assim, a ideia de que sempre temos que tomar a decisão correta é que é um conceito equivocado. A única certeza que temos é a de que escolhemos o que escolhemos para que seja o mais adequado. Certo ou errado? Difícil de saber, mas se elas forem tomadas em conformidade com os valores que são importantes para cada um, um dia a felicidade virá. E no futuro, mesmo que não tenha sido a melhor escolha no passado, ainda assim poderemos ser felizes com isso.

A felicidade vem dos acertos ou dos erros? De onde ela vem tanto faz, porque ser feliz é a verdadeira escolha!

Qual é a sua luta? Luto a favor!

Depois de quatro anos indo todos os dias para a universidade, finalmente chegou o dia da formatura. Tinha sido um grande orgulho para mim, como usuário de cadeira de rodas, ter conseguido frequentar autonomamente a universidade. Agora a comissão de formatura estava escolhendo o local onde seria realizada a entrega dos diplomas. Optaram pelo local mais bonito e mais tradicional da cidade. Porém, tinha uma questão: o local não era acessível. A comissão se reuniu e me convidou. Obviamente, coloquei-me contra a escolha e sugeri a mudança de local. Não fazia sentido frequentar a universidade autonomamente durante todo o curso e no dia da entrega do diploma escolher um local não acessível. Teria que ser carregado por outras pessoas para retirar o meu diploma. Seria um retrocesso. Três representantes da comissão concordaram que era importante mudar de local para marcar um posicionamento de acessibilidade e de inclusão. Entretanto, teve uma pessoa que queria permanecer com o local tradicionalmente usado, argumentando que não seria justo que por causa de uma pessoa o brilho da sua formatura e das demais pessoas fosse diminuído. Foi um choque para mim. Que tipo de brilho seria esse se para que ele acontecesse alguém deveria apagado, discriminado? E mais, a pessoa que se posicionou contra a mudança de local era de um curso que trabalharia com questões sociais, sendo uma de suas pautas a luta contra a discriminação social. Naquele dia decidi que não lutaria contra a discriminação, o preconceito, a corrupção ou qualquer outra injustiça. A minha lutar seria a favor!

Explico. Trata-se de um ponto de vista. Particularmente acredito que a nossa luta como pessoas deveria dar mais ênfase naquilo que se quer, o que automaticamente elimina aquilo que não se quer. Quando se fala tanto em diminuir a discriminação, o foco deveria ser o de incentivar a inclusão/integração. Quando se aponta tanto a necessidade de lutar contra o preconceito, a direção apontada deveria ser o aumento da tolerância. Quando se dá tanto destaque ao combate à corrupção, o foco talvez devesse ser o estímulo à honestidade. Acredito que muita energia tem sido despendida no combate da eliminação daquilo que não se quer, porém defendo que se deveria direcionar a luta para aquilo que se quer. Por isso, a luta a favor me parece muito mais lógica e produtiva. No exemplo citado, a pessoa que depois de formada teria como missão o combate à discriminação e ao preconceito não percebeu a oportunidade diante de seus olhos. Ao concordar em mudar de um local glamouroso para um local acessível ela estaria lutando a favor daquilo que ela prometia defender pelo curso que ela estava concluindo. A escolha pela mudança de local seria a prática da integração/inclusão e da tolerância o que seria um ato de honestidade entre a teoria e a prática do compromisso com a defesa de um mundo mais justo.

Entendo perfeitamente que ações de mitigação da discriminação, do preconceito e da corrupção sejam necessárias. Porém, acredito que o maior combate aos fatores negativos se dá pelo estímulo aos comportamentos positivos. Desse modo, no dia em que me coloquei contra a escolha de um local não acessível para realizar uma formatura pública eu lutei a favor. Sim, eu lutei a favor da integração/inclusão, da tolerância e da honestidade entre a teoria e a prática para que tenhamos um mundo mais justo. Defendo que todos possam brilhar e que ninguém precise ser apagado por isso.

Qual é a sua luta?

O Mundo tem jeito?

Era sábado pela manhã, 8h, e começava o evento de empreendedorismo. Estavam presentes mais ou menos 120 jovens entre 15 e 18 anos que poderiam estar em qualquer lugar, mas eles escolheram participar de um evento que começaria com duas palestras e prosseguiria com uma feira. Na feira eles venderiam os produtos resultado do desenvolvimento das suas ideias empreendedoras. A teoria das boas ideias seria testada na prática. Eles estavam dando a cara a tapa em que saíam das salas de aula e dos laboratórios para o contato com a realidade dos consumidores. Os produtos pensados, desenvolvidos e produzidos por eles seriam viáveis? Os produtos despertariam o interesse do público? As respostas para essas perguntas viriam durante o dia, mas antes eles teriam contato com as palestras. Na minha abordagem, explorei um pouco a importância de se indagar quem cada um é e qual é o seu sonho de vida. Pode parecer básico, mas boa parte das pessoas termina os seus dias sem terem sabido quem foram na vida e sem saber o porquê da sua passagem por aqui. Vivem como num sonho, sem conseguir dar um sentido àquilo que fazem ou que fizeram. Não realizam sonhos. Qual é o seu sonho?

Logo após as reflexões sobre os temas, uma menina fez a seguinte pergunta:

- Professor, acredito que muitas pessoas têm os seus sonhos, mas elas ficam inseguras. Às vezes parece utopia. Daí não sabem se podem alcançá-los ou não. Como podemos saber se somos bons o suficiente para realizar os nossos sonhos?

Era uma menina que tinha uns quinze anos. Eu fiquei pasmo com a qualidade do vocabulário utilizado e pela profundidade da pergunta. Na verdade, eu estava encantado por estar com aqueles jovens que me davam a impressão de que o mundo tem jeito. Fiz alguns comentários, mas deixei uma pergunta como resposta para a menina:

- Se você tem um sonho é porque você imagina que pode realizá-lo. Então pergunto: o que a impede de alcançar o teu sonho?

A pergunta deixada foi feita de forma suave e amorosa. Não havia crítica, mas uma leve provocação para que ela corresse atrás do seu sonho, porque era dela que ela falava. Também aproveitei as palavras do diretor da ONG que promovia o evento que havia comentado sobre a importância de compartilhar os sonhos para que seja possível aglutinar forças e realizá-los.

As palestras terminaram e fomos para a feira. Os jovens estavam ocupados com os seus estandes. Nós, os mais velhos, nos sentamos num banco ao lado da feira onde ficamos conversando. De repente, veio até nós aquela menina que havia feito a pergunta. Ela queria agradecer. Eu tomei a liberdade e perguntei qual era o sonho dela. Entre um sorriso meio tímido e o incentivo da amiga ela respondeu que ela havia escrito um livro, mas não sabia como fazer para chegar a um editor. Agora eu sabia a origem do seu rico vocabulário. Ela era uma leitora antes de ser escritora. O diretor da ONG, que estava ao meu lado, disse:

- Envia o material para mim que eu posso encaminhá-lo para um amigo que é editor. Talvez nós possamos publicá-lo como parte do projeto de empreendedorismo... e deu mais algumas indicações.

A menina não cabia em si de alegria. Há algumas horas ela tinha um sonho secreto. Na palestra ela teve a coragem de fazer uma pergunta. Aqui ela teve a coragem de compartilhar o seu sonho que no mesmo instante estava sendo realizado. O empreendedorismo tem disso, premia aquele que se atreve a sonhar e a expor o sonho.

Qual é o seu sonho? Se os adultos ajudarem os jovens a compartilharem e a realizarem os seus sonhos eu acredito que o mundo tem jeito!!!

Moacir Rauber