Facetas! Múltiplas faces
Falsidade Autêntica

Por onde ele passava os cumprimentos eram efusivos, os elogios eram distribuídos a torto e a direito e o sorriso estava sempre presente. Ele era o rei da simpatia. Não esquecia as datas importantes de ninguém. No aniversário mandava um presente. No Natal, Ano Novo e Páscoa sempre enviava uma mensagem. A rede de relacionamentos dele era muito bem administrada. De tão atencioso que era, dava-nos a impressão de que não podia ser verdadeiro. Enfim, o que será que era autêntico por trás do comportamento do “Senhor Simpatia”?

Festa de final de ano. Todos reunidos. Chega um e outro. Os abraços, cumprimentos e sorrisos do “Senhor Simpatia” seguem cumprindo o seu papel, quase sempre acompanhados de um elogio:

- Caramba, a melhor caipirinha do mundo é você quem faz! Diz o “Senhor Simpatia” para um conhecido seu.

Nesse momento, outro presente que ainda não havia sido percebido pelo “Senhor Simpatia” se manifestou, “Ei, você sempre falou que a minha era a melhor do mundo...”. Um leve constrangimento. O “Senhor Simpatia” puxou o recém visto para o lado, deu-lhe um aperto de mão mais caloroso, fez-lhe um afago e cochichou-lhe ao ouvido, “Falei isso para ele apenas para agradá-lo. A tua é a melhor!” E ele seguiu para abraçar uma amiga que chegava.

É muito bom ser recebido com um sorriso, um aperto de mão ou um abraço ou ainda todos eles juntos. É muito bom receber um telefonema, uma mensagem ou um presente em datas especiais. Embora, tão importante quanto recebê-los é que eles sejam autênticos. Ao observar e refletir sobre o comportamento do “Senhor Simpatia”, imaginei que se ele fala isso para um também poderia falar para o outro. Com um é a melhor caipirinha, com outro é o abraço mais caloroso, com mais outro é o sorriso mais lindo e assim pode ser com relação a qualquer elogio do seu repertório. Fica a dúvida: o que será autêntico no comportamento do “Senhor Simpatia”? O que é verdadeiro nos elogios dados e recebidos nas nossas relações? Difícil saber, porque creio que estamos ensinando muitas técnicas de como fazer para parecer algo que não se é e esquecemos de que o mais importante é ser aquilo que se parece. Você quer parecer simpático ou você é simpático? Você quer passar a impressão de ser competente ou você é competente? A sua rede de relacionamentos é de pessoas com quem você se importa ou apenas de pessoas que importam para você? E isso se estende a outras práticas no nosso agitado mundo competitivo. Para tudo existe uma técnica de como fazer para parecer ser, muitas vezes, o que não se é. Pode-se encontrar informações sobre as técnicas de como dar um abraço para que ele pareça verdadeiro sem que a pessoa queira dar um abraço verdadeiro. Existem as técnicas para dar um aperto de mão que passe a impressão de ser respeitoso, de parecer amistoso e de exibir força sem que haja respeito, amizade ou força. E não para por aí. Ao preparar alguém para se candidatar a uma vaga de emprego, nós ensinamos como o candidato deve se comportar na entrevista para falar aquilo que o entrevistador quer ouvir e não para exibir a real competência para a vaga. Assim seguimos ensinando e aprendendo técnicas para se passar uma determinada impressão sem a real preocupação em ser aquilo que se aparenta ser. Com isso, vive-se um momento em que o único comportamento autêntico, de muitas pessoas, é a falsidade.

Particularmente, acredito que as técnicas que aprimoram o desempenho em qualquer área são importantes e isso se aplica às relações sociais para que sejamos mais educados. Podemos e devemos usar todos os recursos comportamentais e tecnológicos para melhorarmos as nossas relações sociais e profissionais. Entretanto, penso também que as técnicas devem ser complementares ao sentimento, à emoção e à vontade de se relacionar que devem autênticas, transferindo autenticidade à imagem que se passa por meio da técnica. É bom parecer autêntico, mas é fundamental ser autêntico.

É possível melhorar isso? Claro que sim, basta ser autenticamente verdadeiro.

Moacir Rauber
Aperto de mãos: uma arma ou um cumprimento?

Os homens de tribos distintas se aproximavam e levantavam as mãos em sinal de que estão desarmados. Os líderes se tocavam as mãos demonstrando a confiança de que a conversa naquele momento seria amigável, ainda que as tribos fossem rivais na busca pelo melhor território de caça e na escolha das melhores cavernas para morar. Dizem que nesse ambiente selvagem surgiu o hábito do aperto de mãos ainda na Idade da Pedra, quando a maioria dos homens andava armada com seus tacapes, lanças e porretes. Por isso, o gesto de erguer as mãos e estendê-las ao outro indicava que naquele encontro os interlocutores estavam desarmados e que a conversa seria baseada na confiança. E hoje, o que representa um aperto de mãos? Ainda se pode dizer que aqueles que se cumprimentam estão desarmados?

Entendo que, em parte, mais uma vez desvirtuamos a essência de um gesto surgido há tanto tempo, seja a história da Idade da Pedra verdadeira ou ele tenha surgido em outro contexto qualquer. O gesto de se apresentar livre de armas para uma conversa franca e amigável baseada na confiança, como na sua concepção, deu lugar a muitas orientações de como se deve dar um aperto de mão para causar a impressão que se quer. É fácil de se encontrar instruções de como o aperto de mão deve ser dado nas diferentes situações de relacionamento. Se o aperto de mão for para alguém de um nível hierárquico superior partindo de alguém que está chegando pela primeira vez na empresa, o aperto deve ser dado com a mão na vertical e sem que seja exageradamente forte, caso contrário você pode passar a impressão de que deseja tomar o poder daquele que o recebe. Se o aperto de mão for entre iguais ele deve ser forte, porque se a mão estiver bamba pode-se passar a impressão de que a pessoa é medrosa. Caso você queira demonstrar que pretende dominar a situação dê a mão por cima. Se você está do outro lado, mas não aceita a situação de ser dominado coloque a sua outra mão sobre a mão de quem você cumprimenta. E assim seguem as instruções. Enfim, são tantas as orientações de como se deve cumprimentar as pessoas para “passar a impressão correta” que se esqueceu aquilo que originou o cumprimento: a confiança.

Toda relação que se inicia com a confiança traz consigo o respeito. Entretanto, a nossa forma de ver o mundo a partir de interesses próprios acima de tudo, revela-se muito mais selvagem do que o ambiente em que o gesto surgiu. Transformou-se o cumprimento que indicava que se estava desarmado numa arma de manipulação das impressões, podendo ser tão poderosa como um tacape ou um porreta. Manipulam-se as expressões para se alterar as impressões, construindo-se relações suspeitas que poderiam ser de confiança. O formidável aperto de mão, que poderia representar confiança, união, colaboração, cooperação, respeito e amizade, além de uma clara demonstração de se estar desarmado, passou a ser usado como uma arma para se conseguir um objetivo final de se parecer aquilo que não se é.  

Onde estão os selvagens?

Qual é o seu objetivo ao apertar a mão de alguém?

Moacir Rauber
Autenticidade nas diferentes fases da vida!

Lá estava ele no auge dos seus 40 e tantos anos, vestido feito um adolescente de 16 e “matando a pau” na festa ao se exibir para as meninas que na sua imaginação o achavam o máximo. A festa terminou, ele, com o seu boné virado para trás, pegou o seu carro e foi para casa. Abriu a porta e lá estava a sua mamãezinha com um prato de caldo quente para que o filhinho pudesse dormir até a meia tarde do dia seguinte sem que tivesse que levantar por causa da fome. Estou sendo preconceituoso na descrição de um personagem cada vez mais comum nos nossos dias? Se olharmos um pouco além, estou fazendo uma crítica ao nosso papel de pais que não deixam os seus filhos se tornarem adultos.

Já escrevi sobre como é bom ser adulto e recebi retornos dos mais diversos. Quase todos concordando, identificando e descrevendo inúmeras situações em que presenciaram os “Peters Pans” adultos. Muitos citaram o sentimento da vergonha alheia. Outros diziam que ser criança ou adolescente é muito bom, mesmo quando se é mais velho, com o que eu também concordo. Sempre fui a favor de manter o espírito de uma criança, incluindo a sua inocência e a sua ingenuidade, que certamente colaborariam para que tivéssemos um mundo melhor. Sempre fui a favor de manter o espírito de um adolescente, incluindo a sua curiosidade e o seu inconformismo, que certamente contribuiriam para que alcançássemos novos benefícios em nosso modo de viver. Principalmente, sempre fui a favor de que cada uma seja aquilo que queira ser. Entretanto, cabe destacar, que para se manter o espírito de uma criança ou de um adolescente eu não preciso me vestir como tal. Ser criança ou ser adolescente é um momento único na vida, que uma vez vivido não retorna mais, assim como ser adulto e idoso também o são. Isso é óbvio! São fases distintas em que somente podemos ser autênticos sendo aquilo que somos. Quando vemos crianças se comportando como adultos, seja na vestimenta ou nas atitudes, até achamos engraçadinho, porém fica muito claro que é uma representação. Elas não são autênticas porque não podem ser aquilo que ainda não são. Da mesma forma, sempre que um adulto tenta parecer um adolescente ou uma criança, deixa-nos uma sensação desconfortável de vergonha alheia, porque ele busca repetir o irrepetível. Torna-se caricato, porque eles não podem ser aquilo que já não são mais. A autenticidade não existe mais. E a quem cabe parte da responsabilidade para que as crianças sejam crianças e os adultos sejam adultos?

Particularmente entendo que parte da responsabilidade cabe aos pais no processo de educação de filhos que queiram assumir os seus papéis em conformidade com cada fase da vida. Por isso, ser um adulto autêntico com o sorriso espontâneo de se manter um espírito jovem é fundamental. Ser um adulto autêntico com propriedade para respeitar ou transgredir com a consciência da sua responsabilidade é que pode fazer a diferença. Ser adulto é exatamente isso, ser aquilo que se quer ser com a responsabilidade daquilo que se é. Quando você é adulto você tem a autonomia, a responsabilidade e a propriedade para fazer aquilo que quer e com quem quiser.

Como adulto, mantenha o espírito da criança e do adolescente que existe em você. Como pais e mães permita que os seus filhos se transformem em adultos autênticos.

Moacir Rauber
Qual é o seu juramento? É Semana de Ressurreição!

Quem ainda não precisou de atendimentos médicos? Acredito que sejam poucos os privilegiados que nunca careceram da atenção de um médico. Por outro lado, são muitos aqueles que reclamam dos médicos e, facilmente, são encontradas críticas aos profissionais como sendo mal-educados, arrogantes, pouco atenciosos e dinheiristas. Entretanto, cabe indagar: qual é a profissão que não tem em seu quadro pessoas que não são merecedoras de exercê-la? Acredito que em todas as profissões existam tais pessoas, porém, no meu ponto de vista a grande maioria dos profissionais preza pelo seu papel, entre eles, destaque para os médicos. Penso que devemos reclamar, protestar e, se for o caso, registrar queixa sobre atendimentos e produtos que não atendem aquilo que prometem entregar. Porém, também acredito que devemos começar a destacar aqueles que fazem o que fazem com a dedicação que deles se espera e, muitas vezes, mais do que seria a sua obrigação. Devemos promover o “cadastro positivo” das pessoas e empresas que entregam aquilo que prometem num movimento de recuperação, de revigoramento e de ressurreição de boas práticas em diferentes áreas. Nas últimas semanas pude constatar essa realidade com os atendentes de um hospital, com o(a)s enfermeiro(a)s e com o médico. Hoje, destaco o médico.

O que ele fez atendeu as minhas necessidades e foi além do esperado. Sou usuário de cadeira de rodas desde 1986 e no final de março fraturei o fêmur. Uma situação completamente paralisante que me deixou debilitado emocional e fisicamente. Na chegada fui bem recebido pela equipe do hospital, assim como pelo médico. Ele conversou comigo, pediu e analisou os exames, discorreu sobre os melhores procedimentos. Finalmente, ele voltou para conversar sobre amenidades como dois seres humanos. Em todas as nossas interações, em algum momento, a barreira entre médico e paciente era rompida e permaneciam as duas pessoas. Acredito, sinceramente, que o médico cumpriu o seu papel respeitando o seu juramento ao exercer a arte de curar com fidelidade, honestidade e com caridade na interação humana.

Tive o privilégio de ser tratado por um médico que me atendeu e me entendeu para que o problema de saúde que me afligia pudesse ser curado. Ele receitou-me remédios químicos para cicatrizar as feridas no corpo e ele me ofereceu a sua presença humana como um remédio para a alma. Entrei no hospital debilitado e saí revigorado. Desse modo, tive a oportunidade de presenciar a atuação de profissionais que cumprem o seu juramento profissional.

Um médico trabalha com a cura e com a reabilitação, porém todas as profissões trabalham com o atendimento das necessidades humanas. Em maior ou menor grau, as nossas interações humanas profissionais deveriam gerar a satisfação do outro, uma vez que nós respeitemos o nosso juramento. Por isso, falar de cura, de recuperação e de satisfação na Semana Santa é fundamental para que melhoremos como seres humanos. E a ressurreição do Ser Humano? Essa deixamos a cargo de Jesus Cristo que nos deu a vida e o exemplo de como Ser um Humano Divino nas relações.

E você? Cumpre com o seu juramento? Conhece a história de profissionais que cumprem? Compartilhe para promover os profissionais positivos e com isso revigorar, recuperar e, em muitos casos, promover a ressurreição das boas práticas profissionais!

Moacir Rauber
A diversidade é normal para você?

Participo de muitos eventos com foco em Treinamento e Desenvolvimento de pessoas. Na condição de cadeirante por mais de 30 anos posso comprovar que a preocupação com a unicidade, a singularidade e multiplicidade das pessoas tem evoluído rapidamente. Sabe-se, porém, que ainda há um longo caminho pela frente até que se consiga entender verdadeiramente que as pessoas são a única razão de ser de qualquer organização. É essa percepção que levará a humanidade a conviver de forma equitativa com a diversidade.

Muitas vezes, para deslocar-me de um local a outro faço parte do trajeto de carro, de avião ou mesmo de ônibus, um verdadeiro desafio para um cadeirante. Naquele dia cheguei na rodoviária e encontrei pessoas atenciosas e simpáticas por parte da empresa. Logo orientaram-me para aguardar e entrar por último no veículo. Fiquei olhando para um ônibus lindo, enorme, majestoso e imponente. No vidro dianteiro e na lateral o adesivo universal de acessibilidade, a cadeira de rodas. Observei a movimentação do motorista, um homem franzino com não mais de 1,65m de altura. Durante o tempo em que ele ajudava a acomodar as malas de todos também se deu conta que eu estava ali, a espera. O motorista começou a me observar e percebi que ele estava ficando um pouco aflito. Devia passar por sua cabeça, Meu Deus, como farei para que ele embarque?, porque apesar do adesivo da cadeira de rodas não havia nenhum acesso para um cadeirante entrar no ônibus. Havia a reserva de vagas, mas não a condição para acedê-las. Aproximei-me do motorista e perguntei sobre como faríamos para subir. Ele perguntou-me, Você precisa de ajuda? Não consegue caminhar? Sim, preciso de ajuda, respondi. O motorista, sempre solícito, afirmou que conseguiria me carregar. Encostei minha cadeira próximo a escada de acesso do ônibus, o motorista colocou seus braços por baixo de meus braços, enquanto outra pessoa segurava as minhas pernas. Começaram a erguer-me para entrar no veículo. Ao pisar no primeiro degrau senti que o motorista fraquejou. Por mais vontade que ele tivesse, a sua compleição física não ajudava, ainda mais considerando que eu tenho 1,85m. Tentou mais uma vez e conseguiu subir o primeiro degrau. Esperou um pouco, fez um movimento e pôs o pé no segundo degrau. O motorista fez o movimento para subir mais um degrau, mas a minha calça ficou enroscada no braço metálico que abre e fecha a porta do ônibus. O motorista e eu subimos o degrau, mas a calça não. Para piorar o motorista perdeu o equilíbrio e caiu sentado no degrau superior e eu fiquei no degrau de baixo somente de cuecas. Alguns curiosos que assistiam olhavam a situação entre assustados, estupefatos e apavorados. Eu fiquei um pouco embaraçado, porque minha cueca não era das mais bonitas... Falei, Calma, calma! O motorista queria voltar a fazer força. Pedi-lhe para que não fizesse nada. Comecei a ajeitar minhas calças. Depois disse-lhes que eu subiria as escadas sozinho. Fazendo força com os braços, comecei a subir um a um os degraus, trazendo as pernas com as mãos até chegar ao primeiro assento do ônibus. Na lateral do assento outra vez vi o adesivo que identifica ser o local próprio para cadeirantes. Apenas falta avisar aos cadeirantes que eles precisam caminhar…

Certamente eu poderia esbravejar, reclamar e protestar, fazendo o maior escarcéu. Particularmente prefiro rir, porque sei como nos comportamos quando a diversidade nos aparece de forma realmente diversa em indivíduos únicos, singulares e múltiplos. Ainda hoje nos assustamos e não sabemos como nos comportar diante dela. Também eu, que tenho diferenças visíveis advindas do uso de uma cadeira de rodas, deparo-me com situações frente as quais não sei como me comportar. Não há certo ou errado, apenas bom senso e normalidade. Ser diverso é que é normal!

E você, como convive com a diversidade na sua organização? No seu dia-a-dia? A diversidade é normal para você?

Moacir Rauber
Qual é o seu juramento?

As pessoas quando vão a um hospital, normalmente, estão em um momento difícil. Elas vão para visitar alguém querido que está no hospital ou elas mesmas estão hospitalizadas. Dificilmente alguém vai fazer turismo no hospital para visitar e agradecer aos enfermeiro(a)s. Na última semana fui parar num hospital por um acidente que tive. Já sou usuário de cadeira de rodas, o que me limita a mobilidade que ficou ainda mais prejudicada. No hospital a percepção do tempo muda. Um minuto vira uma hora facilmente que parece uma eternidade. O que pode fazer a diferença para que as dificuldades do paciente sejam minimizadas? Como diminuir a dor de quem lá está sem querer lá estar? É aí que entra o trabalho dos médicos, do(a)s enfermeiro(a)s e da equipe de manutenção. A qualidade de atendimento faz toda diferença para uma rápida recuperação de quem se encontra enfermo. E como fazer para que o atendimento seja de qualidade? Não creio que haja uma única resposta, mas parte dela eu encontrei na semana em que passei hospitalizado. Fui tratado por pessoas que vivem a plenitude do conceito de sua profissão: o(a)s enfermeiro(s).

Até ser encaminhado ao hospital nunca havia pensado na definição de enfermagem como profissão. Agora que estou em casa fiquei pensando em quão bem fui tratado. Fui assistido com respeito às minhas necessidades básicas, considerando as minhas limitações. Fui tratado com cuidado para que a minha reabilitação ocorresse de maneira mais rápida. Fui ensinado a tomar medidas de autocuidado para promover a saúde em todas as suas dimensões. Assim, ao olhar um dos conceitos de enfermagem como sendo “a ciência e a arte de assistir ao ser humano (indivíduo, família e comunidade), no atendimento de suas necessidades básicas; de torná-lo independente desta assistência, quando possível, pelo ensino do autocuidado, de recuperar, manter e promover sua saúde em colaboração com outros profissionais” (http://saudeevidavidaesaude.no.comunidades.net/conceito-de-enfermagem). No momento em que li o conceito de enfermagem entendi que ele estava sendo vivido pelo corpo de enfermeiro(a)s que me atenderam. Entrava um, saía outro e os cuidados continuavam focados no paciente. Desse modo, se o objetivo da enfermagem é “a promoção, conservação e restabelecimento da saúde, dando especial atenção aos fatores biológicos, psicológicos e socioculturais, e com absoluto respeito pelas necessidades e direitos da pessoa a quem se presta esse tipo de serviço” (https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/educacao/o-conceito-de-enfermagem/28733), o objetivo estava sendo alcançado por aqueles profissionais enfermeiro(a)s que me atendiam.

Enfim, foi nessa situação que a pergunta do título surgiu, Qual é o seu juramento? Todas as profissões têm um juramento solene no momento da colação de grau, entretanto, sabe-se muito bem que são muitos os profissionais que não respeitam o juramento e não vivem de forma a honrar o conceito e os objetivos da profissão. Naqueles profissionais que encontrei no período em que estive hospitalizado senti o juramento sendo vivido. Em uma de suas versões o profissional de enfermagem diz: JURO “Dedicar minha vida profissional a serviço da humanidade, respeitando a dignidade e os direitos da pessoa humana, exercendo a Enfermagem com consciência e fidelidade; guardar os segredos que me forem confiados; respeitar o ser humano desde a concepção até depois da morte; não praticar atos que coloquem em risco a integridade física ou psíquica do ser humano; atuar junto à equipe de saúde para o alcance da melhoria do nível de vida da população; manter elevados os ideais de minha profissão, obedecendo os preceitos da ética, da legalidade e da mora, honrando seu prestígio e suas tradições”. Esse é o juramento que está alinhado com o conceito e com os objetivos da enfermagem que senti serem vividos pelo corpo de enfermeiro(a)s do hospital onde estive internado.

Qual é a sua profissão? Qual é o seu juramento? Você o vive na prática? As respostas para essas perguntas não sei, mas quero registrar aqui que são muitos aqueles que vivem em conformidade com o juramento de sua profissão simplesmente ao tratar o paciente/cliente com Amor e Respeito.

(Inspirado no Corpo de Enfermagem do HCO)
Moacir Rauber
Não se ensina truque novo para cachorro velho...

Lá estava eu com minha aluna de dezenove anos que comentava sobre o seu avô desempregado e que se recusava a voltar a estudar. Ela disse:

- Ele tem muitas ideias fixas. Talvez ele já seja muito velho para aprender algo novo...

- Quanto anos ele tem?

- 54.

- Hum, você está me chamando de velho? Eu tenho 53...

Ela ficou constrangida. Eu ri. Ela se explicou, dizendo que ela não achava o avô velho, mas realidade ele é que se achava velho para fazer uma faculdade ou mesmo para se inscrever num curso profissionalizante. Ela o incentivava e o desafiava para procurar algo novo para fazer, porém ele resistia. Concordo com a análise dela. Ninguém com cinquenta e poucos anos precisa ser velho, mas qualquer um pode ser velho. A postura do avô da minha aluna dá razão a expressão “não se ensina truque novo para cachorro velho”. Porém, será a expressão verdadeira?

Acredito que há muito conhecimento nas expressões populares que representam o conhecimento do senso comum. São tantos os ditados que carregam em si conhecimento e sabedoria que a ciência terá ainda muito trabalho pela frente até que consiga entendê-los, explicá-los, comprová-los e/ou refutá-los. Porém, nem todos os ditados devem ser internalizados como verdades absolutas, cabendo a nós discernir entre àqueles que trazem em si sabedoria e àqueles que nos induzem a assumir crenças que nos limitam.

Nas minhas andanças envolvo-me com pessoas dos oito aos oitenta anos. Muitas vezes, vejo jovens que se comportam como velhos e idosos que agem como jovens. Com relação a aprendizagem encontro a mesma realidade em total desacordo com a expressão de que não se pode ensinar truque novo para cachorro velho. Há jovens e idosos que acreditam que já sabem de tudo e que não precisam e não conseguem aprender mais nada. Por outro lado, há jovens e idosos que acreditam que podem continuar a aprender, porque a plenitude da vida se revela na aprendizagem contínua. Entendo que ao manter a mente aberta para a aprendizagem se pode continuar a ter novas experiências, independentemente da idade.

A realidade de que se pode aprender sempre está comprovado pela neurociência que constatou a neuroplasticidade cerebral que permite que o fenômeno da aprendizagem seja uma escolha individual. Da mesma forma, a história é rica em exemplos de idosos sábios e a sabedoria somente se consegue alcançar com a aprendizagem contínua. Porém, percebo que a expressão “não se ensina truque novo para cachorro velho” permeia boa parte das pessoas em nossa sociedade. É uma expressão até simpática, mas extremante prejudicial para quem internaliza a suposta verdade presente nela, impedindo-as de se apropriarem da vida em todas as suas fases. Jovem? Adulto? Idoso? Pouco importa, o ditado “não se ensina truque novo para cachorro velho” não se aplica às pessoas, porque o Ser Humano pode aprender sempre. Depende das escolhas, inclusive das do avô da minha aluna.

Importante destacar que o ditado foi criado e dirigido a um cachorro mais velho que na visão de seu dono não aprendia mais. Porém, o ditado foi desmentido inclusive para os cães, porque o programa televisivo “Caçadores de Mito” comprovou que cachorros velhos também aprendem.

Moacir Rauber
As crianças querem crescer

O esporte é uma escola da vida. Estive num clube de remo que aos domingos pela manhã recebe por volta de cinquenta remadores mirins. É encantador ver o empenho e a dedicação daqueles jovens atletas. Cada um deles, com seus sete, oito ou nove anos, tem as suas responsabilidades. Os adultos carregam os barcos do barracão até a água, mas eles precisam carregar os seus remos. Peças do equipamento que medem quase quatro metros, embora não pesem mais de um quilo. No retorno, eles precisam lavar os barcos. Chega a ser emocionante observar o ir e ver daqueles pequeninos carregando os seus remos ou lavando os seus barcos, exibindo nos seus rostos a expressão de orgulho por estar contribuindo com a sua parte no processo de aprendizagem de um novo esporte. As crianças querem aprender. As crianças têm vontade de crescer. Por que então se tem uma geração de adolescentes de quarenta anos? Por que tantos jovens não conseguem assumir as suas responsabilidades ou entender que as suas ações ou não ações impactam as pessoas a sua volta?

Certamente que se trata de uma perspectiva de quem observa parte do processo. Parece-me que parte dos pais não quer deixar que os filhos cresçam ao navegarem entre dois extremos no processo de educação, o excesso e a falta de atenção. Por um lado, vê-se um grupo de pais que criam os seus filhos numa bolha de proteção com a ideia de não deixar que seus filhos nunca sintam nenhum tipo de frustração. Os pais querem ser os responsáveis pela felicidade dos filhos e passam a paparicá-los como se fossem príncipes e princesas. Adotam a postura de superproteção, passando a mensagem para os filhos de que eles não são capazes de se responsabilizarem pela própria felicidade. Subliminarmente, chamam os seus filhos de incompetentes. Por outro lado, um grupo de pais não dá a devida atenção aos filhos que crescem rodeados de presentes num ambiente hiper estimulado com a sensação de serem um estorvo na vida dos próprios pais. Assim, os aparelhos e equipamentos eletrônicos mantêm as crianças tão ocupadas que elas não têm tempo de se frustrarem ao não viverem as emoções reais dos desafios presentes no relacionamento humano. Em ambos os casos, entendo que não se trata de amor, mas de egoísmo, resultado de um movimento narcísico por parte de pais que não aguentam a ideia de ser mal avaliados pelos filhos. O que acontece nos dois extremos? Os pais criam pessoas com Deficiência Emocional.

A superproteção ou a falta de orientação impede a que os filhos cresçam emocionalmente, relegando-os o papel de fracos e alienados. Crianças naturalmente criativas, bondosas e generosas se tornam apáticas, chatas e mimadas. Foi-lhes roubada a autonomia, porque elas não aprenderam a esperar, a negociar, a ceder ou a se frustrar. Não desenvolveram os músculos emocionais que crescem nos momentos de dor e de tristeza que naturalmente devem fazer parte de nossas vidas. Por fim, criam filhos que se tornam aleijados emocionais e tiranos sociais que escravizam os pais ao não assumirem o protagonismo da própria vida. Aos quarenta anos ainda estão em casa sendo tratados como crianças.

Ao observar os atletas mirins, percebe-se que as crianças querem crescer e querem ser responsáveis. As crianças querem assumir o protagonismo das suas vidas, bastando para isso que os pais não os tratem como incompetentes pela superproteção ou como um estorvo pela falta de tempo. E os esportes trazem em sua natureza o benefício de assumir a responsabilidade. É preciso disciplina e respeito para desenvolver as competências do esporte e também do relacionamento com os outros. É preciso suportar algumas chateações, como carregar os remos e lavar os barcos, para desfrutar do prazer de remar por lazer ou competição. É fundamental passar pela frustração de não poder remar em dias de muito vento. Juntamente com as habilidades esportivas são desenvolvidas as competências emocionais reais que vão permitir que as crianças cresçam e se transformem em adultos responsáveis por suas escolhas. Enfim, é essencial vivenciar as dificuldades para poder modular a felicidade de ser um adulto responsável por si mesmo no respeito das relações com os outros.

Príncipes? Tiranos? Adolescentes de quarenta anos? Deixe-os para os filmes e a ficção.

Moacir Rauber
Uma caixa d´água ou uma piscina?

Tenho uma amiga que é fora da caixa. Ela lê muito, fala sobre diversos assuntos, participa da vida social intensamente, luta para ter o que deseja e, principalmente, diverte-se com aquilo que tem. Lembro-me do dia em que fui visitá-la em sua casa pela primeira vez, isso há quinze anos. Estacionei em frente da casa, desembarquei e fui recebido pelo seu marido, também meu amigo. Conversamos e logo perguntei pela minha amiga. Ele disse:

- Ela está lá nos fundos. Na piscina... e deu uma risadinha meio irônica.

Não entendi muito bem na hora. Cruzamos pela garagem em direção aos fundos da casa. Era meia tarde e o sol brilhava intensamente, prejudicando a visão. Entretanto, pude ver um terreno baldio, uma pequena edícula na lateral e no meio do terreno algo parecido com um buraco cheio de água e um guarda sol. Pensei que talvez a piscina estivesse noutro lugar mais distante, porém de repente vejo a minha amiga sair da edícula e se jogar dentro daquele buraco respingando água para todos os lados. Entre as gargalhadas ela me cumprimentou e disse:

- Você ainda não conhecia a minha piscina, não é?

E lá veio mais uma risada.

Foi assim que eu encontrei a minha amiga num dia de verão de 40 graus naquela caixa d´água de mil litros batizada de piscina. A piscina era o desejo dela. A caixa de água era a sua realidade. Infeliz por isso? Não, nem um pouco. Criatividade e bom humor? Sim, a criatividade para transformar uma realidade não ideal na realidade em que se pode desfrutar daquilo que se tem com bom humor. Muitos, provavelmente, ficariam tristes ou se lamentariam porque não tinham a piscina ideal para poder se refrescar no verão. O foco da maioria das pessoas sempre está voltado para tudo aquilo que elas não têm. Parece que somente poderiam ser felizes caso tivessem o ideal daquilo que desejam. Por isso, lamentam-se, “Se eu tivesse uma piscina eu seria feliz”; “Se eu tivesse um carro novo eu seria feliz”; “Se eu tivesse um emprego melhor eu seria feliz”; “Se eu tivesse uma namorada eu seria feliz”; e assim seguem as lamentações pelo que não tem sendo infelizes com aquilo que tem. E você, está bem com aquilo que tem?

Alguns poderiam dizer que sentar numa caixa d´água e acreditar que se está numa piscina é uma fuga da realidade. Particularmente entendo que não. Acredito que foi o início do processo de construção de uma realidade, porque hoje a minha amiga tem uma piscina real na frente da sua casa. Na mente dela, todos os dias ao chamar aquela caixa d´água de piscina ela fazia algum movimento para que o desejo se transformasse em realidade. Ela se refrescava na caixa e lembrava do que podia fazer para mudar essa realidade. Depois ela fazia. Era a projeção de um sonho com movimento. Eis a diferença.

Desse modo, é fundamental desfrutar daquilo que se tem e lutar por aquilo que se quer. O seu carro não é o ideal para você? Cuide daquele que você tem, usufrua dos benefícios que ele traz e mova-se em direção a conseguir o veículo pretendido. O seu trabalho não é o desejado? Dedique-se a sua função como se ela fosse o melhor trabalho do mundo que certamente você estará se movendo na direção de conseguir o melhor trabalho do mundo. Não tem uma namorada? Aproveite o que a vida lhe oferece, seja feliz com as relações que você tem e a namorada virá também.

Ser feliz com aquilo que se tem não é se acomodar com aquilo que se tem. Trata-se de desfrutar da realidade atual e trabalhar com dedicação e leveza em direção à realidade desejada.

Um caixa d´água ou uma piscina? Depende da perspectiva. A minha amiga é fora da caixa porque ela consegue ver uma piscina numa caixa. E a felicidade? Ela está dentro de cada um.

Moacir Rauber
Qual é a sua função: criar ou resolver problemas?

Cadeira de rodas e viagem, às vezes, não é uma combinação muito boa. Uso a minha há mais de trinta anos. Foram muitas viagens e nem todos os lugares foram acessíveis, mas quase todas as pessoas são sensíveis. Na última viagem que fiz tive uma surpresa. Quando era chegada a minha vez de desembarcar, ao me acomodar na minha cadeira de rodas, logo sinto que um dos pneus estava furado. Que droga... pensei. O que faço agora? Chegar noutro país, cidade desconhecida, sozinho e numa cadeira de rodas com o pneu furado não era nada bom. Conseguir um pneu para a minha cadeira de rodas seria um grande desafio. Antes, porém, dirigi-me aos achados e perdidos para registrar a minha reclamação. Não deixaria o ocorrido sem registrar, porque as malas e bagagens despachadas nos voos são muito maltratadas. Fui atendido por um senhor com cara de poucos amigos:

- Qual é a sua reclamação?

- Gostaria de informar que a minha cadeira está com um pneu furado.

Sem me olhar ele me instruiu para preencher um formulário e depois passou a me perguntar o ano, a marca e quanto eu havia pago na cadeira. Em seguida, ele perguntou:

- O senhor tem a Nota Fiscal da cadeira?

A pergunta me pareceu tão sem cabimento que gaguejei, mas respondi que não a tinha comigo, porque já havia comprado a cadeira de rodas há mais de dez anos.

- Pois deveria tê-la consigo, disse-me o funcionário sem levantar os olhos.

Respirei fundo e não disse nada. Esperei mais alguns segundos. Ele perguntou:

- O que aconteceu com o seu pneu? Olhando-me, finalmente.

Mostrei-lhe o corte no pneu.

Ele retrucou:

- Pois é, mas as empresas não saem com um estilete por aí cortando os pneus das cadeiras de rodas... dando um sorriso meio irônico.

Foi a gota d’água. A má vontade e as perguntas descabidas haviam extrapolado qualquer noção de bom senso. Num tom de voz forte e indignado respondi:

- Então o senhor está dizendo que eu cortei o pneu enquanto ela estava no porão do avião? Ou que eu embarquei com o pneu furado?

Ele permaneceu em silêncio, porém com uma expressão um pouco desorientada pelas minhas colocações. Eu era um estrangeiro e ele um cidadão no seu país. Continuei:

- O Senhor já perguntou se eu trouxe a NF da cadeira comigo, como se cada cidadão fosse obrigado a carregar as NFs dos sapatos e das calças.

Silêncio. Por fim, perguntei:

- Desculpe-me, mas o senhor está aqui para resolver ou para criar problemas?

Acredito que cada um, dentro da sua função, deva ser parte da solução dos problemas e não parte deles. Na situação descrita, o problema estava comigo. O papel daquele funcionário não era contestar a minha versão, mas orientar para que o problema pudesse ser sanado, assim como quando atuamos como vendedores, farmacêuticos, enfermeiros, contador ou qualquer outra profissão. O papel do profissional deve servir para resolver o problema de alguém, senão por que você está lá?

Moacir Rauber