Facetas! Múltiplas faces
Uma caixa d´água ou uma piscina?

Tenho uma amiga que é fora da caixa. Ela lê muito, fala sobre diversos assuntos, participa da vida social intensamente, luta para ter o que deseja e, principalmente, diverte-se com aquilo que tem. Lembro-me do dia em que fui visitá-la em sua casa pela primeira vez, isso há quinze anos. Estacionei em frente da casa, desembarquei e fui recebido pelo seu marido, também meu amigo. Conversamos e logo perguntei pela minha amiga. Ele disse:

- Ela está lá nos fundos. Na piscina... e deu uma risadinha meio irônica.

Não entendi muito bem na hora. Cruzamos pela garagem em direção aos fundos da casa. Era meia tarde e o sol brilhava intensamente, prejudicando a visão. Entretanto, pude ver um terreno baldio, uma pequena edícula na lateral e no meio do terreno algo parecido com um buraco cheio de água e um guarda sol. Pensei que talvez a piscina estivesse noutro lugar mais distante, porém de repente vejo a minha amiga sair da edícula e se jogar dentro daquele buraco respingando água para todos os lados. Entre as gargalhadas ela me cumprimentou e disse:

- Você ainda não conhecia a minha piscina, não é?

E lá veio mais uma risada.

Foi assim que eu encontrei a minha amiga num dia de verão de 40 graus naquela caixa d´água de mil litros batizada de piscina. A piscina era o desejo dela. A caixa de água era a sua realidade. Infeliz por isso? Não, nem um pouco. Criatividade e bom humor? Sim, a criatividade para transformar uma realidade não ideal na realidade em que se pode desfrutar daquilo que se tem com bom humor. Muitos, provavelmente, ficariam tristes ou se lamentariam porque não tinham a piscina ideal para poder se refrescar no verão. O foco da maioria das pessoas sempre está voltado para tudo aquilo que elas não têm. Parece que somente poderiam ser felizes caso tivessem o ideal daquilo que desejam. Por isso, lamentam-se, “Se eu tivesse uma piscina eu seria feliz”; “Se eu tivesse um carro novo eu seria feliz”; “Se eu tivesse um emprego melhor eu seria feliz”; “Se eu tivesse uma namorada eu seria feliz”; e assim seguem as lamentações pelo que não tem sendo infelizes com aquilo que tem. E você, está bem com aquilo que tem?

Alguns poderiam dizer que sentar numa caixa d´água e acreditar que se está numa piscina é uma fuga da realidade. Particularmente entendo que não. Acredito que foi o início do processo de construção de uma realidade, porque hoje a minha amiga tem uma piscina real na frente da sua casa. Na mente dela, todos os dias ao chamar aquela caixa d´água de piscina ela fazia algum movimento para que o desejo se transformasse em realidade. Ela se refrescava na caixa e lembrava do que podia fazer para mudar essa realidade. Depois ela fazia. Era a projeção de um sonho com movimento. Eis a diferença.

Desse modo, é fundamental desfrutar daquilo que se tem e lutar por aquilo que se quer. O seu carro não é o ideal para você? Cuide daquele que você tem, usufrua dos benefícios que ele traz e mova-se em direção a conseguir o veículo pretendido. O seu trabalho não é o desejado? Dedique-se a sua função como se ela fosse o melhor trabalho do mundo que certamente você estará se movendo na direção de conseguir o melhor trabalho do mundo. Não tem uma namorada? Aproveite o que a vida lhe oferece, seja feliz com as relações que você tem e a namorada virá também.

Ser feliz com aquilo que se tem não é se acomodar com aquilo que se tem. Trata-se de desfrutar da realidade atual e trabalhar com dedicação e leveza em direção à realidade desejada.

Um caixa d´água ou uma piscina? Depende da perspectiva. A minha amiga é fora da caixa porque ela consegue ver uma piscina numa caixa. E a felicidade? Ela está dentro de cada um.

Moacir Rauber
Qual é a sua função: criar ou resolver problemas?

Cadeira de rodas e viagem, às vezes, não é uma combinação muito boa. Uso a minha há mais de trinta anos. Foram muitas viagens e nem todos os lugares foram acessíveis, mas quase todas as pessoas são sensíveis. Na última viagem que fiz tive uma surpresa. Quando era chegada a minha vez de desembarcar, ao me acomodar na minha cadeira de rodas, logo sinto que um dos pneus estava furado. Que droga... pensei. O que faço agora? Chegar noutro país, cidade desconhecida, sozinho e numa cadeira de rodas com o pneu furado não era nada bom. Conseguir um pneu para a minha cadeira de rodas seria um grande desafio. Antes, porém, dirigi-me aos achados e perdidos para registrar a minha reclamação. Não deixaria o ocorrido sem registrar, porque as malas e bagagens despachadas nos voos são muito maltratadas. Fui atendido por um senhor com cara de poucos amigos:

- Qual é a sua reclamação?

- Gostaria de informar que a minha cadeira está com um pneu furado.

Sem me olhar ele me instruiu para preencher um formulário e depois passou a me perguntar o ano, a marca e quanto eu havia pago na cadeira. Em seguida, ele perguntou:

- O senhor tem a Nota Fiscal da cadeira?

A pergunta me pareceu tão sem cabimento que gaguejei, mas respondi que não a tinha comigo, porque já havia comprado a cadeira de rodas há mais de dez anos.

- Pois deveria tê-la consigo, disse-me o funcionário sem levantar os olhos.

Respirei fundo e não disse nada. Esperei mais alguns segundos. Ele perguntou:

- O que aconteceu com o seu pneu? Olhando-me, finalmente.

Mostrei-lhe o corte no pneu.

Ele retrucou:

- Pois é, mas as empresas não saem com um estilete por aí cortando os pneus das cadeiras de rodas... dando um sorriso meio irônico.

Foi a gota d’água. A má vontade e as perguntas descabidas haviam extrapolado qualquer noção de bom senso. Num tom de voz forte e indignado respondi:

- Então o senhor está dizendo que eu cortei o pneu enquanto ela estava no porão do avião? Ou que eu embarquei com o pneu furado?

Ele permaneceu em silêncio, porém com uma expressão um pouco desorientada pelas minhas colocações. Eu era um estrangeiro e ele um cidadão no seu país. Continuei:

- O Senhor já perguntou se eu trouxe a NF da cadeira comigo, como se cada cidadão fosse obrigado a carregar as NFs dos sapatos e das calças.

Silêncio. Por fim, perguntei:

- Desculpe-me, mas o senhor está aqui para resolver ou para criar problemas?

Acredito que cada um, dentro da sua função, deva ser parte da solução dos problemas e não parte deles. Na situação descrita, o problema estava comigo. O papel daquele funcionário não era contestar a minha versão, mas orientar para que o problema pudesse ser sanado, assim como quando atuamos como vendedores, farmacêuticos, enfermeiros, contador ou qualquer outra profissão. O papel do profissional deve servir para resolver o problema de alguém, senão por que você está lá?

Moacir Rauber
Se não se paga, cancela!

As questões envolvendo investimentos culturais quase sempre são polêmicas, porque trazem em si avaliações subjetivas. Quanto vale investir dinheiro público para promover as festas de carnaval? Qual é o retorno social ao se investir recursos públicos numa peça de teatro? Quem dá o aval para que o dinheiro seja investido nesta ou naquela obra? A sociedade sabe e está disposta a que o seu dinheiro seja destinado para tais finalidades? É lógico que é importante que cada país mantenha um acervo histórico de suas manifestações culturais, porém é relevante consultar aqueles que financiam os cofres públicos, a população, para saber se o dinheiro vai para uma escola de samba, para a segurança, para obras estruturais, para a saúde ou para a educação. Se você pudesse escolher, para quem você destinaria os quase 50 milhões de reais que serão captados pelas escolas de samba do Rio de Janeiro?

A situação de nosso país é economicamente sensível. O governo federal não tem capacidade de investimento, uma vez que quase a totalidade daquilo que se arrecada é destinado ao sistema previdenciário e ao pagamento do funcionalismo público. Quase se pode perguntar: para que ter funcionários se não há recursos para investir naquilo que eles foram contratados para fazer? Fazendo um paralelo com a iniciativa privada, colaborador que não dá retorno, perde a vaga. Produto que não vende, não se produz. Serviço que não tem procura, não se oferece. Empresa que não tem finalidade, é fechada. É uma questão bem prática. Aquilo que não tem gente disposta a pagar para ver, comprar ou experimentar, não se produz. Talvez um pouco dessa visão deveria ser exportada para a área pública. Colaborador que não dá mais retorno para a sociedade do que ele custa, deveria ser dispensado. Produto ou serviço que não atende as necessidades da população, não deveria ser oferecido. Portanto, acredito que se deveria repensar a distribuição dos investimentos feitos pelo setor público priorizando as áreas essenciais para as quais existe o setor público: educação, saúde, segurança e infraestrutura. Para o restante? Aquilo que não se paga por si só, na grande maioria das vezes, não precisaria existir.

Entendo que quando se fala em investimentos na educação, as questões culturais estão presentes ao se respeitar as manifestações de cada uma das regiões, das cidades e das comunidades em que o estado conduz o processo. Dessa maneira, os recursos investidos produzem um retorno para todos os investidores que mantêm os governos. Ao se organizar o estado para investir em saúde, os programas que previnem e tratam a população também se refletem em benefícios para todas pessoas, independentemente da região na qual residem. As ações realizadas pelo estado voltadas para a área da segurança, seja na esfera municipal, estadual ou federal, da mesma forma, dão retorno para o indivíduo e para a sociedade como um todo. E, por fim, os investimentos realizados pelo estado em infraestrutura produzem benefícios reais para a sociedade. Um investimento realizado no Amazonas vai impactar as pessoas que vivem no Rio Grande do Sul. São estas as atribuições do estado, uma vez que ao priorizar a educação, a saúde, a segurança e a infraestrutura todos os brasileiros são beneficiados, indistintamente.

Por isso, a pergunta inicial: para quem eu destinaria os 50 milhões que vão para as escolas de samba? Particularmente penso, para uma escola e para os professores; ou então, para os médicos e os enfermeiros; ou ainda, para os policiais e os bombeiros; e por que não, para a implantação de uma rede de esgotos ou de uma estação de tratamento de água. E o carnaval do Rio de Janeiro ou de qualquer outro lugar? Bom, caso aquilo que as pessoas que curtem o carnaval pagam não cobrir os investimentos, que se cancele!

Moacir Rauber
É importante ser autêntico e espontâneo?

Cheguei duas horas antes do voo como é indicado. Não havia nenhuma fila no check-in. O atendente foi gentil e atencioso desde a chegada. Um sorriso autêntico e espontâneo me esperava atrás do balcão. Ele olhou a minha reserva e sugeriu:

- Vejo que o seu voo passa por Porto Alegre para depois ir até Florianópolis. Temos um voo direto. O que você acha de eu o remanejar para o voo direto? Você espera um pouco mais aqui, mas ainda assim vai chegar trinta minutos antes no destino.

Fiquei muito feliz com a opção e com a iniciativa do colaborador. A autenticidade e a espontaneidade presentes no calor humano expressos pelo sorriso na chegada, também se manifestavam na presteza do atendimento focado em resolver os problemas do cliente. Creio que se cada colaborador entender o seu papel na organização e perceber que ele somente está onde está porque contribui de forma integrada para atender as necessidades do cliente e as demandas organizacionais, a satisfação de clientes, colaboradores e organizações daria um salto e tanto. Foi isso que senti naquele momento. Porém, esse movimento deve ser autêntico e espontâneo pelo entendimento da importância que cada indivíduo tem de se ter uma visão sistêmica das partes envolvidas no processo. Cada colaborador é uma unidade organizacional, bem como é um sistema completo, complexo e interdependente com a sua equipe, a sua organização e os demais sistemas dos quais ele faz parte, como a família e a sociedade. O cliente da mesma forma. E a organização somente existe porque existe o colaborador e o cliente, formando-se um novo sistema completo, complexo e interdependente com outros sistemas. Parece complicado? Não, é apenas complexo no sentido de que se tem muitas partes envolvidas. O complexo aqui quer dizer as inúmeras variáveis presentes. O complicado é aquilo que fazemos quando não entendemos a nossa importância no sistema e transformamos algo complexo e simples em algo complicado e difícil. Para que as coisas se mantenham simples dentro de sua complexidade é preciso ser autêntico e espontâneo. Essas qualidades eu acreditava ter identificado no atendente, com a presteza no atendimento; a sua atenção as demandas do cliente; a sua visão sistêmica da organização; e a satisfação naquilo que fazia. Porém, ao terminar o atendimento no balcão ele me acompanhou até a área de embarque, ainda que que lhe houvesse dito que não precisava. Uso a cadeira de rodas há tanto tempo que em ambientes como aeroportos me desloco mais rapidamente do que um caminhante. Mesmo assim, ele me acompanhou. Conversamos durante o trajeto e na despedida ele disse o seguinte:

- Você poderia me fazer um elogio no site da companhia? Daí eu ganho alguns pontos...

- Ahh, sim, sim, respondi.

Fiquei um pouco frustrado com o pedido, porque pareceu-me que ele me pedia uma esmola. Deu-me a impressão de que a autenticidade identificada desde o início do atendimento não era exatamente espontânea. Fui até o site e fiz o elogio, porém não com toda a boa vontade como se eu pudesse tê-lo feito espontaneamente. Particularmente, acredito que o sistema do qual fazemos parte nos retorna aquilo que damos. Não é necessário esmolar. Basta cumprir o seu papel com a clareza do que ele representa para si mesmo, para os outros e para a organização. Se o que você faz permite que você seja autêntico estou certo de que você está satisfeito, assim como a sua organização e o seu cliente. Os resultados? Eles virão espontaneamente.

Moacir Rauber
É bom ser honesto!

Ao embarcar em Foz do Iguaçu tive uma experiência diferente. Logo que passei pela alfândega dei de cara com um sebo em que os livros tinham preço único. Os livros custavam vinte reais. Para alguns era um preço atraente. Para outros era um preço normal. Entretanto, o que chamou a atenção foi a não presença de um caixa humano. Ninguém estava lá para cobrar pelos livros comprados. Havia uma caixa de papelão como uma urna para se deixar o dinheiro. O nome do sebo era Peg Pag com o Auto Caixa. Ao fundo um cartaz com os dizeres, (1) Escolha seus livros; (2) Coloque o dinheiro no caixa; (3) Coloque os seus livros na sacola; e (4) Boa leitura. O cartaz encerrava com a frase, “Nós acreditamos nas pessoas”. Interessante, não é? Cada vez mais tem se observado iniciativas similares. Parece-me que as pessoas estão gostando de exibir a sua honestidade. E por que? Porque a honestidade, além de tudo, dá lucro.

Como muitos outros transeuntes observei a iniciativa e não pude deixar de registrar o fato. Também entrei na livraria e escolhi um livro. Orgulhosamente, pus meus vinte reais no caixa. Deu-me a sensação de estar fazendo algo extraordinário, quando na verdade era o mínimo que eu deveria fazer, assim como todos. Conversei com um e outro. Todos exibiam a satisfação de estar num ambiente seguro e não controlado que é a expressão da liberdade. Depois segui para o portão de embarque. Confesso que nunca vi um lugar no Brasil em que havia tanta gente com um livro na mão. Pareciam todos realizados com o fato de que também estavam demonstrando a própria honestidade. Estar com um livro na mão naquele ambiente informava a todos que ele havia passado pelo sebo e que estava seguro de ter feito a coisa certa. Não era só isso. Demonstrava-se com a leitura a ânsia por um mundo seguro em que as pessoas podiam confiar porque todos são confiáveis. Estava expresso na atitude dessas pessoas o desejo de que esse exemplo se espalhe por toda a sociedade em todos os setores da vida coletiva que está fundamentada em bons valores, entre eles a honestidade. Pressuponho que aquele seja o sebo mais lucrativo do Brasil.

Porém, poderia ser questionado o comportamento das pessoas. Nós não deveríamos nos comportar em público da mesma maneira como nos comportamos quando ninguém nos vê? Concordo. A situação descrita poderia ser interpretada como a de muitas pessoas querendo apenas parecerem honestas. Prefiro ver pelo lado positivo. Acredito que aqueles que fizeram a sua compra sabendo que estavam sendo vistos também o fariam se ninguém os estivesse observando. Mais do que isso. Penso que a compra é uma compra de protesto. A compra era exibida de uma forma a mostrar que nós precisamos mudar ou resgatar a vivência dos valores que dizemos que defendemos. A honestidade é um valor, verbalmente, defendido pela grande maioria, mas, muitas vezes, não exibido na prática. 

Enfim, parece-me ser um bom momento para resgatar a honestidade como um valor social, assim como a confiança, a lealdade, a cooperação, entre outros. Além de tornar a vida de todos mais segura, a adoção de tais valores deixa a vida mais barata e mais fácil. Precisaremos de menos investimentos em segurança, que podem ser canalizados para o lazer, a educação e a saúde. Portanto, é bom ser honesto porque também dá lucro ser honesto.

  
Comprei uma Pós!

A conversa fluía bem com aquele jovem que estava concluindo a sua primeira graduação. Faz parte de um grupo de jovens que nos dá a esperança de que o mundo tem jeito. Indaguei quais seriam os passos seguintes na sua vida e ele respondeu:

- Bom, trabalho eu já tenho, mas eu quero ser promovido. Por isso eu já comprei uma pós-graduação e... continuou as explicações.

A expressão ouvida sobre o jovem ter comprado uma pós me gerou estranhamento. Não que a ideia de “fazer” a pós fosse ruim, porque acredito que se vive num momento privilegiado em que o aprendizado faz parte de todos os momentos da vida de cada indivíduo. Do início ao fim da vida todos nós temos a oportunidade de continuar aprendendo. É uma dádiva! O estranhamento veio com a expressão “comprei uma pós” como uma garantia da evolução na carreira, mas sem a contrapartida da intenção de aprendizagem que poderia ser detectada caso ele dissesse “vou fazer uma pós”. Pode parecer simplesmente uma questão de vocabulário, porém entendo que há outras questões subjacentes, como a ideia de que se podem comprar coisas intangíveis como as experiências. Experiências não se compram. Experiência quer dizer experienciar que significa experimentar, viver sentir, sofrer, suportar ou vivenciar, entre outros adjetivos. Podemos pagar por elas, mas as experiências precisam ser vividas. Parece-me haver uma propensão a esse tipo de comportamento em diferentes áreas. Na saúde, por exemplo, a indicação para que as pessoas façam exercícios físicos, abandonando o sedentarismo com benefícios para o praticante, segue pelo mesmo caminho. Quem de nós já não ouviu um amigo ou um conhecido estufar o peito para dizer cheio de orgulho que já pagou adiantado a academia? Ou ainda que tenha se inscrito e pago as aulas de natação, de crossfit ou outra atividade física? Enfim, muitos de nós já ouvimos casos assim, podendo até ter feito algo parecido. Destaca-se, porém, que depois da primeira semana da sua matrícula em vigor fica muito claro que se o indivíduo não alterar a sua rotina e inserir nela um espaço para a atividade física e realmente fazê-la nada vai mudar. Pagar a academia é o menor dos movimentos. Os movimentos que produzem efeitos são as intermináveis repetições de qualquer exercício que se propõe a melhorar o seu condicionamento, a sua saúde e, consequentemente, diminuir o seu peso. Porém, esse movimento não há dinheiro que pague, porque é uma experiência. O mesmo acontece com o conhecimento. Ele é uma experiência.

Para o presente contexto adquirir e comprar não são sinônimos. Entenda-se adquirir como o ato de conquistar ou de alcançar algo por meio do cumprimento de exigências somente possíveis numa experiência, enquanto comprar como o ato de dar um determinado valor para receber um produto em troca. Não é o caso da pós-graduação. Não há dinheiro que compre a experiência de fazer uma pós-graduação que resulta na experiência de ter adquirido conhecimento. Não é o caso de tantos valores intangíveis que muitas pessoas gostariam de comprar, mas que se quiserem desfrutar precisarão adquirir.

Ainda não se pode comprar a criatividade para se ter uma ideia, o orgulho de exibir um pensamento profundo, a alegria de desfrutar da erudição cultural ou a capacidade do discernimento que se adquire por meio do conhecimento.  Portanto, entendo que a nossa vida é feita de experiências e penso que quanto mais o adquirirmos, que é experiência, maiores e melhores serão as nossas experiências, que é conhecimento

Pague a sua pós-graduação, adquira conhecimento e viva a experiência.

Moacir Rauber
Você sabe ser feliz na abundância?

Via a minha amiga caminhando da sala em direção à cozinha, da cozinha para a varanda e depois de volta para cozinha. Ela demonstrava a irritação da insatisfação de quem não sabe o que quer. Por fim, ela foi em direção à geladeira, abriu a porta, olhou e exclamou:

- Não tem nada para comer na geladeira...

Fechou a porta contrariada e sentou-se no sofá em frente à televisão. Poderia até parecer a cena de uma família pobre em que falta comida e que que vivem a escassez. Não era o caso. A geladeira estava cheia de bolos, salgados e uma enorme variedade de opções para quem estivesse com fome. Era a realidade de quem vive a abundância. É o que acontece com muitas pessoas nos dias de hoje. Elas têm quase tudo disponível na hora que querem, por isso parece que não tem nada. No fundo, elas nem sabem o que querem, para que querem ou se realmente querem. Uma comida diferente? Basta pegar o telefone ou acessar um aplicativo que se tem todas as opções disponíveis. Mas é preciso ter fome! Um filme? É só ligar a televisão e sintonizar os diferentes canais ou senão acessar uma plataforma online que oferece uma seleção infindável de comédias, dramas ou outro gênero qualquer. Mas é preciso estar com real vontade de assistir a um filme! E assim se sucedem os exemplos de nossa era da abundância. E como ser feliz com tanta oferta?

As gerações anteriores viveram e souberam viver na escassez. A prova disso é que estamos aqui. Eles travaram lutas pela sobrevivência. Quem não plantasse e não armazenasse alimentos de um ano para o outro, muito provavelmente, passaria fome. Quem não se protegesse contra os predadores naturais que ainda atacavam o ser humano poderia não amanhecer no dia seguinte. Desse modo, nos períodos de escassez, todas as experiências eram valorizadas. No dia a dia comia-se para se alimentar, comedidamente, porque a oferta era limitada. Fazer uma refeição extraordinária? Era uma experiência preparada, aguardada e saboreada, porque ela não acontecia a todo o momento. Eram momentos especiais, como festas, casamentos e datas comemorativas em que se comia para degustar. Valorizavam-se tais momentos porque eram poucos. As mesmas regras se aplicavam para as bebidas e outras experiências sensoriais humanas. Da mesma forma, estar vivo era um privilégio, porque a morte era uma realidade comum em cada família. Morria-se muito jovem por doenças, acidentes e até por ataques de animais. Esse perigo diminuiu muito e agora nós somos os nossos maiores predadores. Hoje, muitas pessoas vivem a abundância em diferentes áreas. Na alimentação nós vivemos uma época de ofertas como nunca antes vista. E nas relações amorosas? Cada vez em maior número e com menor intensidade. E nas possibilidades de comunicação? Disponível em cada canto do mundo para falar com quem se quiser e cada vez com conexões mais frágeis. Por isso a pergunta: você sabe ser feliz na abundância?

Uma das estratégias talvez seja a de se privar, voluntariamente, daquilo que você gosta e que está disponível sempre que você quiser (Sugerido por Greater good in Action - https://ggia.berkeley.edu/). Os antigos adotavam o jejum como uma prática religiosa e também de saúde. Hoje percebe-se cientificamente que o nosso organismo precisa da escassez para encontrar o equilíbrio gerado pela abundância. Portanto, qual é a comida com a qual você se delicia e que está no seu cardápio frequentemente? Para reaprender a saboreá-la deixe de comê-la por duas semanas e depois faça uma refeição com a consciência dos prazeres sensoriais que o degustar consciente do prato proporciona. É um exemplo de uma prática que pode ser aplicada em diferentes domínios da vida. Abster-se daquilo que se tem para valorizar aquilo que se tem.

Assim como a minha amiga do início do texto, ainda preciso saber valorizar o que tenho para não transformar a abundância em tédio e frustração.

E na sua vida, como vão os seus sentidos? Você sabe desfrutar da abundância?

Moacir Rauber
Ainda é possível confiar?

O gestor havia delegado uma tarefa para um dos integrantes da sua equipe recém-chegado ao ambiente de trabalho. Ele havia conversado com o colaborador, havia definido a tarefa e, juntos, estipularam o prazo. O gestor também se colocou à disposição para esclarecimentos e necessidades que eventualmente surgissem no caminho para a execução da tarefa. No fechamento da conversa fez os seguintes comentários:

- Tudo certo? Alguma dúvida? Somos responsáveis solidariamente... alertou.

O novo colaborador disse que estava tudo certo e acrescentou:

- Pode confiar que vou entregar no prazo.

A confiança é um dos valores humanos que sustenta as relações produtivas, prósperas e inovadoras. Dificilmente as relações trazem bons resultados em qualquer um dos domínios sociais caso não exista a confiança entre as partes que se relacionam. Mais, a confiança é uma das características dos bons líderes e dos liderados responsáveis, assim como dos amigos, dos parceiros, dos casais e dos colegas que dão e que recebem, que acolhem e que compartilham e que ensinam e que aprendem. Entendo que aquele que confia merece a confiança, porque contribui para que o outro também se realize.

No episódio relatado, ao novo colaborador fora dada a confiança. Para o gestor, tarefa dada era tarefa cumprida. Ainda assim, diariamente ele se comunicava com o colaborador indagando se estava tudo certo e se ele precisava de algo. O colaborador garantia que estava tudo bem. Mais ou menos na metade do período para a entrega da tarefa o gestor pediu para ver o progresso da atividade. O novo colaborador se esquivou. E assim prosseguiu por mais alguns dias, até que ele admitiu que não conseguiria fazer aquilo com que havia se comprometido. E agora, o que fazer? Quem estava certo nessa história? Como continuar a confiar no outro sem correr risco?

Todo o voto de confiança enseja risco, que é inerente a qualquer negócio e a qualquer tipo de relação humana. Sempre e quando alguém depositar a confiança em outrem é possível que ela se confirme ou não. Pode ser que algo fora do controle faça com que se quebre a confiança, assim como algo mal refletido ou mal analisado. E a quebra de confiança pode ocorrer sem o juízo de valor de que a pessoa é boa ou má, embora, muitas vezes, possa ser um indicativo de falta de caráter. Entretanto, quero destacar que somente por meio da confiança que se pode construir algo bom e melhorar o que já existe. As relações afetivas e de amizade somente se desenvolvem de forma saudável num ambiente de confiança. E a mesma regra vale para os ambientes de trabalho. Embora confiar uma tarefa ao outro no sentido de delegar não exima ninguém de acompanhar a sua execução, da forma como o gestor fez. Acredito que o mesmo raciocínio se aplique as demais relações humanas, porque confiar quer dizer fiar juntos. Por isso, uma relação afetiva precisa ser compartilhada para que a confiança seja vivida. Uma amizade precisa ser estimulada para que a confiança esteja presente. Uma relação de trabalho precisa de presença para que a confiança seja cumprida. Desse modo, a confiança é que faz com que as metas sejam alcançadas, que as organizações prosperem e que sejam sustentáveis, além do que é na confiança entre as pessoas que surge a inovação em quaisquer dos âmbitos das relações humanas.

Por isso, entendo que sempre e quando alguém em quem se depositou a confiança não a mereceu, o problema está com quem não a mereceu e não em quem confiou. Enfim, acredito que as pessoas devam confiar e que continuem a criar relações de confiança.

E você confia e é de confiança?

Moacir rauber
Como respeitar quem não te respeita?

O evento era sobre segurança no trânsito com um grupo de trabalhadores do transporte coletivo, entre eles motoristas e cobradores. Porém, a questão a ser respondida se voltava para a relação de respeito entre os usuários e os trabalhadores. Um deles, depois de relatar um caso de flagrante desrespeito por parte de um usuário para com um cobrador, perguntou:

- Como respeitar quem não te respeita?

Acredito ser um grande desafio, porque, para mim, o respeito é um dos valores fundamentais das relações humanas. Entendo que cada ser humano é o centro do seu próprio universo, sendo esse reconhecimento a premissa para que cada um reconheça o outro como o centro do seu universo. Não se trata de uma visão egoísta em que cada um se preocupa somente consigo mesmo. É justamente o inverso. Ao ter a exata noção de que eu sou a pessoa mais importante para mim tenho as condições de reconhecer que o outro é a pessoa mais importante para ele. Com isso em mente, posso me dar o direito de ter a minha opinião reconhecendo que o outro terá a sua. Podem ser opiniões diferentes? Sim, justamente porque ele é um outro, provavelmente, terá uma visão diferente de mundo com uma opinião que tende a ser divergente da minha. Da mesma forma, ao ocupar-me de mim em primeiro lugar não se trata de um ato egoísta, mas simplesmente natural e humano. Preocupar-me comigo para poder ocupar-me do outro. É esse entendimento ampliado da unicidade do indivíduo que vai me levar as relações de respeito para com o outro. Entretanto, isso não é sinônimo de desrespeito ou de falta de educação nas relações com o outro, independentemente de quem seja o outro. Exatamente como no caso relatado pelo trabalhador que citou as inúmeras vezes em que eles são desrespeitados por usuários que usam a irritação com a própria condição como justificativa para serem mal-educados. Por isso, a pergunta do trabalhador dos transportes coletivos faz todo o sentido: como respeitar quem não te respeita?

Acredito que cada um de nós deve respeitar o seu próximo, embora eu saiba que isso nem sempre se reflita na realidade. Entretanto, entendo que não se deve cair na tentação de revidar a altura quando alguém é desrespeitoso ou mal-educado. Caso o desrespeito ou a falta de educação ultrapassem o nível da razoabilidade o caminho é outro: faça um boletim de ocorrência ou recorra a legalidade da nossa sociedade que existe para solucionar tais problemas. Porém, a reflexão aqui é como se relacionar com quem não te respeita mantendo o respeito? Entendo ser simples, não digo fácil. Se eu trato o outro com o devido respeito e a recíproca não ocorre, quem está com a razão? Aquele que respeitou ou aquele que desrespeitou? Quando eu trato o meu interlocutor educadamente e a resposta é mal-educada, quem está correto? O educado ou o mal-educado? Exatamente. Não é quem respeita o outro ou aquele que trata o outro com educação que está agindo equivocadamente, mas sim aquele que desrespeita e que é mal-educado. Desse modo, o problema é de quem não respeita e de quem é mal-educado. Não é o fato de que eu me encontre com alguém que é desrespeitoso e mal-educado que deve fazer-me ser desrespeitoso e mal-educado. Caso eu seja vencido pela tentação de retrucar da mesma forma como o meu interlocutor faz, eu estarei me nivelando a ele. Por isso que digo ser simples o raciocínio, embora eu saiba que nem sempre seja fácil a execução.

Ao final do evento, todos concordaram que talvez esse seja o melhor raciocínio. Sempre e quando alguém se deparar com alguém desrespeitoso ou mal-educado o melhor caminho é o de manter o respeito e a educação. Porque, certamente, o mal-educado e o desrespeitoso é ele e não eu.

Como tratar alguém que não te respeita? Respeitando-o.

Moacir Rauber
Qual será o seu ritmo para 2019?

Em outubro conversei com um amigo que estava muito atarefado. Dizia-me ele:

- Não vejo a hora de que chegue o final de ano para tirar umas férias. O ano está sendo muito, muito movimentado. Só espero aguentar até lá sem sofrer um infarto... e deu uma risada para disfarçar a real preocupação.

Não aguentou. Ele infartou antes. Para o bem do meu amigo ele teve mais uma chance. O infarto foi grave, porém não deixou sequelas visíveis. Certamente ele passará por todo um programa de reeducação alimentar, física e readequação de períodos de trabalho.

A situação me chamou a atenção porque ele tanto queria chegar bem até o final de ano para curtir as férias que esqueceu de fazer as pausas necessárias para se manter em movimento. Por isso, agora ele está de férias forçadas, porque não encontrou o equilíbrio entre pausa e movimento. O movimento é importante, porém é a pausa que lhe dá sentido. Como assim? Muito simples. Aqueles que nunca param sequer percebem que estão em movimento, porque é a pausa que nos dá a sua percepção. A agitação dos dias atuais nos produz a sensação de que parar é impossível. Um compromisso se sucede ao outro, porém, sem pausa não há assimilação. Um curso terminado é sinal que de que outro será iniciado, da mesma forma, sem pausa não há consolidação do que foi estudado. Uma informação recebida é tão fugaz que sequer é internalizada que outra já está sendo enviada, entretanto, sem pausa não há transformação da informação em conhecimento.  Uma nova tecnologia recém foi introduzida para em seguida ser substituída e assim os dias seguem numa velocidade que sequer se consegue perceber que o recém iniciado novo ano novamente está chegando ao final. Como parar num movimento tão intenso? O que fazer em meio a um ritmo tão alucinante para dar uma pausa? Não há uma resposta, mas se pode fazer uma analogia com algumas atividades humanas. Há que se encontrar um ritmo.

O ritmo é um processo que permite que se tenha bom desempenho nas mais diferentes áreas, como nos esportes, na música e na vida. O atleta de alto rendimento sabe que para iniciar e terminar a sua prova ele terá que encontrar um ritmo adequado que permita que ele cumpra o percurso da prova dentro dos limites físicos, psicológicos e técnicos de que ele dispõe. Caso o atleta tenha uma prova de mil metros para percorrer ele não pode gastar toda a sua energia nos cem primeiros metros, porque ele não chegará ao final. O ritmo vai dar a ele a possibilidade de distribuir a energia em todo o percurso. Na música o ritmo á ainda mais fundamental. Basta qualquer um dos componentes sair do ritmo para atravessar o samba. E na vida o ritmo é essencial. Nós temos a informação de quando nascemos, mas não sabemos até quando vamos viver. Entretanto, aquelas pessoas que não conseguem encontrar um ritmo adequado têm grandes possibilidades de antecipar a partida. Por isso, a importância de se encontrar um ritmo que nos permita viver bem, marcado por pausa e movimento. Pergunta-se: é importante se mover nas competições, na música e na vida? Sim, é claro que sim, mas a pausa é fundamental para que o ritmo seja encontrado para que o atleta termine a prova, para que o músico execute bem a música e para que cada um de nós estenda a sua vida até o limite.

Para muitos, o final de ano é sinal de uma pausa, porém é importante determinar o ritmo que vai permitir que se chegue e que se perceba o final do próximo ano. Por isso a pergunta: qual será o seu ritmo para 2019?

Moacir Rauber