Facetas! Múltiplas faces
Não confunda alhos com bugalhos e nem compare pessoas!

O navio estava em meio à tempestade. O capitão fez de tudo, mas o naufrágio era inevitável. Logo que ele avisou a tripulação, todos começaram a rezar fervorosamente. Das mil pessoas que estavam no navio apenas sete sobreviveram. Eles foram indagados:

- O que vocês fizeram para sobreviver...

- Nós rezamos, responderam os sobreviventes.

Nicholas Nassim Taleb em seu livro “O Cisne Negro” relata o caso com a premissa dos sobreviventes de que a oração os havia salvado. Porém, o autor questiona o poder da oração, porque aqueles que morreram também haviam rezado. O que aconteceu com a reza daqueles que morreram? Nunca saberemos. Um paralelo pode ser feito com o RH no processo de recrutamento e de seleção. Muitas vezes são usados testes de perfil para determinar os candidatos que devem ser contratados. Depois, são dados positivos sobre os contratados são computados para confirmar que a contratação foi acertada. Porém, quais seriam os resultados se os contratados fossem aqueles que foram dispensados? Nunca saberemos...

Na área de RH, o uso dos testes de perfil psicológico tem como objetivo auxiliar os recrutadores a tomarem uma decisão sobre o candidato ideal para uma determinada vaga. Um dos testes pode revelar perfis como o influenciador, o estável, o consciencioso ou o dominante. Outros testes podem identificar perfis como o planejador, o analista, o executor ou o comunicador, além de líder, seguidor, criativo ou ouvinte. Tem teste que classifica a pessoa como introvertida ou extrovertida, racional ou emocional, além de posicioná-la de acordo com o humor, temperamento e produtividade. E assim seguem os testes de identificação dos perfis dos candidatos com diferentes fontes de orientação teórica e conceitual. Com uma escolha mais acertada, pretende-se diminuir a rotatividade dos novos contratados, alocar os recursos humanos com mais efetividade, otimizar os custos do processo de recrutamento e de seleção, identificar e reter talentos e, consequentemente, criar um melhor clima organizacional com mais produtividade e maior competitividade. Entretanto, volta-se a pergunta: quais seriam os resultados se os contratados fossem aqueles que foram dispensados? E se os contratados não fossem classificados pelo seu perfil, qual seria o resultado?

Não se sabe. Sabe-se, entretanto, que quando se classifica alguém, cria-se um rótulo e reduz-se o indivíduo àquilo que se imagina que ele seja. Tem um ditado popular que diz, “não confunda alhos com bugalhos”, alertando que a semelhança não os torna iguais. Alhos e bugalhos têm aparência semelhante, mas são muito diferentes. Desse modo, entendo que premissa análoga deveria ser usada na gestão de pessoas, ampliando a perspectiva e sequer comparar alhos com alhos. Caso efetivamente se acredite que cada ser humano é diferente não se deveria propor uma classificação excludente. Da mesma forma, acreditando-se nas constatações da neurociência de que a plasticidade do cérebro é uma realidade e que cada indivíduo é o que é até o momento em que decida deixar de ser, está se classificando o que não é classificável. Por isso, além de não confundir alhos com bugalhos ou alhos com alhos, não se deveria comparar pessoa com pessoa. Não há como classificar como iguais os diferentes.

Você está dizendo para não usar e não fazer os testes de identificação de perfil? Não, claro que não. Particularmente acho importante o uso dos testes de identificação de perfil como forma de autoconhecimento e para o desenvolvimento pessoal. Com isso em mente, os resultados de uma determinada classificação podem servir como estímulo ao desenvolvimento de outras qualidades e não como uma limitação. Incentiva-se a que a pessoa reconheça quem ela é, onde ela está, o que ela cria e como ela se manifesta para poder fazer diferente, caso queira. Penso que a área de RH deveria usar os testes para poder auxiliar as pessoas a se desenvolverem e não para limitá-las por meio de uma classificação que rotula.

Qual o uso que está sendo dado ao processo de identificação de perfil psicológico? Não confunda alhos com bugalhos, alhos com alhos e muito menos classifique pessoas.

Moacir Rauber
Quem você admira? Cidadãos comuns, muitos deles são pais...

E o palestrante começou a sua exposição num ritmo frenético, a mil por hora. Motivação não lhe faltava. A movimentação no palco, a forma de falar e a energia que emanava da sua presença física eram impressionantes. Ele disse:

- Hoje eu vou lhes entregar tudo, todos os segredos para que vocês tenham uma vida plena e feliz...

E assim o discurso continuou por mais de uma hora. Ao final do evento eu saí completamente energizado e com a firme convicção de que eu poderia mudar o mundo. Passaram-se os primeiros dias e eu continuava com a energia necessária para fazer as mudanças rumo a um mundo melhor. Passou a primeira semana e a energia diminuiu um pouco. Depois da segunda semana eu já havia retornado para a minha velha e antiga rotina. Não havia conseguido mudar o mundo e passei a me sentir um idiota, porque, pelas palavras do palestrante, ele havia me entregado tudo para ser pleno e feliz. O que aconteceu que nada aconteceu?

Passei a pensar que todos nós queremos ter uma vida plena e feliz num mundo melhor. Logo, comecei a prestar atenção nas pessoas que pregam e dizem que tem a solução para que isso aconteça. Olhei a minha volta e vi tantas mensagens motivacionais, encontrei um sem fim de vídeos sobre atividades físicas e muitas práticas de meditação que me levariam a encontrar a vida plena e feliz. Todos eles enviados e exibidos de uma forma que se você seguir os passos dados a vida se transformaria num mar de rosas. Ao final sempre é oferecido um livro, um manual, um curso ou as instruções que o ensinam a viver com qualidade de vida. Só que ao observar essa realidade também me ocorreu algo. O que faria aquele palestrante motivacional se ele não fosse pago para ser motivado? Qual seria o comportamento do atleta se as suas atividades físicas não fossem pagas? O praticante profissional de meditação continuaria a sua prática se esse não fosse o seu modo de vida, inclusive financeira? Para tantas perguntas comecei a procurar por respostas que são minhas, claro.

Particularmente, entendo que é difícil que alguém possa ensinar o outro a viver, porque a verdadeira alternativa está na disposição em aprender. Assim como acredito ser muito difícil mudar o mundo para melhor sem mudar a si mesmo. É uma crença clichê, mas é real. Tão real que eu continuo na luta diária e constante para mudar algumas velhas rotinas que me levam para lugares que não quero ir. São hábitos de pensamento, de atividades e de comportamento tão fortemente entranhados que é um desafio desaprendê-los para aprender novos hábitos que possam me levar para onde eu quero ir. Com isso em mente, passei a observar os cidadãos comuns. Eu vi jardineiros que fazem atividade física, além do seu trabalho. Eu vi atendentes de supermercado que fazem meditação e yoga, além de cuidar dos filhos e do trabalho. Eu vi professores que são extremamente motivados, ainda que tenham um trabalho desgastante. E são estas as pessoas que eu passei a admirar, porque a qualidade de vida que elas alcançaram é resultado das escolhas que fazem no dia a dia e não porque são remuneradas por isso.

Continuo a frequentar cursos, palestras e eventos organizados e realizados por pessoas que são remuneradas para serem motivadas, que são atletas profissionais ou que praticam meditação como uma forma de vida. Têm algumas que admiro. Porém, destaco que a verdadeira admiração vai para aquelas pessoas que fazem o que fazem porque escolheram fazê-lo por elas e pelos que estão próximos e não porque alguém vai pagá-las para isso. Muitas dessas pessoas são cidadãos comuns, pais de família.

Você faria o que faz se não fosse pago para isso?

FELIZ DIA DOS PAIS!!!

Moacir Rauber
Se não for sobre o outro, por que perguntar? A comunicação precisa de sensibilidade...

O evento havia sido excelente. Os objetivos da semana pedagógica haviam sido cumpridos e eu tive o privilégio de estar no encerramento. Logo após, fomos almoçar num restaurante local. Durante as conversas, descubro que a pessoa sentada ao meu lado era de Guaíra, cidade no Oeste do Paraná próxima da minha cidade natal. Não, ela não era da cidade. Ela disse que havia vivido na cidade com o marido por um tempo. Logo lembrei-me da situação de Guaíra que na década de 1980 sofreu com o fechamento da barragem de Itaipu. A cidade perdeu o seu principal atrativo turístico, as Sete Quedas, fazendo com que muitos habitantes saíssem da região. Foi então que resolvi fazer uma pergunta “inteligente” para ela:

- Isso foi antes ou depois das Sete Quedas ficarem debaixo de água? Referindo-se ao fato de ela ter vivido na cidade.

Silêncio mortal. Ela me olhou incrédula e perplexa. No mesmo instante eu senti a pele do meu rosto pegar fogo. Fiquei incrédulo e perplexo. Uma pergunta completamente descabida que era difícil de acreditar que havia sido feita por alguém que acabara de falar sobre competências de relacionamento, de desempenho e de conduta na comunicação. Por que a pergunta fora tão estúpida? Porque para que a minha nova amiga pudesse ter estado com o marido em Guaíra antes do fechamento da barragem de Itaipu (1982) ela teria que ter, hoje, quase sessenta anos. Ela não era mais uma menina, mas também não tinha a idade implícita na minha pergunta. Por isso a expressão de incredulidade e perplexidade dela, assim como a minha incredulidade e perplexidade com a falta de sensibilidade na pergunta. Nada mais a ser feito. A palavra dita e a flecha lançada não têm volta.

O que pode ser avaliado na interação citada? As perguntas são um elemento chave para manter os canais de comunicação abertos, entretanto elas devem ser feitas com genuína curiosidade, autenticidade e interesse na pessoa a quem a pergunta se dirige. Não foi o caso. A pergunta por mim realizada revela que não havia genuína curiosidade sobre a pessoa a quem eu fazia a pergunta. Entendo que estavam presentes na pergunta o interesse em demonstrar que eu conhecia a cidade, ao vincular nela um fato marcante da região. Dessa forma, tampouco foi uma pergunta autêntica, porque o interesse não estava centrado na pessoa a quem a pergunta foi feita. Naquela situação, revelo-me ainda como um mau ouvinte, porque quando fiz a pergunta tinha em mente que ela “era” de Guaíra e não me recordava que ela dissera que apenas vivera na cidade por um determinado tempo. Por tudo isso, fiz uma pergunta tola e insensível que poderia ter prejudicado a comunicação entre nós.

Tudo isso na minha mente, mas eu continuava frente a frente com a expressão de incredulidade e de perplexidade da minha amiga. Ela com os olhos arregalados. Eu com a face cada vez mais vermelha. Até que ela deu uma gargalhada espontânea que fez com que eu me sentisse menos mal. Depois a situação foi compartilhada com os demais membros da mesa, virando motivo de risadas entre todos. O bom humor da minha amiga salvou-me da minha falta de sensibilidade. Entretanto, mais uma vez, para mim ficou a lição: a pergunta deve ser feita com genuína curiosidade, autenticidade e interesse sobre o outro e não para exibir um pretenso conhecimento de quem a faz.

Se não for sobre o outro, por que perguntar?

Moacir Rauber
Levanta-te e anda: os milagres na aviação!

A chamada para o embarque começa e as prioridades se posicionam, entre eles os usuários de cadeiras de rodas. Naquele voo estávamos em três, eu com cadeira própria e os outros com cadeiras da companhia aérea. Somos os primeiros a embarcar e temos a consciência de que seremos os últimos a desembarcar. Tem a lógica do bom senso. Precisamos de auxílio no momento do embarque, assim como no desembarque e quase sempre ocupamos as primeiras fileiras de assentos. Depois que as prioridades estão acomodadas, começa o embarque dos demais passageiros. O voo parte e chegamos ao destino. É nessa hora que os milagres na aviação, normalmente, acontecem. As pessoas começam a desembarcar e eu fico esperando para ser um dos últimos, assim como deveria acontecer com os outros dois cadeirantes. A comissária avisa que a minha cadeira está à espera. O movimento vai finalizando e nos damos conta que resta somente estou eu de passageiro na aeronave. Olho para a comissária e indago:

- Embarcamos em três cadeirantes, não foi? Cadê os outros dois?

Ela dá um sorriso irônico e responde:

- São os milagres da aviação. Parece que Jesus passou por aqui e disse: “Levanta-te e anda!”. Eles entram em cadeira de rodas e saem caminhando.

Fiquei boquiaberto. A comissária comentou que isso é diário. Disse ela que praticamente em todos os voos eles recebem passageiros em cadeira de rodas que embarcam como prioridade, porém se esquecem da cadeira para poderem desembarcar rapidamente, aproveitando-se que estão nas primeiras fileiras de assentos da aeronave. Eles não são usuários permanentes de cadeira de rodas. Muitos deles têm uma dificuldade temporária causada por um acidente ou pela idade e pedem uma cadeira para a companhia para o embarque. Entretanto, a realidade da limitação se revela no desembarque. A indignação da comissária era sincera, assim como a minha. Logicamente que muitas pessoas usam uma cadeira de rodas como apoio para se deslocar em distâncias maiores, entretanto, percebe-se que outras tantas pessoas apenas se aproveitam de uma condição pensada para resolver o problema daqueles que realmente necessitam.

O que isso nos mostra? Um pouco daquilo que permeia a mentalidade de muitas pessoas: ser esperto e tirar vantagem. Qual é o custo da esperteza? Todos pagam. A comissária me dizia que a empresa é obrigada a disponibilizar uma pessoa para cada passageiro que solicita o acesso ao atendimento prioritário, gerando um custo adicional que é rateado entre todos os passageiros. O passageiro prioritário paga a sua passagem normalmente, porém ele gera um custo maior para a companhia. Desse modo, quantos mais passageiros solicitarem tal atendimento maiores os custos que comporão o pacote de despesas de um voo e da companhia como um todo. Portanto, exigir um serviço para poder embarcar primeiro simplesmente para obter a vantagem de desembarcar antes dos demais é um crime contra a economia popular.

São mais de trinta anos que uso a cadeira de rodas e ficaria muito feliz com a possibilidade de voltar a andar. Ainda espero um milagre. Por isso, considero um crime que determinadas pessoas usem essa condição para levar vantagem, colocando em risco conquistas de acessibilidade de toda a sociedade. Qual é o milagre na esperteza? Não há. A esperteza é torpe e fomenta as desigualdades. Acredito que o verdadeiro milagre deveria ser a capacidade de viver em harmonia, independentemente da condição física ou social. Só assim para sermos humanos.

Moacir Rauber
Casamento, um modelo perfeito de comunicação!

Ele, o João, chegou no horário estabelecido. Ela, a Maria, chegou atrasada. Tudo certo, afinal faz parte do folclore de um casamento a noiva se atrasar. João, o noivo, estava nervoso enquanto esperava Maria, a noiva, próximo ao altar. Ela, finalmente, entra na igreja e se aproxima acompanhada do pai. O Padre começa a celebração do casamento. Os pais da noiva e do noivo se emocionam. Os amigos exibem sorrisos que demonstram o sentimento de felicidade pela felicidade do casal. Parece claro para ambos que encontrar a felicidade passa por fazer o outro feliz. A intenção está explícita na postura dos noivos. É chegado o momento de expressar as intenções por meio de palavras. Chega a hora do juramento.

João é convidado a dizer:

- Eu, João, recebo-te por minha esposa a ti, Maria, e prometo amar-te, ser-te fiel e respeitar-te na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza todos os dias da minha vida.

Maria escuta com atenção, porque sempre esteve claro que ela iria se casar com o João para que pudesse fazê-lo feliz. As lágrimas começam a escorrer suavemente pela sua face. Ela não se importa, porque está feliz com a possibilidade de fazer João feliz.

Uma pequena pausa e o celebrante convida a Maria para fazer o seu juramento. Ela o faz com a emoção de quem tem a mais pura intenção. Maria se sente confiante ao dizer as palavras do juramento, porque ele expressa de forma direta tudo o que ela pretende fazer pelo seu amado João. Por outro lado, no juramento está resumido tudo o que ele sempre quis ouvir dela. Eles já estavam juntos há mais de quatro anos e sabiam o que queriam. As intenções estavam claras. Comunicar isso oficialmente um ao outro por meio do casamento, incluindo pais, amigos, familiares e a comunidade, era o caminho natural. O propósito de fazer um ao outro feliz agora era público.

O dia foi glorioso. A festa foi maravilhosa. A emoção tomou conta de todos, porque ninguém nunca duvidou do amor de João por Maria e de Maria por João. As intenções foram concretizadas no casamento. Depois disso, João e Maria viveram felizes para sempre!

O que cabe destacar aqui é que os cinco princípios de uma comunicação clara e perfeita estão presentes no relato. Pode-se identificar (1) quem fala: no primeiro momento João fala e, em seguida, Maria fala; (2) para quem se fala: por primeiro é falado a Maria para depois ser falado a João; (3) o que se fala: nas falas de ambos promete-se o amor, a fidelidade e o respeito; (4) em quais as condições será cumprido o que se fala: as promessas serão cumpridas na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza e (5) qual é o tempo determinado daquilo que se fala: por toda a vida.

Sabe-se que uma grande parte dos problemas organizacionais estão ligados a um processo de comunicação que muitas vezes não é claro e por isso a mensagem não chega corretamente. Quem fala nem sempre se preocupa em saber como aquele que ouviu entendeu a mensagem, da mesma forma como quem recebe a mensagem, muitas vezes, não esclarece se o que ele escutou era o que quem falou quis dizer. Desse modo, não basta a intenção de se comunicar bem, é preciso conferir se todos os elementos da comunicação estão presentes e confirmar se ela chegou da forma como se imaginou para aquele a quem a mensagem foi dirigida. O que você quis dizer com aquilo que você falou foi o que quem ouviu o que você disse escutou? Só assim para uma verdadeira comunicação e a consequente diminuição dos problemas organizacionais ligados à comunicação.

João e Maria viveram felizes para sempre? Bem, isso é outra história. Entretanto, nenhum deles pode dizer que não sabia para quem dizia o que disse, em quais condições se comprometia a cumprir aquilo que prometeu e nem o tempo do compromisso assumido.

Moacir Rauber
Para onde você está indo? Cuidado com o efeito manada...

Um amigo meu, para fugir da vida turbulenta e perigosa dos grandes centros, mudou-se para uma cidade menor em busca de qualidade de vida. Estava muito feliz. Era o seu primeiro carnaval na nova cidade onde fora morar com a família. Ele, a sua esposa e um sobrinho, a partir da calçada e um pouco afastados, acompanhavam a passagem do trio elétrico por uma das avenidas da cidade. Milhares de foliões seguiam o cortejo da festa e da alegria. No momento em que ele ficou um pouco distante da esposa e do sobrinho para registrar com o seu celular o carnaval, um casal se aproximou dele. O homem agarrou e levou o seu celular. O meu amigo ficou sem ação. A mulher enfiou a mão no bolso traseiro da calça para roubar a carteira. Num movimento espontâneo de reação ele agarrou o braço da mulher para impedir de que lhe levassem a carteira. A ladra, numa contrarreação esperta de quem está habituada ao ofício, gritou:

- Socorro, ele está me agredindo.

Algumas pessoas olharam. O meu amigo tentava evitar o segundo roubo. Ela gritou com ainda mais força:

- Me ajudem, ele tá me machucando!!!

As pessoas que estavam ao redor não tiveram dúvidas. Vendo a situação da mulher “sendo agredida”, rapidamente se mobilizaram e começaram a atacar o suposto agressor. Um primeiro soco o derrubou. Depois vieram os chutes e uma sequência interminável de agressões que deixaram o meu amigo sem entender o que acontecia. Sentindo a dor das agressões ele conseguiu reagir e gritar uma, duas três vezes que era ele quem havia sido assaltado para finalmente ser escutado pelo primeiro agressor que parou. Depois o segundo, o terceiro e os demais escutaram e pararam. O meu amigo sequer pode explicar o que havia acontecido para aqueles que o agrediram. Isso porque tão rapidamente como eles apareceram para expressar a sua inconformidade com a justiça que estavam corrigindo, eles desapareceram sem se justificar ou se responsabilizar pela injustiça que eles haviam cometido. Deixaram-no na rua com os ferimentos no corpo e na alma. Alguns instantes depois, a esposa e o sobrinho o viram e o levaram para o hospital onde foi medicado.

O que um gestor pode extrair da situação descrita? Qual a mensagem para um cidadão comum? Acredito que são várias as lições num único episódio. Há que se considerar que o gestor e o cidadão comum coexistem numa mesma pessoa, não havendo essa dicotomia. O que aconteceu de fato no fato? Parte das pessoas que agrediram observou um episódio e a partir de uma visão limitada, interpretaram-no, tomaram uma decisão e agiram. Outros, simplesmente porque acreditaram que viram a justiça sendo feita, sem nem entender o que estava acontecendo, também agiram sob o efeito manada. Entre as pessoas poderiam estar gestores e certamente eram cidadãos comuns.

O que deveria ter sido feito? O gestor cidadão comum, no contato com a sua realidade, deveria respirar, dar um passo atrás e ampliar a visão para tomar a decisão que lhe permitisse agir de forma apropriada. Respirar e dar um passo atrás requer autoconhecimento que nos permite entender que quase sempre vemos o mundo como nós somos e não exatamente como ele é. Para ampliar a visão a busca constante por novos conhecimentos da própria área na interdependência com as demais, permite-nos acompanhar e entender as tendências. Depois, cabe ao gestor cidadão comum interpretar os episódios de maneira que não seja simplesmente mais um na manada. Deve-se lembrar que não é porque todos estão indo para o mesmo lugar que estão no caminho certo, assim como não é porque ninguém está indo para determinado lugar que ele não seja o correto.

Como está a sua visão?

Para onde você está indo?

Moacir Rauber
Você quer ajudar? É preciso aprender...

Há alguns anos, estava eu com a minha cadeira de rodas no centro de Florianópolis, aguardando, juntamente com os pedestres, que um semáforo abrisse para cruzar a rua. Na esquina não havia rampa. Estávamos num horário de pico. Logo formou-se um grande grupo de pessoas atrás de mim que também aguardavam o sinal abrir. Quando o sinal abriu eu empinei a minha cadeira de rodas para mais facilmente descer o meio fio que se encontrava à minha frente. Uma senhora que estava logo atrás, ao ver o movimento que fiz em que as rodas dianteiras da minha cadeira subiram, jogou-se desesperadamente para frente agarrando as manoplas existentes no encosto da cadeira para me segurar. Creio eu que ela deva ter tropeçado no trajeto de onde saiu até me alcançar, pois as suas mãos conseguiram agarrar a cadeira e com isso, quando ela caiu me arrastou junto. Ela esborrachou-se no chão! Eu também. A cadeira virou com tudo para trás, levando-me com ela. Ainda sem saber o que acontecia apenas pude perceber que caí sobre alguém. Estava entre deitado sobre uma pessoa e ao mesmo tempo enrolado com ela. Braços e pernas, eu não sabia quais eram os meus. Rapidamente tentei desvencilhar-me para voltar a subir em minha cadeira. Olhei para a senhora que estava com os dedos sangrando. Perguntei-lhe se ela estava bem, recebendo uma resposta afirmativa. Foi então que comecei a entender o que havia acontecido. Ela desculpou-se explicando que havia me visto empinar a cadeira e achou que eu estaria caindo. Então expliquei-lhe o procedimento que faço para descer um degrau ou um meio fio, como era o caso. Ela desculpou-se várias vezes. E a nossa conversa foi acompanhada por um grande grupo de curiosos que, inicialmente, estavam todos apreensivos, mas que logo virou em motivo para risadas.

O que se pode deduzir da situação? O que ficou de aprendizagem? Algo muito simples, que inclusive para ajudar é preciso ser competente. Estudar, aprender e desenvolver novas competências por meio da ampliação da visão de mundo não contribui apenas profissionalmente. As profissões e as organizações exigem claramente que as pessoas exibam as competências esperadas. Caso não as tenham, não entram. Caso entrem e não as exibam, saem. Entretanto, a aprendizagem é uma oportunidade de expansão das perspectivas individuais que ultrapassa os limites de uma profissão, permitindo que as pessoas sejam cidadãs mais contributivos e responsáveis. E a curiosidade é a fonte da sabedoria que pode ser desencadeada pelas perguntas. Por isso, quando se pretende ajudar alguém, a primeira atitude talvez seja perguntar se a pessoa quer e precisa de ajuda para então saber como e se realmente pode ajudar. Aplica-se a mesma regra para pessoas, empresas e organizações. Dificilmente se pode contribuir sem conhecer!

Como vão as suas competências? Você está pronto para ajudar? É preciso estar disponível para aprender.

Moacir Rauber
Ter e Ser: Diferenças

Era sempre assim. Todo domingo nos reuníamos na casa de um ou de outro amigo para jogar futebol. A gurizada tinha entre sete e catorze anos. Facilmente, reunia-se um grupo de vinte a trinta moleques que eram divididos em times de cinco, seis ou sete atletas. Atletas? Todos jogavam de pés descalços, porque ninguém tinha dinheiro para comprar um tênis ou uma chuteira. No máximo alguém calçava uma conga ou um kichute. Exceção feita a um de nossos amigos. Ele era quem trazia a bola e aparecia completamente fardado com chuteira, meião, caneleira, calção de marca e camiseta do time preferido. Quem olhava de fora tinha a certeza de que ele era o craque do grupo. Entretanto, quando a bola rolava, rapidamente se percebia que a única coisa que o nosso amigo equipado não sabia fazer era jogar futebol. Ele tinha todos os apetrechos e equipamentos para ser um jogador de futebol, mas ele não era. Eis um grande desafio da atualidade: ser aquilo que se parece ser, autenticamente!

Creio que exemplos semelhantes são encontrados em diferentes esferas de nossas vidas. Têm muitas pessoas que buscam ter para parecer que são, por isso, muitas vezes, elas não são. Gosto muito de remar e, considero-me, um remador, entretanto, ter um barco não faz de mim um remador. Existem muitas pessoas que têm barco e não são remadoras. Têm pessoas que gostam de pescar e se consideram pescadoras, porém, ter as redes, os anzóis e uma lancha não faz delas pescadoras. Há muitas pessoas que têm os equipamentos e não são pescadoras. No mundo organizacional e empresarial não é diferente. São muitas as pessoas que buscam parecer ser aquilo que gostariam de ser. São pessoas que têm empresas, mas não são empresários. Para ser um empresário não basta abrir as portas de uma empresa e frequentar os círculos típicos de empresários. É preciso conhecer do negócio e saber fazer com que ele seja economicamente viável, socialmente responsável e ambientalmente sustentável. De igual modo, são muitas as pessoas que se dizem consultores, mas não são consultores. Para ser um consultor não basta criar algumas frases de efeito, vestir uma roupa bacana e comprar um carrão para parecer ter sucesso. É muito mais importante ter conhecimento teórico e prático que possa ser transmitido para as organizações que estejam buscando a melhoria de seus processos. Enfim, nas nossas profissões, não basta parecer competente é preciso ser autenticamente competente. Há um preço a ser pago para poder ser aquilo que se parece. Para isso, é essencial se qualificar para que quando você vestir o jaleco branco você não somente pareça um dentista, um médico ou um professor, mas que você realmente sinta que é.

Entendo que há uma ditadura da imagem em que parecer ser é quase mais importante do que realmente ser. Não há a preocupação com a autenticidade de que a imagem seja um reflexo da essência de cada um. Contudo, como já dito, não basta ter chuteiras, um barco ou uma lancha para ser um jogador, um remador ou um pescador. Ser vai muito além de ter. É essencial sentir que aquilo que você diz ser você realmente é.

Ser é autenticidade. Ter é a imagem. Onde você se encontra?

Moacir Rauber
E se fossem as suas últimas palavras?

Na última semana li a seguinte reflexão:

- E se estas fossem as suas últimas palavras, você poderia viver bem com isso?

Não lembro onde a li, por isso não posso citar a fonte. Entretanto, a pergunta ficou em minha mente e, logo, transferi a reflexão para os diferentes ambientes de que cada pessoa faz parte. E se fossem as suas últimas palavras como líder, como profissional, como pai, como filho ou como cônjuge? Imagine a força das ações e das palavras se vivêssemos com esse pensamento em mente? Sei que alguns levariam para o tom da brincadeira dizendo que esculhambariam com tudo, entretanto, entendo que a grande maioria das pessoas tenderia a refletir de uma forma positiva.

Desse modo, pense se as palavras recém ditas e as ordens proferidas fossem a suas últimas como líder da sua organização, você conseguiria viver bem com isso? As palavras que foram ditas e as ordens proferidas tinham em mente os objetivos da organização, alinhados com o bem-estar das pessoas envolvidas, como os colaboradores, os acionistas e a comunidade em geral? E se levássemos a mesma indagação para outras situações. Caso você fosse um vendedor, se fosse a sua última venda? O pedido foi tirado respeitando a relação de justiça que deve existir entre as partes, atendendo as expectativas da organização que vende e do consumidor que compra? Avançando para outras áreas de interação humana: se tivesse sido a sua última aula? Ela teria cumprido com as expectativas daquele que a recebeu? E nos aspectos pessoais, imagine se tivesse sido a sua última interação com os seus pais, você poderia partir tranquilo pensando nas palavras ditas e nas ações realizadas? Como pai ou como mãe, se na última vez que você falou com os seus filhos tivessem sido as últimas palavras ditas por você, estaria bem com o conteúdo transmitido e com o legado deixado para eles? E no seu relacionamento íntimo, se as últimas palavras ditas e as últimas ações feitas fossem as últimas que você tivesse tido a chance de dizer e de fazer estaria tudo dito e tudo feito? Mais ainda, se o último abraço dado e o último contato feito fossem os últimos você poderia partir tranquilo?

Pode parecer um pouco piegas, mas a única certeza que temos é que em algum momento serão as últimas palavras e as últimas ações. Por isso, a reflexão pareceu-me forte, sensata, justa e bondosa. Uma reflexão forte porque ela nos lembra da finitude de nossas vidas e dos nossos papéis sociais, por mais importantes que eles possam parecer. A reflexão pareceu-me sensata, porque com a finitude de nossas vidas em mente, as palavras e as ações ditas e feitas tenderiam as ser mais humanas. A reflexão pareceu-me justa porque nos coloca num patamar de igualdade sem par, porque o fim é inevitável para todos. E, por fim, a reflexão pareceu-me bondosa, porque é justa, sensata e forte.

Enfim, o mundo pode não ser um local de muitas bondades, mas eu posso ser bondoso. A vida pode não ser justa, mas eu posso ser justo. Nem todos os outros podem ser sensatos, mas eu posso ser sensato. Por isso, viver com a força da reflexão de que as atuais palavras e ações poderiam ser as suas últimas palavras e ações, pode criar organizações mais produtivas, relacionamentos mais sinceros e um mundo mais bondoso.

Ahh, o Dia dos Namorados pode servir de inspiração!

Moacir Rauber
Trabalho, carreira & vida: qual é a sua escolha?

Fui agricultor até os vinte anos. Meus irmãos ainda são agricultores. Meus sobrinhos, em determinado momento da vida, ficavam na dúvida se continuavam os estudos ou seguiam os passos dos pais. Numa das muitas conversas com os sobrinhos, disse o seguinte:

- Olha, por mais que os pais de vocês conheçam tudo sobre agricultura, eles não podem ser agrônomos. Porém, um agrônomo sempre poderá ser um agricultor, ainda que não tenha tanto conhecimento prático como os pais de vocês.

Essa foi parte da argumentação para que os meus sobrinhos não parassem de estudar e seguissem um plano de formação profissional que lhes permitisse fazer escolhas. Não se trata de desvalorizar as profissões que não requerem uma formação profissional específica, mas de salientar a importância da preparação para se exercer livremente determinadas escolhas.

Os estudos, em determinadas áreas, vão preparar o indivíduo para exercer uma profissão com o reconhecimento da sociedade. Desse modo, para ser um Engenheiro Agrônomo, um Dentista ou um Advogado é preciso que se faça a faculdade de Engenharia Agronômica, de Odontologia ou de Direito. São marcos regulatórios da nossa sociedade. Isso não quer dizer que não existam agricultores, dentistas práticos e não formados em direito que conheçam mais da respectiva atividade do que muitos graduados. A questão que aqui se coloca é a importância do reconhecimento. Nos dias de hoje, você, agricultor, aceitaria que alguém sem a devida formação técnica desse a assistência para a sua lavoura? Você, paciente, iria até um consultório de um dentista sabendo que ele não tem formação? Você, demandante, contrataria alguém para o defender em tribunal sem que ele tivesse a formação e o reconhecimento da sua profissão? Não. Por isso, ao cobrar de meus sobrinhos que continuassem os estudos para que concluíssem uma faculdade e obtivessem o reconhecimento que somente a educação formal oferece, além de trabalho, eu falava de carreira e de vida.

O trabalho é a base para que cada um possa conseguir o seu sustento com o suor do seu rosto. É bíblico. Assim, trabalho é o esforço realizado pelas pessoas para atingir as suas metas por meio de atividades específicas. Realiza-se no dia a dia. A ideia de carreira resulta do percurso dos diferentes trabalhos realizados ao longo dos anos. Até há pouco tempo, a carreira era pensada de forma linear em que se assumiam responsabilidades em ordem crescente conforme os anos passavam e estava muito mais fortemente associada a uma profissão escolhida. Atualmente, a carreira está mais ligada as buscas individuais com base em desafios a que cada um se sujeita. Embora uma carreira possa acontecer independentemente de uma formação técnica específica, a faculdade tem papel fundamental para que se possa conseguir trabalho, construir uma carreira e fazer escolhas na vida.

Enfim, mais uma vez destaco a conversa tida com os meus sobrinhos. Um agrônomo pode ser um agricultor, um apicultor, um jardineiro, um tirador de leite ou realizar qualquer outra atividade ligada a zona rural. Ele pode construir a sua carreira e passar a sua vida como escolher. Porém, o contrário não é verdadeiro. Um agricultor não pode construir a sua carreira fora das limitações de sua atividade e ser um agrônomo, por exemplo. O mesmo raciocínio se aplica às demais profissões.

Desse modo, entendo que o trabalho é uma necessidade individual, assim como um direito e uma obrigação coletivas e acontece no dia a dia. A carreira é uma construção deliberada ao longo do anos como resultado das escolhas feitas na vida. Por isso, estudar é uma forma de exercício da liberdade na vida, que nos permite construir uma carreira e, inclusive, escolher o trabalho.

Quais são as suas escolhas?

Moacir Rauber