Facetas! Múltiplas faces
Eu sou materialista, e você?

Ao observar como as pessoas produzem, consomem e descartam os materiais fiquei pensando que talvez devêssemos ser mais materialistas. Saímos rapidamente de produtos duradouros para os produtos descartáveis. As gerações passadas se preocupavam em adquirir produtos para uma vida. Era a qualidade de um produto que se traduzia em durabilidade que fazia a diferença. Hoje a qualidade está ligada a tecnologia que não está ligada com a durabilidade. Tudo é feito para se usar hoje pensando que amanhã já estará ultrapassado. Essa ideia se aplica aos carros, as geladeiras, aos celulares, as TVs e aos computadores entre outros tantos produtos que são criados para que sejam jogados fora. Isso estimula a que as pessoas comprem novamente um produto para atender uma mesma necessidade com uma roupagem ou algum item tecnológico diferente. Porém, pergunto: é possível jogar algo fora? Eis a questão. Nada daquilo que nós produzimos é passível de ser jogado fora. Descartamos, mas não jogamos fora. Jogamos dentro do ambiente e do planeta. Por isso defendo que nós sejamos materialistas.

Ao analisar aquilo que se entende por materialista, pode ser relativo a uma pessoa que procura se satisfazer por meio do acúmulo de bens materiais. Muito comum. Também pode ser interpretado como não havendo nada além da matéria e serve como base para explicar todos os fenômenos com os quais nos deparamos, entre eles os mentais, os históricos e os sociais. Espirituais? Não há. O materialismo histórico se volta para a forma de produção econômica como o único elemento que determina o desenvolvimento histórico e social. Como está na moda! Em parte são esses os conceitos que incorporamos no dia a dia, entretanto há algo paradoxal nisso. Ao mesmo tempo em que a aquisição e o acúmulo de bens materiais indicam um elevado status social, a capacidade de descartar os mesmos bens também indicam a mesma coisa. É o apego aos materiais que faz com que se compre cada vez mais e com que se descartem os materiais mais rapidamente. Por isso, defendo que sejamos materialistas sem sermos apegados aos materiais. Acredito na importância de ser materialista com o cuidado com que se usam os materiais, porque nada pode ser jogado fora.

Desse modo, como nada pode ser jogado fora ou descartado, ser materialista é cuidar dos bens materiais que se precisa, que se consome e que se tem para não precisar comprar sempre um novo item a cada semana, mês, estação ou ano. Acredito que deveríamos voltar a pensar em produtos que possam ser utilizados por um prazo maior e que sejam usados até o final de sua vida útil. Disseminar um modelo em que se troquem os produtos quando não se pode usar mais é muito diferente do modelo vigente em que descartar produtos tem relevância social. Nada é pensado para quem é um materialista que cuida daquilo que adquire. Tudo é pensado para quem pensa em descartar aquilo que tem. Se alterar esse modelo não é viável, que pelo menos sejamos materialistas o bastante para produzirmos produtos que possam ser recicláveis e que os reciclemos; que possam ser reutilizáveis e que os reutilizemos; que possam ser reaproveitáveis e que os reaproveitemos. E que produtores e consumidores sejam responsabilizados pelos materiais que adquirirem, que usarem e que descartarem.

Desse modo, entendo e defendo que sejamos materialistas no cuidado com os materiais, sem sermos apegados no acúmulo de bens materiais. Afinal, nada pode ser jogado fora.