Vacina para o bem

Tempos estranhos esses que estamos vivendo. Não bastassem os múltiplos problemas que a pandemia do coronavírus nos trouxe – que bagunçou nossas vidas como nunca antes – temos agora de lidar com um debate estéril sobre justamente o que pode nos livrar do vírus e da paralisia que nos impôs: a vacina.

Não há dia sem que sejamos bombardeados com as mais estapafúrdias ilações sobre a eficácia, a origem, hipotéticos efeitos colaterais e até, vejam só, o direito de não tomar vacina. E o que parecia ser a salvação de todos tornou-se um salve-se quem puder– ou quiser.

Além de estéril, o debate sobre a vacina, por qualquer viés – ideológico, científico, político, técnico, religioso –, é um monumental retrocesso, algo impensável nos dias de hoje. Afinal, a ciência trabalha há séculos para dotar o mundo de conhecimento, técnicas e remédios que aliviem a dor, abreviem o sofrimento e prolonguem a vida. Tanto para os humanos quanto para os animais. Nossa consciência sobre esta questão não é objeto de dúvida, ao contrário, é a certeza de que todo esforço para salvar vidas vale a pena.

Daí o espanto da maioria diante da reação de uma minoria barulhenta que invadiu as redes sociais, ocupou alguns espaços na mídia, subiu às tribunas dos parlamentos, ganhou as ruas com um discurso anti-vacina que assusta mais pelo que esconde do que pelo que prega.

É preciso resistir a esse surto de insensatez. Nunca questionamos a origem e a eficácia de vacinas fundamentais (sarampo, rubéola, poliomielite, febre amarela, dentre tantas outras) com as quais vacinamos nossas crianças desde sempre. Por que essa paranóia agora? A China é a maior produtora mundial de insumos para vacinas. A Índia é a maior fabricante de vacinas do planeta. Europa e Estados Unidos têm os principais centros de pesquisa. E o Brasil tem o maior sistema público de saúde do mundo e realizou as mais abrangentes campanhas de vacinação do mundo.

Ademais, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a vacinação é obrigatória, mas é certo que ninguém será algemado ou colocado numa camisa de força para ser imunizado. Na prática, o que a decisão faz é abrir caminho para impor sanções a quem não tomar a vacina: de questões prosaicas, como não poder viajar de avião, a mais complexas, como não poder ingressar no serviço público, firmar contratos com governos, ser demitido do emprego.

A sociedade cria salvaguardas por meio de vedações pontuais mais do que um regramento jurídico específico. Por isso, não tomar a vacina parece não ser a opção mais inteligente, embora seja uma decisão individual que compete a cada indivíduo.

O que a sociedade não pode é permitir que se transforme posição pessoal em ação coletiva, como se alguns poucos que berram mais alto pudessem impor suas teorias não comprovadas a todos os brasileiros.

Até porque, o que a maioria quer – e precisa – é retomar o curso de suas vidas, com trabalho, estudo, família e lazer. O isolamento social já dura mais do que o suportável e é urgente que a normalidade se imponha: sem ela, não só a saúde estará em risco, mas a economia do país, das empresas e das famílias.

Quem ainda socorre os mais desprovidos é o Governo. Mas se todos quebrarmos, não haverá quem nos estenda a mão. Se a vacina é o caminho mais curto para acabar com a crise, então que venham todas as vacinas que o Brasil puder nos oferecer. Viva a vacina!

Cida Borghetti é embaixadora da Organização Mundial da Família e ex-governadora do Paraná