Leite derramado

O anúncio da saída da Ford do Brasil, com o consequente fechamento de suas fábricas, é de longe uma notícia catastrófica, entretanto, já esperada diante do cenário arcaico do setor automotivo nacional perante o restante do planeta. Quando o então presidente Fernando Collor, lá na distante década de 1990, classificou os carros nacionais de “carroças” não estava exagerando nem um pouco. Até certo ponto Collor foi complacente com o estágio na época dos veículos automotores produzidos no Brasil. A Ford já fazia parte deste processo.

Ao longo destas décadas novas fábricas desembarcaram no país. Novos modelos foram sendo produzidos, entretanto, ainda assim os carros nacionais são muito defasados em termos de tecnologia quando comparados aos produzidos na Europa ou até mesmo nos Estados Unidos, que sofria processo semelhante com a mesma Ford integrando o pacote de atrasos.

Os motivos para a saída da empresa do Brasil são os mais variados e as consequências dessa decisão ainda cedo demais para se ter uma exata dimensão. Todavia, ao invés de ficar reclamando do óbvio, a sociedade brasileira poderia usar o exemplo da Ford e começar a efetivamente discutir para valer os reais problemas do país. E que não afetam apenas a multinacional, mas milhares de empresas nacionais, de vários tamanhos, e que empregam muito mais que as unidades automobilísticas. Não apenas as indústrias, mas as empresas do comércio e de prestação de serviços. Empresas que sofrem com a violenta e abusiva cobrança de taxas e impostos, com um custo operacional gigantesco, com um serviço público caro e em geral ineficiente, entre tantos outros problemas tão conhecidos e discutidos, mas que na prática seguem se arrastando pela letargia comum num país onde as pessoas em geral não gostam de ouvir verdades e procuram transferir aos outros a responsabilidade por mudanças que deveriam partir de cada um.

O leite vem sendo derramado não apenas agora, em 2021. Essa história é tão conhecida quanto tantas outras que se aprendem na escola, entretanto, na escola da vida pública nacional, essa lição de resolver seus problemas ainda não foi aprendida, tanto que na disputa pela Presidência da Câmara Federal a promessa comum entre os principais candidatos é a manutenção do auxílio emergencial.