O grande come o pequeno? Não mais…

Acompanhava uma moça que estava aprendendo a dirigir. Ela disse que havia se assustado ao se encontrar numa rua de mão dupla em que num ponto havia um carro estacionado do lado direito e, na mesma altura, outro carro estacionado do lado esquerdo. O espaço de trânsito havia se afunilado e quando ela se aproximava desse ponto, do lado contrário vinha um ciclista. Ela pensou:

– Ele é menor. Ele que se cuide!

Trata-se de uma moça do bem, entretanto nesse momento se sobressaiu o instinto de competição e de sobrevivência. A sua reação foi insensata, assimétrica e de afirmação presentes no instinto da seleção natural que se mantém por meio de vencer e de dominar. Portanto, quando a seleção natural comanda as ações na vida organizacional, cria-se um ambiente de guerra. Quando a competição é levada para as relações surgem os jogos de poder e de manipulação que destroem os sonhos e as amizades. Desse modo, quando o pensamento instintivo de que “eu sou maior”, por isso, “o menor que se cuide” se sobrepõe ao cuidado, ao amor e a compaixão humanas, transforma-se tudo em guerra. “O trânsito é uma guerra!” confirmada pelo número de vítimas. Nas organizações são travadas guerras por funções, poder e dinheiro. Nas famílias e nas amizades a manipulação pode ser vista nas pequenas coisas do dia a dia. É possível mudar isso? Acredito que sim, porém a luta começa antes de estar na rua, de entrar numa empresa ou de iniciar um relacionamento. Evoluir para sairmos do estado de guerra da nossa condição instintiva exige a tomada de consciência dessa realidade. Pensar no propósito da minha existência e na conectividade das minhas relações exige pensar na reinvenção do comportamento. Caso eu esteja numa posição mais segura, mais confortável ou privilegiada, antes de pensar “ele que se cuide” deveria pensar “eu cuido dele”. Trata-se de evoluirmos para um estado de contribuição deliberado. Pode-se falar aqui da mentalidade fixa que está no caráter instintivo de nossas ações, mudando-as a partir de uma mentalidade flexível em que nos definimos por nossas intenções. Com isso passamos a nos indagar: o mundo é melhor porque estou nele? Na seleção natural de Darwin o maior come o menor. Importante constatar essa realidade. Porém, para que evoluamos como pessoas, e não somente que nos perpetuemos como espécie, é fundamental ultrapassar o estado de guerra presente nessa constatação. “Eu sou maior, assim eu cuido do menor” uma ideia que se levada ao trânsito fará dele um lugar mais seguro. “Eu sou maior, assim eu contribuo com o menor” uma ideia que dentro das organizações fará com que o desenvolvimento seja uma realidade e não somente um discurso. “Eu sou maior, assim eu amo o menor” é uma realidade nas famílias na relação entre pais e filhos e que pode ser levada para as relações conjugais e de amizade. Por trás dessa evolução é fundamental que haja um propósito: qual é a sua intenção? É essencial que eu tenha consciência do impacto da conectividade: o mundo é melhor com a minha presença? É indispensável a reinvenção: o que mudou dentro de mim?

O exemplo da menina do início marca que a evolução de um estado de guerra para um estado de contribuição está em movimento. O seu primeiro pensamento foi, “Sou maior, você que se cuide”. Entretanto a sua ação foi de cuidado e de compaixão, porque na sequência ela parou o carro e deixou o ciclista passar. É a reinvenção de comportamento que vai conectar as pessoas que têm propósito, porque não se trata mais de vencer ou de dominar e sim de se conectar para contribuir.

Moacir Rauber

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