Biden fala em tempo de cura e acena a rivais

Milhares aguardavam Joe Biden quando ele subiu ao palco em Wilmington para discursar ontem à noite. Durante todo o dia, o sentimento nas ruas da cidade era de esperança em um país mais unido a partir dos próximos quatro anos, algo que o democrata prometeu na primeira fala como presidente eleito.

Além de prever o fim de uma era de demonização nos EUA, Biden prometeu trabalhar pela união de um país dividido. “É tempo de cura”, afirmou, acrescentando que, naquele momento, o país era “um farol” para o restante do mundo. “Nós lideramos pelo poder do nosso exemplo”, disse.

“Para vocês que votaram no presidente Trump, eu entendo sua frustração nesta noite”, disse, aos 70 milhões de apoiadores do republicano derrotado pela chapa democrata. “Eu já perdi algumas eleições. Mas agora vamos dar uns aos outros uma chance. É tempo de colocar a retórica dura de lado, de baixar a temperatura, de ver uns aos outros de novo, de ouvir uns aos outros de novo”, disse. “Nós não somos inimigos, nós somos americanos.”

“Concorri a este cargo para restaurar a alma da América. Para reconstruir a espinha dorsal da nação, a classe média. Para tornar os EUA respeitados em todo o mundo novamente e nos unir internamente. É a honra da minha vida que tantos milhões de americanos tenham votado por essa visão”, disse.

Biden prometeu anunciar na segunda-feira o time de especialistas e cientistas que irá compor uma força-tarefa de combate à pandemia de coronavírus durante o período de transição. “Não podemos consertar a economia, restaurar nossa vitalidade ou desfrutar dos momentos mais preciosos da vida – abraçar um neto, aniversários, casamentos, formaturas, todos os momentos que mais importam para nós – até que tenhamos esse vírus sob controle”, disse o democrata, que mostrou solidariedade com as famílias de vítimas da covid.

Em praticamente toda a campanha, os eventos de Biden tiveram público extremamente limitado em razão da pandemia. Os poucos comícios foram em estilo drive-in, com cada eleitor dentro de seu carro olhando para o palco de onde Biden discursava, assim como a noite deste sábado.

Milhares de pessoas, no entanto, assistiam ao discurso por telões do lado de fora. As menções de Biden à comunidade negra foram momentos de maior aplauso entre os presentes, assim como quando o presidente eleito falou em enfrentar o racismo estrutural no país. “Estou orgulhoso da coalizão que formamos, a mais ampla e diversa da história”, disse Biden.

“E especialmente naqueles momentos em que a campanha esteve em seu ponto mais baixo, a comunidade negra se levantou por mim. Eles sempre terão meu respaldo e eu terei o deles”, disse Biden, que se consagrou o nomeado democrata à disputa contra Trump graças ao apoio da comunidade negra. Em mais um compromisso com a busca por um time diverso, Biden disse que montará um governo que “represente a América”.

O fim do discurso teve queima de fogos que desenharam no céu o nome de Biden, seguido de “presidente eleito”, além do sobrenome de Kamala Harris e do mapa dos EUA. A música que tocava, Sky Full of Stars, da banda Coldplay, era uma das preferidas de Beau, o filho de Biden, que morreu de câncer em 2015.

Expectativa. A cidade de 72 mil pessoas acordou em festa na manhã de ontem com a notícia de que o morador mais ilustre foi eleito presidente. “Sim, nós conseguimos”, dizia um policial com largo sorriso no rosto aos que chegavam ao entorno do centro de convenções de Wilmington, onde apoiadores de Biden se reuniam em um estacionamento próximo ao local de discurso do democrata.

“É um dia glorioso, o país está aliviado”, disse a fisioterapeuta Robin Reynolds, de 50 anos, entre centenas de pessoas que cantavam e dançavam celebrando a eleição de Biden em Wilmington. Ela chamava a atenção por puxar um grito com as iniciais dos EUA. “U-S-A, U-S-A”, gritava, junto de amigas.

Esse tipo de manifestação é comum nos comícios de Trump, onde sinais explícitos de nacionalismo são parte da programação, mas novidade nas celebrações democratas. Robin reivindica o nome do país “de volta”.

“Quando eles (eleitores de Trump) gritam USA é ridículo. Essas letras significam Estados Unidos da América”, diz, com ênfase em “unidos”. “Eles só trabalharam por divisão, não faz sentido gritarem isso. Hoje, estamos aqui mostrando que essa é a América real. Não somos um país que rejeita pessoas, somos um país que rejeita o ódio”, disse Robin, que comemorava também a chegada de Kamala à vice-presidência.

A festa de Wilmington teve crianças, latinos e muitos negros. É um contraste nítido com os comícios de Trump, onde o público é predominantemente branco. “Essa eleição mostrou que não queremos a opressão de Trump, que queremos um país decente, que queremos ir para frente e trabalhar com outros países para superar essa pandemia”, afirma Heather Farber, publicitária de 47 anos, que mora na Pensilvânia, Estado que deu a vitória a Biden.

O enfermeiro Chuck Foy, de 33 anos, não se importou em ter de ficar distante do palco de Biden. “Eu só votei duas vezes em democratas: em 2016, em Hillary Clinton, e agora, em Biden. Esperei quatro anos para tirar Trump, estou muito feliz, precisava vir aqui”, afirma.

Foy comprou cadeiras de acampamento para ele, mulher e filha, que posicionou o mais perto que conseguiu chegar do local onde Biden discursou. Na noite anterior, a família esperou por 10 horas pelo democrata. “Vamos viver em um país com integridade, respeito, vamos voltar ao palco global, vamos combater a pandemia”, diz Foy, que é registrado como republicano, mas nunca apoiou Trump.

O melhor caminho para voltar a dialogar com apoiadores de Trump, segundo ele, é deixar Biden começar o trabalho. “Muitos dos trumpistas estavam desiludidos com o sistema político e ele se apresentou como um nome novo. Mas quando perceberem como é ser governado por uma pessoa de verdade, eles irão mudar.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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