Casamento, entre alegrias e tristezas: psiquiatria tem papel fundamental

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O casamento é uma das instituições sociais mais antigas e, ao mesmo tempo, mais complexas do mundo. Faz parte de diferentes civilizações, povos e culturas e varia muito entre distintas crenças e religiões. Mas, todos os casamentos têm algo em comum: os conflitos, que surgem devido à convivência entre duas pessoas com comportamentos, manias e criações completamente diferentes. Nesse sentido, a psiquiatria se torna importante na busca por soluções que venham a contribuir e resgatar a vida a dois.

“O ser humano busca eternamente a felicidade e, com o casamento, não é diferente. Nós escolhemos viver com outra pessoa por conta da paixão, do amor, da necessidade de nos sentirmos acolhidos e seguros, mas, nem sempre é assim. E, no pacote, vêm inúmeros defeitos, conflitos e comportamentos que precisaremos aprender a administrar na busca pela construção matrimonial”, explica o médico psiquiatra Júlio Dutra, presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria (Appsiq). De acordo com ele, construir relacionamentos duradouros e significativos pressupõe um equilíbrio entre os envolvidos. “É preciso ter o que a gente chama hoje de responsabilidade afetiva e maturidade emocional”, afirma.

Dutra aponta que uma das principais fontes de conflitos matrimoniais reside em dificuldades pessoais e individuais. “Às vezes, um dos cônjuges apresenta transtornos psiquiátricos que, se não forem diagnosticados e corretamente tratados, poderão interferir e impactar na relação entre o casal”, observa o médico. Os exemplos são diversos: pessoas que enfrentam dificuldades financeiras pessoais ou conjugais e não querem dividir o problema com o outro; traumas de infância e juventude que interferem na relação; e, até mesmo, a falta de amor próprio e cumplicidade que levam ao ciúmes excessivo e a problemas como traições, entre outros casos.

O presidente da Appsiq aponta que a psiquiatria pode oferecer o suporte necessário para esses casais. “Em primeiro lugar, é preciso admitir que o casal precisa de ajuda e que não há apenas um culpado. Assim, é possível iniciar o tratamento, dividir responsabilidades e resgatar o respeito, muitas vezes perdido. Dessa forma, haverá enorme chance de reconciliação”, afirma Júlio Dutra. A vida a dois, conforme o médico, pressupõe cumplicidade, inclusive nos momentos de enfrentar os desafios e obstáculos. “Juntos, os cônjuges podem vencer as intempéries do casamento, mesmo que tenham origem em problemas individuais”, diz.

Responsabilidade e maturidade

Júlio Dutra explica que, quando alguém decide engatar um relacionamento sério, passa a ter, sobre a outra pessoa, uma responsabilidade afetiva. “Isso significa que é preciso ter responsabilidade sobre os sentimentos alheios. Aquele ditado de que ‘você se torna eternamente responsável pelo que cativas’ cabe muito bem nessa situação. Afinal, é preciso sempre dizer a verdade, dizer o que sente, dizer o que não sente”, explica o psiquiatra. O médico aponta que um cônjuge é responsável pelo sentimento que transmite e pelas expectativas que cria ao outro.

E isso pressupõe ter maturidade emocional. “Para entender e compreender a responsabilidade que temos pelo sentimento do outro, é preciso ser maduro, ter a capacidade de lidar com as próprias emoções e ter coragem para encarar de frente as situações”, afirma o especialista. Segundo Dutra, um relacionamento conjugal sempre terá frustrações de ambos os lados. “Por isso, é necessário dizer sempre a verdade, por mais dura que seja, ser tolerante, aceitar as diferenças e encarar as frustrações. Afinal, ninguém é perfeito e, uma hora ou outra, iremos nos frustrar com nossa cara metade”.

Individualidade

Pesquisas apontam e especialistas defendem que um casamento deve preservar a individualidade de cada cônjuge para ser bem-sucedido. “Essa é a base para uma união feliz e estável”, afirma Júlio Dutra. Isso quer dizer que, para além da coletividade, das decisões que se tomam juntos, é preciso respeitar as vontades e desejos de cada um dos parceiros. “Muitos casais, por exemplo, dormem em camas ou casas separadas e isso faz toda a diferença no relacionamento. Ás vezes, cada um precisa ter seu momento individual para poder reconectar-se consigo mesmo e, assim, oferecer o melhor ao outro”, diz.

O presidente da Appsiq aponta que, para poder ser um bom cônjuge, cada qual precisa, antes, saber se amar e se respeitar. “Muitos têm medo de ficar sozinhos e acabam se casando com a primeira pessoa que aparece. Mas, para poder ser um bom marido ou uma boa esposa, primeiro é necessário encontrar-se consigo mesmo”, avalia o médico. Júlio Dutra aponta que a saúde mental do casal precisa estar em ordem e isso já se torna um grande desafio nos dias atuais.

Separações

Hoje em dia, o rompimento de uma relação não é mais o fim do mundo como era décadas ou séculos atrás. E, assim, as separações entre casais passaram a ser ressignificadas. “A separação atualmente não precisa mais ser traumática, hostil e dificultosa como era antes. Pode ser no mínimo amistosa e respeitosa, tomando em conta o tempo em que passaram juntos, que, inquestionavelmente, contribuiu um com o outro e que ajudou a construir quem é cada um”, explica Dutra.

O que não cabe mais no mundo atual, na avaliação do psiquiatra, é manter uma relação por objetivos econômicos e financeiros, uma relação em que haja dependência emocional, agressões físicas, relação tóxica, além de se manter casado para atender expectativas da sociedade. “Quando situações como essas fazem parte da rotina do casal, é preciso repensar sobre a relação. Buscar ajuda é o primeiro passo para conseguir avaliar se não está na hora de colocar um ponto final antes que a situação piore. A psiquiatria pode ajudar e interpreta que não há problema algum em terminar, afinal, todos viemos ao mundo em busca da felicidade e quando interpretamos que a tristeza está dominando, então, é hora de agir”.

Da Assessoria Fábio Luporini

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