Socióloga brilhante, Marina Harkot foi vítima dos problemas que denunciava

A socióloga Marina Kohler Harkot, de 28 anos, era uma pesquisadora brilhante e de sorriso fácil e sempre presente. Deixou irmãos, pais, companheiro, colegas de trabalho e muitos amigos que lamentaram um futuro cheio de possibilidades interrompido por mais um caso de violência no trânsito no Brasil.

Marina foi vítima de um dos problemas sociais que denunciava e pesquisava no doutorado: como o medo impacta as experiências territoriais de minorias na cidade. Pessoas próximas acreditam que ela trafegava em uma das pistas de uma avenida da zona oeste paulistana – o que é previsto no Código de Trânsito – para evitar ser vítima de assaltos frequentemente relatados por mulheres na ciclovia da região.

O motorista que atropelou a pesquisadora não prestou socorro e fugiu do local do crime. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, policiais do 14º DP (Pinheiros) realizam diligências para localizar o autor, assim como buscam imagens, testemunhas e “demais elementos para esclarecimento dos fatos”.

A jovem concluiu a graduação e o mestrado na Universidade de São Paulo (USP), instituição em que era pesquisadora colaboradora, pelo LabCidade, e cursava o doutorado, ambos na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAUUSP). Foi coordenadora do coletivo Ciclocidade, integrante do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito de São Paulo, no segmento “bicicleta”, e consultora em planejamento urbano, especialmente no desenvolvimento de Planos Diretores e políticas de inclusão das mulheres.

Cicloativista, havia passado a morar com o companheiro há pouco tempo e adorava gatos. Falava cinco idiomas, foi escoteira na adolescência, morou na Alemanha e se considerava “carioca de nascimento e paulistana de coração”. Aproximou-se da bicicleta na adolescência, em um breve período em que morou no litoral, momento em que descreveu ter descoberto uma nova forma de liberdade.

“Uma vez que a gente começa a pedalar, a gente não consegue conceber outro jeito de se deslocar”, declarou em um fórum temático que participou virtualmente como convidada em 2020.

Em texto de anos atrás, comentava que, ao pedalar, “percebeu que o jeito como as cidades foram construídas têm tudo a ver com questões enfrentadas pelo gênero feminino nesse ambiente”. “Não cansa de tentar incentivar amigas, conhecidas e – sobretudo – desconhecidas a experimentarem a liberdade da bicicleta”, descrevia-se.

No funeral, realizado na noite de domingo, 8, a mãe, Maria Claudia Kohler, foi até à sacada e falou a ativistas que faziam uma homenagem. “Ela estava construindo uma casa, com um marido, um amor, uma vida futura, estudando, fazendo doutorado, viajada. Daí acontece essas coisas que a gente fica demolida”, desabafou.

A socióloga é descrita por colegas como companheira, doce, cheia de vida, sensível e sorridente. Era uma pesquisadora exemplar e uma mulher engajada pela construção de cidades mais humanas e igualitárias.

“Marina brilhava onde chegasse. Era doce, mas ao mesmo tempo potente. Ela conseguia se colocar e se fazer ser ouvida em qualquer ambiente”, lembra a social media Maysa Lira, de 24 anos, amiga da jovem. “Já estive presente em reuniões ‘enérgicas’ demais, e Marina estava sempre calma e didática”, exemplifica.

Ela gostava muito de carnaval. Em São Paulo, frequentou vários desfiles do bloco A Espetacular Charanga do França. Quando foi ao Recife, insistiu em aprender a dançar frevo. Não ganhou muito jeito para o ritmo, mas tentou entre gargalhadas suas e de amigos. Por lá, ainda dividiu a admiração pelas músicas de Reginaldo Rossi.

Há três anos, lamentou outro cicloativista passar por uma situação semelhante à que a vitimizou, que resultou na morte de Raul Aragão, em Brasília. “A gente chora porque é a mesma história. Apesar de Mari ser muito importante para gente, todo dia morrem ciclistas no trânsito. São pessoas muito importantes para alguém, mas que passam invisíveis.”

Com mais esse caso, há o temor de a situação não mudar. “Ontem recebi uma ligação de uma amiga de Mari em prantos, me pedindo pra ter cuidado na rua, porque ela não queria que nenhum dos nossos fosse os próximos”, relata. “Eu nunca ouvi que um ciclista atropelou e matou alguém. A minha amiga estava apenas pedalando e foi atingida por mais de uma tonelada. A gente só quer sair e voltar vivo, sabe? É desesperador.”

Especialista em Políticas de Baixo Impacto, Walter De Simoni, de 34 anos, lembra que a jovem sempre buscava unir o conhecimento e a pesquisa acadêmica com o mundo real, aproximando realidades às vezes vistas como paralelos. “Era uma pessoa que sempre fazia questão de trabalhar a inclusão e intersecção de qualquer temática que tocava, com gênero, raça, classe social. De uma maneira muito profunda.”

“A gente perde muito com a voz dela sendo apagada de uma forma tão cruel, tão trágica, tão cedo, quando estava só no começo de contribuir com essas mudanças tão necessárias”, ressalta. “Espero que a cidade que ela sempre sonhou a gente consiga transformar em realidade.”

Contribuição acadêmica

Orientadora de Marina no mestrado e no doutorado, Paula Santoro, coordenadora do LabCidade e professora da FAUUSP, lembra que a aluna se tornou uma referência na área por ter reunido dados de forma inovadora sobre gênero e mobilidade por bicicleta. Juntas, elas criaram uma disciplina para alunos da graduação, de Cidade, Gênero e Interseccionalidade, e tinham planos para ampliar projetos para 2021, com discussões sobre territórios negros, de prostituição e da população LGBT.

“A cidade não nos dá segurança. No caso da Marina, matou ela. O comportamento desse motorista, que fugiu, é o comportamento da nossa sociedade. É o ódio potencializado que ela queria mudar”, descreve. “Ela não pode ser mais uma ciclista morta, mais uma bicicleta branca num lugar público de São Paulo. É preciso convencer os nossos governantes para ter política de educação nos espaços públicos, desde a escola, para que a gente possa compartilhar o espaço”, destaca.

Instituições lamentam morte

A morte da socióloga foi lamentada por instituições diversas. Em nota, o LabCidade, disse que se trata de uma “perda inestimável” e que “não pode ser vão”. “Marina foi morta enquanto lutava. Pois sua luta não se separava da sua vida, do seu corpo em movimento de bicicleta pela cidade. E perdemos, junto com a ativista, uma companheira de vida, da vida que ela nos ajudava a enfrentar com novos olhos.”

Já a FAUUSP destacou ter “certeza de que ela sempre será um exemplo para toda nossa comunidade uspiana e que suas lutas permanecem compartilhadas por todos nós, mantendo viva sua presença”.

Marina também foi estagiária na Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), que lamentou o caso em nota. “Marina deu imensa contribuição para os estudos na área de gênero e mobilidade urbana, além de ter sido uma profissional competente e dedicada.”

O Instituto Clima e Sociedade escreveu que o “falecimento de Marina não pode ser em vão, e nossa melhor forma de homenageá-la é reafirmar o compromisso com a luta por uma cidade que respeite seus ciclistas e pedestres, causa defendida com tanto amor por ela”.

Além dele, a União de Ciclistas do Brasil destacou que o ativismo da jovem “nos ofereceu uma presença e legados incríveis” e seu empenho, construção e dedicação ao cicloativismo paulista e nacional, sua contribuição é histórica e importante, sua triste partida não será em vão ou esquecida”.

O Observatório do Clima, do qual Marina participou pelo grupo de trabalho Gênero e Clima, também se manifestou. “Era atuante no movimento cicloativista, na qual se dedicava à pauta da mobilidade urbana sustentável e ao debate acerca das mudanças climáticas nas cidades através de um olhar de gênero”, descreveu, além de manifestar um “desejo profundo de que sua morte não fique impune”.

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