Home office: a diferença na rotina dos homens e das mulheres

A desigualdade entre os gêneros persiste também no home office. Um relatório técnico baseado na pesquisa sobre o trabalho remoto – promovido pelo Grupo de Estudos Trabalho e Sociedade (GETS) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em parceria com a Rede de Monitoramento Interdisciplinar da Reforma Trabalhista (Remir) – apontou que homens e mulheres vivenciam essa modalidade de formas diferentes.

Conforme o estudo, os pesquisadores salientam que as mulheres são incumbidas, historicamente, ao trabalho reprodutivo e de cuidados. Dessa forma, elas estão ainda mais sobrecarregadas, pois as atividades estão concentradas aos domicílios, ou seja, tudo acontece, praticamente, no mesmo ambiente.

Aproximadamente 51% das mulheres entrevistadas relataram que passaram a trabalhar em um ritmo mais acelerado durante a pandemia. Com relação aos homens, essa percepção foi 43%. Paralelamente, mais homens relataram que o ritmo de trabalho não sofreu alterações (24%) ou que passaram a trabalhar em uma velocidade mais lenta (33%) durante o distanciamento social. Para as mulheres, esses quesitos correspondem a 43% e 17%, respectivamente.

“Historicamente, a mulher ocupa a função de cuidar do lar e da família. Isso já agrega uma rotina de atividades diárias para que tudo esteja em ordem”, destaca ao psicólogo, Silvio Vailão. “Com o passar do tempo e a entrada do mercado de trabalho, formar carreira e ter o reconhecimento profissional não fez com ela deixasse de manter todas as responsabilidades agregas a ela dentro de casa, com os filhos”.

Na avaliação do profissional, executar as atividades da rotina de trabalho dentro do lar exige ainda mais das mulheres. “Elas continuam com suas funções e responsabilidades, mas em home office. Além de saírem do ambiente doméstico, o que auxilia no processo de concentração, muitas ainda têm outros fatores que demanda atenção. Por mais que o trabalho remoto aconteça em um cômodo da casa separado, adequado para isso, ela continua em casa”.

DIFICULDADES NO HOME OFFICE – Conforme a pesquisa, 65% das mulheres e 53% dos homens tiveram dificuldades em executar o trabalho de modo remoto, enquanto 47% dos homens e 35% das mulheres disseram que não tiveram dificuldades. Para o psicólogo, essa dificuldade está relacionada a fatores externos que envolvem condições apropriadas para as atividades, reorganização dos trabalhos, convívio contínuo com os demais moradores da casa (no ponto de vista que nem todos entendem a situação, como por exemplo, filhos pequenos), entre outros.

A conclusão do relatório aponta que “quando discorreram livremente sobre suas experiências em home office, as mulheres destacaram-se pela centralidade dos termos ‘casa’, ‘filho’, ‘cuidado’ e ‘criança’, enquanto os homens utilizaram mais as palavras ‘tempo’, ‘contrato’, ‘pandemia’ e ‘casa’, sendo que esse último termo tem a ver, para eles, com a gestão do tempo e não com cuidado dos filhos e trabalho doméstico”. “Essa análise também demonstra como o trabalho remoto acontece de maneira diferente entre homens e mulheres e está relacionado com o papel social de cada um, além das particularidades deles”, aponta o profissional.

OS IMPACTOS EMOCIONAIS – “Ir para o trabalho muda todo o ambiente, ou seja, não é apenas o contexto físico, mas o emocional que envolve colocar o uniforme, se arrumar, estar apresentável, prestar o atendimento presencial, contato com os colegas de trabalho, uma série de fatores que antes da pandemia era normal, mas ainda não sabemos como será depois. O que tenho notado com muita evidência é o desgaste da mulher nessa dupla jornada. Ela está sobrecarregada, pois, antes o ir ao trabalho, deixar o filho na escola, tudo era ‘separado’. Cada uma precisa buscar estabelecer limites e cuidar para não extrapolar e, dessa forma, interferir na saúde física e emocional”, alerta.

A auxiliar administrativa, Solange Souza, relata que teve dificuldades no home office. “Não tinha uma sala exclusiva para trabalhar. Dessa forma, por vezes, era inevitável o contato com as crianças. Elas sabiam que eu estava trabalhando, mas é como se, às vezes, esquecessem. Não culpo elas por esse comportamento, afinal, nunca tinha acontecido de estar em casa, mas estar trabalhando”.

Solange relata que além do processo de adaptação com os filhos, ela também precisou se adequar a nova rotina de trabalho para atender a demanda da empresa. Ela comenta que no início foi difícil voltar todas as atividades para os atendimentos via telefone ou WhatsApp.

“Todas essas mudanças deixaram a rotina mais intensa. Antes, tinha aquela sensação de ir para casa para descansar, mas o trabalhar em casa deixa tudo diferente. É como se o ambiente domiciliar já não fosse tão prazeroso. Me sinto mais cansada, mais sobrecarregada e tendo de dar conta de todas as tarefas da mesma forma”, conclui

Dias trabalhados

O estudo aponta que o percentual de mulheres que têm trabalhado cinco dias na semana caiu de 83%, antes da pandemia, para 57%, assim como dos homens que passou de 78% para 55%. Isso se reflete no aumento de dias trabalhados semanalmente. Antes da pandemia, apenas 8% das mulheres exerciam atividades profissionais seis dias na semana. Durante a quarentena, na modalidade remota, esse percentual mais que dobrou, atingindo 19% do sexo feminino. Para os homens, trabalhar seis dias na semana passou de 10% para 16%. Já o trabalho sete dias na semana passou de uma taxa de 1% a 17% para as mulheres e de 4% a 18% para homens. Esses dados são relativos apenas ao trabalho remunerado.

Da Redação com informações da UTFPR