Produção de carros aumenta, mas setor vê movimento com cautela

Mesmo com problemas de falta de peças e o fechamento de fábricas da Ford, a indústria automobilística produziu em janeiro quase 200 mil veículos, volume 4,2% superior ao de igual mês do ano passado, quando ainda não tinha pandemia no País. Na comparação com dezembro, contudo, houve queda de 4,6%.

As fabricantes, em especial as de caminhões, contrataram 2,2 mil funcionários, a maioria por prazo determinado, de seis meses a um ano. Um exemplo é a Iveco, que abriu 478 vagas temporárias na fábrica de Sete Lagoas (MG). O segmento de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus emprega hoje 103,4 mil pessoas ante 107,2 mil há um ano. Ontem, o Grupo Caoa também anunciou 150 contratações em Anápolis (GO).

Segundo o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, há aumento de demanda e fila de espera para alguns veículos, mas o setor ainda tem dúvidas se o crescimento será mantido ao longo dos próximos meses em razão da conjuntura econômica e de impactos da covid-19.

O número não inclui os cortes que a Ford fará, de cerca de 5 mil funcionários. Neste mês, não foram divulgados dados das fabricantes de máquinas agrícolas, pois com a saída da John Deere da entidade os números comparativos ficariam distorcidos.

Moraes afirma que a falta de componentes tem levado fábricas a fazerem paradas na produção – algumas depois compensadas com horas extras e trabalho em fins de semana. Muitas fornecedoras ainda não conseguiram recuperar a produção após a parada das linhas no período mais crítico da pandemia. Entre os itens em falta estão alguns tipos de pneus e de aço, além de semicondutores. Nesse último caso, o problema é global e várias montadoras estão dando férias coletivas na Europa, EUA e Ásia em razão disso.

Outro dado positivo do setor são as exportações, que aumentaram 22% ante janeiro de 2020, embora tenham caído 35% em relação a dezembro, e somaram 25 mil unidades. Já as vendas somaram 171 mil veículos, o que significa encolhimento de quase 12% confrontado com um ano atrás e de quase 30% frente a dezembro.

“É uma queda importante e nos deixa preocupados em razão da pandemia, da falta de abono emergencial, do acompanhamento do déficit fiscal, do possível aumento dos juros e do fornecimento de peças”, afirma Moraes. Os estoques nas fábricas e revendas aumentaram pouco, de 96,8 mil para 100,8 mil unidades, ou o equivalente a 18 dias de vendas, um a mais do que no mês passado.

Subsídios

Em resposta às críticas de que as montadoras recebem muitos subsídios fiscais, afloradas quando a Ford anunciou o fechamento de suas três fábricas locais, a Anfavea preparou estudo para mostrar que o setor “é um dos que carrega a carga tributária do País e que, para cada R$ 1 recebido em desoneração, recolheu R$ 11 em impostos”, diz o executivo.

Um exemplo citado foi o programa Inovar-Auto, entre 2013 e 2017, que ofereceu incentivos para empresas que investissem em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e teve como um dos resultados a melhora da eficiência energética dos motores dos veículos nacionais.

Segundo dados da Receita Federal, a desoneração tributária foi de R$ 6,8 bilhões ao longo de cinco anos e resultou em economia anual de R$ 7 bilhões (ou R$ 35 bilhões no total) em gastos com combustíveis. Também reduziu emissões de CO2 em 2 milhões de toneladas por ano.

Irritado com declarações do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos von Doellinger, que defendeu a desindustrialização do País e a priorização de setores com vantagens competitivas, como agronegócio e mineração, Moraes sugere que “esses acadêmicos deveriam parar de olhar slides e visitar fábricas para verem a indústria 4.0 que adotamos, nossa engenharia, as pistas de testes e os empregos de qualidade que geramos”.

Num exercício sobre quais seriam os impactos de um fechamento completo do parque da indústria automotiva, Moraes afirma que, se o País tivesse de importar 3 milhões de veículos por ano (volume de vendas antes da pandemia), haveria um déficit comercial de US$ 60 bilhões a US$ 80 bilhões que reverteria o superávit da balança comercial brasileira, de US$ 51 bilhões em 2020. “Em cinco ou seis anos toda a reserva internacional do País seria consumida.” (Colaborou Eduardo Laguna)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.