‘Diálogos’: “O que está em perigo não é o planeta, mas sim a humanidade”

As conseqüências dos efeitos das mudanças climáticas à saúde humana foi o tema da primeira edição de 2021 do ciclo de seminários Diálogos Futuro Sustentável, promovido pelo iCS – Instituto Clima e Sociedade em parceria com a Embaixada da Alemanha. Com abordagem global e propostas para ações locais, o Diálogos atualizou os temas emergenciais da conexão entre clima e saúde, lançando luz sobre as decisões que precisamos tomar hoje para garantir uma vida saudável em um sentido amplo, tanto humano quanto ambiental. 

Com moderação de Marina Marçal, coordenadora do Portfólio de Política Climática do iCS, o painel O impacto das mudanças climáticas na saúde – Políticas públicas e contexto internacional reuniu Andreia Banhe, gerente-sênior para Cidades, Estados e Regiões do CDP Latin America; Christovam Barcellos, coordenador do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz e vice-diretor do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica (Icict); e a alemã Laura Jung, da Global Climate and Health Alliance e do conselho da German Alliance on Climate Change and Health (KLUG). A abertura foi de Ana Toni, diretora executiva do iCS, e Friederike Sabiel, conselheira para assuntos ambientais da Embaixada da Alemanha no Brasil.

No evento, o CDP lançou o relatório Mudança do clima e saúde urbana – Impactos e oportunidades para as cidades brasileiras, com dados inéditos sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde urbana, abrangendo 92 cidades brasileiras com 55 milhões de habitantes. O estudo  apresenta estatísticas alarmantes e aponta oportunidades de ações com impactos positivos tanto do ponto de vista ambiental como de saúde pública. Clique aqui para acessar o relatório.

Christovam Barcellos apresentou pesquisa inédita realizada pela Fiocruz com a WWF, e ressaltou que é imprescindível o diálogo entre três partes: a comunidade científica/acadêmica, os políticos e a sociedade civil. “Precisamos assumir que há processos que estão afetando a saúde da população”, disse. O estudo apresentado faz um alerta sobre a expansão geográfica da seca no país e a possibilidade de seca na Região Sudeste. “As notícias aqui no Brasil não são boas. Esvaziam-se as instituições de pesquisa e, ao mesmo tempo, os órgãos de controle ambiental. Precisamos estabelecer um consenso, investir em pesquisa. Mas o aspecto positivo é que a credibilidade da ciência está aumentando com a pandemia da Covid-19.”

O governo da Alemanha, que caminha para a neutralidade de carbono em 2045, após advertência do tribunal constitucional anunciou em maio metas climáticas ainda mais ambiciosas, que preveem a redução de emissões em 65% até 2030. Ana Toni concluiu alertando que “não é o planeta que está em perigo, mas sim a humanidade” e que é urgente que se faça algumas apostas: na ciência e educação; na cooperação, não só entre países, mas entre sociedades; e na valorização da solidariedade. 

A íntegra do webinário pode ser assistida no YouTube do iCS:

DESTAQUES

– Os efeitos causados pelas mudanças climáticas impactam a saúde humana principalmente de três formas: Impacto direto – mortalidade e morbidade geradas pela poluição do ar por veículos, indústrias e queimadas; impacto indireto relacionado às mudanças ambientais – alterações nos padrões de transmissão de doenças por
mosquitos ou carrapatos; impacto indireto relacionado aos sistemas sociais

– doenças mentais advindas de conflitos em deslocamentos populacionais, desnutrição, insegurança alimentar, perdas econômicas geradas pelas alterações no clima, entre outras. 

– Relatório do CDP Latin America aponta que foi estimado um custo de US$ 1,7 bilhão anuais por mortes prematuras por poluição do ar em 29 capitais brasileiras.

– Estudo realizado pela Fiocruz e WWF revela que 60% do Material Particulado (MP) inalado no Brasil é proveniente da queima da floresta amazônica. Em 2019 houve 2.500 hospitalizações por mês de crianças na região amazônica em decorrência da poluição das queimadas. E a exposição crônica à fumaça faz com que os indivíduos mais vulneráveis à Covid-19 possam apresentar formas mais graves da infecção.

-O surgimento da Covid-19 evidencia a necessidade iminente de um esforço preventivo no controle de zoonoses. Os custos associados aos esforços preventivos seriam substancialmente menores comparados com os custos econômicos, sociais e de saúde no controle de potenciais epidemias e ou pandemias. A associação entre o desmatamento, queimadas e degradação da floresta e a emergência de vírus sugere que esforços para manter a cobertura florestal têm um grande retorno sobre o investimento, devendo ser uma prioridade governamental.

– A Alemanha se encaminha para a neutralidade de carbono em 2045. Em maio, governo apresentou projeto de lei com metas climáticas mais ambiciosas, que prevê a redução de emissões em 65% até 2030.

– Entre as medidas globais apontadas como urgentes, um dos destaques é a necessidade de as nações investirem na distribuição de poder, e nesse quesito a justiça de gênero é uma importante aliada da justiça climática

– Não é o planeta que está em perigo, mas sim a humanidade. Nesse contexto, é urgente que se faça algumas apostas: na ciência e educação; na cooperação, não só entre países, mas entre sociedades; e na valorização da solidariedade.

PALESTRANTES

Andreia Banhe, gerente-sênior para Cidades, Estados e Regiões

CDP Latin America

Responsável pelo CDP cidades, estados e regiões para a América Latina. É uma das autoras do relatório “Mudança do Clima e Saúde Urbana – Impactos e oportunidades para as cidades brasileiras”. Graduada em Engenharia Bioquímica pela Escola de Engenharia de Lorena EEL USP e pós-graduada em Ciências do Meio Ambiente pela Brunel University no Reino Unido. Antes de integrar a equipe do CDP, trabalhou na Trucost em Londres, auxiliando a BM&FBOVESPA e o BNDES no lançamento do Índice Carbono Eficiente (ICO2), e em consultoria na área de sustentabilidade. 

Christovam Barcellos, coordenador do Observatório de Clima e Saúde

Fiocruz

Vice-diretor de Pesquisa, Ensino e Desenvolvimento Tecnológico do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica (Icict). Graduado em Geografia pela UERJ, graduado em Engenharia Civil pela UFRJ, mestre em Ciências Biológicas pela UFRJ e doutor em Geociências pela UFF. Trabalhou como sanitarista das secretarias estaduais de saúde do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Atua na pesquisa e ensino de Geografia da Saúde, com ênfase em Vigilância em Saúde, principalmente nos temas de: geoprocessamento, análise espacial, indicadores de saúde e sistemas de informações geográficas.

Laura Jung 

Global Climate Health Alliance

Laura Jung é membro do conselho da German Alliance on Climate Change and Health (KLUG) e defensora da causa de saúde planetária. Laura é graduada em Saúde Pública pela London School of Hygiene and Tropical Medicine e trabalha atualmente como residente médica na Universidade de Leipzig, o que lhe proporciona uma perspectiva única acerca das desigualdades no campo da saúde provocadas pelo clima. Sua pesquisa foca nos desafios de comunicação sobre mudanças climáticas para profissionais de saúde, assim como em doenças infecciosas e saúde planetária. Além disso, Laura atua como associada para políticas do Women Leaders for Planetary Health e apoia o Global Climate and Health Alliance.

O Global Climate and Health Alliance é uma aliança global de instituições que advoga pelo entendimento de que as mudanças climáticas são o maior risco para a saúde humana de nossos tempos, com dedicado trabalho à inserção da temática no âmbito da COP26 e no que tange às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) dos países.

MEDIAÇÃO

Marina Marçal, coordenadora do Portfólio de Política Climática

Instituto Clima e Sociedade

Ecofeminista negra e advogada, no iCS trabalha pela construção de estratégias de implementação da NDC brasileira. Doutoranda e mestra em Sociologia e Direito na linha de pesquisa de Conflitos Socioambientais, Rurais e Urbanos pela UFF, onde se graduou. Também é mestra em Relações Étnico-Raciais pelo CEFET. Tem experiência em pesquisas pela FAPERJ e FIOCRUZ (incluindo o Mapa de Conflitos de Injustiça Ambiental no Brasil), envolvendo povos indígenas, comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais. Foi pesquisadora de extensão pelo Centro de Assistência Jurídica da UFF na Amazônia com trabalhos de campo em Oriximiná, em parceria com a Defensoria Pública, o Tribunal de Justiça e o Ministério Público do Estado do Pará. Foi citada em 2018 pelo The Intercept Brasil em uma lista de 138 especialistas negros. Além de atuar em escritórios de advocacia, foi analista de Política e Incidência na área de Setor Privado, Direitos Humanos e Desigualdades na Oxfam Brasil. 

Da Assessoria