Toledo

As primeiras damas de ouro: uma trajetória de impacto na comunidade

Mãos com marcas de 50 anos, 25 anos e um ano de idade carregam com entusiasmo as lembranças e vivem os anseios da corrente do bem (Foto: Janaí Vieira)

A educanda que vivenciou as mudanças, hoje, já é uma mãe de família e se dedica ao ensino dos pequenos. Já aquela que foi a idealizadora das oportunidades, atualmente, está na área de psicologia. Ao mesmo tempo, muitas outras mulheres trabalham no local que foi o ‘berço’ e continua sendo o espaço de acolhimento de crianças e adolescentes de Céu Azul. Diversas histórias de conquistas e mudanças aconteceram, porque elas tiveram coragem, determinação e um sonho em comum.

Cinquenta anos atrás não se falava em empoderamento feminino, mas elas já sabiam da força que tinham. Um exemplo disso é a implantação da Associação das Crianças e Adolescentes de Céu Azul (Acazul). Ela foi criada no mesmo ano da Associação das 1ªs Damas dos Municípios do Oeste do Paraná (Adamop). Fundada em 2 de abril de 1993, a Associação das 1ªs Damas está longe de completar meio século, mas em seu tempo de atuação já permitiu que os municípios evoluíssem mais de 50 anos, especialmente, com o trabalho desenvolvido na assistência social.

Toda a semente plantada em terra fértil consegue gerar frutos. No mesmo ano que foi implantada a Adamop, ‘nascia’ em Céu Azul a Escola Oficina, que atualmente, é mais conhecida como Acazul. A entidade atendia a legislação e ia além das exigências técnicas. O trabalho desenvolvido com amor permitia que os atendidos tivessem novas oportunidades.

“Eu entrei na entidade logo que ela abriu. Tinha apenas sete anos”, recorda a ex-educanda e ex-educadora da entidade, que hoje é mãe de família e professora, Deyse Gisele de Lima Metz. “A Escola Oficina abriu uma porta na minha vida. Foi meu segundo lar quando era criança, emprestou uma ‘mãe’ para suprir algumas carências e permitiu que eu não apenas sonhasse, mas tivesse a certeza de que poderia realizar meus sonhos”.

A infância dessa jovem mulher foi marcada por perdas. Primeiro foi o falecimento do pai, quando ela tinha apenas um ano de idade. Depois, foi a mãe. Mas com oito anos, Deyse já sabia quanta dor a morte pode trazer. A avó passou a ser a responsável pela criação da menina e seus dois irmãos mais novos.

A entidade prestava o atendimento no contraturno. Era a oportunidade que crianças como ela tinham para ficarem assistidas e longe das ruas. Ela ficou na Escola Oficina até os 16 anos. Durante este período, participou de quase todas as oficinas ofertadas. Saiu de lá com um emprego, algo que era possível na época.

“Mais do que o ensino, a Escola Oficina trouxe acolhimento. Cada refeição tinha um sabor muito gostoso, trazia aquele gostinho de comida caseira. A atenção, o carinho e a dedicação dos educadores também foram essenciais para minha formação como cidadã. Tinha uma educadora, a Clair Eidt, que cada vez que eu abraçava sentia um cheiro de mãe nela, era como se aquele abraço suprisse algo que eu não tinha em casa”, recorda a professora.

 

SONHO REALIZADO - Para Deyse, essas experiências fizeram ela ter o desejo em ajudar outras crianças e adolescentes. Já adulta recebeu o convite para integrar a equipe de profissionais da Acazul. Como educadora, ela teve a chance de levar mais do que ensino aos seus educandos. Ela também levou atenção, bons conselhos, carinho e fortaleceu os sonhos deles.

“Novamente na entidade, mas como educadora, tive a certeza de que meu dom era trabalhar com criança. De repente, o sonho de fazer um curso superior está mais próximo do que eu imaginava. Decidi cursar pedagogia. Passei em um concurso público e aceitei o desafio e os encantos de ensinar os pequenos. Agora, adulta vejo como iniciativas podem transformar a vida das pessoas. Ações que geram consequências, que incentivam outros projetos e que fazem essa rede do bem crescer. É a força da mulher corajosa que com aquele olhar especial vê as oportunidades nos lugares mais inusitados e nas pessoas que mais precisam de ajuda”.

 

PRIMEIRAS DAMAS DE OURO - A Adamop é uma extensão da Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (Amop), pois, na época, permitiu capacitar as primeiras damas para atenderem as mudanças na legislação voltadas a assistência social. Era preciso que o assistencialismo passasse a ofertar algo mais do que a ajuda básica. A ideia era preparar as crianças e os adolescentes para o mercado de trabalho e fazer com que eles acreditassem em seus sonhos.

“A primeira reunião da Adamop foi realizada em Céu Azul”, recorda a primeira presidente da Associação e idealizadora do projeto Margarida Casalli Betto. “Na época, o presidente da Amop era o João, meu esposo. Ele promoveu um encontro da Amop na cidade e eu apresentei essa ideia. Todos os prefeitos sabiam da necessidade em atender as mudanças nas secretarias de Assistência Social e desenvolver trabalhos mais técnicos nessa área; era essa a nossa proposta para a Adamop”.

Margarida conquistou as primeiras damas com os projetos. A idealizadora destaca que foi fundamental o apoio e empenho do esposo e a colaboração da primeira dama do Estado, que na época era Marlene Pereira.

As primeiras ações da entidade estiveram voltadas as capacitações das primeiras damas, especialmente, em relação aos atendimentos voltados a área de assistência social. Entre as dificuldades da época, elas tiveram que enfrentar a falta de espaço junto a Amop para realizarem seus encontros, além do recurso escasso para as promoções necessárias.

“A Escola Oficina se tornou um modelo para as primeiras damas e os prefeitos”, afirma Margarida. “Era o sonho de transformar a vida daquele adolescente desassistido a ter aprendizado e, com isso, carreira profissional e ser um verdadeiro cidadão. Sinto a sensação de missão cumprida ao ver que a Adamop continua em atividade e lutando para trazer melhorias aos municípios e satisfação em saber que a Acazul pode dar novas oportunidades aos seus atendidos”.

 

O PODER DA CIDADANIA – Os princípios da cidadania sempre estiveram ‘estampados’ na entidade. A Acazul foi fundada na data de 27 de agosto de 1993. No início ofertava oficinas profissionalizantes. A metodologia de atuação mudou em 1998 com as propostas de erradicação do trabalho infantil.

“A entidade deixou de ofertar as oficinas profissionalizantes, por entender que elas poderiam oferecer alguns riscos as crianças. Com essas mudanças, os trabalhos passaram a ter foco cultural, musical e artístico”, explica a atual diretora Célia Maria da Silva Blath.

A Acazul atende crianças e adolescentes entre 6 a 15 anos no contraturno escolar. A escolha dos atendidos acontece de acordo com os encaminhamentos via Secretaria de Assistência e Ministério Público. Quando sobram vagas, as oficinas são abertas à comunidade. Atualmente, ela possui 166 educandos.

“Temos a busca constante pela cidadania. Permitir que essas crianças e adolescentes, que muitas vezes tiveram os direitos violados e foram vítimas de violência, faz com que cada educador tenha um papel importante na vida deles, pois leva mais que ensino, eles ofertam atenção e enxergam os educandos com um olhar diferenciado com a intenção de mostrar que todos os obstáculos podem ser superados e que os sonhos não são realidades distantes”, enfatiza a diretora.

 

MULHERES EM AÇÃO - Em outubro de 1999, a Adamop foi reconhecida como utilidade pública municipal. No mês de dezembro de 2000, ela passou a ser utilidade pública estadual e em 17 de dezembro de 2002, a Associação recebeu o título de utilidade pública federal. “Ainda vivemos os mesmos desafios do início, contudo, evoluímos muito. Conseguimos mostrar que a primeira dama é uma guerreira ao lado de seu esposo. Somos uma extensão da Amop e sabemos que podemos contar com o apoio da Associação. É vibrante ver as histórias de batalhas e conquistas de diversas mulheres que fizeram parte da Adamop e todas as iniciativas que elas resultaram”, avalia a presidente da Adamop, primeira dama da cidade de Terra Roxa, Márcia Maria Sônego de Pádua, ao reforçar que em 50 anos de história fica nítida a conexão entre as mulheres que lutam pelo mesmo objetivo: um futuro melhor para todos.