Violência nos levou ao ativismo, diz Erika Hilton, 1ª negra trans na Câmara de SP

Aos 27 anos, Erika Hilton (PSOL) se tornou a primeira mulher negra e trans eleita para a Câmara Municipal de São Paulo. Foi também a mulher mais votada, com mais de 50 mil votos. O resultado veio com a totalização das urnas neste domingo, 15, mas a militância, segundo Erika, vem de muito antes.

Além de indicarem um arrefecimento do discurso antipolítica que ajudou a eleger Jair Bolsonaro, as eleições de 2020 foram marcadas pelo crescimento da chamada política identitárias nas Câmaras Municipais. Ao menos 25 transexuais e travestis foram eleitos vereadores em todas as regiões do País.

“Eu tenho uma trajetória muito parecida com a das mulheres trans e travestis: expulsa de casa, vivenciando a prostituição muito jovem. Nesse lugar, a gente conhece a desumanização, a violência do Estado e das pessoas contra o corpo negro, contra o corpo trans”, relata Erika. “A partir dessas violências todas, a gente percebe a necessidade de se organizar para construir um ativismo.”

Erika concorreu a um cargo eletivo pela primeira vez em 2016, quando se lançou para a Câmara Municipal de Itu, no interior paulista – mas não levou a campanha adiante. Já em 2018, concorreu em uma chapa coletiva do PSOL para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), e acabou eleita como uma das codeputadas da Bancada Ativista (PSOL). Deixou o mandato este ano para concorrer a uma vaga na Câmara Municipal.

A política institucional, em sua visão, é uma maneira de levar adiante temas que lhe são caros – e que, sem a presença de alguém que os represente, seguiriam descartados. Na vereança, Erika pretende reforçar o projeto transcidadania, além de instituir o “Troféu Maria Carolina de Jesus”, destinado a mulheres catadoras.

Filha mais velha entre três irmãs, ela conta que nasceu em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo, cresceu em Francisco Morato, também na Grande SP, e se mudou para Itu aos 14 anos. Lá, sua mãe se aproximou de uma igreja que Erika descreve como “fundamentalista” – e cuja pregação culminou na sua expulsão da casa da família, aos 15 anos.

“Sempre fui trans, falava que era ‘Maria do Bairro’, ninguém nunca me reprimiu. Minha mãe sempre me deu liberdade, mas, quando ela se converte ao fundamentalismo, começa a achar que aquilo é errado, e aí me expulsa de casa. Na rua, começo a me prostituir, passo por casas de cafetinas, até resgatar a relação com a minha mãe, que compreende que aquilo que ela estava fazendo era errado”, contou Erika.

Já aos 19 anos e reconciliada com a família, terminou o colégio por meio do Ensino de Jovens e Adultos (EJA), e foi cursar pedagogia e gerontologia na Universidade Federal de São Carlos, no interior.

Foi ao fazer parte da equipe que fundou o cursinho pré-vestibular da faculdade, destinado a pessoas trans, que ela conta que percebeu o potencial da política institucional para levar sua pauta adiante. “A partir daí, você já sabe”, diz ela, que narra sua trajetória política que se iniciou com a disputa pela Câmara Municipal de Itu e chega agora à Câmara Municipal de São Paulo. “Me sinto vitoriosa, porque essa é uma construção vinda de muito tempo”, finaliza.

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