Editorial
Santo de casa...

O Diário Oficial da União publicou a Medida Provisória assinada pelo presidente Jair Bolsonaro que permite a empresas de capital aberto a publicação de balanços no site da Comissão de Valores Mobiliários ou do próprio Diário Oficial, em vez de em jornais impressos. É mais uma vez o presidente dando mostra de seu descontentamento com a imprensa, dessa vez a de papel, cujas opiniões nem sempre são favoráveis ao atual governo que, embora possa ter acertos no varejo, comete erros no atacado.

Dessa vez Bolsonaro não fez questão de esconder sua opinião e, em dois discursos, ressaltou que a Medida Provisória era uma retaliação à “imprensa de

papel” e citou especificamente o jornal Valor Econômico. “No dia de ontem (terça) eu retribuí parte daquilo que grande parte da mídia me atacou. Assinei uma Medida Provisória fazendo com que os empresários, que gastavam milhões de reais para publicar obrigatoriamente, por força de lei, seus balancetes nos jornais, agora podem fazer no Diário Oficial da União, a custo

zero. (...) Eu espero que o Valor Econômico sobreviva à Medida Provisória”.

Esquece, entretanto o nobre presidente, que sua decisão não terá impacto apenas junto ao Valor Econômico, mas em centenas de outros jornais país afora, muitos deles com poder de fogo infinitamente menor.

Em nota, a Associação Nacional de Jornais afirmou receber com surpresa e estranheza a decisão: “Além de ir na contramão da transparência de informações exigida pela sociedade, a MP afronta parte da Lei 13.818, recém-aprovada pela Câmara e pelo Senado e sancionada pelo próprio presidente da República em abril. Por essa lei, a partir de 1º de janeiro de 2022 os balanços das empresas com ações negociadas em bolsa devem ser publicados de modo resumido em veículos de imprensa na localidade sede da companhia e na sua integralidade nas versões digitais dos mesmos jornais”.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), defendeu a construção de acordo no Congresso Nacional para que os jornais não sejam inviabilizados pela MP. “Minha preocupação é que o papel jornal ainda é um instrumento da divulgação da informação, da garantia da liberdade de imprensa e de expressão da nossa democracia. Retirar essa receita dos jornais da noite para o dia não parece a melhor decisão”, afirmou Maia.

Não se trata apenas de receita, mas de respeito, algo que nas bandas toledanas também não se tem quando se trata de valorização. É a velha máxima do santo de casa que não faz milagre.