Editorial
Vai entender

No âmbito da administração pública no Brasil, ao menos onde se tem um mínimo de seriedade na condução da máquina estatal, a ordem é cortar gastos onde for possível. Gastos considerados exagerados ou que sejam questionáveis devem ser evitados de todas as maneiras e aí não apenas pela questão econômica em si, mas também por uma tentativa moral de reaproximação entre a classe política e os verdadeiros donos do poder, no caso os eleitores. Assim tem sido desde o início da gestão do prefeito Lucio de Marchi em Toledo, com o governador Carlos Massa Ratinho Junior no Paraná e até com o presidente Jair Bolsonaro no sempre minado campo de Brasília.

Na contramão de tudo aquilo que vem sendo feito em muitos cantos do país, eis que nesta segunda-feira está prevista a votação de um Projeto de Resolução, na Ordem do Dia da Câmara Municipal de Toledo, de deixar boquiaberto o cidadão ainda crente em dias melhores. Pela proposta o valor da diária dos vereadores poderá chegar a R$ 850,00, enquanto o número de viagens poderá dobrar, passando para até quatro viagens para qualificação por ano.

Embora alguns atuais ocupantes de vagas dentro do Legislativo local pensem fazer o que bem entender com seu mandato, na prática não é bem assim, até porque este é um poder transitório e concedido através do voto. Embora também a maioria da população não esteja nem aí para o que acontece dentro do Plenário Edílio Ferreira, ainda assim há quem se preocupe e busque fiscalizar as ações dentro da Câmara Municipal. Mesmo com críticas, ataques virulentos ou ameaças.

Não se discute a legalidade da decisão, caso esta seja aprovada pela maioria dos vereadores na sessão desta segunda-feira (7). Há orçamento e a proposta atende aos preceitos exigidos pelo que determinam as regras. O questionamento a ser feito é se esta é uma decisão moralmente aceitável num momento tão delicado para a economia e para a sociedade como um todo. Em tempos onde se busca a economia e o controle de gastos – e aí não apenas no serviço público, haja vista muitas famílias enfrentarem situações humilhantes pela falta de dinheiro e de emprego – eis que alguns vereadores surgem com a proposta de elevar gastos.

A votação será um ótimo termômetro para saber se os discursos inflamados em favor dos menos favorecidos é apenas verborragia ou se trata realmente de um sentimento digno de compaixão. Cabe à sociedade decidir isso mais tarde, mais precisamente em 2020, quando novas eleições virão e velhos atores estarão uma vez mais em cena.