Pavimentação com bastidor inusitado transforma realidade de Palotina

Outubro de 2019. Valdinei Navarro, encarregado e faz-tudo de uma granja da Linha Concórdia, em Palotina, no Oeste do Estado, grava um vídeo em cima de um caminhão passando sobre um asfalto novo em Francisco Alves, cidade vizinha, e reivindica modernização similar ao seu quintal. “Gostaria que nos espelhássemos nesse exemplo. Não é feio se espelhar no que dá certo. Pavimentação ajuda os trabalhadores no dia a dia, principalmente para os produtores rurais”. A reivindicação levava a assinatura informal de todos os empresários do campo da região.

No mesmo mês ele conseguiu o número do WhatsApp do governador Carlos Massa Ratinho Junior e mandou o vídeo solicitando apoio à sua demanda, ou ao menos uma luz junto à Prefeitura de Palotina. A resposta foi bem simples: “vamos resolver”.

Entre novembro de 2019 e março de 2020. A pedido do governador, o secretário estadual da Agricultura e do Abastecimento, Norberto Ortigara, liga para Valdinei e pede informações detalhadas da Linha Concórdia, principalmente sobre o trecho mais crítico a ser atendido. Ele cruza o pedido dos produtores rurais com as demandas da própria pasta para a região e o projeto começa a tomar corpo estrutural. Em seguida a secretaria viabiliza financeiramente o investimento em um convênio junto à prefeitura.

Fim do primeiro semestre de 2020. O Estado disponibiliza R$ 535 mil para a licitação da pavimentação poliédrica de um trecho de 2,4 quilômetros, com grama nas laterais e desenho adequado para drenagem. O certame é vencido por R$ 445,8 mil.

Junho de 2020. As máquinas começam a trabalhar na pista, que é alargada e redelineada. As obras contam com apoio dos “fiscais informais da comunidade”.

Outubro de 2020. Obra concluída e entregue, exatamente um ano depois do inusitado pedido original do produtor rural que pipocou na tela do celular do governador em uma quinta-feira à noite.

LINHA CONCÓRDIA – A Linha Concórdia reúne produtores rurais de frango, suínos, soja e milho, cooperados da C.Vale, uma das maiores agroindústrias da América Latina. Essa região produz 4,5 mil leitões por mês e 720 mil aves para abate a cada dois meses, em um espaço de cerca de 300 alqueires de terra. Além disso, é um “caminho da ração” da região, conectando produtores e consumidores do complexo de carnes de Guaíra, Terra Roxa, Palotina, Toledo e Assis Chateaubriand.

Palotina é uma das terras do bilhão. A Secretaria da Agricultura e do Abastecimento divulgou neste mês o relatório final do Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) de 2019. Além de revisar o faturamento total do Estado para R$ 98,08 bilhões, valor nominal recorde na série, o balanço mostra que, pela primeira vez, o Paraná teve nove municípios com VBP superior a R$ 1 bilhão, cinco a mais do que no levantamento de 2018.

“Palotina tem a C.Vale, cooperativa que é exemplo para o País e que planeja gerar novos empregos, e um ecossistema muito organizado dos produtores rurais. O Governo do Estado entra nesse circuito com reforço na infraestrutura do campo. Estamos projetando transformar o Paraná em um hub logístico da produção rural do País, por isso estimulamos cada vez mais investimentos nas estradas rurais”, afirma o governador Carlos Massa Ratinho Junior. “A Linha Concórdia é uma promessa que virou realidade”.

A linha fica na região Sudoeste do município, perto do Parque Estadual São Camilo, do campus da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e do complexo agroindustrial da C.Vale, que emprega 7 mil pessoas e que receberá, num futuro próximo, uma esmagadora de soja com investimento de R$ 552 milhões. Em suas projeções para as próximas três décadas, a C.Vale pretende ampliar o complexo agroindustrial da cidade, saltando de 74 mil metros quadrados para 321 mil metros quadrados, com a expectativa de dobrar os empregos diretos.

“A Linha Concórdia é uma artéria de acesso dos produtores com a cooperativa. A pavimentação poliédrica na região melhora as conexões, o escoamento e o planejamento dos próximos investimentos dos empresários do campo. É uma área que produz com responsabilidade ambiental e que tem capacidade para aumentar suas plantas nos próximos anos com a conquista de novos mercados para as cadeias de frangos e suínos”, complementa o secretário estadual da Agricultura e do Abastecimento, Norberto Ortigara.

Ele destaca que essa pavimentação teve caráter especial porque contou com um “síndico” que ficou no pé dos técnicos do Estado. “É bom quando conseguimos tirar do papel, e em tempo hábil, uma transformação social que acaba com os problemas da chuva ou do excesso de sol. Estamos investindo em estradas rurais em todo o Paraná para reforçar duas das nossas principais qualidades: a produção do campo, ou a capacidade de alimentar o mundo; e a conexão logística com outros estados e países”, reforça Ortigara.

O responsável por viabilizar o negócio na ponta foi o chefe do escritório regional da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento em Toledo, Paulo Salesse. “Temos como meta impulsionar a cadeia de carnes da região Oeste como um todo. Já somos um polo produtor nessa área e um dos objetivos é ajudar a pavimentar essas estradas vicinais”, afirma. “Esse projeto casou o planejamento político do Governo do Estado, a necessidade da região e a demanda de um grupo de famílias que se organizou em torno da ideia. O resultado foi um projeto rápido e duradouro”.

TRANSFORMAÇÃO – O produtor rural Leonardo José Miotto, da granja de mesmo sobrenome, pleiteia essa transformação desde os anos 1990. “Nasci e me criei aqui na Concórdia. Instalamos os aviários em 1998 e desde então pedimos essa pavimentação, que é fundamental para o trânsito dos caminhões. Precisávamos dessa estrada renovada. Temos 25 funcionários trabalhando 24 horas por dia em turnos”, destaca. “A estrada é essencial para situações de sol e chuva”.

A pavimentação poliédrica tem como meta manter o homem no campo, auxiliar a contratação de mais funcionários e gerar segurança aos investimentos necessários nessa área, levando em consideração o ambiente de sanidade e qualidade de vida animal. A Miotto, por exemplo, entrega 550 leitões de 23 quilos por semana para o processo de engorda nos terminadores, que levam o leitão a 110 quilos. Depois do abate, 70% da carne de porco é industrializada em processados, como bacon e presunto.

“Moramos aqui desde 1969 e sempre foi complicado sair daqui com a produção. Precisávamos de mais mão de obra com os investimentos que fizemos na suinocultura e na avicultura nos últimos anos. E estava difícil contratar com essa estrada. Agora, com a pavimentação, daremos mais qualidade de vida aos trabalhadores. É possível ir até o Centro com tranquilidade e rapidez, é uma exigência dos nossos dias”, diz Luís Carlos Miotto, irmão de Leonardo.

João Carlos Rossato mora na Linha Concórdia desde 1991 e tem história similar em outra propriedade, intercalada por problemas com chuva e sol. “Sempre tivemos uma estrada barrenta ou com muita poeira. Tentávamos arrumar a estrada por conta própria e viabilizar ela politicamente. Moro na parte mais baixa da comunidade, então à tarde era tanta poeira que tinha que tirar a roupa do varal. Algo simples, mas que nos complicava a vida”, reforça. “Faz tempo que diziam que iam fazer e não faziam. Agora fizeram”.

Leonir José Beninca diz que, apesar de curto, com menos de três quilômetros, esse era um trecho desgastante do município. “É um sonho realizado. Cheguei a contar 50 caminhões em uma hora passando pela Linha Concórdia. Essa é uma ligação com outros municípios, é parte da estrutura ligada à C.Vale. Estamos com intenção de investir mais nos próximos anos, e a estrada é fundamental para isso”, afirma. Ele também produz frangos e suínos (resultado revertido no dia a dia da fazenda) e soja (usada para investimentos).

“É uma região muito produtiva da cidade. E é um investimento que chega no momento que o município ultrapassa R$ 1 bilhão em valor de produção. Palotina é um polo de suínos, frango, leite, grãos. Sem contar o grande benefício para quando os ônibus escolares voltarem a circular para pegar as crianças nas comunidades”, completa o secretário municipal de Agricultura, Antoninho Chechi.

“Estamos fazendo recapes, tem recursos do Estado e da União, e agora temos o contorno com as obras em andamento. É uma previsão para aliviar o trânsito, facilitar para o produtor rural. Talvez daqui a pouco passamos de R$ 2 bilhões”, acrescenta Chechi.

Para Valdinei, autor do vídeo que deu o pontapé inicial da obra, a transformação não pode parar. Ele tem planejado uma segunda etapa para complementar o acesso até a C.Vale, olhando da Linha Concórdia à direita, e ao Centro de Palotina, à esquerda – há 1,8 quilômetro para concluir essa pavimentação. A primeira parte, à direita, de 600 metros, deve ser realizada já nos próximos meses com a sobra de caixa da licitação original.

“A gente já vinha há longos anos aqui reclamando. Eu fui em Francisco Alves e vi asfalto bom, e achei que a gente também merecia isso. Mandei o vídeo para o governador e logo ele me atendeu. O secretário de Agricultura e a prefeitura agilizaram o projeto”, arremata Valdinei Navarro, paraguaio de nascimento que trabalha há 18 anos na propriedade dos Miotto.

Desde o mês passado ele encerrou o seu terceiro turno: pilotar o caminhão-pipa para “apagar o pó”. Agora basta andar sem se preocupar com a estrada.

ALTO SANTANA – O Governo do Estado também investiu R$ 355.756,24 na pavimentação poliédrica de um trecho de 1,5 quilômetro no Alto Santana. A obra tem como principal objetivo facilitar o acesso dos caminhões ao aterro sanitário de Palotina, além de englobar outra área com produtores rurais, próximo da conexão com o novo contorno, em direção a Terra Roxa.

Estado investe R$ 61,2 milhões em estradas rurais

A Secretaria da Agricultura e do Abastecimento já investiu R$ 61,2 milhões em convênios para pavimentação ou readequação de estradas rurais em todas as regiões do Estado. Já foram contemplados 55 municípios dentro dessa estratégia de melhorar o escoamento da produção rural e o cotidiano das famílias que vivem no campo, totalizando cerca de 138 quilômetros.

As iniciativas fazem parte do Programa Estradas Rurais Integradas aos Princípios e Sistemas Conservacionistas – Estradas da Integração, gerenciado pelo Departamento de Desenvolvimento Rural Sustentável (Deagro). Os investimentos englobam liberações de 2019 e 2020.

Esse programa será ampliado com o financiamento de R$ 1,6 bilhão que o Governo do Estado captou em um consórcio de bancos. Pelas projeções, cerca de R$ 126 milhões serão destinados a obras de reestruturação nas vias do campo, perfazendo aproximadamente 400 quilômetros das 23 regionais da secretaria estadual.

“O Paraná tem como estratégica apostar nas suas vocações, e o agronegócio é responsável por cerca de 35% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado. Essas intervenções na malha rural preparam o Paraná para crescer e atrair novos parceiros para investimentos, dentro da nossa estratégia de ser um grande hub logístico da América do Sul”, arremata o governador Carlos Massa Ratinho Junior.

No planejamento futuro do Governo do Estado consta a pavimentação de 4.163 quilômetros, atendendo 2.392 comunidades e 73.165 famílias de 367 municípios do Paraná. O Paraná tem cerca de 120 mil quilômetros de vias rurais.

 

Contorno de Palotina vai ajudar ainda mais o município

Estão em andamento novamente as obras do Contorno Leste de 15,6 quilômetros nos arredores do município, nas áreas em que antes os olhos alcançam apenas plantações. Elas foram anunciadas há alguns anos, mas ficaram paralisadas por problemas burocráticos. A intervenção deverá marcar um novo estágio do crescimento de Palotina, que fica entre Cascavel e Umuarama, e é um centro do agronegócio do Paraná e da recente industrialização da cadeia de peixes, projetando alcançar R$ 2 bilhões de Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) no médio prazo.

O investimento do Governo do Estado, por meio do Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR), é de R$ 43,7 milhões. As obras atingiram 19,7% no final de setembro. Haverá, ainda, duas novas pontes de concreto armado sobre os rios Arroio Pioneiro e Santa Fé, já licitadas por R$ 5,3 milhões, e cinco rotatórias.

O novo contorno vai desviar o fluxo de caminhões do Centro e é uma grande alça em torno das duas principais rodovias que cortam o município e que atualmente se encontram numa espécie de X bem no coração de Palotina. O projeto prevê uma pista de trânsito rápido (80 km/h a 100 km/h) e, numa hipotética entrada pela PR-182 (chegada de Cascavel), três conexões: até a saída para Assis Chateaubriand (PR-364), um reencontro com a PR-182 no sentido a Umuarama e novamente com a PR-364, desta vez com direção a Terra Roxa.

 

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