Pandemia fez cair em mais de 80% o número de mamografias realizadas no país

Não bastassem as mais de 530 mil mortes e os quase 20 milhões de diagnósticos no Brasil, os cuidados com a saúde da mulher também foram afetados pela pandemia de Covid-19. Dados do Ministério da Saúde de outubro do ano passado demonstram que houve queda de 84% no número de mamografias feitas no país entre 2019 e 2020.  Para debater o tema e as consequências destes números e apontar soluções, a presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Assembleia Legislativa do Paraná, deputada Cantora Mara Lima (PSC), realizou uma audiência pública remota nesta terça-feira (13), com o tema “Diagnóstico precoce – a preocupante queda dos números de mamografias no Brasil durante a pandemia de Coronavírus”. “Convidamos especialistas renomados na área para discutir esse tema tão importante que tem apresentado impactos diretos na oncologia e mastologia e o que nós, como parlamentares, podemos fazer para minimizar as consequências disso para nossas mulheres”, afirmou a deputada. 

Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), 70 mil diagnósticos de câncer deixaram de ser realizados no período mais crítico da pandemia em 2020, entre os meses de março e junho.

O Sistema Único de Saúde (SUS) indica ainda que entre janeiro e junho de 2019 foram realizados 180.093 exames na rede pública, enquanto no mesmo período de 2020 a quantidade de exames caiu para 131.617. “E os reflexos dessa realidade podem, a curto e médio prazos, desencadear em um aumento nos índices de tumores descobertos em fase mais avançada”, justifica a parlamentar.

A audiência contou com representantes do Hospital Erasto Gaertner; do Hospital do Câncer de Londrina; do Hospital Uopecan, de Umuarama; do Hospital Evangélico; e da Associação Amigas da Mama.

Maria Christina Figueroa Magalhães, oncologista do Hospital Evangélico de Curitiba, explicou a queda nos números do rastreamento e do diagnóstico do câncer de mama, após o início da pandemia no Brasil, apresentando números que demonstram a importância desse rastreamento a partir dos 40 anos no caso do câncer de mama, com redução de 30% na mortalidade graças às mamografias e a importância das campanhas como o Outubro Rosa. Ressaltando que, entre os principais fatores da redução ainda estão a dificuldade de acesso aos mamógrafos e até a qualidade dos equipamentos. A médica também apresentou estudos feitos nos Estados Unidos e no Brasil onde houve queda acentuada nos diagnósticos em 2020. “Aqui no Brasil, houve um declínio total de 43%, em média, em todos os níveis de atendimento. O estado com maior alta foi Rondônia, com 67% e o que registrou menor redução foi São Paulo, beirando os 40%”, explicou.  Outro dado trazido pela especialista é que, em muitos casos, as mulheres já apresentavam nódulos palpáveis, como consequência do atraso dos diagnósticos.

Isabella Morais Tavares Huber, da Uopecan, em Umuarama, trouxe números da região Noroeste, onde atua, como a redução de mais de 3 mil pacientes entre 2019 e 2020.  Em mamografias, a queda foi pela metade: de pouco mais de 9 mil para 5 mil. E de 60 mil para 30 mil em consultas.  A paralisação das cirurgias eletivas também trouxe repercussões negativas para o câncer. “Com o adiamento das cirurgias agendadas, alguns pacientes acabaram evoluindo para casos mais avançados de câncer. Também houve alta nas mortes em consequência disso”, ressaltou. “Percebemos um declínio muito grande em todos os aspectos. Os pacientes precisaram se isolar e deixaram de lado a prevenção e o tratamento”, completou.

Íris Rabinovich, presidente da Sociedade Regional de Mastologia, apresentou dados do Hospital de Clínicas de Curitiba, onde atua como preceptora. Disse que de março a julho de 2020, período de mais impactos no atendimento do laboratório, houve 73% de redução.  “Essas pacientes que não foram atendidas nesses meses, vão voltar de seis meses a um ano depois, com diagnósticos avançados e preocupantes”.

O declínio foi tanto que no mês de maio do ano passado foi realizada apenas uma cirurgia oncológica de câncer curável na instituição, de acordo com a médica.  Houve 55% de redução de cirurgias no mesmo período e 34% nas biópsias.

Atualmente, explicou a médica, o atendimento ainda está reduzido em 50% de pacientes atendidas por dia para evitar aglomerações. “Porém, o que se percebe é que muitas mulheres faltam às consultas por medo de se expor ao vírus no ambiente hospitalar.  E esse é outro fator que dificulta o diagnóstico precoce”.

Mara Rosival Fernandes, diretora executiva do Hospital do Câncer de Londrina, falou sobre o tema “A jornada do paciente de câncer durante a pandemia”, com previsões pessimistas feitas pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA).  Serão quase 200 mil casos de câncer este ano. Nos próximos três anos, serão 66 mil casos/ano, em média. “Se a cobertura já era baixa antes da pandemia, imagina com ela?”, questionou.

Na região, a espera entre o diagnóstico e o encaminhamento ao tratamento, passou dos três meses no período. A expectativa seria de 60 dias. Ela também informou que houve redução pela metade nos exames de mamografia. “Se for comparado com os outros estados, o Paraná ficou em nono lugar em redução. Ou seja, muito alta e haverá sobrecarga nos hospitais e, infelizmente, redução da sobrevida dos pacientes. Aqui estamos nos preparando para buscar soluções, como por exemplo, com orientações aos pacientes por meio dos agentes de saúde, mutirões de atendimento e fortalecimento das campanhas “, destacou.   

Macarcy Engelbert, presidente da Associação Amigas da Mama, instituição que apoia mulheres no tratamento do câncer há 20 anos, disse que, como o atendimento é totalmente presencial, com orientação psicológica, apoio jurídico e empréstimo de perucas, a redução na procura foi alta ano passado e início deste ano. “Em 2019, 399 mulheres procuraram a Associação, que precisou ficar um tempo fechada em função da pandemia em 2020. Mas continuamos o atendimento, que caiu para 226. Apesar da queda na procura, sabemos que ela esconde um crescimento no número de casos, infelizmente “, declarou.

Daniele Benzzatto, da assessoria jurídica da Associação, pediu que as autoridades adotem medidas para a diminuição do tempo de espera entre o diagnóstico e o tratamento. “Deveria ser de dois meses o prazo para que as mulheres pudessem ser encaminhadas para o tratamento a partir do diagnóstico. O problema é que esse tempo no Brasil chega a oito meses. Precisamos pensar em políticas para reduzir esse tempo”.

Elaine Cristina Vieira de Oliveira e Rejane Teixeira, da Secretaria da Estado da Saúde (SESA) alertaram para a importância da busca ativa de mulheres. “Aqui procuramos identificar essas mulheres para que possam realizar seus exames preventivos o quanto antes, já que notamos que a procura no Paraná começa tardiamente. Isso antes mesmo da pandemia”, ressaltou Elaine, que é coordenadora de Promoção de Saúde da SESA.

“Mil mulheres morrem a cada ano por câncer de mama aqui no Paraná. Se fizessem os exames preventivos à época certa, haveria uma redução significativa desse número”, reforçou Rejane, chefe da Divisão de Prevenção e Controle de Doenças Crônicas e Tabagismo da SESA. Ambas explicaram que a Secretaria busca orientar as mulheres por meio de cartilhas e encorajamento para que busquem os serviços. “Nós estamos preparados tanto para os exames, como para o tratamento após um diagnóstico da doença. Temos aparelhos de mamografia suficientes para atender a demanda e estamos à disposição”, afirmaram.

Judicialização – A palestra de José Clemente Linhares, chefe do Serviço de Ginecologia e Mama do Hospital Erasto Gaertner e conselheiro do Conselho Regional de Medicina, teve como foco as dificuldades de acesso das pacientes do SUS a medicamentos de alto custo e a judicialização dos processos. “Lembro do Trastuzumabe, liberado pela Anvisa em 1999 para ser incorporado ao tratamento pelo SUS, que foi considerado uma revolução, mas que só começou a ser utilizado em 2012. Um atraso que pode ter custado muitas vidas, que poderiam ser salvas se não fosse esse retardo de 13 anos”.

A cada ano surgem novos e eficazes medicamentos para o tratamento do câncer de mama. O problema, explicou o médico, é que além de ainda não serem incorporados ao protocolo do Sistema Único de Saúde, milhares de pacientes precisam recorrer à justiça para terem acesso aos já inseridos, o que é mais um agravante. “Imagine lutar pela vida e ainda precisar brigar na justiça por um tratamento a que ela tem direito?”, questionou.

Conscientização e campanhas – Todos os palestrantes apontaram as campanhas de conscientização como importante estratégia na retomada e incentivo às pacientes. “Elas têm que saber que não podem mais adiar a sua consulta e nos hospitais públicos, ainda teremos que reforçar a realização de mutirões”, afirmou Íris Rabinovich, da Sociedade Regional de Mastologia.

Para os especialistas, será necessário tentar promover uma redução de danos. “Ações devem ser feitas, porque se não tomarmos medidas, mais danos podem ocorrer. Olhamos com olhos criteriosos para o câncer de mama, o segundo com mais incidência sobre as mulheres, perdendo apenas para o câncer de pele”, afirmou Isabella Huber, da Uopecan.

Apesar da pandemia, houve aumento da realização de mamografias no mês de outubro. “Isso representa um dado importante sobre o quanto as campanhas como o Outubro Rosa são fundamentais”, ressaltou a médica Maria Christina, do Hospital Evangélico de Curitiba.

Estratégias e ações – Além das campanhas, as principais estratégias apontadas durante audiência pública foram priorizar o acesso das mulheres aos tratamentos mais atuais e eficazes; encorajar a busca pelo atendimento; retomada das cirurgias eletivas; capacitação dos profissionais das unidades básicas e estruturar e atualizar os indicadores de programas de rastreamento.

Participações – As deputadas Cristina Silvestri (CDN) e Luciana Rafagnin (PT) participaram da audiência. “Nosso objetivo foi ouvir o que estes profissionais têm a esclarecer para contribuir para a construção de mais políticas públicas nesse sentido“, disse a deputada Luciana Rafagnin (PT). “Temos atuado aqui na Assembleia em várias frentes de proteção às mulheres e com a prevenção ao câncer de mama não é diferente “, destacou a deputada Cristina.

Da ALEP