Abandono e maus-tratos: animais domésticos sofrem com a pandemia

Basta circular pelas vias de Toledo para avistar animais de rua. É possível que a pandemia tenha colaborado para que mais cães e gatos fossem vítimas do abandono e maus-tratos. O município não tem uma estimativa exata do número de animais domésticos sem um tutor. Essa ‘população’ sem controle de natalidade pode desencadear o desiquilíbrio entre saúde pública e bem-estar animal com situações de maus-tratos e abandono.

“A pandemia pode ter contribuído com os números de abandonos no município”, comenta o presidente do Conselho Municipal de Proteção e Defesa dos Direitos dos Animais (CMPDA), Maurício Orlando Wilmsen. “Infelizmente, os impactos da pandemia sobre a vida dos animais pode ser demonstrado a partir dos índices de agressão que aumentaram uma vez que os tutores ficaram mais tempo em suas residências”.

Wilmsen enfatiza que dados nacionais apontam que, durante o período de pandemia, aumentou o número de abandonos e maus tratos contra animais. Ele cita que um dos principais questionamentos que surgiram no início do ano passado seria se a Covid-19 se tratava de uma zoonose, ou seja, doenças compartilhadas entre humanos e animais.

“O início da pandemia foi o momento que aumentou o risco e trouxe danos a vidas dos animais, principalmente, para cães e gatos. A população em pânico, e recebendo inúmeras notícias e divulgações fake news acreditaram que a Covid-19 poderia ser encarado como uma zoonose. De fato, cães e gatos podem ser portadores de coronaviroses (gênero Alphacoronavirus). O cão desenvolve o coronavírus entérico (CCoV), que causa gastroenterite e infecta as células do intestino. A vacina contra essa doença já existe e está presente nas vacinas múltiplas conhecidas como V8 e V10 utilizadas frequentemente. Já o Coronavírus Felino (FCoV), causa nos gatos uma doença conhecida como Peritonite Infecciosa Felina (PIF), para qual não há vacina no Brasil”, expõe o presidente.

A confusão entre os diferentes tipos de coronavírus entre humanos e animais, segundo Wilmsen, chegou a causar impacto nas distribuições de vacinas para animais em grandes capitas do Brasil. Com relatos de que humanos estariam utilizando vacinas animais para tentar prevenir e até mesmo tratar contra Covid-19.

MAUS-TRATOS – “Infelizmente, os atos de crueldade e maus tratos contra animais ainda são massivamente negligenciados e apenas aqueles que atingem a mídia é que costumam repercutir ainda que por poucos dias. Sempre que falamos de abuso, maus tratos, violência, abandono ou qualquer outra variável que esteja relacionada à vida animal, ela vem acompanhada de um ato humano”, lamenta o presidente.

Situações de maus tratos podem envolver as mais diversas atrocidades como atropelamento intencional, abandono em casos que não possibilitam o animal de se livrar da situação e por isso acabam morrendo, abandono de fêmeas e suas ninhadas, mutilação, abuso, rituais de sacrifício animal, fome, sede, dor, entre outras que causam sofrimento, comprometem a qualidade de vida e bem-estar e podem levar ao óbito do animal.

“É importante frisar que no país, o número de espécies domésticas e domesticadas é ascendente e que segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), somente as populações de cães e gatos domiciliados somam 29 e 11 milhões, respectivamente. Entretanto, falar de maus tratos não se refere a amparar, dar atenção ou ainda fazer valer o direito das vidas dos animais somente para cães e gatos, é entender que outras espécies como bovinos, equinos, pássaros de gaiola, roedores e cobaias de pequeno porte, peixes, espécies exóticas e animais de tráfico também estão inseridos dentro da Lei 1.095/2019 de crimes ambientais, que aumenta a punição para aqueles que praticam abuso, maus tratos, ferem ou mutilam animais”, pontua o presidente.

RESPEITAR A VIDA ANIMAL – Eles são seres sencientes, ou seja, capazes de sentirem e vivenciarem dor, angústia, solidão, entre outras emoções. Para Wilmsen, é imprescindível que a vida animal seja tratada com responsabilidade jurídica e ética, com o intuito de que os atos de crueldade e maus-tratos contra animais devem ser vedados, punidos, investigados e resolvidos.

“A Lei Municipal nº 2.320 precisa entrar em vigor imediatamente para que os danos causados às vidas dos animais sejam cobrados legalmente. Além disso, os valores que podem ser empregados nas multas previstas na Lei, mediante flagrante de maus-tratos aos animais poderão contribuir com o repasse de verba as políticas públicas voltadas à proteção dos animais que mais necessitam”, conclui.

MÃOS QUE AJUDAM FICARAM ATADAS – A pandemia também refletiu nos trabalhos dos voluntários da Associação Focinhos Carentes de Toledo (Afocato). Com a paralisação das atividades como as feiras de adoção, eventos que visavam arrecadação e aporte financeiro, além de diminuição dos resgates por distanciamento social, fizeram com as ações da Afocato ficassem mais restritas durante o ano passado.

“Os problemas aumentaram”, lamentam as integrantes da Afocato, Anna Luisa Finkler e Maria Lúcia Gollmann – membros efetivos da Afocato que representaram a Associação. “O desemprego ou a diminuição do orçamento impactou diretamente no cuidado ao animal. Tivemos muitos pedidos de ajuda de pessoas sem ter condições de levar em veterinário ou comprar ração para seu animal”, citaram.

Para manter um dos pilares do trabalho que é promover a conscientização, a Afocato buscou fortalecer as ações através das redes sociais. As voluntárias destacam que a pandemia impactou no abandono de animais domésticos quando os tutores fizeram mudança e não levaram os pets.

Apesar de todos os desafios de 2020, para este ano, a Afocato projeta esperança. “Visamos fortalecer e ampliar as possibilidades de arrecadações e adoções via mídia digital e redes sociais, aumentar o número de associados e voluntários, fortalecer a participação da Associação no CMPDA como forma de acompanhar e contribuir com a política pública de proteção animal e elaborar projetos que visam promover a ampliação de ações e maior arrecadação”.

Da Redação

TOLEDO