Alcoolismo nas mulheres: a doença é comum, contudo, camuflada

Quando a dependência de álcool acontece nas mulheres é mais reprovado socialmente. Essa ‘condenação’ social, o medo de ‘perder’ os filhos, os apontamentos com atitudes moralistas e o receio do estigma fazem com que o vício seja escondido e a procura por tratamento aconteça de maneira tardia.

A dependência alcoólica na mulher acontece diferente em relação ao homem. O consumo excessivo desencadeia de forma mais rápida as complicações decorrentes do abuso do álcool, pois o organismo feminino tem menor capacidade de metabolizar grandes quantidades de bebidas alcoólicas. Além dessas diferenças, as mulheres também enfrentam mais preconceito e encontram mais dificuldades para darem o primeiro passo em busca de tratamento.

“Ao longo do tempo pesquisas nacionais e internacionais demonstraram que há um aumento no alcoolismo entre as mulheres”, lamenta a psicóloga, Adriana da Silva Schalkoski. “Contudo, são resultados imprecisos, pois, a maioria das mulheres que sofrem com abuso de álcool, tem maior resistência em procurar ajuda e reconhecer o vício. Isso se deve ao estigma que existe na sociedade de que beber bebidas alcoólicas é feio para mulheres, que essas, perdem seu prestígio, seu valor”.

Conforme a profissional, reconhecer que é alcoólatra, por exemplo, implica o risco de perder apoio da família, dos amigos, perder guarda dos filhos (quando possui), entre outros problemas. Segundo ela, aderir ao tratamento, muitas vezes, pode trazer a consequência do afastamento do lar e dos filhos. Dessa forma, a mulher pode continuar prolongando seu vício, cada vez mais isolada, dentro de casa por exemplo. Esse tipo de situação é diferente com homens; quando o sexo masculino enfrenta o vive as condições de vício de maneira diferente, pois não têm a mesma preocupação de esconder da sociedade, enquanto que para a mulher buscar ajuda é colocar em risco todo seu valor.

CAMUFLADO – “O alcoolismo ainda está mais ligado aos homens, mas esse dado também pode estar desatualizado. Pois, como as mulheres precisam se esconder mais, precisam camuflar o problema, enquanto os homens apesar de negarem o vício, não se preocupam tanto em preservar sua imagem.  Pois, ao declararem o vício, eles não perdem seu valor, sua independência perante a família e sociedade. Sua resistência está mais envolvida a sua autoimagem. Já as mulheres além da sua autoimagem, existe a imagem descredibilizada veiculada pelos outros com muito mais ênfase. O alcoolismo entre os homens está mais escancarado, e por isso mais notificado. Já entre as mulheres, muitos casos podem passar despercebidos e, por isso, não contabilizados”, pontua a psicóloga.

Diante dessa realidade, Adriana comenta que é notória a importância de existir grupos de apoio de alcoólicas anônimas só para mulheres.  Um grupo como esse pode ajudar no tratamento psicológico que vise trazer mais segurança e conforto.

“Na maioria das mulheres que sofrem com esse vício já ocorreu o registro de casos de abuso sexual na infância e/ou violência doméstica, além da existência de comorbidades como outros transtornos de humor e de personalidade. O tratamento deve começar de forma individual. Assim, o profissional psicólogo acolhe os dilemas individuais, trabalha com a paciente, auxilia no enfrentamento sem expor informações constrangedoras das mulheres. Após esse processo individual, pode-se ser tabulado quais as dificuldades em comum entre as mulheres e desenvolver terapia em grupo para trabalhá-las”, esclarece.

OS ‘GATILHOS’ DO VÍCIO – Segundo Adriana, existem algumas diferenças entre homens e mulheres no quesito abuso de álcool, como os antecedentes. Ela pontua que em mulheres normalmente são resultados de eventos traumáticos da vida como violência física, sexual, acidentes e separações. Além disso, muitas mulheres são atraídas para o uso por parceiros, ou são criadas em ambiente com consumo excessivo de álcool, são mais suscetíveis a baixa autoestima, sentimento de culpa, maiores taxas de depressão, ansiedade, transtornos alimentares entre outros.

De acordo com análises do Programa Saúde Mental da Mulher (ProMulher) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, existem dois padrões do consumo exagerado de álcool no sexo feminino: as mulheres que vivem uma fase transição (conhecido como período climatério), que bebem para o encorajamento de conflitos e fuga das dores psíquicas. O outro perfil é composto por jovens mulheres que passam a consumir bebidas alcoólicas como meio de interação social por busca de prazer.

Além das condições externas, fatores fisiológicos também fazem com que o vício interfira com mais intensidade na saúde feminina. O consumo inadequado de álcool está associado a doenças que podem progredir mais rapidamente nas mulheres. Isso acontece porque a mulher possui menor quantidade de água no organismo; maior absorção intestinal de álcool; maior proporção de gordura corporal e menor concentração de enzimas que fazem a metabolização do etanol.

“Todos esses fatores interferem resultam em maiores riscos de complicações no organismo como cirrose e outros. Além disso, o ciclo menstrual, o qual envolve a oscilação hormonal aumenta a fissura pela droga e também interfere na metabolização do álcool, assim a mulher sente seus efeitos imediatos e a longo prazo, rapidamente, mesmo que a mulher ingira uma quantidade menor”, reforça a profissional.

BUSCAR AJUDA – “Diante do cenário, faz-se importante a formação dos grupos de apoio, e de maior conscientização da importância da psicoterapia. Pois essa, pode ser uma forma de prevenção tanto para homens quanto mulheres, para que não cheguem ao vício, através do trabalho de regulação emocional, aumentando a capacidade de consciência reflexiva, autoconhecimento, melhora da autoimagem, aumento da capacidade de: enfrentamento de situações difíceis, de tolerância a frustração, tomada de decisões, ressignificar experiências traumáticas. Ao perceber o menor risco de dependência ou abuso de álcool, ou outras drogas, é preciso buscar ajuda”, orienta.

Da Redação

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