Pré-natal: ‘Haiti Mais’ auxiliará na comunicação e no atendimento da gestante estrangeira

O número de migrações para o Brasil tem aumentado nos últimos anos. O município de Toledo recebe diversos estrangeiros, entre eles, as mulheres haitianas. No cotidiano, barreiras devem ser superadas. Uma delas é o atendimento durante o pré-natal na Unidade Básica de Saúde (UBS). Muitas mulheres não falam ou compreendem o idioma local, o que dificulta sua comunicação com os profissionais. Assim, pensando na importância do pré-natal para a mãe e para o bebê, o projeto ‘Haiti Mais’ surge como uma forma de facilitar as gestantes haitianas durante o acompanhamento do pré-natal e auxiliar aos profissionais envolvidos no atendimento.

A professora e obstetra Dra. Patricia Leen Kosako Cerutti explica que a maioria das gestantes desconhece totalmente a Língua Portuguesa e a maior dificuldade com elas é a comunicação. “Há um número considerável de gestantes fazendo o pré-natal, mas acreditamos que há muitas também que não o fazem pelo medo e a insegurança diante do desconhecido”.

Ela salienta que a comunicação é o principal entrave, o que pode dificultar a compreensão do médico durante o atendimento e até em uma urgência. “Para melhorar o atendimento, algumas vão às consultas acompanhadas dos maridos, que geralmente conhecem um pouco mais da língua brasileira, porém, na maioria das vezes, esses se encontram em horário de trabalho e as gestantes acabam indo sozinhas”.

Com o projeto ‘Haiti Mais’, o grupo pretende ajudar essas mulheres fornecendo um acesso à assistência mais preparado e acesso às informações adequadas referentes à maternidade. “Desejamos garantir qualidade no pré-natal e no nascimento dos futuros toledanos, reduzindo a morbimortalidade materna e perinatal”, destaca a coordenadora do projeto.

A gerente da Unidade da Vila Paulista Márcia Inês Mallmann Baptista reafirma que a comunicação e a compreensão são as principais dificuldades da equipe. “O projeto é idealizado para suprir a comunicação neste primeiro momento e auxiliar o atendimento dos profissionais. Outra dificuldade da equipe está relacionada a compreensão da orientação. Por exemplo: a gestante pode apresentar pressão alta, porém devido a sua cultura, ela não toma medicamento. Então, surgem as complicações. São fatores a serem superados no futuro”.

A voluntária da Embaixada Solidária Edna Nunes comemora o projeto e relata que a saúde é uma das principais lutas da instituição. “A saúde é uma questão básica, porque a pessoa sem saúde não vai conseguir acessar o mercado de trabalho, a Educação ou ter uma vida plena”.

Edna Nunes destaca que a natalidade e a saúde materno-infantil são lutas da Embaixada Solidária. “Além das doenças básicas ou crônicas, a pandemia mostrou que sem inclusão não é possível avançar. Ficamos felizes por esses esforços somados. É uma questão de dignidade e de acolhimento ao estrangeiro em território nacional e esperamos que seja muito progressivo”.

 

O PROJETO – A professora Patrícia recorda que a ideia do projeto ‘Haiti Mais’ surgiu em agosto deste ano, durante um período de estágio dos integrantes da Liga Acadêmica de Ginecologia e Obstetrícia (Lago) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), campus Toledo.

O estágio foi realizado na Unidade Básica de Saúde (UBS) Paulista, em Toledo, e os alunos atenderem muitas gestantes (inclusive pacientes haitianas), auxiliando a médica nas consultas de pré-natal.

A profissional revela que durante o atendimento às gestantes haitianas, os alunos perceberam a grande dificuldade de comunicação entre estas mulheres e os profissionais de saúde.

“Por não falarem ou falarem pouco o português brasileiro, as gestantes não compreendiam as recomendações passadas pelos alunos ou por mim. Dessa forma, não as seguiam, deixando de fazer exames importantes, por exemplo”, destaca a coordenadora.

O projeto iniciou em setembro de 2020, com o recrutamento de estudantes interessados e o planejamento das atividades. Inicialmente, tudo está sendo feito de forma remota, com reuniões e discussões on-line, confecção da cartilha e gravação dos vídeos.

 

CARTILHA – De acordo com a professora Patrícia, o objetivo principal é confeccionar uma cartilha da gestante, traduzida para o francês e o crioulo, com informações importantes sobre o pré-natal, amamentação, planejamento familiar, etc. A cartilha terá como base o Guia da Gestante já usado em todo o Paraná, chamado de Mãe Paranaense. “Iremos traduzir as informações previamente propostas por esse guia e elaborar textos e imagens explicativas sobre temas fundamentais para o pré-natal, puerpério e cuidado com o recém-nascido para essa mãe haitiana, tudo traduzido e de linguagem clara e fácil”.

Ao final da confecção, o grupo deseja imprimir o guia (com ajuda de futuros patrocinadores) e distribuí-lo nas Unidades Básicas de Saúde de Toledo. “A cartilha poderá orientar essas gestantes na conscientização da importância do pré-natal, para assegurar gravidez, parto e pós-parto seguros”, enfatiza a médica.

Somado a isso, através de campanhas de promoção e prevenção a saúde voltadas à comunidade haitiana, ou através de vídeos explicativos, a proposta é melhorar a qualidade do pré-natal, das consultas médicas e até mesmo o vínculo da gestante com a Unidade de Saúde.

“Esperamos ainda capacitar os acadêmicos na área de Ginecologia e Obstetrícia com enfoque multidisciplinar, através de aulas, vídeos gravados explicativos para o francês e palestras. Com essas ações educativas, buscamos trazer uma prática humanizada por parte dos acadêmicos de medicina e profissionais de saúde que resultem em impacto sobre o entendimento e compreensão das gestantes haitianas quanto à necessidade de prevenção”.

Além disso, serão realizadas reuniões periódicas para capacitar os estudantes, discussões de artigos atualizados e casos clínicos, campanhas de promoção e prevenção à saúde e gravação de vídeos explicativos que irão ser exibidos nas UBSs de Toledo, com temas que ajudarão as gestantes a entenderem melhor como cuidar da sua saúde e do seu bebê de uma forma que se sintam acolhidas e respeitadas. “Todas as etapas do projeto serão supervisionadas pelas médicas coordenadoras, para garantir a melhor assistência às pacientes”, finaliza a coordenadora do projeto Patrícia.

Objetivos do projeto Haiti Mais:

1) Universalizar o acesso à saúde as gestantes haitianas;

2) Oferecer informações sobre seus direitos no Brasil;

3) Diminuir as barreiras e os medos enfrentados pela gestante haitiana ao passar por uma gestação e um parto dentro de uma cultura totalmente diferente da sua;

4) Demonstrar apoio e suporte para sanar suas dúvidas;

5) Facilitar o atendimento e melhorar a relação entre médico/paciente nas consultas das gestantes no Sistema Único de Saúde (SUS).

 

O GRUPO

O projeto será desenvolvido pelas professoras como coordenadora Dra. Patricia Leen Kosako Cerutti e vice coordenadora Dra. Greici Schroeder, além dos acadêmicos do curso de medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR), campus Toledo, vinculados à Liga de Ginecologia e Obstetrícia (Lago) e um acadêmico de medicina da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), o qual fala fluentemente o francês. Dentre os acadêmicos, que também estão dentro do projeto, estão: Amanda Alencar, Amanda Nardi, Daiane Souza, Danyelle Diosti, Giovana Escarante, Juliana Yukari, Rachel Toyama, Sadana Dal Negro, Victória Castello e Felipe Dall Óglio Furlan. Outros participantes podem incluir médicos e profissionais de Saúde que tenham interesse em colaborar com o projeto, promovendo a saúde na comunidade haitiana residente em Toledo. O projeto conta ainda com a colaboração da Dra. Helena Soria, ginecologista e obstetra de Cascavel, e a haitiana Ruth Nicolas, professora de línguas.

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