Cecília Beraba se inspira em orixás para lançar 2 singles e 1 álbum

“Sem ele, nada se faz/A roda da sorte é sua”. Com esses versos, a cantora e compositora carioca Cecília Beraba presta tributo a um dos mais importantes orixás presente nas religiões de matriz africana na música Exu, primeiro single de dois que a artista lançou no fim de 2020. A faixa, cantada com suavidade pela voz inspirada por referências da MPB, do jazz e da música cubana, destaca a virilidade e o aspecto de mensageiro ligado a Exu.

É, porém, no segundo single, que a contemporaneidade e a ancestralidade se conectam de modo íntimo na voz de Cecília. Omolu traz uma homenagem ao orixá de mesmo nome, vinculado à cura de doenças epidêmicas. Nada mais adequado para os tempos atuais. “Escolhi esses símbolos para fechar o ano de 2020 porque tem um pouco de superação, força”, conta Cecília, em entrevista por telefone ao Estadão.

“Exu representa a inteligência emocional, cuida do caminho, das encruzilhadas da vida”, comenta a artista, que conta estar totalmente cercada pelas tradições do candomblé e da umbanda. Não por acaso, quando a música foi disponibilizada para ser reproduzida nas plataformas digitais, ela celebrou em suas redes sociais dizendo que a canção foi “uma oferenda para aquele orixá que deve-se saudar antes de tudo”.

Por isso, a faixa já começa declarando que “Na frente, lá vem ele, o mensageiro/Plantado bem na porta do terreiro”, referência ao fato de que Exu é tido como um guardião e colocado para proteger as entradas de casas e de locais de oração.

“É uma música também bastante filosófica”, afirma a cantora carioca, que gravou ambas as faixas durante o período de isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus. Em Exu, ela conta ainda com a participação da cantora Patrícia Bastos, amapaense radicada em São Paulo. “Ouvi Zulusa, seu penúltimo álbum, até não ter mais lágrimas para chorar na faixa Mal de Amor. Quando pensei em gravar Exu, não conseguia imaginar sem ela.”

As vozes de ambas as cantoras têm timbres relativamente semelhantes, mas ainda assim formam um dueto nuanceado ao ouvinte atento. O interessante em uma gravação feita em período pandêmico é que a afinidade artística nem sempre está combinada à proximidade geográfica: Cecília e Patrícia nunca chegaram a se encontrar presencialmente. “A música pedia a energia dela cantando, então fui atrás na cara de pau, arranjei o telefone e a convidei”, conta Cecília, lembrando dos bastidores da gravação que ela considera “um grande privilégio”.

“Sopra chagas, misérias, pestes”, canta ela em Omolu, música que faz referência à característica do orixá de dissipar epidemias. “Seja além de alguém que fere/Mestre, amigo, professor e guardião/Meu sol de meio-dia”, diz a letra da canção, acompanhada por um piano enérgico.

Omolu

Na mitologia iorubá, Omolu nasceu coberto de máculas pelo corpo por causa da varíola, que o havia atacado por ser filho de uma relação proibida entre os orixás Nanã e Oxalá – este, marido de Iemanjá. As feridas pelo corpo fizeram Nanã abandonar o recém-nascido Omolu ao mar, mas Iemanjá cuidou dele e o curou, o que ainda o deixou com cicatrizes profundas, o que explica porque ele é sempre representado coberto com uma espécie de manto de palha por quase todo o corpo, com exceção dos braços e das pernas, que não foram atingidos pela moléstia.

No entanto, Omolu aprendeu a tratar dessa e de muitas outras doenças, o que explica sua capacidade de curar as enfermidades, especialmente aqueles que são altamente contagiosos. Isso faz com que a divindade seja associada às epidemias, tornando a canção curiosamente propícia para os tempos contemporâneos.

A cantora lista, entre suas principais inspirações, Jorge Mautner, Elza Soares e Bola de Nieve, artistas cuja influência reverbera com clareza e pode ser ouvida em seu estilo e também nas temáticas que suas canções abordam.

Cecília se prepara para lançar, em fevereiro, um disco com composições que ela fez em parceria com Jorge Mautner, uma de suas principais referências – não só na música. “Jorge era um grande ídolo, mas, quando comecei a ler seus livros, pirei. Ele criou uma filosofia própria, que abrange tudo, desde questões humanas de comportamento até políticas”, relembra a cantora e leitora de Mautner, também autor de livros como Deus da Chuva e da Morte (1962), Mitologia do Kaos (1962) e Narciso em Tarde Cinza (1969), fundador do partido do Kaos e um multiartista que completa 80 anos em 2021.

Dizem que nunca se deve conhecer seus próprios ídolos para não se frustrar com quem eles realmente são. Não é o caso de Cecília. Ela conta que, após anos cantando composições de Mautner, um dia foi a um show dele, chegou cedo e conseguiu conversar com o ídolo. Desse primeiro encontro, surgiu uma frutífera parceria que ela considera “uma realização, uma catarse”. “Quando pude conviver com ele todo dia, isso tomou outra dimensão.”

Lançar um álbum musical durante a pandemia pode ser uma decisão corajosa, e Cecília bem sabe disso. “Esse foi um disco totalmente independente, ainda mais com a quarentena no meio. Nesse período, acabei fazendo muita coisa de casa. Até gravei vídeo, que é algo de que não gosto.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.