Dores de uma paixão incompleta

O projeto nasceu de um desejo da atriz Larissa Manoela – popularíssima entre o público juvenil, ela pretendia assumir algo artisticamente ousado. A escolha recaiu sobre o musical Os Últimos 5 Anos, que tem uma estrutura engenhosa – em linhas gerais, o espetáculo trata da história de amor entre Jamie Wellerstein e Cathy Hiatt, mas o autor Jason Robert Brown decidiu apresentar a trama de uma forma desafiadora, em dois tempos: enquanto a trajetória de Cathy é narrada em ordem cronológica inversa (começando pelo término do casamento), a de Jamie é contada a partir do momento em que o casal se conhece.

O fato de ter apenas dois atores em cena foi uma exigência da pandemia do novo coronavírus. “Não poderíamos fazer algo com muitas pessoas no elenco em função de contaminação ou porque seria complicado reunir todos nesse momento”, conta Larissa, que divide o palco com Leo Cidade. O casal sabia que também não poderia atuar diante de uma plateia presente. Assim, eles gravaram sua participação e Os Últimos 5 Anos será apresentado em streaming nesta segunda-feira, dia 28, a partir das 18h – ingressos, que custam R$ 60 (mais R$ 6 de taxa), podem ser adquiridos via Sympla (www.sympla.com.br).

O fato de ser gravado e não ao vivo tem uma explicação social e também estética. “O público brasileiro ainda não está acostumado a pagar por produto online”, observa a produtora Renata Borges, que encampou a ideia de Larissa, assumindo também a direção geral. “Eu mesma não me acostumei a assistir teatro no streaming ao vivo, então, pensei que seria preciso criar uma nova estética, com câmeras no palco, e os atores se movimentando com mais liberdade.”

Com isso, o projeto cresceu e agregou mais talentos: Charles Möeller e Marcello Bosshar assinam a direção artística, enquanto a direção musical é de Marcelo Castro – a versão brasileira do original da Broadway é de Cláudio Botelho, acostumado a trazer para o português musicais clássicos. “O grande diferencial é a concepção que daremos a essa transmissão, com uma proposta mais dinâmica, misturando elementos de TV e cinema”, explica Renata. “O que estamos tentando, modestamente, com muita magia, é encontrar um quarto lugar, que seja híbrido dessas linguagens todas”, completa Möeller.

Foi preciso, portanto, uma fase de experimentações até que o produto final atingisse o grau de excelência esperado. Renata Borges, que volta a criar um cenário de espetáculo (o primeiro foi Madagascar – Uma Aventura Musical, em 2019) e assume pela primeira vez a concepção dos figurinos, teve uma ideia. “Como o espetáculo trata de duas narrativas opostas na passagem do tempo, propus dois ambientes cenográficos. Um mais colorido representaria o passado, pois é justamente quando o relacionamento começa, portanto, mais alegre; e o outro teria tons mais sóbrios, mais escuros, pois a relação está no fim, justamente no momento em que Jamie e Cathy estão mais ricos, o que se nota no vestuário”, explica.

Datas

No dia da gravação, porém, Charles Möeller decidiu misturar os cenários, o que deixa o espectador mais curioso sobre o momento de cada cena. “Como temi que o público ficasse confuso sobre em que época se passava o que ele estava vendo, propus que cada cena tivesse uma data, o que facilitaria o entendimento”, comenta Renata.

Para marcar bem essa passagem dos cinco anos, os atores utilizam vários figurinos – Larissa, por exemplo, usa dois vestidos assinados por Carol Hungria. “O figurino é contemporâneo: há um lado um tanto fashionista, mas algo real de uma atriz nova-iorquina, como é a personagem da Larissa. Busquei também mostrar como ela abandona o colorido com o passar do tempo, trocando-o por tons sóbrios, justamente para revelar a transformação interna da Cathy. Procurei ainda traduzir a mudança do estado emocional do personagem do Léo que, com o sucesso na carreira, passa a ser mais chique”, explica Renata.

Já o cenário se divide entre os apartamentos dos personagens, sendo um mais bagunçado e outro mais clean, de acordo com a personalidade de cada um deles. Em um determinado momento, surge o apartamento do casal, quando a relação se consolida. Aliás, Jamie e Cathy não interagem diretamente, exceto pela canção do casamento, que é justamente quando suas linhas do tempo se cruzam. E a ação não ocorre apenas no palco: buscou-se aproveitar todas as dependências do Teatro Multiplan, no Rio, onde aconteceram as gravações, ocorridas em dois dias.

Afinal, é justamente esse jogo com o tempo que reside uma das graças do espetáculo. Para se entender melhor a trajetória do casal, é preciso contar na ordem cronológica: Cathy e Jamie se conhecem, se apaixonam e logo se casam. Ele é um romancista em ascensão e ela, uma atriz em dificuldades. Logo, Jamie se torna um escritor de sucesso, o que contrasta com as tentativas frustradas de Cathy. A diferença entre eles os faz entrar em conflito e repensar os últimos cinco anos em que estiveram juntos.

Entendimento

“Eu e Leo já trabalhamos juntos, mas nunca como namorados ou nunca como um casal”, explica Manoela que, nesta segunda-feira, 28, completa 20 anos de idade. “E é bacana essa narrativa, pois sempre em um relacionamento não existe uma verdade absoluta: existem dois indivíduos tentando se relacionar, tentando fazer com que o relacionamento dê certo. E, para dar certo, às vezes, você precisa ceder. Buscar esse equilíbrio é sinal de maturidade. E é nesse ponto que muitos casais se desencontram: por mais que tenham amor, eles se distanciam…”

O raciocínio é compartilhado por Leo Cidade, que recém completou 24 anos. “Existem muitos desafios entre um casal. A profissão e a busca de sonhos, às vezes, une um casal ou pode ser a causa do final do relacionamento”, comenta o ator. “Nem sempre em um casal ambos terão sucesso. É preciso maturidade para entender que o sucesso do outro não está separado do seu. O sucesso do outro deveria ser o seu também. Muitos casais se separam por pontes que não são construídas entre eles. Criando abismos. Às vezes, por situações que não colocamos para fora. Ninguém tem bola de cristal para saber o que se passa com o outro. Podemos sentir que algo está estranho, mas não teremos certeza de que realmente aconteceu algo se o outro não se expressar verbalmente. Saber escutar o outro é fundamental. Os casais se perdem em seus ‘monólogos’, pois eles acabam sendo unilaterais quando não existe a troca. Não existe o outro se colocando no lugar do parceiro.”

Os Últimos 5 Anos é o título nacional para The Last Five Years, que estreou em Chicago em 2001, logo ganhando uma produção Off-Broadway no ano seguinte. Como é praticamente todo cantado, as músicas têm grande importância para também contar a história. Para Charles Möeller, o autor do espetáculo, Jason Robert Brown, acrescentou elementos novos em uma trama que seria, em ordem cronológica, trivial.

“Além da excelente ideia da cronologia diversa, ele foge do ‘happy ending’ convencional e insere pimenta nas relações, trazendo questões como o fato da ascendência profissional dele gerar ciúmes nela, criando também um deslumbramento em Jamie, uma certa arrogância”, observa o diretor. “A quantidade de ‘nãos’ que ela enquanto atriz vai tomando faz com que ela se compare com ele. E isso tudo abala a relação. Não é aquela abordagem tradicional de um relacionamento abalado por traição, abusos.”

O espetáculo foi traduzido para inúmeros idiomas, em mais de 20 países, além de ganhar uma adaptação para o cinema, em 2015, com Anna Kendrick e Jeremy Jordan. No Brasil, houve uma belíssima versão em 2018, com Beto Sargentelli e Eline Porto em estado de graça nos papéis do casal – a direção foi de João Fonseca.

Com uma carreira de tanto sucesso, o espetáculo no streaming necessitava de um novo frescor, de uma originalidade. A começar pela concepção da filmagem, que teve André Gress na direção de fotografia. Segundo ele, sua função foi a de transportar o que foi criado em cena para a tela, por meio de uma composição visual estética. “Foi criada uma movimentação de câmera e planos de cena que apresentam a essência do teatro misturado com o audiovisual para capturar a verdade do musical. O que vamos apresentar é uma espécie de balé de movimentação, que traduz muito das sensações e emoções apresentadas na obra, através de um olhar plástico acentuando todo trabalho do criativo”, explica ele.

Para isso, houve um aprendizado, com soluções surgindo no momento da prática. “Tivemos de cortar muita cena boa na edição, mas a história é que tinha que ser privilegiada”, conta Renata Borges. “Quero que o espectador desfrute de uma estética inédita no Brasil, que ele se sinta dentro do palco, como se vivesse a história. É também uma maneira de tentar diminuir a grande falta que o teatro ao vivo faz.” Ela não encontrou parceiro comercial na empreitada – a produção ficou a cargo da sua Touché Entretenimento e da Dalari Produções, de Larissa Manoela. “Mesmo assim, streaming é um caminho, é preciso se reinventar e não ficar parado nem depender da Lei Rouanet. Outros trabalhos como esse virão.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.