Exposição conta o que foi a moderna fotografia brasileira em 140 imagens

Arquivo da vida cosmopolita no pós-guerra, o Foto Cine Clube Bandeirante revelou fotógrafos cuja produção é hoje disputada até por museus estrangeiros (o MoMA de Nova York e a Tate Modern de Londres, por exemplo). Entre os mais conhecidos estão German Lorca, Geraldo de Barros e Thomas Farkas, indissociáveis da renovação moderna da fotografia. Outros, menos populares, como Herros Cappello, Jerzy Reichmann e Victorio Micheletti, são igualmente notáveis. Eles estão, ao lado dos anteriormente citados, na mostra Foto Cine Clube Bandeirante: Itinerários Globais, Estéticas em Transformação, em cartaz na Galeria Almeida & Dale.

A exposição tem como curadores o brasileiro Iatã Cannabrava e o cubano José Antonio Navarrete, que mora em Miami, destacando não só o auge da fotografia modernista (anos 1940 e 1950) como a produção posterior do FCCB (os anos 1960 e 1970, marcados por governos autoritários e hostis a experimentações). Com um recorte que vai da criação do fotocineclube (no limiar da década de 1940) até 1980, a mostra reúne 140 fotografias de 40 artistas, além de boletins e catálogos raríssimos. Algumas dessas fotos estão à venda, outras não. No segundo caso, estão obras dos acervos de instituições como o Instituto Moreira Salles e Itaú Cultural.

Os preços variam de R$ 35 mil a R$ 80 mil, mas há fotos que chegam a alcançar valores maiores em se tratando de pioneiros modernos (Geraldo de Barros e José Yalenti, um dos fundadores do FCCB), segundo Carlos Dale, um dos sócios da Galeria Almeida & Dale. Ligado inicialmente ao pictorialismo, Yalenti incorporou as composições geométricas da arte dos anos 1950, marcando a fotografia arquitetônica nas décadas seguintes.

MODERNISMO

“São fotógrafos como Yalenti, Barros e Farkas que representam o legado do espírito modernizador da Semana de Arte Moderna de 1922”, observa o curador Cannabrava, revelando um dado curioso sobre a ressonância do discurso modernista do FCCB nos primórdios e na maturidade do fotoclubismo: o nome Tropicália, por exemplo, existia muito antes de Hélio Oiticica batizar sua histórica instalação de 1967. Alguns fotógrafos do FCCB usaram Tropicália como título de seus trabalhos. Um deles está na mostra, uma foto do agreste (de 1940) de Plínio S. Mendes. Quem também usou o nome foi Chico Albuquerque, cearense que acompanhou Orson Welles na rodagem de seu filme It’s All True (1942) no Brasil.

Outro aspecto mencionado pelo curador Iatã Cannabrava diz respeito à estética de ruptura praticada pelos associados do FCCB, que foi classificada pelos críticos dos anos 1950 como Escola Paulista de Fotografia modernista brasileira, objeto recente de uma exposição realizada pelo MoMA de Nova York. Todos os fotógrafos dessa escola, invariavelmente, recorreram a composições que negam as regras clássicas e buscaram uma aproximação com a linguagem abstrata – vale dizer, com a geometrização. Alguns dos mais conhecidos representantes dessa escola estão na mostra: Ademar Manarini, Eduardo Salvatore, Gaspar Gasparian e Ivo Ferreira da Silva. E, para mencionar uma fotógrafa excepcional, Gertrudes Altschul.

As mulheres marcaram presença no FCCB numa época em que o chauvinismo predominava. O talento de fotógrafas como Gertrudes e Bárbara Mors é evidente – e as fotos na mostra comprovam essa contribuição para a moderna fotografia brasileira. Bárbara foi primeira mulher a publicar fotografias no Boletim do FCCB. A alemã Gertrudes Altschul (1904-1962) é até hoje fonte de inspiração para fotógrafos de arquitetura, assim como a fotógrafa Magdalena Schwartz (1921-1993) para o reconhecimento da diversidade sexual.

“O FCCB teve entre seus pioneiros muitos fotógrafos imigrantes europeus, como o Farkas e a Gertrudes, mas também de origem asiática, como Takashi Kumagai e Roberto Yoshida, que estava na mostra de fotoclubismo brasileiro no MoMA de 2021”, assinala Cannabrava, acenando com a publicação de um volumoso catálogo (250 páginas) em preparo pela Galeria Almeida & Dale, a ser lançado em março.

Foto Cine Clube Bandeirante Galeria Almeida & Dale. Rua Caconde, 152, tel. 3882-7120. 2ª a 6ª, 10h/18h; sáb., 10h/16h. Até 19/3.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.