Luz no mundo de Tolkien

Embora o escritor britânico J.R.R. Tolkien tenha testemunhado o próprio sucesso, especialmente após a publicação de O Senhor dos Anéis, entre 1954 e 1955, sua obra póstuma cresceu ao ponto de ser tão relevante quanto o que ele lançou em vida, tornando-se uma fascinante porta de entrada para seu universo ficcional. Isso é o que demonstram os Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média, mais recente lançamento do autor publicado pela editora HarperCollins, parte do projeto de reedição de Tolkien no Brasil.

Ao mesmo tempo metódico e desorganizado, o autor burilou os mesmos textos por toda a vida, e não chegou a concluir grande parte deles. Como o título entrega, Contos Inacabados traz alguns desses trabalhos inconclusos, sob a cuidadosa edição de seu filho, Christopher Tolkien, que se encarregou de conferir o maior grau de polimento possível a escritos de épocas muito distintas. A Queda de Gondolin, por exemplo, começou a ser redigido em 1917, enquanto A História de Galadriel e Celeborn foi seu último trabalho, em 1973.

Tolkien tinha uma visão totalizante de sua obra, e nenhum outro livro seu é tão abrangente em relação ao universo fictício idealizado por ele quanto esse ou denota tão claramente o caráter de “work in progress” de sua literatura. Sua obra narra três eras na Terra-média, e as histórias reunidas em Contos Inacabados perpassam todas, com níveis diferentes de acabamento.

Na terceira era se passam O Hobbit e O Senhor dos Anéis, a luta de Frodo, Gandalf, Aragorn e companhia contra Sauron. A história é bem conhecida e o texto, definitivo. A primeira era compreende toda a extensão de O Silmarillion, compêndio de lendas lançado postumamente em 1977 que narra o exílio dos elfos da terra divina de Valinor e sua luta contra o maligno Morgoth. Menos conhecido e polido que os principais sucessos, mas ainda assim um texto relativamente bem estabelecido. Já a segunda era, que será tema de uma série atualmente em produção pela Amazon, é a menos conhecida e a que conta com mais lacunas. Ela narra os eventos entre a queda de Morgoth e a ascensão de seu discípulo, Sauron. Nos Contos Inacabados, essa é a parte menos definitiva dos escritos – e, talvez por isso, a mais instigante, por obrigar o leitor a imaginar e preencher as lacunas.

A História de Galadriel e Celeborn, por exemplo, já começa com um mea culpa de Christopher: “Não há nenhuma parte da história da Terra-média mais repleta de problemas que a história de Galadriel e Celeborn, e deve-se admitir que há graves inconsistências”. A elfa Galadriel, afinal, é um dos poucos seres que atravessam as três eras, sendo a personagem feminina do autor mais repleta de nuances.

É, no entanto, a história da ilha de Númenor, onde se instaurou o mais glorioso reino humano já registrado na obra do autor, que traz os elementos mais interessantes ao leitor já experiente de Tolkien. No conto Aldarion e Erendis, Tolkien desenvolve um de seus temas mais recorrentes: como a ambição traz consigo a semente do mal. Aldarion é o herdeiro do rei de Númenor, casado com a bela Erendis, mas verdadeiramente apaixonado pelo mar e suas aventuras. Ele passa o conto todo – pelo menos a parte que de fato foi escrita, já que o final pretendido da trama é narrado resumidamente por Christopher a partir de esboços do pai – sendo julgado por suas escolhas, até que o leitor descobre que ele estava lutando contra o avanço inicial de Sauron no leste da Terra-média.

Se suas motivações são justificadas, sua incapacidade de resistir ao chamado do mar deságua na ganância que tomaria os reis posteriores de Númenor, que se tornam imperialistas navais (como a Inglaterra de Tolkien), assaltando as praias da Terra-média e renegando os deuses, maculando para sempre a raça humana, que nunca mais seria tão bela e longeva quanto nos dias antigos.

Tolkien, cristão convicto, sempre transmite uma ideia de decadência constante da humanidade, e a segunda era de seu universo é fundamental para compreender a degeneração das lendas repletas das presenças divinas de O Silmarillion para um mundo mais naturalista e quase desassistido pelos deuses de O Senhor dos Anéis – o que corrobora sua visão de mundo.

Um dos contos mais curiosos para os leitores menos versados nos meandros da Terra-média é A Demanda de Erebor. Nesse texto, escrito por Frodo, o mago Gandalf narra os eventos que o levaram a recrutar Bilbo Bolseiro e onze anões para roubar o tesouro do dragão Smaug, dando ao leitor uma perspectiva diferente e inusitada sobre as aventuras narradas em O Hobbit.

Já Cirion e Eorl mostra como os reinos de Gondor e Rohan se tornaram amigos em meio à adversidade, e explica bastante a respeito da aliança entre essas terras em O Senhor dos Anéis.

Essa obra, aliás, é revista por outro ponto de vista em O Desastre dos Campos de Lis, que mostra como o Um Anel se perdeu, dando origem aos eventos do livro, e A Caçada ao Anel, que traz detalhes que não estão nos textos originalmente publicados.

Se os Contos Inacabados provam o papel da obra póstuma de Tolkien de lançar luz sobre seus principais escritos, o livro não se basta por si: lê-lo antes dos outros seria infrutífero. O próprio editor e filho de Tolkien admite isso na introdução: “Muito do que existe neste livro não será considerado gratificante por leitores de O Senhor dos Anéis que, afirmando que a estrutura histórica da Terra-média é um meio e não um fim, é o modo da narrativa e não o seu propósito, pouco desejam continuar explorando pela exploração em si”. Apesar disso, os contos reunidos no livro são um bálsamo para aqueles que, encantados pelas lendas de Tolkien, desejam se aprofundar em sua mitologia.

PRINCIPAIS CONTOS

Os Filhos de Húrin

Húrin é capturado em guerra e se nega a colaborar com o inimigo, que impõe uma terrível maldição a seus filhos

Aldarion e Elendis

Aldarion abandona a esposa para se aventurar no mar. A ambição naval plantada pelo rei marinheiro que leva, futuramente, seu reino Númenor à catástrofe

A Demanda de Erebor

Gandalf conta bastidores que antecedem a jornada de O Hobbit

O Desastre dos Campos de Lis

Narra como o Um Anel se perdeu, dando origem aos eventos de O Senhor dos Anéis

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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