Missa colonial reúne músicos alemães e brasileiros em concerto

Os olhinhos permanecem fixos no maestro. Mesmo quando a música para. Bravi, vem o elogio. As partituras viram. Nova passagem. Cum Sancto Spiritu. Após a breve introdução, as vozes se unem com força à orquestra. Difícil ignorar o impacto da cena: a música entoada no altar da catedral, a luz da manhã entrando pelos vitrais. É sinestesia que chama.

Tudo isso acontece na manhã de terça-feira na Catedral Presbiteriana, na região central da cidade. O coro vem da Alemanha, os Meninos Cantores de Hamburgo; a orquestra é a Sinfônica da USP; o maestro, Luiz de Godoy; a música, a Missa de Santa Cecília, do padre José Maurício Nunes Garcia. Também no palco, membros da Ocupação Cultural Jeholu, que discute a presença negra no mundo da música clássica.

“É muito especial para mim estar aqui fazendo essa obra em especial, era um sonho regê-la, e ainda mais com esse coro”, diz após o ensaio o maestro Godoy, brasileiro de Mogi das Cruzes que é diretor do conjunto na Alemanha. “Mas a apresentação para mim é a cereja em um bolo com muitas camadas que dão significado ao que estamos fazendo.”

O projeto nasceu em 2020, de um convite de Claudia Toni, curadora, ao lado do pianista Cristian Budu, do Festival Sesc de Música de Câmara, que ocorre em diversas cidades do Estado de São Paulo até o dia 26 deste mês. A ideia era trazer Godoy, que se formou em Viena e hoje vive na Alemanha, maestro na Ópera de Hamburgo, de volta ao Brasil.

A discussão sobre o repertório esbarrou em vários formatos. A princípio, discutiu-se um programa em torno do centenário da Semana de Arte Moderna, mas eventualmente o foco seguiu em direção à outra grande efeméride do ano, o bicentenário da Independência. “A Missa me pareceu então uma escolha natural”, conta o maestro. “Escrita em 1826, é a obra coral-sinfônica mais importante e próxima do momento da Independência.”

Escolhida a obra, foi hora de refletir sobre a sua interpretação. “Eu me comprometi desde o início com a ideia de uma abordagem decolonial. A nossa música foi fortemente influenciada pela música europeia, em um processo hegemônico. Mas com o tempo essa música foi o ponto de partida de um movimento de autonomia para os músicos daquela época, que se reuniam nas irmandades e deram gênese a uma música brasileira”, explica Godoy.

INVERSÃO

Nesse sentido, o concerto representa uma inversão. “Eu conversei muito com as crianças durante a preparação na Alemanha. Cantar essa obra foi um convite à reflexão deles sobre a nossa história, nossas idiossincrasias. Expliquei que naquela época a maior parte dos músicos era negra, mas que essa música vinha da tradição europeia, até começar a conquistar uma voz própria.”

Foram quatro meses de preparação na Alemanha antes da viagem ao Brasil. “Para facilitar o processo, também incluí no repertório de concertos nossos por lá música de autores nacionais, como Villa-Lobos, Pinto Fonseca, Ernani Aguiar, Antonio Ribeiro. Isso deu oportunidade a eles de conhecer melhor como essa tradição do canto coral brasileiro seguiu se desenvolvendo até os dias de hoje”, diz.

A missa será apresentada hoje em Mogi das Cruzes; amanhã, sexta, o palco é a Catedral Presbiteriana de São Paulo; no sábado, é a vez de Guarulhos; e, no domingo, de Ribeirão Preto. Além de orquestra e coro, atuam sete solistas: as sopranos Erika Muniz e Tatiane Reis, a mezzo-soprano Juliana Taino, o barítono Davi Marcondes e o tenor Mar Oliveira entre eles.

Para Godoy, é uma obra marcante. “José Maurício não guardava suas partituras, entregava o material a quem a peça era destinada. Mas com essa foi diferente. Ele pediu ao filho que a guardasse depois de sua morte. E se ele a considerava assim tão especial, também preciso vê-la dessa forma.”

Segundo Godoy, há muitos contrastes na dramaturgia da missa, que evoca o texto da missa católica. “Esses contrastes são comoventes. E há passagens muito marcantes. O Credo, por exemplo. A partitura evoca uma credulidade tão brasileira, pelo menos a sinto dessa forma… É a credulidade de quem vive pela fé uma redenção impossível, e o faz de uma maneira muito amorosa.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.