Tema de biografia, Ringo lança EP feito no isolamento

Aos 80 anos, o beatle Ringo Starr vibra ao falar de Zoom In, um novo EP que chegará às plataformas dia 19. Em entrevista ao Estadão, ele se emociona ao falar de como conseguiu fazer a distância o vídeo grandioso da música Here’s to the Nights, com a ajuda de amigos como Paul McCartney, Ben Harper, Joe Wash e Lenny Kravitz. “A ideia foi da cantora e autora Diane Warren, tenho de ser honesto. Comecei a chamar meus amigos, Paul, Joe, Corinne Rae, Sheryl Crow. Apenas mandávamos os arquivos e dizíamos: ‘Façam o que vocês quiserem’. Foi incrível.”

Generoso, Ringo responde sobre Beatles, biografias e das possíveis interferências de John e Paul em suas levadas. Ele acredita que, graças à tecnologia, as pessoas, apenas agora, o ouvem melhor.

Beatles

O jornal Washington Post os chamou de “assexuados”. O New York Herald Tribune os repartiu em três: “75% publicidade, 20% corte de cabelo e 5% lamentos alegremente cantados”. E a revista Newsweek fez uma análise mais rigorosa sobre a passagem dos Beatles pelo programa Ed Sullivan Show, em 1964: “Eles são um pesadelo: rígidos, vaidosos e com cabelos cortados como tigela. Musicalmente, quase um desastre: guitarras e bateria golpeando com força uma batida incessante que dispensa ritmos secundários, harmonia e melodia. As letras, pontuadas por gritos de ‘yeah yeah yeah’, são uma catástrofe… E há grandes chances de que vão desaparecer, como prevê com confiança a maioria dos adultos”.

Há mais do que todas as vitórias contadas há seis décadas por trás do sorriso grande e das mãos em eterno sinal de “paz e amor” de Ringo Starr. Afinal, antes e mesmo depois de vencer com os Beatles, ele precisou, silenciosamente, vencer os Beatles. Ao chegar ao estúdio Abbey Road, em Londres, para gravar Love me Do, em 1962, deparou com outro músico em seu lugar. Andy White passava a George Martin uma segurança que o produtor não via em Ringo. Coube ao baterista resignar-se no pandeiro.

Historiadores, biógrafos e jornalistas compram e vendem a ideia de que Ringo foi um fantoche nas mãos de John e Paul, reforçando a tese do “beatle sortudo”. Ele mesmo fez confissões ao biógrafo mais íntimo dos Beatles, Hunter Davis, em 1968, reproduzidas em 2020 por outro biógrafo, Michael Seth Starr: “Às vezes, me sinto excluído, sentado lá na bateria, só tocando o que me mandam tocar”. Um desabafo que ajudou a criar o mito que ele desmonta quando diz ao Estadão: “Ainda posso ver os olhos de John arregalados quando comecei a tocar Come Together”.

Sir Ringo Starr, 80 anos, quase não tem mágoas e diz perdoar até o repórter que confessa ter feito, um dia, mau juízo de suas habilidades. “Eu perdoo você, só você.” Ele está leve, feliz, de casaco vermelho e óculos escuros quando aparece em uma sala virtual para dar a entrevista sobre seu novo EP, Zoom In, que será lançado dia 19, e um livro com as histórias que vive ao lado de sua estelar All Starr Band desde 1989. Aos poucos, acredita, o tempo tem colocado as baterias que fez em seu devido lugar.

Como vai, Ringo? Desculpe meu inglês nervoso, não é todo o dia que um beatle aparece aqui na sala de casa.

Ah, claro (risos).

Fiquei imaginando como alguém que passou a vida cercado por milhares de pessoas grava um EP com vários músicos sem poder vê-los.

Bem, meses atrás, eu estava gravando um álbum chamado What’s My Name e, quando terminei, disse: “Ok, esse será o último que farei”. Então, veio a pandemia e percebi que poderia nunca mais fazer turnês. Fiquei deprimido, mas pensei: “Ok, vou fazer um EP”. E fui para o estúdio iniciar a gravação com meu engenheiro de som. Diane Warren me mandou a canção Here’s to the Nights e teve a ideia de fazermos um clipe juntando todas aquelas pessoas. Achei incrível.

Depois de mais de 30 anos na estrada com a All Starr Band, você terá um livro com histórias da banda. Então, minha pergunta é: o que a All Starr Band deu a você que os Beatles não deram?

Não, não (faz uma expressão de reprovação). Os Beatles me deram tudo. Eu tive grandes irmãos, grandes amigos, fizemos grandes músicas…

Mais tranquilidade?

A All Starr foi uma experiência muito diferente dos Beatles. Eu nunca havia montado uma banda antes quando comecei a ligar para as pessoas em 1989. Eu dizia: “Olá, eu ainda não tenho uma banda, mas você quer tocar comigo?”. E todos diziam sim. Depois de 18 meses de turnê pelo mundo, encerrei a banda e comecei uma nova. E, um tempo depois, encerrei a nova e comecei outra. E então, há 12 anos, parei de fazer isso e passei a apenas trocar alguns músicos. O guitarrista Steve Lukather, por exemplo, está comigo há nove anos.

Eu devo confessar que estou entre os críticos que acreditaram que você fosse o “beatle sortudo”, um músico não tão bom que, por sorte, tocava na banda em que todos queriam tocar. Queria pedir sinceras desculpas. Basta ouvir músicas com baterias incríveis como Something, Ticket to Ride, Come Together, Get Back, She Said She Said ou Rain para saber que, mais do que marcar o tempo, você conseguiu integrar células rítmicas ao pensamento melódico das canções. Isso os libertou e impediu que os Beatles ficassem presos à ideia dos tempos e contratempos do rock. Você guarda mágoas das críticas?

Você sabe que nós nunca fomos músicos profissionais, nunca lemos música. Éramos meninos que gostavam de rock, como artistas de rua, que se juntam para tocar e tirar sarro das coisas. Um tempo depois, cada um encontrou sua forma de tocar e eu acabei descobrindo que gostava tanto de segurar o tempo na bateria (ele bate uma mão sobre a outra para marcar o ritmo) quanto de usar a emoção que vinha de dentro para me libertar (faz agora um gesto como se tocasse uma virada de bateria). Então, entendi que podia tocar com o coração, e não apenas com a mente. É por isso que as pessoas ainda me chamam para gravar. Elas sabem que, para mim, não importa se a canção é minha, sua ou de outro alguém. Faço meu melhor, e nunca vou fazer um solo de bateria enquanto o cantor estiver cantando (risos). Não sei se respondi a sua pergunta, mas acho que faz sentido.

Posso dizer então a minha teoria?

Pode (risos).

Parece que, depois de tantos anos ouvindo o baixo de Paul, as guitarras de John, os solos de George, as ideias dos vocais, as melodias, as harmonias e os arranjos, as pessoas passaram a ouvir mais os detalhes de sua bateria. Era muita coisa pra se descobrir em apenas 50 anos…

Isso pode ser (risos). Mas eu tenho que agradecer ao Giles Martin (filho do produtor dos Beatles, George Martin, que começou a remasterizar e remixar a discografia da banda para relançá-la a partir de 2006). Foi Giles quem colocou a bateria no lugar correto, onde ela deveria estar, usando o aparato tecnológico que temos agora. E só agora você realmente consegue ouvir o que estou fazendo. É curioso. Se você ouvir as primeiras gravações dos Beatles, especialmente as feitas em mono, vai ver que não há graves na bateria. Os técnicos tiraram todos os meus graves e deixaram a bateria soando baixo. Quando o ponteiro do gravador batia no vermelho, eles diziam que tinham de abaixar os tons da bateria ou do bumbo. A remasterização digital trouxe mais clareza sobre meu jeito de tocar e, hoje, cada vez mais pessoas dizem isso que você me perguntou: “Poxa, foi ótimo o que você fez, eu nunca tinha ouvido antes”.

Você nos perdoa?

Perdoo você. Só você (risos).

As pessoas escrevem mil coisas, você sabe… Uma delas é que havia sempre alguém, John, Paul ou George Martin, dizendo o que você deveria fazer nas músicas. Você teve mesmo liberdade para criar aquela bateria de Come Together, por exemplo, ou fez apenas o que pediram?

Tudo nos Beatles surgia como mágica, acredite, como mágica! John chegou e tocou Come Together naquele dia (ele canta o riff de guitarra). E então, eu comecei a tocar a bateria (e canta o riff com a bateria). Eu posso ver agora mesmo os olhos de John arregalados enquanto eu tocava aquilo. Ele dizia. “Uau, o que é isso! O que é isso!” A história dos Beatles é que nós desafiávamos uns aos outros: “Isso é muito legal”, alguém dizia. Ou: “Isso não é tão legal” (risos). Eu adoraria dizer a você que existia um processo mais cuidadoso na construção das músicas, mas tudo era mais imediato. Gravávamos algumas faixas por três ou quatro vezes e, então, descobríamos a melhor dentre elas. O que saía vinha do músico que eu era e dos músicos que eles eram. A única vez em que tivemos de falar sobre alguma coisa foi sobre a minha bateria em uma música e o baixo do Paul em outra. Não queríamos ofender um ao outro, então eu cedia um pouco, ele contornava… Alguém dizia: “George, você fará um solo aqui.” “Ok, ótimo.” “Aqui tem uma virada de bateria.” “Ok, beleza.” E o curioso é que esses solos se tornavam a canção. Eles eram gravados naquele instante e ficavam para sempre, com uma força de fazer você reconhecer as músicas apenas ao ouvi-los. Isso é lindo. Eu gostaria de dizer a você que as criações eram momentos profundos e significativos e que sentávamos lá por horas para fazê-las, mas não. Na realidade, só dizíamos “1, 2, 3, 4!” e víamos o que saía.

O que você pensa sobre biografias? Já leu alguma biografia escrita sobre os Beatles ou sobre sua vida?

Não, nunca li. Muitas pessoas já escreveram biografias sobre mim e eu mesmo fui convidado para escrever a minha própria, uma autobiografia. Disseram que eu só precisaria ler uns quatro ou cinco livros sobre os Beatles para me preparar e fazê-la. Mas, pensei: “Não, não farei isso”. Faço isso nas músicas. Meus momentos com os Beatles estão nas canções. Não tenho interesse em escrever.

Mas biografias não são importantes para história?

Eu acho que não, elas não mudam as coisas. E, sabe, eu gostaria muito de acreditar que tudo que o um cara que nunca me encontrou escreveu sobre mim fosse realmente verdade.

Biografia Traz Angústias e Fraquezas

Apesar de não gostar de biografias, Ringo Starr pode relaxar diante de Ringo – A História do Baterista Mais Famoso do Mundo Antes e Depois dos Beatles, escrita por Michael Seth Starr, biógrafo que não tem nenhum grau de parentesco com Ringo.

Feito com muito material já conhecido de outras biografias, sobretudo a primeira, de Hunter Davis, de 1968, o livro repassa a história indo a detalhes curiosos e expandindo outros. Os tempos em que Ringo era considerado o melhor baterista de Liverpool, ainda como integrante da Rory Storm and the Hurricane; o primeiro encontro com os Beatles, que ainda tinham Pete Best com o batera; as primeiras gravações e o não dos executivos da gravadora Decca ao ouvirem uma fita da banda, em 1962.

Caminhos feitos por biógrafos passados são em geral reproduzidos, perpetuando o que há de real e invenção – um problema que não é exclusivo dos Beatles. O estereótipo de Paul, o controlador, é usado na descrição de algumas cenas (algo que o próprio Ringo desmente na entrevista acima). Mas a real demissão sumária e impiedosa de Pete Best, o primeiro baterista, é bem reconstituída.

Ringo foi o beatle que mais apanhou. Vaiado quando entrou na banda – por fãs do Cavern Club que não admitiam outro baterista no lugar de Pete -, sentiu quando George Martin decidiu chamar outro baterista para gravar Love Me Do em seu lugar e quando os amigos saíram em turnê sem ele, deixando-o em Londres com amidalite e faringite. E também por não participar mais das criações das músicas durante o processo de composição do álbum Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

A vida pós-Beatles é bem coberta e traz reflexões. Um pouco do estereótipo do “mau baterista” acabou sendo alimentado pelo próprio músico sobretudo em seus discos a partir de 1970. Foram poucos os grandes acertos, como o álbum Ringo, de 1973, com Photograph e It Don’t Come Easy, e Time Takes Time, de 1992. Em muitos deles, entendeu-se mais como cantor descompromissado do que o baterista dos tempos quebrados e desafiadores das canções dos Beatles. Fica a ideia de que o que sempre importou a Ringo foi mesmo viver.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.