Viola universal e sem limite

Talvez ele seja o artista que mais produziu nesses tempos de isolamento social. Ou algum outro nome teria feito mais de três álbuns desde março? E mais, sem essa de álbuns feitos com sobras de discos anteriores, como muito se faz. O violeiro Ricardo Vignini tem agora nas mãos Cubo, nas plataformas desde o dia 7 de dezembro, com dez faixas. São músicas próprias, muitas em parceria, e revisitações que não fazem exatamente parte do repertório violeiro. Ainda que tenha feito tudo remotamente, não houve economia de convidados. Dentre os 14 músicos ou cantores que o rodeiam, aparecem Francis Rosa, Fernando Nunes, Marcos Suzano, Humberto Zigler, André Rass, Adriana Farias, Adriano Magoo, Carlinhos Ferreira, Felipe Câmara, Álvaro Couto, Kuki Stolarski, Rodrigo Mantovani, Bruno Maia e Beto Scopel.

Vignini segue fazendo os movimentos libertadores da viola que realiza desde 1998. Não parece haver mais campos proibidos em que ele não possa pisar depois de tantas experiências. Seu álbum de agora, depois de mostrar Reviola em fevereiro e Sessões Elétricas em julho, é Cubo, uma coleção de temas que o colocam como um dos nomes de maior originalidade na música urbana instrumental. Uma a uma, suas escolhas rompem qualquer caminho proposto anteriormente para explorar um mundo novo em cada faixa.

Ele começa com o rock Dharma, uma parceria com Socorro Lira, com voz do ótimo cantor e compositor de Joanópolis, Francis Rosa, e uma cozinha blues formada pelo baixo de Rodrigo Mantovani e a bateria Humberto Zigler. A viola de Vignini tem isso. Mais do que tornar moda sertaneja tudo o que toca, algo que definitivamente não acontece, ela faz o blues de alguma forma soar sobre as mais variadas bases. Isso talvez por sua afinação aberta, pelas blue notes que produz e pelo slide que usa às vezes, o efeito típico dos bluesmen extraído com seus bottlenecks, os gargalos das garrafas que os negros usavam deslizando-os sobre as cordas do violão.

A faixa que segue então, Fazenda 83, muda o rumo da prosa e coloca a alma de aço do violonista André Geraissati, vizinho de apartamento e amigo, para soar na viola de Vignini. Um tema lindo, de dar saudades de uma musicalidade que ia contra a corrente das muitas notas dos violões tão geniais quanto muitas vezes esportivos de Al Di Meola, John McLaughlin e Paco de Lucía desde o encontro que fizeram para o lançarem disco Friday Night in San Francisco, em 1981.

O tema Cada Um no Seu Quadrado tem a ver sim com o contexto de quarentena. “Os músicos encarcerados tocando nos seus ‘quadrados particulares'”, diz Vignini em um texto sobre o álbum. A faixa com Fernando Nunes (baixo), Kuki Stolarski (bateria), Álvaro Couto (acordeon) e Beto Scopel (trompete e beatbox) é um passeio de slide. Los Dinosaurios foi pescada do repertório do compositor argentino Charly Garcia, lançada primeiro em 1983, feita em homenagem aos desaparecidos políticos durante os anos de ditadura na Argentina. “Na música original, tem o refrão que diz que ‘os amigos, cantores de rádio, os que estão nos jornais, a pessoa que você ama, as que estão no ar, na rua podem desaparecer'”, volta a comentar Vignini no mesmo texto. “Outro momento, outra história que vai bem de encontro ao que estamos vivendo atualmente na pandemia”, diz.

E tudo muda mais uma vez com a chegada de Maria Elena, uma antiga canção mexicana dos anos 30 de Lorenzo Barcelata feita em homenagem à esposa do presidente do México. Uma guajira campesina gravada também pela dupla Los Índios Tabajara, dois irmãos da tribo Tabajara, do litoral cearense. A voz da também violeira Adriana Farias é belíssima, com o acordeom de Adriano Magoo, a percussão de André Rass e o baixo de Fernando Nunes. Uma gravação cheia de emoção que se tornaria a única feita com todos os músicos em estúdio. “Foi a última vez em que toquei em estúdio com outros músicos. Uma semana depois de fazer essa faixa, a pandemia fez todos irem para casa”, diz Vignini ao Estadão.

Fecha o tempo de novo e chega O Mundo, de André Abujamra, descrito pelo violeiro como “um dos maiores gênios das artes com quem tive a oportunidade de trabalhar”. O Mundo aparece sem letra, instrumental, mas talvez ela seja tão forte que esteja sugerida por quem a conhece mesmo quando não existe. “O mundo é uma salada russa / Tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia / O mundo é uma esfiha de carne / Tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire”. Saudade agora dos Mulheres Negras, que Abujamra teve com Maurício Pereira entre 1985 e 1991, e que, oficialmente, nunca deixou de existir.

Vem então São Thomé das Letras, com carga dos interiores de Minas Gerais e umas flautas que parecem colocar nesse contexto algo do Leste Europeu da idade média. E seguem a ela uma versão de Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, com a percussão de Marcos Suzano; Cat Burglar, de um amigo de Nova York, Woody Mann; e Cubo, cheia dos sentimentos trazidos pelos dias de pandemia na voz entregue de Felipe Câmara. Se acaba por aí a temporada de produções sem fim de Vignini? Não. “Pela primeira vez, vou fazer um álbum só com modas de viola. E, quando se fala de tradição, eu sou chato.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.