Virada Cultural evidenciou desafios de se manter engajamento em meio à pandemia

A Virada Cultural 2020 mal havia começado, na noite do sábado, 12, e nas redes sociais já pipocavam comentários de internautas lamentando a impossibilidade de o público formar as tradicionais aglomerações em torno de seus ídolos. É que, por causa da pandemia, o evento precisou se adaptar, apostando em apresentações online e em apenas algumas atrações presenciais. Tudo isso com orçamento enxuto, de R$ 6 milhões (para 2021, a Câmara Municipal acaba de aprovar um valor de R$ 11,3 milhões). Muitos dos comentários, ao mesmo tempo, evidenciavam a compreensão sobre as atuais restrições impostas pelo novo coronavírus.

A programação teve início às 18h, com mensagem de boas-vindas do secretário municipal da Cultura, Hugo Possolo, em transmissão online diretamente do Teatro Municipal. Em sua fala, Possolo reforçou o slogan deste ano, “Tudo de arte, nada de Aglomeração”, destacando os shows e intervenções urbanas da edição.

Na sequência, o apresentador Leo Madeira conduziu o anúncio das primeiras atrações. Ainda do Municipal, a partir das 18h30, o público pôde conferir pela internet o 3º Encontro Nacional de Mulheres na Roda de Samba, com a participação da cantora Fabiana Cozza, que subiu ao palco interpretando Juízo Final, e de Mart’nália, que começou sua performance com Pé do Meu Samba, música composta por Caetano Veloso especialmente para ela. Shows de Elza Soares com Flávio Renegado, de Criolo e de Rennan da Penha com Mc Kekel foram outros destaques musicais da noite. É difícil negar, no entanto, que algumas apresentações foram menos favorecidas do que outras pelo formato online, já que a falta de público no local não gerou o esperado clima de empolgação.

Em outros pontos da cidade, a programação se estendeu madrugada a dentro. Na região central, a instalação Anhangabaú: um Rio de Luz e Resistência tomou conta do vale em ação do Studio Visualfarm. Sob direção artística de Alexis Anastasiou, as árvores e a nova fonte do local foram iluminadas com projeções mapeadas. Até as 4h da manhã, houve ainda uma série de performances do grupo de dança Turmalinas Negras, com coreografias em diálogo com a instalação. Também no centro, grupos de dança vertical, como a Cia. La Folia e a Cia. Base (com bailarinos suspensos por meio de cordas), fizeram espetáculos na fachada do Edifício Matarazzo, no sábado, e do Edifício Martinelli e da Biblioteca Mário de Andrade, no domingo.

Itinerância

Desde a abertura do evento, moradores da região de Santa Cecília e da Vila Buarque também puderam assistir, de suas janelas e sacadas, à passagem de um trio elétrico com apresentações musicais promovidas pelo Cabaret da Cecília, no qual subiram cantores como Edy Star, Loulou Callas e Ivana Wonder, além de performers de teatro de marionetes.

Tal recurso, aliás, mostrou-se uma alternativa em tempos de isolamento social. Na manhã deste domingo, um palco itinerante com um piano partiu da Avenida Angélica até a Avenida Pacaembu com 13 pianistas alternando-se na execução integral das 32 sonatas de Beethoven para o instrumento, durante dez horas e 12 minutos, em uma homenagem aos 250 anos de nascimento do compositor. No mesmo formato, à tarde, uma apresentação do projeto Beatles para Crianças transformou um caminhão em um submarino amarelo, que vagueou pelo Parque do Ibirapuera e o seu entorno.

Últimos shows

Entre os destaques finais da programação, Arnaldo Antunes apresentou-se do Teatro Municipal, em transmissão online que alcançou cerca de 7 mil espectadores. Misturando pop e rap, Gloria Groove atraiu cerca de 4 mil pessoas, enquanto Elba Ramalho, na sequência, em show em homenagem a Jackson do Pandeiro, Dominguinhos e Luiz Gonzaga, ficou com uma média de 2.600 espectadores. Números expressivos comparados ao que o teatro poderia comportar em apresentações presenciais, dado que a sua capacidade é de 1.500 lugares. Vale notar que, entre esses números, esteve presente uma audiência de fora de São Paulo, que se beneficiou do formato online.

Em nota divulgada ao final do evento, o secretário da Cultura destacou que esta edição especial da Virada “veio para ajudar na reestruturação do setor cultural, tão prejudicado pela pandemia”. Resta agora saber quais adaptações ficarão como legado para as próximas edições.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.