Ana Kiara explica: adolescência requer atenção à saúde mental

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A adolescência é um período marcado por intensas transformações físicas, emocionais e cognitivas. Essas mudanças simultâneas podem gerar confusão interna e impactar diretamente a saúde mental dos jovens. Nesse contexto, a orientação e o acompanhamento da família tornam-se fundamentais para a construção de uma mentalidade saudável, com desenvolvimento da inteligência emocional e capacidade de lidar com adversidades. Segundo a psicóloga Ana Kiara Franzão, compreender esse processo é essencial para que pais e responsáveis consigam diferenciar comportamentos próprios da fase de sinais que exigem maior atenção.

FAIXA ETÁRIA – Kiara explica que há pesquisas científicas que apontam a adolescência se estendendo até os 23 anos, enquanto outras indicam que esse processo pode ir até os 25 anos. “A nossa parte pré-frontal do cérebro está interligada com nossa capacidade de resolver conflitos, realizar planejamento, ter controle inibitório e esse amadurecimento se fecha só mais tarde”, afirma a psicóloga. Esse desenvolvimento tardio ajuda a explicar comportamentos impulsivos, dificuldades de tomada de decisão e oscilações emocionais comuns nessa fase da vida.

IDENTIDADE – Durante a adolescência, o jovem inicia um processo profundo de autodescoberta. Mesmo que de forma inconsciente, uma pergunta passa a nortear esse período, como ressalta Kiara. “Nesta fase de descobertas, uma das perguntas que os adolescentes se fazem, mesmo que de maneira inconsciente, é ‘quem sou eu sem a aprovação dos meus pais?’”, destaca. Para ela, a identidade do adolescente está diretamente ligada ao que ele aprende em casa. Por isso, a supervisão familiar é necessária, não como forma de controle excessivo, mas como base de referência para que o jovem construa sua própria identidade com segurança emocional.

SUPERPROTEÇÃO – A psicóloga alerta para os efeitos da superproteção parental. “Normalmente, os pais superprotetores são aqueles que foram muito reprimidos na própria infância”, observa. Ela aponta que, ao impedir que o adolescente vivencie desafios, os pais acabam prejudicando o desenvolvimento da autonomia e da resiliência. “Se podar o indivíduo, ele não saberá resolver os próprios problemas e terá consequência na vida adulta, como por exemplo arranjar ou se manter em um emprego”, compara.

RESOLUÇÃO DE CONFLITOS – Outro aspecto fundamental é permitir que o adolescente enfrente e resolva seus próprios conflitos. “Deixar resolver os conflitos é um ponto relevante. Portanto, se tem um problema, deixe o adolescente resolver, perceber como é que se resolve e como se trata os outros”, orienta. Segundo Kiara, esse processo contribui para o reconhecimento do próprio erro, para a construção da confiança e para o fortalecimento da identidade.

LIBERDADE – A relação entre liberdade e responsabilidade também é central nesse processo. A psicóloga cita uma reflexão atribuída a Kant para ilustrar essa construção. ‘Só é livre quem não precisa ser vigiado’, relembra. “A gente entende disso que quando é livre e sabe da consequência dos atos. Então eu não farei uma coisa errada ou algo que irá gerar uma consequência negativa para mim. Aí entra o ponto do pai e da mãe orientar esse adolescente a seguir os caminhos corretos. Inclusive, ele precisa se frustrar em alguns momentos”, pontua. A frustração, segundo ela, não deve ser evitada, mas compreendida como parte essencial do desenvolvimento emocional e da formação da autonomia.

PRIVACIDADE – A adolescência também traz a necessidade de mais privacidade, mas Kiara faz uma distinção importante entre privacidade e segredo absoluto. “A privacidade é diferente de segredo absoluto. É um período em que o adolescente começa a ter mais noção do que é certo e daquilo que é errado. Não pode se esquecer que o responsável por aquela pessoa é o pai e a mãe”, afirma.

Ela reforça a importância do diálogo aberto. “É essencial que tenha um diálogo aberto, com ‘ouvido’, como se fala. Tem que escutar o adolescente para criar um vínculo melhor, para que essa privacidade seja mais consciente”. A psicóloga também é enfática sobre o acompanhamento dos pais. “Eu não gosto de que adolescente tenha privacidade, particularmente. Sempre oriento os pacientes e as famílias que eles precisam saber o que está acontecendo, com quem está conversando e o que está vindo de conteúdo para o filho.”

SINAIS DE ALERTA – Nem todo comportamento diferente indica um transtorno mental. No entanto, é preciso atenção aos sinais que se prolongam ou se intensificam. “Quando falamos de um transtorno mental, é necessário prestar atenção o quanto tempo ele fica isolado, se ele perdeu muito a vontade de fazer as coisas que gostava de fazer, porque tem coisas que são realmente da própria fase”, explica.

Ela destaca ainda alterações no sono, na alimentação e no comportamento emocional como indicativos importantes. Conforme a psicóloga explica, uma apatia prolongada é um sinal claro de alerta e exige atenção conjunta da família e, muitas vezes, da escola. “Às vezes come muito ou para de comer, sendo que o comportamento de parar de comer é mais das meninas por uma questão de pressão social, por conta das redes sociais, estética e autoimagem. Já os meninos, normalmente, vão buscar coisas diferentes”, relata.

VIDA SOCIAL – A interação social presencial também é essencial nesse processo. “É preciso estar com pessoas e olhar no olho. Quando se precisa estar com um amigo e não gosta de uma determinada situação, é necessário resolver olhando no olho”, afirma. Conforme descreve Kiara, essas experiências são fundamentais para a vida adulta, especialmente no ambiente de trabalho, onde habilidades de comunicação e posicionamento são constantemente exigidas.

ROTINA – A rotina também exerce papel central na saúde mental dos adolescentes. Mesmo em períodos de férias, a psicóloga ressalta a importância de manter uma certa previsibilidade. “A rotina é essencial, assim como se fala da rotina desde quando é bebê. Quando é adolescente, ela também precisa permanecer”, explica e complementa que “o principal é a regulação do sono, justamente por ajudar no desenvolvimento hormonal e físico. A atividade física é importantíssima, eles precisam estar em movimento, pois é um dos pilares da saúde mental e da sua regulação emocional”, alerta.

ESCUTA ATIVIDA – Para Kiara, educar é um processo desafiador tanto para os pais quanto para os filhos. “A dor que o adolescente vai sentir, o pai também vai sentir”, afirma. No entanto, ela reforça que o diálogo e a escuta validam os sentimentos do jovem. “Não quer dizer que se concorda com tudo que o filho está fazendo. Mas, quando tem uma escuta para ele, você valida o que ele está sentindo e isso gera uma confiança.” Essa confiança, conforme revela, é a base para a formação de adultos emocionalmente saudáveis, capazes de lidar com frustrações, se posicionar diante da vida e construir relações mais equilibradas.

Da Redação

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