Ano novo: onde o singelo faz morada

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Os olhos da contadora aposentada, Gemira Bettin, brilharam quando ela contou que a nutricionista a convidou para descascar cenouras e batatas. Dona Delvina Pancera riu ao contar que precisou de ajuda para arrumar os cabelos. É na rotina do Lar dos Idosos que a alegria faz morada no singelo. “Feliz ano novo, adeus ano velho” foi cantado em coro pelos anciãos que residem na Associação Promocional e Assistencial de Toledo (APA). Estes idosos ensinam lições para um ano que se inicia, ao viverem um dia de cada vez.  

Na instituição, todos os cuidados oferecidos pelos 30 funcionários proporcionam qualidade de vida, alegria e longevidade aos seus moradores. A coordenadora do Lar, Ester Rossol, evidencia que os momentos de descontração e celebração são vivenciados ao longo do ano, com o apoio de clubes de serviço, escolas, universidades e igrejas.

– Se não fizéssemos esse momento diferenciado para eles, muitos deles passariam as datas comemorativas em branco ou nem perceberiam que essa data tão importante existe – relata Ester.

Com as portas abertas para receber visitas e voluntários, os anciãos nunca estão sozinhos, mesmo que alguns não tenham familiares e amigos. Os afetos recebidos pelos vovôs e vovós da APA relembram que nunca se está só e que as celebrações devem ser recorrentes, assim como reconhecer e brindar as pequenas conquistas que levam aos grandes sonhos.

Quando questionada sobre os sonhos para 2026, Gê, assim como Gemira gosta de ser chamada pelos profissionais da casa e pelos amigos, sente que já não pode mais realizar o desejo de viajar, devido ao uso de um andador de rodinhas e sua dificuldade de mobilidade, como reconhecimento da própria limitação física. Nunca se sabe como estará a saúde no futuro, o que pede para desfrutar experiências no aqui e no agora, sem a desistência daquilo que a alma almeja, sem jamais adiar ou congelar sonhos.

Vaidosa, dona Delvina colore os cabelos e realça o sorriso com um toque de batom. Carrega um carinho por si mesma, lembrando que o amor-próprio não tem idade nem data marcada. Cuidar-se é um ato cotidiano, feito em dias ensolarados ou chuvosos, um jeito delicado de honrar o próprio corpo, essa casa que abriga, sustenta e que merece ser amada.

Dona Gê relembra que nunca recebeu tanta atenção quanto na APA. Lágrimas inundam os olhos de Ester ao ouvir o seu relato e sai da sala para recompor as emoções.

–  Meu sonho é agradecer à Deus pela vida e por estar aqui nesse lar que me cuida como se eu fosse um bibelô. Eu nunca fui tão bem tratada como aqui.

Ano após ano as pessoas são moldadas pelo tempo e as marcas ficam registradas na pele fina do rosto, nas linhas de expressão, no olhar e no coração. Os anos colecionam fases de alegrias e de sofrimentos, de dificuldades e de bons momentos que a vida proporciona, situações que serão vivenciadas ao longo dos 365 dias que estão por vir. A inconstância dos altos e baixos é inevitável.

– As coisas ruins eu ponho na gaveta, tranco com a chave e jogo ela fora. Deixo aberta a chave da gaveta para 2026, onde só incluo coisas boas, como a saúde. Na verdade, como eu vou falar? Esperança – define dona Gê.

Da Redação                     

TOLEDO

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