Audiência expõe frustrações da comunidade com promessas não cumpridas
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Moradores do Jardim Panorama, autoridades e ex-agentes públicos relataram, em audiência pública realizada na sexta-feira passada (30), uma série de frustrações envolvendo a instalação de uma usina na região e as promessas de compensações ambientais que, segundo os depoimentos, nunca se concretizaram. Entre os principais pontos levantados estiveram a ausência de áreas de lazer, impactos ambientais e a falta de efetividade das ações do poder público ao longo dos anos.
Desde o ano passado, uma investigação sobre possível pedido de propina colocou no centro das atenções a CGH Rio São Francisco e a tramitação de um projeto de lei na Câmara Municipal. O caso levou os vereadores Edimilson Dias Barbosa (Dudu Barbosa) e Valdomiro Nunes Ferreira (Valdomiro Bozó) à condição de réus, após denúncia de que ambos teriam solicitado R$ 300 mil em troca da aprovação do Projeto de Lei.
O principal ponto apurado é se esse valor caracterizaria efetivamente uma solicitação de propina ou se estaria relacionado a investimentos destinados a obras públicas. A partir daí, surgem questionamentos ainda mais delicados: qual seria a ligação entre os R$ 300 mil e a previsão de melhorias no Parque Genovefa Pizzatto?
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O projeto original, apresentado em 2019, previa a implantação do Parque do Rio São Francisco em toda a área plana do terreno, com forte potencial turístico e ambiental. De acordo com o planejamento inicial, a primeira etapa poderia ter sido concluída até o fim de 2021, com participação do poder público e a instalação de estruturas como um Jardim Botânico, além de equipamentos voltados à preservação ambiental, ao lazer e ao turismo.
O promotor de Justiça substituto Dr. Rodrigo de Assumpção Araújo Azevedo, o advogado de defesa Luciano Katarinhuk e o juiz Murilo Conehero Ghizzi acompanharam os depoimentos e realizaram os questionamentos pertinentes.
O JORNAL DO OESTE traz, nesta sexta-feira (6), as oitivas do comunicador social – com habilitação em Propagando e Publicidade – Oscar de Jesus Gaspar; o ex-vice-prefeito Ademar Lineu Dorfschmidt, o ex-vereador Genivaldo Paes e o chefe de gabinete do vereador Valdomiro Bozó, Agnaldo Simão de Souza.
PROMESSAS – O comunicador social – com habilitação em Propagando e Publicidade – Oscar de Jesus Gaspar, morador do Panorama e presidente da Associação de Moradores do bairro à época, afirmou que participou de uma audiência pública em 2018, realizada na Câmara de Vereadores de Toledo, quando foi apresentado à comunidade um projeto que previa a construção de um parque. Segundo ele, a proposta traria à região um espaço de lazer e potencial turístico.
Gaspar destacou que, ao final da audiência, moradores realizaram questionamentos para a empresa, porque a obra impactaria a região. “Seria algo para compensar a comunidade, porém não foi feito nada naquele momento e nem nos dias atuais”, afirmou.
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Ao ser questionado se a comunidade realizava cobranças ao vereador Valdomiro Bozó sobre as melhorias, Gaspar disse que sim. “O vereador Bozó é visto como uma liderança no bairro”. O Ministério Público ainda perguntou se haveria uma atuação concreta do vereador ao longo dos anos, Oscar Gaspar responde que teve uma indicação e acompanhou pronunciados realizado na Tribuna.
Ele relatou ainda que, embora tenha acompanhado pronunciamentos e uma indicação do parlamentar, não teve acesso à existência de emendas aos projetos de lei apresentados pelo Executivo em 2024 e 2025, apesar de frequentes discussões sobre o tema, especialmente quanto ao impacto ambiental e à responsabilidade pelas obras.
PREJUÍZOS – O ex-vice-prefeito Ademar Lineu Dorfschmidt, que assumiu a chefia do Executivo em duas ocasiões e atualmente atua no setor imobiliário, também prestou depoimento. Ele disse que ficou surpreso ao tomar conhecimento do suposto pedido de propina investigado. Segundo Dorfschmidt, a comunidade sofreu prejuízos ambientais e políticos, uma vez que as promessas feitas não foram cumpridas.
“A usina estava operando com autorização de um secretário e o prefeito nem estava sabendo”, afirmou. Ele ressaltou que Toledo possui áreas de lazer em diversas regiões, mas o Panorama nunca foi contemplado. “O sonho daquela comunidade sempre foi ter um espaço de lazer. Nós sonhávamos com um Jardim Botânico”, destacou.
Dorfschmidt lembrou ainda que a região possui uma cachoeira que poderia ter sido explorada como ponto turístico, mas que acabou sendo impactada pela obra. Ele classificou a instalação da usina como “o maior crime ambiental” da área e mencionou a existência de vídeos que mostram animais mortos em meio à lama provocada pelo canal da usina.
AVANÇOS E DEBATES – O ex-vereador Genivaldo Paes, que exerceu mandato até dezembro de 2024, afirmou não ter conhecimento da denúncia durante o período em que esteve na Câmara. Segundo ele, apesar de ter integrado a Comissão de Trabalho, nunca foi realizada reunião para tratar do assunto.
Paes recordou que um projeto considerado “magnífico” chegou a ser apresentado à comunidade, mas não avançou. Ele citou ainda que mudanças na legislação ocorreram sem a realização de audiência pública e sem a espera pelo parecer do Conselho responsável.
ENTENDIMENTO – Na condição de informante, o chefe de gabinete do vereador Valdomiro Bozó, Agnaldo Simão de Souza relatou que soube das acusações somente após o afastamento do parlamentar. Segundo ele, desde o início do mandato houve buscas junto à Procuradoria e à Secretaria de Planejamento para entender a situação do projeto.
Agnaldo afirmou que Bozó defendia uma alternativa melhor para a região, como a criação de um Jardim Botânico, e que chegou a fazer indicações e inserir a proposta na Lei Orçamentária Anual (LOA).
Ele também relatou episódios de tensão envolvendo empresários e a necessidade de apresentação de emendas para adequações no Projeto de Lei nº 149, que previa, entre outras medidas, a construção de um lago – obra que, segundo ele, nunca saiu do papel.
Ao final da audiência, os depoimentos reforçaram um sentimento comum entre moradores e ex-gestores: o de que a comunidade do Jardim Panorama foi deixada à margem das decisões e das compensações prometidas.
Da Redação
TOLEDO