O corvo nosso de cada dia

Em uma reunião On Line da qual participava na semana que passou, com um grupo de seis felizardos gerentes que foram promovidos a diretores e que seriam transferidos para coordenar novas unidades fora de São Paulo, fui questionado no chat por um jovem coordenador que auxiliava no evento, que me perguntou se eu achava justo que algumas pessoas tivessem muitos trabalhos e fontes de renda diferentes, enquanto tantos nada ou pouco tinham.

É claro que esta pergunta não pode ser respondida de uma forma genérica, sob a possibilidade de ser cometido algum erro de posicionamento.

Pedi que ficássemos alguns minutos no final da reunião para que me desse maiores detalhes sobre sua pergunta, permitindo que eu pudesse me posicionar com maior exatidão a respeito.

Quando encerrei os trabalhos e os demais saíram da sala, paramos para conversar reservadamente. Ele me relatou o seguinte fato: – Tenho alguns conhecidos e amigos que possuem tudo na vida, uma boa família, dinheiro, casa confortável e ainda por cima conseguiram empregos com maior remuneração do que a minha. No final de ano vão para a praia em casa de amigos ou parentes, quando não as têm como de sua propriedade. Por terem estudado em escolas particulares, estão agora na universidade pública. Com certeza quando se formarem vão conseguir bons empregos pela influência de algum parente ou amigo.  Enquanto eu tenho que me “matar” para conseguir algo, para eles tudo vem de mão beijada. 

Eu então lhe fiz a seguinte pergunta: – Isto lhe incomoda?  Ele respondeu: – É claro que não, só que eu não acho justo.

Então eu lhe respondi: – Se o sucesso de seus amigos lhe incomoda, e eu afirmo que “lhe incomoda e muito”, o que está fazendo junto deles?  Será que você está procurando obter alguma vantagem com isto? 

Ele ficou meio desconsertado e me disse: – Eu não vou lhe enganar, pois o senhor sabe que no fundo no fundo isto é verdade.

Então eu coloquei a mão em seu ombro, o elogiei por sua sinceridade contando-lhe uma velha história que poderia ilustrar melhor o assunto… “Era uma vez uma linda pomba que costumava viver em um ninho perto de uma cozinha. Os cozinheiros gostavam muito dela e freqüentemente lhe davam grãos. Ela gostava do lugar e tinha uma boa vida.

Um dia, um corvo enciumado, viu a pomba e percebeu como ela estava recebendo ótimas refeições da cozinha. Então, numa ocasião o corvo fez amizade com a pomba, e sob este pretexto, conseguiu de alguma forma fazer com que a pomba dividisse o seu ninho com ele.

A pomba então lhe disse que poderiam passar o tempo juntos discutindo política, religião, etc., mas que em se tratando de comida cada um teria seu meio próprio. Dessa forma ela sugeriu que o corvo buscasse sua própria comida.

Mas o corvo estava impaciente e sua única razão para fazer amizade com a pomba era pela comida. Ele queria carne e tudo o que a pomba ganhava da cozinha eram grãos. Além do mais, não poderia esperar o tempo em que a pomba viesse a lhe apresentar os novos amigos. Era tempo demais para ele. 

Na pressa, decidiu visitar a cozinha diretamente para obter comida. Assim pensando, ele furtivamente se arrastou pela chaminé abaixo e entrou na cozinha. Sentiu o cheiro de um peixe temperado que estava numa panela. Cobiçoso, adiantou-se e tentou pegar o peixe, porém ao fazer isto tropeçou numa tampa de panela, fazendo aquele barulhão. A confusão alertou o cozinheiro que estava na sala vizinha, que ao ver a ave pegou uma tábua de bater carne desferindo-lhe com toda a força um golpe na cabeça, vindo a matá-lo”.

Quando terminei a história, ele sorriu e me disse: – É professor, acho que tenho feito o papel do corvo ultimamente, e não quero terminar como ele terminou.

Conversamos mais algumas vezes, e percebi que ele descobriu realmente que o caminho das conquistas deve ser trilhado com muito trabalho, esforço e dedicação. Que cada um deve fazer a sua melhor parte, evitando frustrações e tristezas ao se comparar com o sucesso alheio.  E principalmente, que o convívio com pessoas mais bem sucedidas do que nós dever ser um motivo de incentivo para o crescimento mútuo, e não de despeito ou reprovação. Muito menos uma forma de procurarmos subir na vida sem grandes esforços.

A hora já chegou, a sucessão das coisas corre por seus próprios caminhos, por isto, quem plantou flores, terá jardins, quem colheu sem plantar terá que quitar sua dívida. Não acredite que o mal prospera, a demora e as perturbações, são é apenas o bem, dando um tempo até a melhor hora chegar. 

Eduardo Klaue é Mestre em Gestão de Negócios, Personal Advisor de Líderes Empresariais, Sócio nas Empresas “Klaue & CIA Consulting e Klaue Corretora de Seguros”