Onde o lazer termina e o respeito começa
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O Carnaval é, por definição, o período da liberdade e da descontração. No entanto, historicamente, essa mesma atmosfera tem sido utilizada como pretexto para camuflar comportamentos inaceitáveis. O lançamento da campanha “Não é Não” em Toledo, reforçado pela recente capacitação de proprietários de bares e casas noturnas, não é apenas um protocolo administrativo: é uma resposta civilizatória necessária diante de uma realidade que ainda nos fere.
O evento realizado nesta semana com a parceria entre a Secretaria da Mulher e a Polícia Militar, toca em um ponto nevrálgico: o ambiente de lazer. É nestes espaços que a linha do respeito é frequentemente cruzada. Quando um estabelecimento comercial entende que sua responsabilidade vai além de servir uma bebida, e que a segurança de suas clientes é parte integrante do serviço, toda a cidade ganha.
A fala do Capitão Cajuhy durante o treinamento foi pedagógica. O assédio não se manifesta apenas em agressões físicas explícitas; ele está no beijo forçado, no toque indesejado e na insistência após o primeiro “não”. Treinar o “olhar atento” de garçons e seguranças para identificar o desconforto de uma mulher é uma ferramenta poderosa de prevenção. Muitas vezes, uma intervenção discreta e um acolhimento rápido são suficientes para evitar que um importunador se torne um agressor.
Precisamos falar também sobre o contexto. O editorial de hoje não pode ignorar que esta campanha ganha força dias após um trágico feminicídio em nossa cidade. A violência contra a mulher não escolhe hora, mas o Carnaval, com o aumento do consumo de álcool e das aglomerações, potencializa os riscos. É preciso desconstruir a falácia de que a roupa, o horário ou o estado de sobriedade da mulher justificam qualquer investida. Como bem pontuado pelas autoridades: o não é absoluto.
O combate à violência de gênero não se faz isoladamente. Ele exige que o dono do bar, o jovem no ensino médio e o cidadão comum compreendam o seu papel.
Toledo dá um passo importante ao institucionalizar o acolhimento. A fixação de cartazes, a divulgação dos canais de denúncia (153, 190, 180) e o uso do sinal mundial de socorro são medidas práticas que salvam vidas. Mas o sucesso dessa campanha depende de uma mudança de mentalidade. Precisamos da consciência e entendimento de que a liberdade de uma mulher termina exatamente onde ela diz que termina.