O ciclo da esperança
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Se existe uma entidade mais otimista que o brasileiro no dia 31 de dezembro, desconheço. Somos seres fascinantes: passamos 364 dias reclamando do preço do tomate, do trânsito e daquela infiltração no teto, mas basta o relógio marcar meia-noite que, magicamente, acreditamos que o universo conspirará para nos transformar em poliglotas fitness e investidores de sucesso em menos de uma semana.
O Ano Novo é, na verdade, a maior peça de ficção que já escrevemos. E, como editora-chefe, eu adoro uma boa história.
Convenhamos, a lista de metas de janeiro é o documento mais lido e menos executado da história da humanidade. É aquele momento em que olhamos para a lentilha e juramos amor eterno à couve-flor. Prometemos que “este ano eu não me estresso”, enquanto já estamos planejando o primeiro e-mail que enviaremos na segunda-feira.
Mas sabe de uma coisa? Essa comédia de repetição tem o seu valor. Se não fosse por essa crença renovável de que o calendário tem o poder de resetar nossos boletos e nossas teimosias, o que seria de nós? A vida seria apenas uma sucessão interminável de terças-feiras nubladas, quintas-feiras de “falta só mais um dia” e fins de semana carregados de afazeres ou do preguicinhas.
A reflexão que fica entre um brinde e outro é que a gente gasta muito tempo tentando criar um “Novo Eu” e pouco tempo editando o “Eu Atual”. O Ano Novo não é uma cirurgia plástica na alma; é mais como uma reforma em casa habitada. A estrutura é a mesma, mas a gente pode trocar as cortinas, pintar uma parede de uma cor mais alegre e, por favor, jogar fora o que já está fora da validade (inclusive rancores e sapatos que apertam).
Neste ano, eu proponho uma meta mais realista: ser apenas 1% menos ranzinza. Se conseguirmos não brigar no grupo da família e beber dois copos de água para cada taça de espumante, já estaremos no lucro editorial da vida.
Não precisamos de uma revolução francesa particular para que o ano seja bom. O segredo está nas entrelinhas. É saber rir do fato de que a academia continuará cheia em janeiro e vazia em março. É entender que o “ano novo” é só um fuso horário diferente para a nossa esperança.
Então, caro leitor, brinde às suas falhas também. Elas são o que tornam a sua história interessante de ler. Que 2026 seja leve o suficiente para a gente não perder o equilíbrio, e cômico o bastante para a gente não perder a sanidade.
No final das contas, se nada der certo, não se preocupe: em 365 dias a gente inventa tudo de novo.
Um forte abraço a todos e nos vemos em 2026.