O que nos mantem de pé?
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A notícia do resgate de um jovem após cinco dias perdido na imensidão do Pico Paraná não é apenas o relato de um final feliz em uma operação de busca e salvamento. É, acima de tudo, um lembrete vívido sobre a matéria de que somos feitos. Em um mundo cada vez mais pautado pela urgência do imediato e pela fragilidade dos vínculos, episódios como este nos forçam a parar e contemplar dois pilares da existência: a resistência do corpo e a inexpugnabilidade do espírito.
O Pico Paraná, com seus cumes imponentes e clima imprevisível, é um gigante que impõe respeito. Perder-se ali, enfrentando o frio cortante, a escassez de alimento e a solidão do silêncio das montanhas, levaria muitos ao desespero. No entanto, o que vimos foi a manifestação do que a ciência chama de resiliência, mas que a vida prefere chamar de fé.
A resistência humana é um fenômeno curioso. Ela não reside apenas nos músculos ou no preparo físico — embora estes sejam valiosos. A verdadeira força brota de uma fonte invisível. Quando o corpo clama pela desistência, é algo “superior” que assume o comando. Para uns, esse algo é a crença fervorosa em uma divindade; para outros, é o amor incondicional pela família que aguarda em casa, ou a convicção profunda de que sua missão no mundo ainda não se encerrou.
Essa fé — entendida aqui como a certeza de coisas que não vemos, mas sentimos — funciona como uma bússola interna. É ela que mantém os olhos abertos durante a noite gelada e os pés em movimento quando cada passo parece um sacrifício. É o propósito que dá sentido à dor.
Não precisamos estar perdidos em uma trilha para sentir o peso do isolamento ou o frio das incertezas. No cotidiano das redações, das empresas, das escolas e dos lares, todos enfrentamos nossos próprios “Picos Paraná”. Há dias em que a neblina da vida nos impede de ver o caminho à frente.
A história desse jovem nos ensina que o isolamento não é o fim e é possível encontrar recursos internos que desconhecemos possuir, que a esperança é uma disciplina e manter-se focado no propósito de sobreviver é uma escolha ativa.
Que este episódio não seja apenas uma nota de rodapé sobre segurança em trilhas. Que ele sirva como um motivador para nossa própria motivação. Se um ser humano é capaz de suportar cinco dias sob as condições mais adversas movido pela vontade de viver e pela fé, o que nos impede de enfrentar os obstáculos menores do nosso dia a dia?
A força humana é vasta, mas é a fé em algo maior — seja Deus, o Universo, ou a força do amor — que garante que, mesmo quando nos perdemos, nunca estamos verdadeiramente sozinhos. Que saibamos honrar nossa própria resistência e, acima de tudo, manter acessa a chama do nosso propósito.