A resposta no espelho

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Vivemos em uma era de diagnósticos rápidos e soluções externas. Diante de crises políticas, impasses econômicos ou mesmo conflitos cotidianos na vizinhança, desenvolvemos uma espécie de reflexo automático: a busca pelo culpado. O erro é sempre do sistema, da herança histórica, da gestão ineficiente ou do comportamento do outro. No entanto, ao transferirmos a gênese de todos os problemas para o que está fora do nosso alcance, acabamos por abrir mão de nossa própria capacidade de transformação.

O editorial de hoje propõe uma pausa nesse movimento centrífugo de apontar dedos para sugerir um exercício mais difícil e, por isso mesmo, mais urgente: o de olhar para dentro. A observação dos próprios atos não é um convite ao sentimento de culpa paralisante, mas sim uma convocação à maturidade civilizatória.

É comum ouvirmos reclamações sobre a falta de ética na esfera pública, mas quão rigorosos somos com os pequenos deslizes do nosso dia a dia? Desejamos um trânsito mais humano, mas será que cedemos a vez? Exigimos transparência absoluta das instituições, mas somos sempre honestos em nossas relações privadas e profissionais? A discrepância entre o que exigimos do mundo e o que entregamos a ele é o hiato onde a mudança social morre.

A transferência sistemática de responsabilidade cria um fenômeno perigoso: o cinismo coletivo. Quando acreditamos que nada depende de nós, tornamo-nos espectadores passivos da própria história. Se a culpa é sempre do “outro”, o “eu” torna-se irrelevante. E uma sociedade composta por indivíduos que se sentem irrelevantes é uma sociedade estagnada, incapaz de evoluir por meio do exemplo e do esforço pessoal.

A verdadeira mudança estrutural, aquela que sobrevive a mandatos e ciclos econômicos, é feita de baixo para cima, do indivíduo para o coletivo. Observar nossos próprios atos exige coragem para admitir incoerências e humildade para mudar de rota. Significa entender que, embora não tenhamos controle sobre todas as variáveis do mundo, temos domínio total sobre nossa reação a elas e sobre a integridade de nossas escolhas.

Antes de buscarmos o próximo alvo para nossa indignação, que possamos perguntar: “Qual foi a minha contribuição para este cenário e o que posso fazer, a partir de agora, para alterá-lo?”.

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