Vulnerabilidade digital

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Nos últimos anos, as páginas deste jornal têm sido preenchidas com uma frequência alarmante por relatos de estelionatos. Se antes os golpes dependiam de bilhetes premiados de papel, hoje eles habitam a palma da mão, infiltrando-se em aplicativos de mensagens e redes sociais. Mas a pergunta que permanece no ar, muitas vezes carregada de um julgamento injusto, é: o que ainda leva tantas pessoas a caírem nessas armadilhas?

Diferente do que o senso comum sugere, o golpe não escolhe apenas os desatentos ou os menos instruídos. O crime moderno é baseado na engenharia social. Os criminosos não hackeiam apenas dispositivos; eles “hackeiam” emoções humanas fundamentais. A tática mais comum é criar um falso pânico (uma conta bloqueada, um filho em perigo) que impede o raciocínio lógico. sob pressão, o cérebro busca a solução mais rápida, não a mais segura.

Em tempos de economia incerta, a promessa de lucros irreais ou descontos agressivos mexe com o desejo legítimo de prosperidade.

O uso de logotipos de bancos, tom de voz profissional e dados vazados confere uma falsa legitimidade que desarma a guarda da vítima.

Para ampliar o escudo e ficar atento a novos cuidados e combater essa epidemia, precisamos transitar da reatividade para a prevenção ativa. Cuidar-se, hoje, exige uma mudança de postura cultural. Recebeu uma oferta imperdível ou um pedido de socorro financeiro? Respire. Desligue o telefone. Espere cinco minutos. O tempo é o maior inimigo do golpista e o maior aliado da lógica. Nunca utilize os links ou números fornecidos na mensagem suspeita. Se o banco ligou, desligue e ligue você para o número que consta no verso do seu cartão físico. É vital que as famílias conversem sobre isso. Jovens devem orientar idosos sobre o funcionamento do uso digital, enquanto os mais velhos podem ensinar aos mais novos que “quando a esmola é demais, o santo desconfia”.

Ativar a confirmação em duas etapas em todas as contas e evitar a exposição excessiva de dados pessoais em redes sociais são passos básicos, mas frequentemente negligenciados.

Não podemos permitir que a tecnologia avance sem que a nossa cautela acompanhe o mesmo ritmo. Ser vítima de um golpe não deve ser motivo de vergonha, mas de denúncia. Enquanto sociedade, nosso papel é cobrar das instituições financeiras e demais aplicativos camadas mais robustas de segurança, sem nunca abrir mão da nossa ferramenta de defesa mais antiga e eficiente: o pensamento crítico.

Nesta era de conexões instantâneas, o maior luxo — e a maior segurança — é o benefício da dúvida. É o que queríamos? Não. É necessário? Demais. Duvide e cheque tudo mesmo, isso sim é segurança digital.

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