Índices e realidades
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É um fenômeno que desafia as planilhas e intriga o cidadão comum: enquanto os indicadores oficiais de inflação ensaiam uma estabilidade ou quedas pontuais, a sensação térmica no bolso do brasileiro é de um inverno rigoroso e permanente. O poder de compra, aquela capacidade real de converter o suor do trabalho em bens e serviços, parece escorrer por entre os dedos a cada visita ao supermercado ou ao posto de gasolina.
O que assistimos hoje é a “inflação do cotidiano”. Por mais que o IPCA apresente números controlados, alguns itens que compõem a base da sobrevivência das famílias mantêm-se em patamares elevados. Para a grande parcela da população que vive com o orçamento no limite, a matemática é cruel: o salário mínimo, mesmo com reajustes, corre atrás de um custo de vida que já cruzou a linha de chegada há muito tempo.
Essa percepção de empobrecimento não é apenas psicológica; ela é reflexo de uma economia que ainda não conseguiu devolver ao consumo de massa o fôlego perdido nos últimos anos. O brasileiro tornou-se um mestre na arte de substituir marcas, cortar o supérfluo e, agora, começa a sacrificar o essencial. A carne que cede lugar ao ovo e o lazer que desaparece do planejamento mensal são sintomas de uma erosão silenciosa da dignidade financeira.
Recuperar o poder de compra exige mais do que apenas controlar taxas. Demanda um ambiente de crescimento real, geração de empregos de qualidade e, sobretudo, uma política fiscal que não penalize o consumo através de uma carga tributária desproporcional. Sem uma melhora tangível no “índice do carrinho de compras”, a confiança do consumidor permanecerá abalada, travando o ciclo de prosperidade que o país tanto almeja. O brasileiro está cansado de ouvir que a economia vai bem quando a sua despensa diz o contrário.