Ciências x narrativas
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A entrevista com o professor Pery Shikida, publicada em nossas páginas, traz à claras conceitos que desafiam o senso comum e confrontam diretamente o discurso romântico sobre a criminalidade. Ao aplicar a Economia do Crime à realidade brasileira, Shikida remove o véu da vitimização para revelar uma engrenagem movida por racionalidade e, fundamentalmente, por escolhas individuais.
Um dos pontos mais sensíveis da pesquisa de Shikida é o egocentrismo do criminoso. Enquanto o ativismo social insiste na tese de que o crime é um grito de desespero contra a exclusão, a ciência mostra que, na ponta da linha, o indivíduo muitas vezes delinque por um desejo de gratificação imediata e status. O “eu” sobrepõe-se ao “nós”. O criminoso entrevistado pelo professor não se vê como um subproduto do meio, mas como um protagonista que escolheu o caminho que lhe parecia mais vantajoso.
Essa constatação é um balde de água fria nas narrativas que tentam terceirizar a culpa de toda e qualquer infração para o “sistema”. Ignorar o componente da personalidade e do livre-arbítrio é, por si só, uma forma de negligência intelectual que impede a criação de soluções reais para a segurança pública.
Outro conceito vital trazido por Shikida é o do lucro cessante. O crime não é apenas uma perda moral para a sociedade; é uma drenagem econômica. Quando um jovem opta pelo tráfico em vez do mercado formal, existe um cálculo de oportunidade. O “lucro cessante” aqui não é apenas o que o Estado deixa de arrecadar, mas o potencial humano desperdiçado e a desestruturação do mercado local pela violência.
O ativismo social frequentemente aponta a falta de oportunidades como causa única. No entanto, a pesquisa demonstra que, muitas vezes, a oportunidade existe, mas o “salário” do crime, potencializado pela baixa probabilidade de punição, é economicamente mais atraente no curto prazo. É uma análise de custo-benefício onde a moralidade é o item de menor valor na balança.
Onde o ativismo vê apenas vulnerabilidade, a pesquisa séria vê estratégia. A resistência em aceitar os dados da Economia do Crime nasce do medo de que, ao reconhecer a racionalidade do criminoso, tenhamos que admitir a necessidade de leis mais rigorosas e de uma presença estatal que não seja apenas assistencialista, mas também punitiva e preventiva.
Este jornal reitera: a função do jornalismo não é filtrar a ciência para que ela caiba na ideologia de quem grita mais alto nas redes sociais. Nosso compromisso é com o fato. E o fato, detalhado pela pesquisa do professor Pery Shikida, é que o crime no Brasil é um mercado que floresce na sombra da impunidade e no egoísmo de quem decide que as leis só valem para os outros.